A britânica Karen Traviss é uma escritora de FC formada — literalmente — pela Clarion Science Fiction and Fantasy workshop, da Inglaterra. Ela também escreveu a série Republic Commando, para Star Wars, e possui ela mesma uma saga de FC, Wess'Har, pela qual já ganhou o Prêmio Phillip K Dick duas vezes.
Neste segundo volume do enorme e complexo arco "Legacy of the Force", iniciado tão magistralmente por Aaron Allston em "Betrayal", encontramos uma nova autora, Karen Traviss. Desta vez temos muito menos batalhas circenses, e o estilo de narrativa é focado nas emoções e nos conflitos internos dos personagens. A Aliança Galáctica está muito mais parecida com o Império por causa de suas tropas anti-terror, formadas e lideradas por nosso (outrora) herói Jacen Solo, que gradativamente cai em direção ao Lado Negro, sem se dar conta de que suas ações estão se tornando rapidamente malignas.
O bom
A autora faz um trabalho impecável ao nos expor para o lado dramático desta história. Como a capa do volume denuncia, boa parte das páginas é dedicada ao mercenário Boba Fett, já setentão, que procura pela filha, e também por um meio de estender sua vida, muito debilitada pelos efeitos colaterais de ser um clone. A parte da história focada em Boba Fett é tão intensa e agradável de ler que dá vontade que o livro seja todo sobre ele. Mas também temos boas doses de uma tensão muito bem narrada em Coruscant, com o drama da guerra civil iminente, ações terroristas de corellianos, as maquinações de Jacen Solo e a agonia que o casal Luke e Mara Jade Skywalker passam ao ver seu único filho, Ben, arriscar-se em situações pouco dignas a um Jedi por causa de sua admiração pelo primo Jacen. Luke e Mara suspeitam que as atitudes de Jacen sejam fruto do toque do Lado Negro (com o qual o filho de Han e Leia teve contato em sagas anteriores), mas devem a ele a sanidade de seu filho, Ben, que antes do convívio com o cavaleiro Jedi era um menino poderoso, mas incontrolável.
A narrativa de Traviss é cadenciada, muito carregada de emoção, mesmo em suas cenas de ação e nas partes de pura aventura no melhor estilo Star Wars. Neste livro o foco começa a mudar para o casal Han e Leia Solo, que culminará com o volume 3 sendo praticamente todo dedicado a eles.
O não tão bom
O tema deste livro é obviamente muito diferente do volume 1. Enquanto que o primeiro foi recheado de ação, batalhas espaciais e duelos de sabres de luz, neste carece muito de adrenalina. Como eu suspeitava, a mudança de autor faz com que "Bloodlines" ignore ou mude elementos interessantes apresentados no primeiro. Neste o rosto do vilão dos sonhos de Luke é revelado, e não é nada do que esperávamos ou do que parecia óbvio em "Betrayal". Mas, apesar disso — e é algo a se esperar para os próximos volumes — a mudança de passo pode ser considerava bem-vinda, mas se você espera a ação non stop do volume 1, saiba que "Bloodlines" mantém o clima de mistério e intriga, mas é um pouco mais cerebral e menos cinematográfico.
Ainda, uma coisa que me irritou um pouco é a quantidade de referências à nova trilogia, em especial aos Episódios II e III. A autora chega a usar uma cena inteira do Episódio III, e fica o tempo todo voltando a informações daqueles filmes — algo que não seria possível antes deles terem sido feitos. Muitos leitores podem considerar isso um ponto positivo do texto, mas eu acho que Traviss foi opotunista e pouco criativa nesse sentido. Não obstante, kudos para a autora ao estabelecer uma criativa dicotomia entre Jacen Solo e Anakin Skywalker, que poderá muito provavelmente dar o tema para algumas situações dos livros a seguir.
Concluindo,
"Bloodlines" bota alguns pingos nos 'i's mais cedo do que esperávamos, mas continua no mesmo caminho que "Betrayal" iniciou, acrescentando ainda mais profundidade numa história cada vez mais complexa e mais cheia de facetas. Alguns dramas são solidificados neste volume, como o problema que Luke tem com seu filho de 13 anos; Traviss continua o bom trabalho de Allston em nos descrever detalhadamente --- até intensamente --- a grande variedade dos poderes da Força, e coloca seu toque pessoal nas personalidades de heróis, anti-heróis e vilões que estou amando a gostar de acompanhar ao longo de cada volume de "Legacy of the Force".