Margarida Mecânica

Minha mente já foi palco, sim, palco. Lembro-me das cortinas de veludo rubro, das poltronas, da iluminação bruxuleante, da madeira ricamente trabalhada, das poltronas mudas à espera, dos camarotes, enfim, de tudo. Havia também um arlequim, projeto de bobo da corte, era ele quem comandava todos os espetáculos. Dali surgiam personagens, cenas, contos, textos. Alguns vinham rápidos e completos, de outros apenas as partes bastavam. Foi no instante em que tomaste o centro do palco que tudo mudou. Minha mente então virou flor; Uma margarida mecânica, toda feita de ferros, com pétalas infinitas que se perde em um ritmo frenético de bem-me-quer mal-me-quer bem-me-quer mal-me-quer... Não mais espaço para coisa alguma exceto para a dúvida que machuca cruelmente atormentando-me com o barulho de engrenagens. As pétalas caem, uma a uma, só para depois se refazerem novamente e permitir que pergunta fique sem resposta. E essa margarida é tão antinatural, cinza, sem vida, sem viço. Ao redor ainda existem entulhos do antigo palco, e um arlequim esquecido, com as vestes enegrecidas, e uma lágrima pintada de tinta muito preta marcando a face.

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