O julgamento das lágrimas

O Sumo Sacerdote reuniu a todos no templo de ametista. Por alguns passos de sol falou da situação de toda aldeia. A seca que esteve presente em todo o verão, e agora as chuvas que não tinham modo de parar faziam com que toda a colheita se perdesse. Viriam tempos difíceis, todos sabiam. Não havia como desfazer todo o estrago, mas poderiam sim, remediar a maldade.
— Os deuses exigem um Sacrifício Supremo.
Os olhares se encontraram trêmulos em meio a um silêncio mais pesado que o da morte. Há séculos nenhum sangue escorria em nome dos deuses. O que um dia parecera costume e questão de honra, agora tomava ares de brutalidade.
— Eles estão acima de nós, seus cálices se estendem para recolher o sangue que é nosso dever lhes dar para que saciem a sede.
Quem visse a frieza do homem à frente pensaria ser ele um desumano. Mas por dentro seu coração estava em prantos. O Sacrifício Supremo não aceitava qualquer sangue, somente o real; haveria pois, de entregar uma de suas filhas. Qual delas, Prímula ou Ana? Como poderia optar pela morte de uma e a vida de outra? A idade lhe pesava naquela tarde, sentia que sua própria existência chegava ao anoitecer. Ainda era jovem quando foi consagrado, lembrava tão bem. Jamais pensara nas decisões que haveria de tomar por mais de meio século. Renegaria todo seu poder se isso levasse embora a escolha que era obrigado a fazer. Os deuses não exigiam apenas o sangue, queriam também as dores e lágrimas daquele pobre velho que por toda a vida apenas fez servi-los.
Retirou-se usando um feitiço para que ninguém o notasse. Atravessou as cortinas do nobre salão e foi embrenhar-se em pensamentos. Era incapaz de decidir entre uma delas.
— Senhores, fui servo fiel por todas as eras, desde as mais remotas até estas... Peço-lhes, ou melhor, imploro que tirem de minhas mãos a morte de uma delas. Não sou eu um sacerdote quem pede, sou o pai. O sofrimento de perder uma das pessoas que mais amo não lhes basta? Devo também me sentir um assassino?
Por toda a noite ele chorou, suas lágrimas fizeram com que flores brotassem em todo canto que caiam. Amarela, azul, cor-de-rosa, cores fracas e aveludadas.
— Pobre de ti por ser mortal e fraco. Não mereces o título que tens, mas és humano e por ser humano ganha perdão. Seu pedido será aceito, não será tu que escolherás o destino das meninas, e nem mesmo nós. Tuas lágrimas serão juizas e o que elas disserem será aceito. Pegue as flores que brotaram de onde elas caíram, tire suas pétalas, deposite tudo em urnas de barro. Coloque as urnas sobre o Templo. Suas filhas subirão até lá, uma por vez. A que for condenada saberá do seu destino, o sinal virá com o vento.
Assim foi dito e assim foi feito. Desde o raiar do sol o Sumo Sacerdote permaneceu de joelhos, colhendo pétala por pétala. Colocou em vasos de cores fortes, e mandou que os subissem até o alto do Templo. Reuniu a todos e expôs o proclame dos deuses; sem mencionar, é claro, suas lágrimas e sua fraqueza.
Prímula acolheu a irmã entre os braços.
— Minha criança, fique calma. Subo antes de ti e não importa o sinal que há de ter, me jogo lá de cima. Tua vida é mais preciosa que a minha, viveste menos porque és mais nova. Além disso, sei que amas Galberon, vi em teus olhos. Meu coração é seco, jamais encontrou a quem amar.
— Não Prímula. Deixe-me ir. Uma de nós haverá de seguir com o Templo, papai está fraco e seu reinado não durará por muito tempo. És bem mais preparada que eu, conheces as Artes e tens os Dons que me foram negados.
— Irmã, aprende que o dom maior é o do amor. Por ele se governa um reino, se faz uma guerra e se aprende as magias. E amor tu tens.
Naquele momento um raio riscou o céu e um trovão fez com que cada criatura que naqueles tempos vivia tremesse de medo. Uma voz vinda de todos os lados e de lugar nenhum tomou tudo de pavor.
— NEM DOS HOMENS NEM OS DEUSES, DE NENHUM DELES É A ESCOLHA DESSA MORTE. ASSIM PROCEDEMOS E ASSIM SERÁ.
As moças compreenderam logo que não havia nada que pudessem fazer, senão escutar o veredicto das flores.
A primeira foi Ana. As pernas fraquejavam enquanto ela subia os degraus de pedra. Sentia tanto frio debaixo da túnica lilás que não podia impedir os tremores. Chegou ao topo. O Sol se punha no horizonte, tornando as nuvens rubras, o vento mexeu-lhe os cabelos. Um uivo muito baixou escapou-lhe dos dentes. Ela não queria morrer, não podia morrer. Estava com medo, com frio. Permaneceu com os olhos semi-serrados, esperando por um sinal, simples que fosse, mas nada aconteceu, por segundo que pareciam uma eternidade nem mesmo o vento tornou a soprar.
Assim que voltou o domínio sobre o corpo as lágrimas esquentaram o rosto. Ana correu em disparada as escadas, chorando em desespero pela morte de irmã e sorrindo por ter ganhado a própria vida.
Prímula mostrou-se mais corajosa. Tomou ar, respirando profundamente. Olhou uma última vez para aqueles que assistiam ao espetáculo, segurou as pontas da túnica azul e subiu as escadas. Chegou no alto e lhe veio a visão dos deuses.
— Prímula, és coragem e força e dons e amor. Sim, amor. Tua boca diz que não ama, mas há um homem em teu coração. Contamos como certa a morte de Ana, mas é tu quem aqui estás. Sim, somos deuses, mas nem tudo podemos controlar. Tua vida escapou das mãos de teu pai pelas lágrimas dele e das nossas pelos domínios de uma promessa. A decisão é apenas tua. Se for teu o sangue que tocar em nossa boca será como veneno. És mais nossa que dos homens, não há de morrer. Não assim.
O vento começou a soprar mais forte. Prímula se mantinha imóvel. Do alto de uma das urnas uma das pétalas se mexeu, a seguir outra e mais outra. Não demorou para que uma a uma elas começassem a subir pelos céus. Era o vento que as carregava ou uma força maior que a própria força? Não poderia se saber elas rodopiavam e subiam em direção aos céus.
Prímula gritou para ser ouvida pelos deuses:
— “NEM DOS HOMENS NEM OS DEUSES, DE NENHUM DELES É A ESCOLHA DESSA MORTE. ASSIM PROCEDEMOS E ASSIM SERÁ”
Apenas repetia as palavras que foram deles. Seguiu para a beirada do teto, ainda olhou uma última vez para o poente que sangrava o horizonte e sem mais nada soltou o corpo para um vôo fatal.


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