Taça Vazia

A taça de cristal tem a marca de uma só boca. Metade cheia de vinho, branco, suave, de mesa. Poupei-me do tinto, seria demais suportar entre os lábios a paixão. O quarto escuro, apenas a lua pontilhando com a luz que vence o cipreste em frente à janela. Meu corpo ainda guarda o calor e a umidade do banho recente, mas o vento vem roubar ambos. Troquei sem saber a vivacidade de teu corpo pelo toque insípido dos lençóis que tentam inutilmente me acariciar. Quantas vezes prometemos beber vinho em noite de lua? Foi enquanto secava tuas lágrimas e te trazia bolsos cheios de sorrisos; foi enquanto rasgava a venda que lhe colocavam sobre os olhos; foi enquanto íamos juntos pela noite sem saber; foi enquanto rolavas sobre tua cama macia comigo ao lado; foi quando tínhamos ataques de risos incontroláveis; Foi...
Vontade imensa de entrar dentro do armário acompanhado do telefone sem fio, deixar que meus dedos percorressem entre os números um caminho que sabiam de cor. “Alô... Por favor, não desligue... Por que é preciso perder para saber que ama? Por que é preciso chorar para saber que dói tanto?” Silêncio do outro lado da linha. Um clique e o sinal de chamada interrompida. Tantas dúvidas mais; “Suas promessas algum dia foram reais? Aquele pedido feito no crepúsculo chuvoso foi verdade?”.
Porque hoje tocou nossa música. Mas jamais teremos um casamento sob a doce luz da lua, em meio a um milhão de flores. A nossa lua é de sangue e as flores estão mortas. Tão sozinhos, tão próximos e distantes. O pior é quando esquecemos de colocar ódio no olhar... Se te ligasse usaria aquela voz que sempre te causava arrepios... Diferentes? Iguais e indiferentes, maldito orgulho cego. Só o que queria era saber se um dia, ou mesmo num segundo suas palavras foram verdade, se sentiu, desejou, imaginou, ansiou...
Ainda te evito e meu corpo ainda esfria. Ainda te amo e minha taça esvazia. Ainda te quero e a noite está longe de virar dia.

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