Suspiros A noite se doía feito velha reumática. O reumatismo nada
menos tinha como causa que a própria solidão. A casa estava
vazia, desalmada, exceto por Bárbara que ficava insone perdida
em silêncios. O silêncio lhe dava nojo, mas como era único
companheiro, acabava por aceitar de bom grado sua presença. Portas
trancadas, janelas também a luz abara há alguns segundos.
Na certa o transformador dera um curto. Ela não se importava,
gostava da escuridão, mesmo que às vezes viesse acompanhada
pelo medo. Mas a noite era de lua e ela passava pelos vidros caindo
sobre a mesa de jantar. Ela queria poder ouvir música e beber
a garrafa de vinho branco que sabia estar sob o balcão da cozinha,
porém não faria nenhum dos dois. Retirou os sapatos de
salto e deixou-os jogados. Deitou-se sem pudor sobre a mesa. Não
havia quem lhe importunasse, podia fazer o que bem quisesse. Lembrou
do primeiro namorado, que dizia ser exótico transar sob a mesa.
Ela nunca experimentara. Agora, enquanto sentia o desconforto da madeira
e era coberta de raios de lua, pensava que “exótico”
era perfeito para descrever a situação nunca ocorrida.
Não bom, nem ruim, exótico. Como ela era exótica,
como sua vida era exótica, e como a noite seria exótica.
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