Primeiro Amor

Acho que a maior parte do que se tornou minha vida hoje começou em uma tarde de verão. Enquanto lembro pareço ver exatamente como tudo começou. Eu estava ainda no primário. Era mais um dia comum de aula, Se alguém me dissesse que meu destino estava encerrado naqueles instantes eu teria duvidado, no entanto...
Ela chegou atrasada naquele dia. A Beti já havia tocado a sineta, nós já havíamos percorrido os corredores e ela ainda não havia chegado. Depois de leves batidas na porta, como são leves as batidas de uma criança, ela entrou na sala. É incrível como me lembro até da roupa que usava, uma básica branca e um vestidinho xadrez onde predominavam os tons quentes. Em pensar que ela sempre fora minha colega, mas naquele instante, enquanto ela procurava uma classe para sentar tudo me pareceu tão mágico e estranho. Era como se a visse pela primeira vez. E acho que foi realmente a primeira vez que pude ver a alma, a essência de uma pessoa. Toda minha vida seria divida naquele momento. Em antes e depois de eu ter me apaixonado pela minha colega. E foi de manso que a paixão virou amor. Veio para ela minha primeira poesia, quando eu mal tinha o conhecimento do que era uma rima. Lembro de uma tarde em que voltava de um passeio de bike com meu antão melhor amigo, Gabriel e o Sol estava se pondo. Foi aí que eu disse a primeira vez:
— Eu a amo mais do que tudo no mundo. Nunca senti as coisas que sinto quando ela está por perto, ou mesmo quando está longe. À noite nem dormir eu posso. Só penso nela.
E nem imaginava quantas noites mais passaria sem dormir, algumas enchendo o travesseiro de lágrimas sem poder conter o que sentia e nem sequer entender o que acontecia. Eu era criança demais para o amor. E mesmo agora ainda acho que sou aquela criança que não entendia um sentimento que não podia controlar.
Depois daquela tarde todos ficaram sabendo que eu estava gostando dela. Desde os meus pais até meus colegas. Todos, menos ela. Nos tornamos amigos, como são inesquecíveis as vezes em que voltávamos juntos para casa. Quando arrancávamos uma espécie de grama e atirávamos um no outro (não é muito romântico, eu sei, mas para uma criança aquilo era uma glória), o dia em que ela queria uma flor, mas não alcançava (era a mais baixinha da sala) e eu cavalheiramente a apanhei, para no dia seguinte me gabar de como havia presenteado-a com uma flor para todos meus amigos. Os planos nunca postos em prática de construir uma cabana, espécie de clube, ou QG. O alfabeto inteiro que fizemos só para gozar com a cara de uma guria da turma. Os altos papos que tínhamos apesar da idade. O modo como nos livrávamos do “Pestinha”, irmão dela. A cola que passei para ela na prova de matemática quando a mãe dela era nossa professora. A carta de amor que escrevi para mim mesmo em uma tentativa de lhe fazer ciúme e que resultou no Jere (meu outro melhor amigo da época) sendo arrastado sala à fora. Mas tinha também as partes mais pesarosas. O tempo em que eu ficava no balanço de casa sem poder tira-la da cabeça. Os momentos, longos momentos, em que ela não estava por perto. Deitar para dormir e escutar aquele sorriso, ver aqueles cabelos de um castanho cor de fogo. Ficar horas escutando músicas românticas que falavam tanto de amor, sim, descobri que tinha nome o que sentia, mas ainda não havia descoberto como poderia controlar.
Teve um dia em que ela descobriu. Mas foi a última a saber, até meus parentes mais distantes já sabiam. Estava ela, eu e a Ana Cláudia, que contara tudo, voltando para casa, quando ouvi ela dizer que sempre gostou de mim, mas como amigo, e não me via de outra forma. Sabe quando lhe falta o chão, você parece flutuar, pronto para cair em um poço sem fim? Pois é. Nunca mais confessar um amor, outra lição errônea que aprendi naquele dia e ainda trago galgada na alma.
