Parece mesmo que Deus ia fazer
daquela noite a maior noite do mundo. A maior dos séculos,
a maior noite que já se viu. A noite seria mais que
um manto, seria o próprio céu de avesso.
E, para enfrentar a escuridão, as trevas, o escuro, tudo
que se avizinhava novo e não era bom — uma legião
de saudade, lágrima, pesadelo, quadro sem tinta, o olho
grande do boi — Deus pensou assim:
As pássaras e as fêmeas. Deixarei com as pássaras
pálidas e as mulheres tristes o aconchego de todo o amor
que de tão bom o mundo souber gerar.
As mulheres e as pássaras gostaram daquela súbita
inspiração de Deus. E convocaram as outras fêmeas,
as patas, as cabras, as cobras até. E as pássaras
de todas as asas, as mulheres brancas, negras, azuis, as mulheres
vermelhas, rubras, combinaram o seguinte: que o amor gerado de
cada um daqueles ventres seria como a noite de Deus. Um amor
pra nunca mais findar!
***
Escrever é arte difícil, é matar cobra uma vez por dia. Às
vezes, achamos que cometemos um bom texto e ele ainda não convenceu. A
paisagem acima, este idílio entre Deus e suas fêmeas (e digamos
logo, a sua melhor criação; o louco do velho estava mesmo inspirado
quando as criou!), ainda não reacendera o que pensei alcançar,
e isso eu já sabia quando dei ponto-final à função.
Nesta constante angústia, no sempre falta algo, nesta falha, resta uma
sensação de impotência em quem escreve. Por isso, tenho estendido
a mão à brasa e me posto a “desenhar” cenários
e faces para estas historietas incompletas em mim.
É
o que vocês podem ver aqui, neste espaço, com a ajuda inestimável
de nosso ex-aluno da UCS, o Diego Moraes, que tem ensinado ao seu professor!
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