Bepo, o sem-roda e a xoxoteca
O Bepo
veio dirigindo com a boca, manobrando e fazendo mudanças
com as mãos de Vacaria até aqui, em Porto
Alegre. Estacionou na Rodoviária. Acertou bem
ao entrar num dos boxes. O Bepo chegou cansado, mas a
viagem transcorreu bem. O Bepo levou quinze dias no trajeto.
148 quilômetros de estrada, algum desgaste, chuva
e frio, mas chegou mesmo bem o Bepo.
Chegou o Bepo. Box 6. O Bepo faz um tiãranrã-rã-rrrrrrrrrrrãããããã forçando
os lábios. As bochechas se estufam. O rosto roxo.
O Bepo estacionou melhor. Bom de tração.
Topo empinado. O Bepo disse que os passageiros podiam
descer. Não, não, não precisavam
entregar as passagens. O Bepo andava com uma excursão.
O Bepo é de Vacaria mas tem placa de Curitiba.
Assim se locomove o Bepo. Acelera. Faz o tiãranrã-rã-rrrrrrrrrrrãããããã.
Passa uma segunda. Corre um pouco. Freia. Pára.
Observa o trânsito. Anda. Manobra. Dá ré.
O Bepo buzinando.
O Bepo já foi Escort, buzinando pelos juniores
da Chapecoense. Foi Fiorino, puxando tambor pra Banda
do La Salle. Passeou com as crianças e também
já ficou nervoso no engarrafamento da marginal.
Tem experiência esse Bepo. O Bepo é um carrão
amigo. Tatuado (seu adesivo é Marcopollo).
Ô
nibus de novo. Os horários de saída do
Bepo pra Cacequi são 7h, 8h, 10h20min, 13h20min,
16h e 18h. Menos sábados e domingos, quando se
precisa confirmar os seus horários no guichê.
O Bepo dirigindo com a boca é um automóvel.
E agora anda de “pega” com a sombra dele.
O Bepo retorna no Laçador. Pra Cachoeirinha é que
não vai. Estrada do Mar é o que ele quer
se for verão.E quando chegar dezembro, então,
o Bepo vaui pra Camboriú, vai ser buguinho! O
Bepo em Camboriú diz que é um Buguinho.
A fim das mulha. Aqui em Porto Alegre é Dojão.
Carreta. Ônibus. Camionete. O Bepo é sem-roda.
Carreta de adubo então.O Bepo é destemido. É um
cavalinho sem reboque que vai, pára, acelera,
anda, pára, sinaleira. Ta de Logus. Anda, vai
e cai na inevitável Mauá às 6 e
meia. Anda, vai, a boca dirige, buzina, engata a segunda,
vira à esquerda. Dobra a esquina, anda mais um
pouco, liga os faróis. Já é noite,
motor quente, pouca gasolina (o Bepo levou quase sete
horas pra chegar na boate. Manobra muito antes de conseguir
vaga no estacionamento da Garagem Azul.
Agora ele está entre os seus. A Garagem é a
boate dos caminhoneiros. Bepo limpa mesmo algum pó com
as mãos em rebatidas nessas suas pernas que ainda
há pouco eram pneus.Era mesmo uma boa idéia
ir se divertir com as “madames”. Cascatas, água
escorrendo, luz azul e ar refrigerado. Aquilo ali era
mesmo bom. E tanta madame ali.
–
Um uisquezinho, doutor?
–
O habitual de sempre – diz o Bepo, enquanto dá uma
analisada geral no ambiente. Levanta suas calças
até as canelas, coça mesmo uma delas e
fica assim: vendo os casais a dançar e as solteiras
a caminhar, a balançar, a se danar. Aquilo era
mesmo bom. Percebe que os outros caminhoneiros também
gostam desse ambiente. O Bepo está se sentindo
muito feliz. O Bepo está radiante.
Bepo bebe um, dois, três goles do uísque,
tira um lençomuito “limpo” do bolso
e fica passando os olhos nas gazelinhas que se acotovelam
no acrílico divisório dos limites da pista.
