|
Ingratas Visões
Porque me assolam ingratas visões?
Tomam minha mente como palco
e deixam-na vazia por não ser
Ainda sinto o cheiro de outro corpo
Ainda em minha boca há a textura de outra pele
Em meus ouvidos ressoam
sem cessar palavras tão lindas
Mas em pensar que como bruma
tudo se dissipou
o presente dói, porque não é futuro
O futuro vem, clamo...
e escorrega para longe
Malditas divisões do que há de vir
Parecem tão reais, mas quando delas desperto
Sei que nada aconteceu
Pemanece o breu
Como eu queria por um instante mais
me perder nos olhos que me perdi.
Do que me serve premonir?
O que quero é a realidade.
Pior que jamais encontrar o Amor
é saber que existe, contudo ainda se esconde.
E me vem a noite clama
trazer imagens que não posso suportar
Ainda toco com meus lábios
a textura de tua pele
E ouço dizer que não deveria...
enquanto queres mais que eu
enquanto tua boca procura
em desespero, a minha.
E serão real, um dia, serão,
Mas é sofrido saber que hoje não é "um dia"
Se ao menos soubesse quem é,
se visse na rua com meus olhos
e não em visões em minha mente.
Queria tanto que estivesse aqui,
como estava na visão.
Sinto coisas e não sei explicar,
Quando aquele mago me designou
como aquele que vê o que ninguém mais vê
e sente o que ninguém mais sente
Ele não estava brincando.
A primeira a chgar foi Clara. E o
dia era escuro feito breu. Encontrei-a dentro do meu armário,
envolta em panos negros, que lhe acompanham ainda hoje. A cara
sulcada pela idade e os olhos enterrados, como morotos, em um
túmulo de olheiras. |
Moça Linda
Moça linda, moça bela
Vinha ela pela rua
Enchendo minha vida de cor
Ela parou e me deu uma flor
Há muito tempo eu desejava
Mas nunca soube o que ela sentia
Até aquele dia, que com amor
Parou e me deu uma flor
Entre a flor e a moça
A beleza desta era maior
Meu rosto se cobriu de rubor no instante
Em que ela parou e me deu uma flor
Não entendi, ela nada falou
Saiu em disparada
E eu repetindo com fervor
Parou e me deu uma flor
A moça nunca mais vi
Aquela foi singela despedida
Seu presente desbotou, mas como tinha valor
Era da moça que parou e me deu uma flor
Clarissa chegou na primavera. Tinha
roupas frescas de panos esvoaçantes. Cheirava a alfazema.
Ainda posso ver o chapéu enfeitado com flores de papel
sendo carregado pelo vento. Ela sorria e corria atrás dele,
até cair estatelada na grama. |
Simplesmente Poesia
Essa é a poesia
De papel rasgado
São versos de amor e paixão
Uma história que não se suportou
Nessa poesia
Temo sentir nostálgico
De tantas linhas
Para sempre marcado
Esperanças... tristonhas....
Que jamais se concretizaram
Uma poesia no vazio
De importância de uma paixão
Do querer e não poder
Do jamais, nunca ter
De um inconsolável destino
Que só a mim pertenceu
São poesias e mais poesias
Sonhos de delírios
Versos destruídos
Num corpo marcado
Em terra tão bem cuidada
Que nunca se semeou
Era mais que uma poesia
Por isso acabou!
Era dor não entendida
Parêntese que se fechou.
Uma loucura
Não saberia vos dizer
Para contar a prosa
Nenhuma poesia restou
Só a memória
E mesmo essa espedaçou
Um amor que obsessivamente
Me procurou
E não encontrou
Então passou.
Clara resmungava, pedindo se era naquele
muquifo que teria que ficar? Se fosse era bom que seguissemos
suas regras. Nem sequer pediu se podia continuar ali. Mas é
seu jeito, notei logo. Clarissa me olhou com os olhos amarelos
de gata e tímida pediu "posso?". Pois pôde.
Assim as duas ficaram. No fundo eram só crianças
assustadas e não entendiam direito o que acontecia... Haveria
tempo de explicar! |
Parte integrante do site Vinicius
Linné
|