Terno de Reis

Quando ouvi os primeiros sons ainda não podia distinguir com perfeição o que era sonho do que era realidade. Mas por fim, acordei plenamente e entendi o que acontecia. Era o Terno de Reis, que todos os anos anda com suas canções pela cidade. Este, não foi diferente. Não os esperava, minha mãe e eu fizemos uma confusão com as datas, pensávamos que só na outra noite viriam. Mas ali estavam, na casa de meu vizinho, que visitam sempre. Cresci com suas músicas pela madrugada, sempre que era dia seis de janeiro, contudo, nunca os vi. Despertava no meio da noite e não tinha nenhum ânimo para levantar da cama. Até ano passado, quando decidi ir junto na “procissão”. Maldita seja aquela noite. São lembranças que não posso suportar, coisas, na época tão maravilhosas, e que, no entanto, hoje me causam repulsa. O que importa é que mesmo naquela ocasião não os vi, embora tenha ficado até as duas horas da madrugada pelas ruas. O que fiz eu naquele ano? Bem, são exatamente os fatos e pessoas daquela fatídica noite que faço questão de matar e enterrar em minha mente, já que fora dela não me é possível faze-lo.
São boas lembranças, mas trazem tantas outras, fatos cruéis, inumanos, parcelas de uma vida que preferia não ter tido, por isso oculto. Eu era tão diferente naquela época...
O que importa é que ali estava eu, na cama, um ano depois, ouvindo a melodia. Segui o exemplo de meus pais, levantei. Fui até a janela, além das árvores que tapavam qualquer visão da rua, só pude observar o céu, que começava a ganhar tons de um azul mais claro, anunciando a chegada do dia. Fiquei poucos segundos e tornei para a cama. Não podia suportar as emoções que aos poucos eram revividas. Deitei-me com pesar, uma vontade imensa de chorar. Peguei um dos meus travesseiros e cobri o rosto, não queria ouvir aquelas músicas alegres. Só o que queria era ficar em paz. Nada contra a festa, tudo contra minha nostalgia. Mas as batidas do bumbo e do pandeiro penetravam pelas penas do travesseiro, e eu podia ouvi-las solitárias, sem os demais ritmos. Meu coração pareceu se compassar com elas. Em tal ponto estive que já não mais sabia o que escutava. O arfar de meu peito, os barulhos da rua, ou ainda algo que povoava minha mente. Era tudo uma só coisa. Permaneci assim, enquanto os batuques foram, lentamente, se diluindo. Tranquei a respiração, e nada mais ouvi, finalmente libertei meus ouvidos. Só o que havia agora era o canto alvoroçado dos pássaros, despertados da mesma maneira que eu. Sufoquei as lágrimas, desatei o nó que se instalara convenientemente em minha garganta, suprimi os gritos de minha alma, desfiz o pesar de meu coração e voltei a dormir. Sem, mais uma vez, ter visto o Terno de Reis.


O Dia de Reis, festejado no dia seis de janeiro, é a comemoração da chagada dos três Reis Magos ao menino Jesus. Esta data encerra oficialmente o ciclo natalino. Na ocasião, em que os enfeites de natal são embalados novamente para ressurgir somente em dezembro, ocorre uma festa singular em muitas cidades do interior.
Pessoas fantasiadas, músicas, cerveja, e muita animação; assim é a festa em Tapera, uma cidade do interior do Rio Grande do Sul. Tudo começa à meia noite do dia cinco de janeiro, no cemitério. Um dos túmulos sempre é escolhido para a partida de todos. Após uma breve cerimônia, a procissão cantada segue pelas ruas, com muita animação. O Terno de Reis, como é conhecido o festejo, percorre toda a cidade, com canções tradicionais, efetuando visitas a algumas casas. Tradicionalmente, a comemoração encerra-se somente ao amanhecer, quando todos os participantes reúnem-se no Bar e Café Diana, onde se segue a carraspana.

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