Aaron Allston escreveu boa parte do arco "Rogue Squadron" de Star Wars, protago-nizado por Wedge Antilles, além de livros para a franquia "Terminator". Também foi o compilador das regras da D&D Rules Cyclopedia.
A história começa quarenta anos após a Batalha de Yavin — o clímax do filme “Uma Nova Esperança” — e faz parte da era “Legacy” (a cronologia de Star Wars é dividida em várias eras), a mais adiantada cronologicamente até o momento. Encontramos Luke Skywalker com 58 anos de idade e Han Solo de cabeça branca, casado com Leia Organa, agora uma cavaleira Jedi.
Para quem só conhece os filmes ou, como eu, leu apenas alguns gibis e jogou um ou outro game, a história está recheada de personagens novos. Mas o livro funciona muito bem para que não é um fã “hard core”, porque todos os personagens são brevemente apresentados, e todos os eventos passados relevantes à história também são sucintamente descritos, e essas recaptulações estão bem misturadas à trama, de modo que não parece que o autor parou para explicar para você. Uso a mim mesmo como exemplo: li uns três gibis e devo ter jogado uns dois games, mas entendi toda a história, sem precisar consultar qualquer site ou guia. Até mesmo as diversas raças descritas podem passar sem uma consulta ao Google.
O bom
Aaron Allston é um autor muito competente. Escritor recorrente em Star Wars, ele abre o livro introduzindo o que será a tônica de todos os livros do arco: o conflito dentro do clã Solo/Skywalker. Na iminência de uma guerra civil entre a Aliança Galáctica e Corellia (a terra natal de Han Solo), as duas famílias se vêem dividas entre lealdade e dever.
Jedi é o que não falta em “Betrayal”, mas eles não são tudo no livro. Temos duas batalhas espaciais, com X-Wings rodopiando nos céus e lasers para tudo que é lado, uma boa dose de drama, e bastante espaço para mistério e muito suspense — além de tiroteios com blasters e combates com sabres de luz que deixariam Bob Salvatore orgulhoso. O livro vai num crescendo de conflitos em escaramuças nos céus ou em ruas ou em estações espaciais, e muita tensão política.
Por falar nisso, o que mais me agradou em “Betrayal” foi justamente o potencial de um livro para uma história rica como Star Wars. Num filme ou num game (ou mesmo num gibi), as histórias são limitadas pelo estilo pasteurizado da narrativa e também pelo orçamento: a disponibilidade de efeitos especiais, a velocidade das placas de vídeo e a criatividade do desenhista — e pelo tempo: a duração de um filme, as fases de um game e a quantidade de páginas de uma HQ. Mas um livro é ilimitado nesse sentido, porque ele depende a imaginação do autor, que tem um orçamento infinito para a criação das mais complexas e demoradas cenas, e também da vontade da editora de publicar um ou nove volumes contando a mesma história. De fato, a grande vantagem de um livro é a capacidade que essa arte tem de interromper a narrativa para descrever detalhadamente uma arma, uma nave, uma tecnologia, uma situação política ou um efeito da Força. Em nenhuma outra mídia a história pode levar você tão para dentro das mais discretas nuances do pensamento de um personagem, ou da complexidade de um mecanismo, ou os meandros de uma situação em pleno espaço sideral. E Aaron Allston faz isso com maestria.
Apesar do grande volume de personagens importantes, o livro acompanha primariamente Jacen Solo, cavaleiro Jedi, filho de Han e Leia (e que tem uma irmã gêmea, Jana). Já com mais de trinta anos, Jacen é muito habilidoso em aspectos pouco conhecidos da Força, sem falar na habilidade com o sabre de luz. De fato, Allston nos descreve um mundo inteiro de variedades de poderes da Força; os “Force pushes”, “pulls”, “speeds” e “leaps” estão todos lá, mas também uma infinidade de outros usos mais sutis da Força, como o senso de perigo de Bem Skywalker ou a supressão de calor corporal de Mara Jade, ou mesmo o shatterpoint, habilidade de Mace Windu também dominada por Jacen. O autor também se detém sempre que pode para descrever como um poder é usado, como ele funciona:
Ben heard and felt the boom, distant and muffled, originating somewhere well beneath his feet, and was diverted enough to use the Force to seek out Jacen. Dimly, he could feel his Master, could sense movement and vitality from him.