A partir daí alguma coisa em nossa amizade se quebrou. Não tinha condições de encara-la como antes. Levei o meu amor como ofensa e a rejeição como castigo. A partir disso começou uma fase tenebrosa que ainda permeia minha existência.
Ontem me lembrei dela. Mais precisamente do momento em que eu me senti mais feliz desde que nasci. Havia uma festa na casa da dinda da Moara. Os meninos jogavam futebol, as meninas brincavam de alguma outra coisa. Eu que nunca fui fã de bola estava sozinho, e para variar pensando nela. Nesta noite ela estava com uma blusa branca e uma mini-saia jeans azul turquesa, meias de náilon brancas e tênis. Nunca esteve tão bela. Nisso, vi atrás do jardim, em frente à prefeitura um cãozinho, provavelmente abandonado. E como sempre fui ligado aos animais, mais até do que aos humanos, fui em socorro a pobre criatura. Não demorou para que as meninas vissem e corressem para lá. Logo alguém sugeriu que se procurasse a dona da casa para providenciar algum alimento para o cachorrinho, marrom claro, ainda filhote. E como eram todas muito unidas correram juntas para lá. Eu me prontifiquei em ficar ali cuidando para que ele não fugisse, e a Joana (eis o nome de minha primeira amada...), decidiu ficar comigo. Nunca esquecerei daqueles momentos que ficamos a sós. A iluminação da rua, as vozes ao longe, as árvores que cobriam a passagem... Os dois estavam acariciando o cão, e ela apoiou sua mão no meu joelho. Sei o quanto deve parecer ridículo que esse seja o melhor momento que já tive, mas foi. Não foram necessárias palavras ou gestos, somente aquele toque. Ainda posso vê-la afastando uma mecha dos cabelos da frente do rosto e sorrido enquanto mantinha sua mão na minha pele. Guardei a roupa que usava naquele dia. Não me lembro em que ano foi, mas posso garantir que não tínhamos mais de dez anos.
O tempo, Senhor implacável veio. Estávamos na sexta ou oitava série. Ela se mudou um dia, e com as novas companhias se tornou tão diferente da menina que me encantava. Mas ainda assim, eu era capaz de amá-la. Foi aí que as coisas verteram rápido demais e eu não segurei mais a barra. Meu melhor amigo, Gabriel, começou a dar em cima dela. Logo ele, que sabia tudo que eu sentira por ela por todos aqueles anos. Hoje eu compreendo que não se pode mandar no coração, mas na época o condenei, ainda que calado. Me afastei. Não só dele, mas como de todos os meus amigos. Secretamente eu decretei que nunca mais teria um amigo (substantivo masculino), tinha medo, porque se contasse os meus sentimentos, sabia que mais dia menos dia acabariam por me trair, cortejando na minha frente o alvo de todo meu sonho romântico. A Joana não era mais a mesma, definitivamente. Em pensar nos momentos em que imaginei que ficaríamos juntos e seria para sempre, mas tudo parecia tão eterno aos sete oito anos, pensava em como ela seria quando ficasse mais velha e não imaginava outro futuro se não ao seu lado. Agora eu já era maior e entendia que perdia para sempre o que nunca fora meu. Como disse me afastei de todos os meninos que eram meus amigos. Mas a solidão abrasava a alma. Mas com quem eu poderia falar, com quem eu poderia contar? Com as patys que formavam minha turma? Acho que não! Passei a fazer amizade com algumas garotas que sempre forma excluídas da turma. E depois disso foi sempre assim. Procurava sempre amizades femininas porque sentia que cedo ou tarde um “amigo” poderia me trair daquele modo que me parecia tão vil. E lógico que com “amigas” eu estaria seguro disso. Chegou o dia em que ela se mudou novamente e nessa época mal nos falávamos, não por brigas, mas algo havia se quebrado, ela foi para Santa Cruz.
