Culpado!

Não me concederam nenhuma chance. Quando gritaram foi em uníssono: "Culpado". Um julgamento justo, seria pedir demais. Por medo de perder um quase amor eu tudo perdi. E se cometi algum crime foi ter-me mantido calado. Tentei como pude resolver o que acontecia. Esgotei minhas forças para que tudo acabasse bem, mas no segundo seguinte, quem eu protegia tentava a todo custo cravar-me um punhal. Quando falei, foi com o pesar e ao mesmo tempo a libertação que experimentam os condenados. Mal sabia eu que já estava condenado. Disseram-me então: "Fácil falar agora, deveria ter contado logo". Eu não entendi bem. Sabia que era grave e que meu silêncio compactuara com tudo, mas havia algo errado. Cometeram crimes, ameaças, fizeram sofrer quem não deveria e no momento exato eu fui o culpado? Era como se dissessem "Sim, sabemos que eles mataram crianças, cortando parte por parte, que eles cozinharam a carne e serviram para os pais, mas veja bem, você não falou nada para nós, portanto...". O que importa o que os outros fizeram se eu errei; Nada. Sei que foi um erro não ter contado logo no inicio, mas como poderia? E o que teria mudado. Agora ninguém é culpado, só eu. Quem cometeu atos bárbaros nada fez, mas eu que me calei por medo de perder o que tinha, eu sou O Culpado.
Não pediram minha opinião e pouco me deram chance de me defender. Chegaram com algemas de pedra e disseram: "Culpado". Pronto, mais nenhuma explicação. Como se eu já não houvesse pagado por tudo. Enredaram-me em uma teia de trevas, onde a solidão tratava de corroer-me as últimas fibras humanas. No interior desse abismo, ainda pior que o outro em que me encontrava tudo ficava sedimentado. Eu passei a não ser mais uma pessoa. Só uma sentença. Impossível de receber a luz. No lugar de amor, ou mesmo do ódio, só o que surgia a minha volta eram rosas de pedra, das consistências mortas, entre pontas lancinantes de vingança (ou seriam de perdão), que exalavam um estranho odor de sangue. Eu também me tornei rocha, imune aos anseios de dor. "Culpado" o grito ainda bate e rebate nas paredes frias e sempre úmidas. E tenho a impressão de que me seguirá para sempre, como uma sombra. Não quiseram pensar em mim. Não lembraram que não sou muito mais que uma criança assustada. Não pensam em nada, apenas em arrumar um Cristo, para que pudessem crucificar, livrar os seus, como se minha condenação redimisse a culpa que eles têm.
Não guardo as mágoas e rancores, isso só adiantaria meu fim. Confio na balança sempre justa que pende sobre a cabeça de todos nós. Sei que no momento certo serei liberto e em um lugar ainda pior serão lançados todos aqueles que um dia levantaram a mão contra mim. Sim, porque até essa mão foi parada no ar, incapaz de se mover. Qualquer um perceberia um sinal, mas o ódio cega. Não me odeiam, odeiam a si mesmos, mas são tão fracos, e isso os torna patéticos, fracos demais para que se encarem diante de um espelho e confirmem suas culpas. Fracos demais para pagar por seus erros. Eu pago ainda pelo meu silêncio, mas foi a Deusa quem estabeleceu a pena, e vocês me fazem pagar ainda mais em nome da vossa “justiça”. Justiça diante da qual não podem se apresentar. Porque em suas almas humanas (?) só há maldade. Esperem, quem viver verá o que será feito. Mas isso não me compete. Porque eu sei, que acima destas rochas, sobre minha cabeça haverá luz. E sei também que aos poucos o vento gasta essas pedras, até que um dia nada sobre, se não a liberdade e a luz. Mas e quanto a vocês? Poderiam olhar para cima sem ver trevas em todas as partes? Sem ver a punição que corre sob um negro corcel? Poderiam dizer que as pedras que começam a se formar ao redor irão um dia desaparecer? Eu acho que não.

 

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