But the distraction was long enough for Ben to run clean into someone. He banged into rigid body armor, bounced off, and hit the metal floor butt-first.
He looked up into the face of a CorSec officer glowering down at him.
“Back the way you came, son,” the officer said. “This area is under lockdown.”
“I've got to see my father,” Ben said, swiftly improvising. “He's guarding the repulsor control room. I have to be sure he's all right.”
“No, kid, it's off-limits.”
“I have to know he's all right.” Ben made the words a child's frightened wail. He darted around the CorSec officer, eluding the man's grab, and continued running down the corridor.
He couldn't keep his shoulders from riding up, tensing. He reached out with the Force, searching out the guard's response to his action.
Ben felt no intimation of danger—the guard didn't aim his blaster. The man's emotions were a mix of irritation and sympathy. Ben felt the man weigh a decision, and it took the boy a few moments to figure out what it was: whether or not to communicate with his fellows, warn them that the boy was headed their way. Then Ben felt the man choose against that course of action. The guard turned away.
O não tão bom
Allston parece ter aproveitado o máximo a oportunidade de abrir o arco de histórias, enfiando tudo que lhe passou pela cabeça no texto. Por causa disso, o livro está estufado com personagens que nos parecem importantes, mas que depois são esquecidos ou deixados de lado.
O autor parece ter forçado a barra no “grande mistério” que permeia todo o livro, uma conspiração que ameaça criar uma nova guerra civil galáctica. No fim do livro, Allston amarra todas as pontas soltas de uma vez só, tentando forçosamente convencer o leitor da veracidade do estratagema. Mas para isso ele acaba recorrendo aos recordatórios típicos do desenho do Scooby Doo. A idéia dos nove rosários que um dos personagens encontra no meio do livro parece boa (um rosário, com um tema ou mensagem, para cada um dos nove livros do arco), mas um tanto exagerada, levando-se em conta que o autor cria todo um clima de mistério acerca deles e depois os explica rapidamente. Sem falar que os autores seguintes dão pouca ou nenhuma atenção para esses rosários, que consomem boa quantidade de páginas em “Betrayal”.
E isso também é um ponto, não necessariamente negativo, mas um pouco chato. A versão pocket tem quase 500 páginas, uma contagem mediana para esse tipo de publicação (352 para a versão hardcover), mas o autor parece esticar a história em alguns momentos, como se ele percebesse que a está contando rápido demais, então enche lingüiça de quando em quando, para avolumar o livro. Muitos autores fazem isso, mas Allston deixou esses momentos um pouco óbvios. Juntando-se a resolução final dos principais mistérios um pouco rápida demais, ele poderia ter feito um trabalho melhor. Não conheço outras obras do autor, por isso não posso dizer que esse é seu estilo.
No mais, Allston astuciosamente trouxe de volta alguns vilões do Universo Expandido de Star Wars que estavam esquecidos há anos, só que o retorno de alguns deles de volta dos mortos pareceu mais um recurso de história em quadrinhos: alguns fãs hard-core poderão dizer, com justiça, “ah, não. Ele de novo!”
Por fim
Os defeitinhos da obra não estragam o livro de um modo geral. Apesar das falhas que apontei acima, Aaron Allston entrega um competente livro de aventura, ação e mistério, com bastante intriga política e põe para girar algumas engrenagens que levarão esta história pelo enorme arco de nove livros. Como texto isolado, “Betrayal” me agradou muito e enquanto lia eu tive dificuldades em pô-lo de lado para realizar meus afazeres mundanos — se não impecável, a obra é muito boa e muito prazerosa.
Em minha opinião, Allston conjurou um início de saga excitante e me convenceu a parar tudo o que estou fazendo para acompanhar as aventuras de Jacen Solo e Cia. Ele também escreve os volumes 4 e 7 de “Legacy of the Force”, e mal posso esperar para ver como estará a história quando ele a retomar, e o que fará. Se mantiver o bom trabalho, valerá a espera.