O balde em sua frente, com muito gelo e o litro borrachudinho
de uísque posto ali dentro, como um iceberg, ladeado
de pedras e um pegadorzinho de alumínio. Bepo
agora come pipoca. E acha mesmo que aquela noite vai
ser mesmo boa. Seus colegas então não se
divertem? Ele também irá participar daquilo.
As moças de meias arrastão dançam
no palco iluminado de muito azul. Percebe-se que o fundo
do palco é mesmo uma gruta de onde saem e entram
e saem muitas das gazelinhas da boate. Como caminham,
ele pensa. – mas não pára pensando
muito nisso, porque nenhuma delas resistiria uma carga
até Vacaria. Que caminhem essas “doninhas” muito
senhorinhas de si por enquanto. Por enquanto, porque
ele já não vai ficar sozinho. Decide-se.
Afunda o iceberg. Afunda um pouco mais o iceberg como
um motorista decidido. Só que é aí que
a música pára nessa troca de pneu no gelo.
Bayão Gobatto, o crooner da casa, já vai
começar o sorteio. – É a xoxoteca! –,
anuncia Bayão.
Comprem, senhores, comprem nossas cartelas. Marquem em
cruz, na vertical, na ho-ri-zon-tallllllll...mas comprem
suas cartas pra fazerem isso. Certo? Os amigos, clientes
da casa, já sabem como funciona. Basta que você marque
uma seqüência de quatro casas de nosso bingo – quatro
casas porque o trevo do meio é o coringa, vocês
sabem, mas como disse, basta que você marque a
seüenciazinha de quatro números, na vertical,
em cruz, os quatro cantos ou na horizontal, para ser
o grande vencedor. E o prêmio? Bem, meus amigos,
o prêmio vocês já sabem. O prêmio é A
GAROTA QUE VOCÊ ESCOLHER. Sim, você ganhando
pode escolher a garota que quiser aqui na casa, mesmo
que esteja acompanhada. Ela fica com você, amigão!
Comprem, comprem suas cartelas. Vocês sabem, o
felizardo, além da garota, também tem o
seu prêmio adicional: toda a sua despesa da noite é paga
pela nossa Gerência. É, é um mimo
da casa, um presente do nosso Departamento de Promoções.
Maestro!
A Banda da Garagem começa a tocar um sambão
e o iceberg afunda, afunda um pouco mais. Bepo olha para
a cartelinha. Muito concentrado. Não, não,
não quis milho. Deixa que ele marca com pipoca
mesmo.
(Senhores, todos compraram as suas cartelas. Vamos então
ao sorteio. O primeiro número, Gelize, por favor,
Gelize. Qual é mesmo o primeiro número?
(O próximo número é o 5, Bayão
(diz a moça muito sorridente.
(É a Xoxoteca, senhores. Vocês sabem qual é o
prêmio. Vamos ao segundo número. Cainã,
por favor, agora é com você.
(Bayão, querido, o segundo número é...é...adivinhem?
Número 22. Duas marrequinhas na lagoa, Bayão.
O iceberg afunda. Afunda ainda mais.
(Senhores, senhores...Depois de todos estes números
nenhum de nossos clientes já não estará pela
bola da vez? Mélide, Mélide, minha morena
preferida, ahahahahahahahaha, com todo o respeito, que
a patroa em casa não pode saber, vem cá minha
Mélide, venha tirar a pedrinha que vai nos dizer
se teremos já um felizardo nessa noite na nossa
Xoxoteca. (O iceberg afunda, afunda, com muita força,
o iceberg afunda.
(O número. O numerozinho é. Diga, Mélide,
diga para a nossa amável clientela ...Ah, esse
silêncio! Estaremos todos pifados? Pela bola da
vez? Estaremos? Estaremos esperando apenas mais uma pedrinha?
Diga, Mélide.
O iceberg, os cerrapam,
o iceberg, estacionar na rodoviária.
O iceberg afunda, o icebergafunda, Escort, Dojão,
Jamanta, Fusquinha, Logus, Estação Rodoviária,
o icebergafunda. A mulher nua no centro do trevinhono
centro da cartela. O iceberg afunda e Bepo diz: “A
saideira. Amanhã tenho viagem cedo”. E o
garçom então, limpou a água do gelo
derramada na mesa.
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