Nem por um instante, durante todos aqueles anos eu deixei de amar a Joana. E da última vez que a vi meu coração ainda bateu bem mais forte. Naquele dia eu estava sem vontade de sair de casa, então quando fui obrigado saí mais mulambento do que sei lá o quê. Quando voltava, em uma esquina ela vinha e tudo pareceu voltar em meu peito. Agora penso em como foi cômico aquele dia. Ela estava passeando a cavalo (Na rua? Na rua sim, cidade do interior tem disso), era minha princesa (assim eu a chamei em minha primeira poesia) que vinha como em um conto de fadas as avessas montada em um cavalo (era marrom e não branco, coisa que estranhei), mas como naquelas alturas eu não estava como nenhum príncipe, tentei sair de fininho, porém (na minha vida sempre há um porém) ela não só me viu como reconheceu.
— Você não cumprimenta mais os amigos?
— Oi...
Foi o que pude dizer antes de disparar rua afora sem nem olhara para trás. Não mencionei o pior para não acabar com o lirismo, mas ao lado dela, em outro cavalo estava o Gabi (só para avisar, mágoas apagadas, nada contra, aliás, graças a Vampira voltei a vê-lo como amigo, porque até então, junto com as mágoas havia apagado-o de minha memória, como sistema de defesa).
Depois disso nunca mais a vi, exceto em uma foto no jornal, dando nota de seus quinze anos, estava tão linda... E nem tampouco sei o que faria se a visse. Talvez diria que esqueci o sonho de ser detetive, ou que nunca amei ninguém como a amei. Ou então que quando cai uma chuva mansa é nela que penso. Talvez pudesse agradecer pelos momentos tão perdidos, dos quais talvez ela nem lembre, em frente a um cão que já deve estar morto. Quem sabe digo que escrevi um post para ela no meu blog, sem contar que estou chorando enquanto o faço. Ou que ainda a amo. Mas agora nem eu sei isso, talvez morra amando-a, ou quem sabe nem sinta mais nada. Aqui vale uma frase que vi em um certo blog: “O Amor não se conjuga no passado, ou se ama pare sempre, ou nunca se amou verdadeiramente”. São momentos difíceis estes de reviver um passado tão gasto pelas noites em que ainda me apegava e ele antes de mudar tanto. Como sinto falta de todas aquelas pequenas coisas que só ela me trazia mesmo sem saber. Aquela presença que era ausência de tudo mais. Trocaria tudo que tenho para que o tempo voltasse e que mais uma vez, mesmo por que um ínfimo segundo eu pudesse voltar aquela noite em que senti sua mão sobre meu joelho e via aquele leve afastar de cabelos em meio a um sorriso, como foram simples aqueles segundo e como foram grandiosos, a ponto de superar tudo mais que já correu a tenho certeza, todo resto que virá. Mas agora nem mesmo sei algo sobre ela. Partiu e o único indicio de que ainda está presente entre os vivos é um comentário que vi no blog do Gabriel, mas nem sei se fora dela mesmo. Chega de encher vocês que lêem meu blog. Desculpe, mas eu precisava mesmo disso, mais que qualquer outra coisa, eu tinha que desabafar e tentar fazer com que algumas pessoas entendessem o porquê sou como sou hoje. Não coloco a culpa nas situações, não mais, mas no que eu fiz com elas. E nem mesmo sei se ser assim me desagrada. E não quero palpitar sobre o que seria esse “assim”. Eu devia esse post para muita gente, pois não foi só a história do meu primeiro amor, foi a história da minha vida, pelo menos de como iniciaram as transformações que me trouxeram até esse ponto, o que não contei pode ser divisado nas entrelinhas. Desculpem também se não fui nenhum exemplo em matéria de escrita, não faço idéia de como ficou esse texto, quando a emoção transpassa a razão não posso mais controlar a gramática. Sem mais comentários, porque sei que me alongo só para adiar o momento em que o computador será desligado e eu vou me defrontar com todos os fantasmas que trouxe à tona dentro de mim enquanto narrava isso tudo. Bjux para todo mundo, e espero que pelo menos uma vez na vida todos possam sentir, nem que seja metade do que senti de bom quando o amor verdadeiro fez parte de meus dias.

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