Vilar de Mouros - 35 anos depois
Livro de Fernando Zamith

Veja o blog "Vilar de Mouros" - dedicado ao livro.


Mem�rias dos festivais de Vilar de Mouros pela primeira vez em livro
Cr�dito: Ag�ncia LUSA

Hist�rias in�ditas, mem�rias que quase se perderam e imagens de concertos inesquec�veis est�o reunidas no livro "Vilar de Mouros, 35 anos de festivais", de Fernando Zamith. � a primeira vez que a hist�ria de um evento de m�sica rock � descrita e compilada numa obra, simultaneamente documental e de homenagem ao seu fundador, Ant�nio Barge, falecido em 2002. Em declara��es � Ag�ncia Lusa, o autor e jornalista explicou que o livro � dedicado a um homem "idealista e vision�rio" sem o qual o "festival de Vilar de Mouros n�o tinha existido".

Repartido por tr�s grandes cap�tulos, o livro apresenta uma descri��o cronol�gica de todos os festivais realizados na aldeia nortenha de Vilar de Mouros, come�ando por um festival infantil realizado em 1937. Para Fernando Zamith a melhor de todas a edi��es foi a de 1982 que, apesar da desorganiza��o, considera ter sido um "verdadeiro happening", com nove dias seguidos de m�sica, vividos com "grande intensidade".

Nos �ltimos anos, com o aparecimento de outros festivais com cartazes apelativos, como o Sudoeste e o de Paredes de Coura, Fernando Zamith acredita que muita gente vai a Vilar de Mouros por ser precisamente Vilar de Mouros e n�o tanto pelo cartaz.

Jornalista da Ag�ncia Lusa e professor na Universidade do Porto, Fernando Zamith revelou ainda que no futuro poder� ser criado um museu em Vilar de Mouros, embora o projecto esteja ainda no papel. Ag�ncia LUSA


Vilar de Mouros - Onde � que estava em 1971?
Cr�dito: Florbela Alves/Vis�o n� 541 - 17.Julho.2003

Os 35 anos do festival acabam de ser registados em livro. Tudo come�ou em 1968, a partir da carolice de um m�dico. Est�rias do mais lend�rio festival portugu�s

Os Beatles bem podiam ter passado por c�. Corria o ano de 1971 e o m�dico Ant�nio Barge, apaixonado pela m�sica e pelo Minho, depois de, em 1968, ter conseguido organizar um festival de m�sica popular que j� prometia algo mais, teimava agora em querer levar � pequena aldeia de Vilar de Mouros algumas das melhores bandas internacionais de pop rock da �poca. Os Beatles ainda estavam na moda, mas acabaram por se separar pouco tempo antes de o m�dico os poder contratar. N�o conseguiu o grupo de Liverpool, mas trouxe uma lista n�o menos arrojada: Elton John, Manfred Mann, Am�lia Rodrigues�

Muitas est�rias fizeram a vida do primeiro grande festival do Pa�s. Agora, podem ser recordadas no livro Vilar de Mouros, 35 anos de Festivais (250 p�ginas, Edi��es Afrontamento). Resulta de um trabalho de pesquisa de Fernando Zamith, jornalista e filho da terra, que embora n�o tenha assistido � g�nese do festival, n�o tem perdido pitada, desde 1982. O livro come�ou a ser delineado durante a edi��o de 2002, como o pr�prio conta: �Ant�nio Barge, o �inventor do festival�, tinha morrido meses antes e muitos outros protagonistas e figuras t�picas da aldeia j� c� n�o estavam; qualquer dia, pensava eu, j� n�o haver� ningu�m para relatar aquelas hist�rias que ficaram por contar.�

