Eu
tenho três irmãs, duas vivas, uma morta. Embora
as traga comigo, nunca estivemos juntos. Uma, hoje, em Porto,
sem contato; outra, em Caxias, Feliz isso, Feliz aquilo!,
por telefone e só ... Maria de Lourdes (a do meio)
morreu presa numa rede de pescadores, na Praia do Pinhal,
quando eu ainda era criança. Eu sou o caçula
dessa família que jamais existiu.
Eu tenho certeza que nos amamos e quero dar um talho agora em
nossa história para um peão negro nos confins de
Caçapava do Sul. O casal tem vários filhos e, a
cada um que nasce, o peão resolve com a esposa “dar” as
crias. Acontece que uma delas decide não se afastar do
amor sangüíneo, e, cada vez que é dada, volta
para casa.
Acaba ficando, enquanto os irmãos vão nascendo
e sendo doados. Como todo o gaúcho a pé, certo
dia, o peão resolver ir arriscar na grande Porto Alegre.
Ao embarcar, sentem a falta da insistente filha. E logo percebem
que ela vem para o ônibus junto com os outros cinco irmãos
doados (além da caçula que segue agora colado ao
seio da mãe).
Ela não perdera contato com os manos e agora os “arrebanhava” para
que a família seguisse unida.
Esta comovente história de amor serve de pano de fundo
para o livro recém-lançado de Luís Augusto
Fischer, Quatro Negros. Ele refaz a trajetória de quatro
daquelas crianças. Li num fôlego o relato pleno
de Dignidade, sobre o que nos toca aqui na vida e a força
do amor.
O Fischer, que é meu amigo (chega a citar nesta novela,
lá pela página 101, a referência que fiz
ao Onetti, que diz da dignidade dos pobres que vivem e não
divagam; e chama ao Vitrola de “belo e triste romance”),
pois o Fischer me deixou mesmo emperrado. Escrevi pra ele no
ato, dizendo da minha solidariedade profunda com o seu texto.
“
Tchê, tu viu só?”, me respondeu o Fischer,
não tinha me passado pela cabeça a tua história
familiar... “Orra, que vida que dá voltas!”
Dá sim, meu amigo... e se restamos ainda hoje espalhados,
eu e minhas duas irmãs, eu confesso, viu meninas!, pelo
menos um almoço devemos fazer.
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