Maldição

Hoje o ar amaldiçoa o próprio ar. E em algum lugar distante de olhos humanos o céu se matiza de negro e encarnado, enquanto um odor pérfido invade tudo. Anjos olham temerosos, mas compreendem que é melhor assim. O Mal que foi gerado e nutrido do mal, agora precisa despertar. Neste dia são quebrados os últimos traços de um feitiço ilusório. Teria isso a ver com um garoto que ontem, à luz da Lua, inserido em um círculo de pedras, entoava cantos em palavras inteligíveis? Ora, quem poderia afirmar? A realidade vem, rápida demais, cruel demais, galgada em cavalos que prenunciam o Apocalipse. O mal vinga aqueles Anjos e humanos que por ele sofreram. A partir de agora virá à época sem fim de desgraças subseqüentes. Sei, e não, não é por meu desejo, é a pura resposta para quem um dia me perguntou o que era Karma. Muito foi feito contra aqueles que eram puros. Por uma pessoa que se deixou corromper pelos "dragões" todos outros sofreram. Mas a causadora de toda a animália pagará. Tingiu seu sangue de negro, e com isso deixou negro também o sangue que se fez em sua carne. Marcou com a profanação do mais sagrado cada um de seus descendentes.
E o Mal que agora desperta, multiplicado, o faz para destruir-lhe. Não se fez necessário qualquer feitiço, magia ou missa negra. O mal age por si só. Aquela que o alimentou, ao fazê-lo cavou a própria sepultura. Agora, no fim de um ciclo, deita-se nela, apavorada. Enquanto isso, grão por grão, em uma ampulheta infernal cai sobre ela a terra que cavou. Centímetro por centímetro, parte por parte. É amaldiçoada até o último fio de seus cabelos, grita, chora e range os dentes, coitada!
Enquanto de boca em boca passa sua desgraça e línguas ainda menos vis que a sua a tornam ainda mais o monstro que deveras é. Transformam suposições em escabrosos fatos, fatos em crimes e crimes em punição.
Houve tempo em que lágrimas inundavam os rostos angélicos, mas agora, estes mesmos Anjos virão, com sorrisos macabros para ouvir a doce sinfonia de bramidos e urros. Aprenderá, ela, que a morte é menos pesarosa e mais preferida que a maldição que se lhe lançou.
No derradeiro momento soará em todos cantos minha gargalhada sinistra. Porque agora o mal é destruído e tudo que ele representou vem abaixo, em especial quem o germinou. O Inferno vem à Terra para pegar aquela que digna dele se mostrou. Tudo é dor, sofrimento, e resta a plena certeza de que, se para os homens passa "impune", aos olhos de um Deus, salvação não há.


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