Uma das pe�as-chave foi Am�lia Barge, vi�va do m�dico e que o acompanhou na organiza��o de todos os festivais. �Cheguei a emagrecer 15 quilos�, recorda � VIS�O. �Entre armar e desarmar barracas, colaborei em tudo, sempre.� E o �sempre� come�ou em 1965/67 quando Barge promoveu um festival de folclore internacional. Em 1968, foi mais ousado e, do cartaz, faziam mesmo parte alguns nomes inc�modos: Zeca Afonso, Carlos Paredes, a Banda da Guarda Nacional Republicana (cem elementos que ficaram alojados num convento de freiras). No desdobr�vel, Zeca Afonso era descrito como �o famoso criador de um novo estilo de can��o portuguesa, inspirada na forma de balada�. Simples, para evitar inc�modos. Am�lia Barge ainda recorda os avisos da mulher de Zeca: �Ela dizia--lhe: �N�o cantes as can��es proibidas que ainda vais preso.� Mas o p�blico pediu, e ele acabou por cant�-las.�

Elton � boleia de Isidro

N�o havia managers, produtoras, catering, nem sequer hot�is. �Os m�sicos dormiam em casa de amigos e em Viana do Castelo. A porta de minha casa estava aberta, os nossos quartos eram para as visitas e n�s dorm�amos a monte, no s�t�o�, desfia Am�lia Barge. Mas o m�dico queria fazer uma coisa em grande: al�m de gostar de m�sica, pretendia potenciar a regi�o para o turismo e levar o nome de Vilar de Mouros a todo o Pa�s. Levou tr�s anos a preparar o festival de 1971, o tal que trouxe a Portugal Elton John, na altura com 24 anos.

O Woodstock tinha acontecido em 1969 e Barge pensou: �E se se fizesse uma coisa para a juventude?�, recorda a mulher. Al�m de Elton John, o m�dico foi buscar o sul--africano Manfred Mann, e conseguiu duas estreias de� obras de Joly Braga Santos e Ant�nio Victorino d"Almeida.

�Centenas de jovens demandaram a aldeia. Foram de roupas coloridas e pr�ticas, mochilas e sacos �s costas. Lan�aram-se para a estrada, contando com a boa-vontade dos automobilistas�, relatavam os jornais. At� o pr�prio Elton John foi � boleia de J�lio Isidro para Viana do Castelo, onde ficou alojado. Manfred Mann e Elton John diziam que o p�blico era �bem-comportado�. Am�lia Barge lembra-se de que, durante o concerto, o m�sico ingl�s lhe perguntou: �Acha que eles est�o a gostar?� �Est�o�, garantiu a organizadora. �Mas eles n�o se manifestam?�, questionou Elton John. �N�o, c� em Portugal � assim�, afian�ou Am�lia Barge.

Muitos preju�zos

O grande problema de Ant�nio Barge foi sempre o financeiro. A vinda de Elton John custou 600 contos e os (prometidos) subs�dios n�o passaram de promessas. O �nico dinheiro que recebeu foram 30 contos, oferecidos pelo Secretariado Nacional de Informa��o. �A RTP prometeu, mas� n�o deu. E o festival redundou num preju�zo, descomunal, de mil contos. �N�o tivemos coragem de repetir�, recorda Am�lia Barge. Em 1975, Barge projectou um festival diferente no conte�do � inclu�a cinema, teatro, pintura e escultura � mas as altas temperaturas pol�ticas da altura fizeram abortar a ideia. Foi preciso esperar mais sete anos.

Em 1982, o presidente da C�mara de Caminha, Pita Guerreiro, resolve reeditar a festa (com Barge na organiza��o) e, depois de constantes altera��es do programa, Vilar de Mouros recebe, durante nove dias, os U2, Johnny Copeland, Erika Pluhar, Tom Robinson, entre outros. Voltaria a dar preju�zo. Em 1985, os Trovante e Emilio Cao encabe�am ali um �desconcertante� I Encontro de M�sica Popular. Segue-se um intervalo de dez anos. At� que o festival regressa, em 1996, agora altamente profissionalizado, promovido pela produtora M�sica no Cora��o, com o patroc�nio da Super Bock.

De ent�o para c� � o que se sabe: uma romaria certa, todos os Ver�es. E se, nos anos 70, o apoio log�stico era quase inexistente � o p�blico chegou a fugir para Caminha, � procura de comida, e os caf�s da regi�o fecharam �com medo da invas�o� �, agora n�o falta nada. E, se faltar, os telem�veis ou as centenas de carros que se deslocam a Vilar de Mouros d�o uma ajuda.


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