Eu, estátua Em tudo parecia uma fina estátua de mármore. Quase tudo, é verdade. Sentado no banco do ônibus, imóvel. O rosto não tão branco quanto a pedra, refletia raios de sol ocasionais, nos olhos de vidro se percebia melhor o poente refletido. Luzes de tons quentes iluminavam o semblante tão distante. Nem um movimento sequer. Poderia também estar morto... Mas não estava, contemplativo apenas. Não era a primeira vez que se mantinha alheio a tudo, exceto a paisagem. Observava com a gana de um adolescente em plenos fogos diante da nudez de uma cortesã. Assim calado, assim perplexo, assim desejoso. Parecia ver coisas que a ninguém mais eram mostradas. Sim, pensar-se-ia ser uma estátua, um monumento estranhamente vestido. Mas não era. Seu corpo era quente, emitia este calor que chegava até mim. E outra coisa que muito discernia de uma peça de rocha era a profusão de fragrâncias que dele vinha. A pele desnuda dos braços recendia docemente a sabonete; os negros cabelos, enegrecidos por ainda estarem molhados, uma vez que já os sabia castanhos, exalavam leve cheiro de camomila; O melhor de tudo provinha da nuca, e talvez também dos pulsos. Era o mesmo perfume que sempre usava. Um cheiro forte, másculo e amadeirado, inebriante para quem nele se perdesse. Permanecia mudo, estático, calado, estranho monumento perfumado...
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