Suspiros

A noite se doía feito velha reumática. O reumatismo nada menos tinha como causa que a própria solidão. A casa estava vazia, desalmada, exceto por Bárbara que ficava insone perdida em silêncios. O silêncio lhe dava nojo, mas como era único companheiro, acabava por aceitar de bom grado sua presença. Portas trancadas, janelas também a luz abara há alguns segundos. Na certa o transformador dera um curto. Ela não se importava, gostava da escuridão, mesmo que às vezes viesse acompanhada pelo medo. Mas a noite era de lua e ela passava pelos vidros caindo sobre a mesa de jantar. Ela queria poder ouvir música e beber a garrafa de vinho branco que sabia estar sob o balcão da cozinha, porém não faria nenhum dos dois. Retirou os sapatos de salto e deixou-os jogados. Deitou-se sem pudor sobre a mesa. Não havia quem lhe importunasse, podia fazer o que bem quisesse. Lembrou do primeiro namorado, que dizia ser exótico transar sob a mesa. Ela nunca experimentara. Agora, enquanto sentia o desconforto da madeira e era coberta de raios de lua, pensava que “exótico” era perfeito para descrever a situação nunca ocorrida. Não bom, nem ruim, exótico. Como ela era exótica, como sua vida era exótica, e como a noite seria exótica.
Essa ultima também ficaria bem qualificada se fosse descrita como estranha. Bárbara começou a ouvir coisas. A principio parecia ser uma respiração um tanto alterada, vinda de dentro da cozinha. Logo depois, seguiram-se gemidos e uma respiração mais forte, uma não duas, porque pareciam vir de pessoas distintas. Como era possível? Ninguém poderia ter entrado na casa e ninguém estava dentro dela antes de Bárbara chegar.Ela cessou qualquer movimento para que pudesse prestar atenção ao que acontecia. Continuava tudo do mesmo modo. Os mesmos sons profundos e profanos vindo da cozinha. Ela desceu da mesa, com pés descalços e passos felinos aproximou-se da porta. Colocou a mão na fechadura e a torceu tremendo. A porta abriu-se sem rangido algum, fora boa a idéia de colocar óleo nas dobradiças semanas antes. A cozinha estava menos iluminada, e a luz que ali havia tinha tons laranjas. Provinha do poste de iluminação pública que ficava em frente à janela. Bárbara esperou que seus olhos se acostumassem com a mudança de claridades e quando por fim começava a distinguir as formas não acreditou na cena que tomava a mesa da cozinha como palco.

 

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