Acidente de ônibus

Tarde fria, chuva fina. Pouca disposição para descer até o clube na parada de ônibus, de modo que embarquei ainda na casa do motorista, meu vizinho. Entrei no ônibus e lá sozinho me deparei com todas as cortinas cerradas, um ar pesado e escuro que me envolveu ao fechar a porta. Algumas cortinas haviam sido trocadas, em alguns pontos, cobrindo as janelas, reluzentes panos vermelhos com escritas claras: "Saída de Emergência". Ao chegarmos no clube, após o embarque de todos, o motorista parou-se no corredor e por alguns segundos explicou-nos como funcionava o sistema das janelas. Uma alavanca deveria ser puxada e os vidros empurrados. Procedimento que algumas horas depois estaria perfeitamente resumido em "Taca o pé na janela". Ainda no corredor uma garota perguntou o porquê de tais instruções e disse brincando "Acho que não vou mais. Essa noite sonhei que morria e agora me vem essa" Sorriu, ninguém mais ouve a intuição.
Aulas e tudo mais normal. Depois destas voltei ao estacionamento, na esperança de talvez pegar a tupique e chegar mais cedo, já havia se ido. Fui largar meu material no ônibus e mais uma vez a sensação não muito boa de opressão. Tudo escuro e onde em qualquer outro dia haveria a balburdia dos que já chegaram havia silêncio. Ninguém estava lá dentro. Silencio e escuridão. Larguei sob o primeiro banco do lado oposto ao do motorista minha pastinha, meu caderno, meu estojo e meu guarda-chuva. Fui direto para fora dali.
Todos no ônibus, começo da viagem, parada no posto, ninguém ao meu lado. Viagem sendo seguida, Claudete sentada no braço do banco ao corredor e a Gorda (que ninguém sabe porque se apelidou de “Gorda”) logo atrás. Dizem ter sido a dez quilômetros da cidade, dizem tantas coisas que nem mesmo eu poderia dizer. As luzes acesas impediam toda e qualquer visão do que se passava por detrás dos vidros. O primeiro baque veio como ocasional. A Claudete ainda sorriu ao bambear sobre o banco e muitos emitiram nada mais que um “Opa”. No segundo lembro de ter visto a Claudete voando no corredor e a Gorda logo atrás. O que seguiu foi uma profusão de imagens confusas. Pastas caindo, gente gritando, o barulho de metal se partindo, vidros quebrando... Meu corpo ficou estranhamente relaxado, só senti uma leve batida na testa, do lado direito. Ainda não acabara. O ônibus começou a se inclinar, estava cirando e todos já esperavam vê-lo capotar. Foi somente nesse momento e não antes que eu entendi o que acontecia. Estávamos em um acidente. Ainda sem visão alguma do exterior não podíamos nem imaginar qual era nossa situação. Eu já podia divisar em minha mente o asfalto cada vez mais próximo da janela ao meu lado. De repente parou. Começaram gritos histéricos, vozes difusas dizendo que o ônibus viraria. Assim que consegui ficar em pé vi o rosto da Gorda coberto de sangue, a primeira onda de pavor me tomou. Fui um dos primeiros a sair pela porta, enquanto alguns pulavam a janela e outros chutavam o vidro para abrir passagem, não sei se alguma trava de segurança foi aberta. Lá fora algumas meninas histéricas. Eu não conseguia fazer muito além de olhar para tudo sem ver e sentir meus joelhos fraquejando. Havíamos atravessado a pista, subido até certo ponto em um barranco e ficamos segurados por três pinheiros americanos. Quando vi as arvores, apoiando quase a parte traseira do ônibus, que formava um ângulo de quase 45o com o asfalto, só me lembro de ter pensado “Bendita semente que caiu neste barranco”. Somente as arvores impediram que houvesse mortes. Quando começava a me acalmar outra torrente de pânico me tomou. Alguns metros na frente do ônibus, em meio as ervas daninhas eu escutei gemidos. A professora Sirlei sentara-se na cabina comecei a chamar todo mundo que podia alertando da presença dela. Ninguém havia notado sua ausência.
Permaneci assim, estático. Não podia gritar como faziam alguns, nem podia socorrer os feridos, como tentavam outros. Tudo que eu queria era meu estojo, nele estava meu celular, eu precisava falar com minha mãe, dizer que tudo estava bem, entes que ficassem sabendo por outros e se preocupassem mais do que deveriam. Uma menina também queria seu telefone que ficara perdido. Pensamos em voltar, unimos as mãos, mas já na porta desistimos. Havia gente ferida gritando ainda lá dentro. Teríamos que esperar que os retirassem primeiro ou só serviríamos para atrapalhar. Tão logo as coisas se acalmaram, ainda com medo de um possível capotamento escalei as escadas retorcidas. Já no limiar da porta encontro minha carteira estudantil, reconheci as letras que em uma tarde tornei mais visíveis, por trás de manchas de sangue. No passo seguinte deparei-me com meu caderno. As letras azuis contendo boa parte do que penso ser a história do jornalismo, em um charco de sangue. Tentei pagá-lo, mas as manchas rubras que tomaram minha mão fizeram-me atira-lo sobre o banco onde estava segundos antes. Nada de encontrar o estojo ou outra coisa que carregava, exceto o “Anjo e o Resto de Nós” um pouco manchado de sangue que peguei e ao qual me agarrei até chegarmos na cidade.
