O
bom de se fazer aniversário é que se fica avesso
ao dia, recluso por opção. Assim, só,
me peguei a rabiscar um rosto, o rosto de minha mãe.
A face que começa a desbotar. E a minha mão
suave buscou em vão a face que não se fez.
O rosto daquela Carmem não me satisfazia e rasguei
o papel com dó. Era ruim o primeiro rosto que ela,
querida, trazia de Parabéns!
Parabéns meu, filho. Mas, não me desenhe mais!
Desisti do rosto. Estendi a mão então falida e
surgiram coisas que não presumi. Uma pássara grávida,
primeiro. Asas em sangue, crucificada na tentativa de voar. O
rabo e as extremidades das asas num lenho de um risco só.
Repeti o gesto compulsivo e agora era uma pássara em frontal.
O peitão à mostra e também esbodegada como
o Salvador. As asas abertas e as pernalongas presas por 2 tachões.
E, decerto combinadas, chegaram mulheres a pedido de minha mãe:
pra compensar o rosto negado eu vi surgir uma esguia guitarrista
parecida com as do Iberê. Uiaa! Engano! Não era
Carmem, mas o velho bruxo quem conspirou. A próxima mulher
em pânico. A terceira, numa janela com a cabeça “assim...” Sombreei
os lábios e botei um resto de batom.
Feliz aniversário! Eu já me divertia e um teleférico
eu fiz pra zombar. Um teleférico que descamba da Fazenda
das Bandeirinhas até Nova Orleães. Fiz a base em
Santa, ao nível do mar.
E baixou um libanês no toco do meu lápis e eu nem
retoquei. O cabelo duro como um chapelão. Era Dr. Simões,
logo vi, esses gorros de formatura são brinquedos de guri.
Um caminhãozinho eu mandei ver e um monte de caras raras
eu fiz. Estendiam várias faces uma só mão.
E uma rosa, a nossa mistura cordial.
Sim, eu reproduzia em estrebarias as etnias de Bom Jesus. O que
eu pintava eram os índios, negros, italiano, o dourado
que em cor nos restou. Eu desenhei, pasmem, uma Santa Teresinha
do Faxinal.
Voltava em torto desenho ao ventre afinal: à minha saga,
estrada, vacas magras, a manhã que escolhi. Só,
eu retomei nas caricaturas a Carmem que não desenhei.
O meu aniversário sem o seu rosto. E pra quê?
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