Voltei ao asfalto porque nada mais poderia ser feito. Ali fiquei, perdido. Tudo que eu queria era um abraço, contato humano alguém que me dissesse que tudo ficaria bem. As meninas desesperadas tentado parar os carros e ônibus que passavam por ali, alguns seguindo direto. O pessoal de Alto Alegre, cidade próxima e ainda com alguns de Tapera que foram para aquela associação por falta de lugar na nossa, eis que surge um anjo. Murieli, era uma da nossa cidade. Dizia que ainda havia lugar no ônibus para o pessoal que quisesse uma carona. Vinha como anjo de cabelos loiros e vestes rosa. Ela pegou-me pela mão. Enfim um contato humano, mais raro e precioso que todos os outros que já havia tido. Aqueles segundos onde o calor de sua mão envolveu a minha enquanto percorríamos a curta distancia pelo asfalto, foi como balsamo aliviando as dores da alma. Mais do que tudo eu precisava daquilo, era só o que queria, logo eu que nunca fui muito fã desses contatos, minha vida parecia depender daquilo, porque me senti perdido e sozinho. Viemos com Alto Alegre, fomos bem cuidados durante toda viagem.
Eu ainda me consumia em brasas. Nenhum celular queria funcionar naquele lugar. Eu precisava falar com meus pais, assim que recebessem a noticia, conhecendo bem minha mãe sei que entraria em desespero. O que eu não podia imaginar é que a estas idas ela já sabia. A namorada do meu vizinho conseguiu segundo de uma ligação, o suficiente apenas para comunicar com desespero o acidente. Estavam eles em casa, sem saber se eu voltaria ou se estava a caminho do hospital. Os casos mais graves foram direto para Cruz Alta e até então não tenho noticias. Foi perto de Ibirubá que peguei emprestado o celular de uma mulher que estava ao meu lado no corredor. Consegui falar com meu pai, eu estava bem. Fiquei mais tranqüilo, logo que acabei a ligação agradeci o empréstimo e recebi um afago nos cabelos. Mais uma ilha de fuga, mais um toque humano, mais um pouco de calma. Fizemos algumas paradas no caminho, para pegar gelo e lavar alguns panos onde se limpou o sangue de quem estava ferido.
Ao entrar na cidade a rádio já esperava próxima ao asfalto, na praça metade da cidade mobilizada, no caminho vi minha mãe que ia ao meu encontro. Quando ela veio em minha direção, assim que o ônibus parou, eu só conseguia pedir para que fossemos para casa.
Primeira vez que sofri um acidente. Nem de perto senti as asas da morte. Eu sabia que era muito jovem, que minha linha da vida era muito longa, e que as visões que tinha sobre o futuro ainda iriam acontecer, eu tinha que terminar meu livro, e ter mais algumas tardes de riso com minha mãe, precisava abraçar meus pais, e algum dia comer peixe cru, minha cachorrinha me esperava e não podia decepciona-la, eu tinha um trabalho da faculdade e tinha que acabar, eu precisava ainda escrever no blog, e fazer mais algumas poesias, e um dia eu tinha que ser entrevistado no programa do Jô, e comprar meu carro, aprender a dirigir, e havia pouco tempo para o alistamento obrigatório e também não tive filme algum na frente de meus olhos com os “melhores momentos”... Não seria aquele o meu fim.
Alguns conceitos de acidentes foram quebrados. Primeiro, de que isso nunca aconteceria comigo, notei que estava errado quando começou a inclinação, porque só ali, depois de todos os baques e quedas tomei real consciência de que acabava de sar de um deles. Segundo de que tudo é muito rápido. Do momento onde sentia a primeira alteração até o momento em que pisei em terra firme mesmo que o ponteiro dos segundos não tenha completado uma volta, parecia que o das horas completara mais de doze. Foi tudo tão eterno e tão real.
Feridas e sangramentos na alma? Alguns... Depois que cheguei, passado um tempo contando tudo para meus pais fui direto para o banho. Queria tirar tudo aquilo de mim, parecia que o sangue e o metal haviam prendido em meu corpo, junto com todos os gritos e lágrimas dos meus conterrâneos. Queria que todas as imagens confusas que faziam questão de misturar todos os momentos em um só causando pavor verdadeiro descessem pelo ralo, no entanto se agarram as pontas do meu cabelo e dali não saíram. Passei a noite vivendo aqueles momentos, rolando pela cama, ouvindo os bramidos, o barulho de coisas se partindo, gemidos, vendo rostos ensangüentados... Não sei quando isso tudo vai acabar. Ainda agora seguro no meu quarto dói pensar em tudo. Agradeci a todos deuses e santos que conhecia, pensando nas pequenas coisas que carregaram este ou aquele para um banco e não para outro, em como cada coisa se ajustou seguindo determinada ordem. Agradeci acima de tudo à semente que um dia caiu naquele barranco para formar uma árvore. Percebe-se agora como tudo é engendrado, quem diria que aquela simples semente cairia ali para no dia 8 de abril de 2005 impedir a morte de muitas pessoas. Sem ela o ônibus teria capotado por não sei quantos metros e talvez eu não pudesse estar aqui.
Ainda não sei que fim levou meu celular e minhas coisas. O caderno não quero ver novamente, jamais. Me preocupo com o estado daqueles que ficaram no hospital em Cruz Alta, mas espero em breve ter noticias. O caso mais grave é o da professora. Ao que tudo indica, ela foi lançada pelo pára-brisa, no momento se queixava de dor na coluna, torcemos para que não seja nada grave. Aos outros ficou acima de tudo o trauma. Será algum dia esquecido? Superado talvez, esquecido nunca. Não sei quantas noites passarei insone e inquieto tendo pesadelos acordado com as imagens do horrendo espetáculo que se descortinou. Nem de perto pude passar o pavor que sentimos nessa noite escura e sem luar.

 

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