SAN ANT�NIO - TEXAS - U.S.A.
Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
N�o tenho, logo, mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Lu�s de Cam�es
Quando o sol se levantou no horizonte, Ab�lio j� estava acordado fazia tempo. Sentado
na beira da cama, um cigarro na boca, o p� esquerdo cal�ado e o outro s� com
meias; uma camiseta azul e um shorts jeans. Ele tinha interrompido o processo
de se cal�ar para acender um cigarro. N�o tinha pressa. Por sorte era domingo,
e ele n�o teria que passar o dia atr�s da tela de um computador, tentando espantar
o sono. Por sorte ele j� n�o ia � missa h� muitos anos, que aquilo seria uma
tortura de ag�entar, com todo o sono que ela sabia que viria dentro de umas
duas horas. Mas queria estar acordado, para saborear o encontro. �Assim estou
mais perto de voc�,� disse em voz alta.
L� fora, o som de um carro solit�rio descendo a ladeira, provavelmente com os freios
puxados. �Esta ladeira um dia ainda vai dar trag�dia,� pensou, adivinhando o
cheio de borracha queimada. Com a frestinha de luz do sol filtrando pela
persiana ele viu, na semi escurid�o do quarto, como a poeira flutuava devagarinho,
como peixinhos nadando em �gua clara. Pigarreou, apertou o resto do cigarro
no cinzeiro, colocou o p� direito no t�nis, se debru�ou e deu o la�o, duas vezes,
prestando aten��o para coloc�-los bem no meio do peito do p�. Levantou-se, alisou
mais uma vez a colcha da cama, cuidadosamente.
Saiu do quarto e se dirigiu � pequena cozinha, levando o cinzeiro, que despejou no
lixo e lavou diretamente embaixo da torneira. Apertou o bot�o da cafeteira,
que ela havia preparado na noite anterior, abriu a geladeira e pegou um peda�o
de p�o de forma, a latinha de manteiga, um peda�o de queijo. Enquanto o caf�
se fazia sozinho na cafeteira, colocou uma x�cara com leite no microondas. Um
peda�o de mel�o, e o caf� da manh� estava completamente ajeitado.
Ab�lio era uma criatura de h�bitos bem claros e determinados. Cada dia gostava de saber
o que o esperava em seguida. N�o sabia como as pessoas podiam viver vidas desorganizadas.
Como podiam deixar as coisas fora do lugar. Como podiam deixar-se levar por
sentimentos leves e bobagens que n�o tinham nenhum sentido.
No escrit�rio os colegas o chamavam de �Ab�lio sistem�tico.� Ele sabia, mas n�o
se importava. O que importava � que, cada dia, fazia tudo o que era sua obriga��o,
lan�ando cifras, fazendo c�lculos, fechando balancetes. No fim do m�s, recebia
seu sal�rio. O chefe, que o conhecia h� muito tempo, o respeitava, mesmo sem
o conhecer direito. Os colegas o chamavam de chato, quadrado, milico. Nunca
ia a nenhum joguinho de futebol. Nunca participava de amigo oculto. �Ele deve
ter alguma coisa muito oculta!� Riam e debochavam dele pelas costas. Se
n�o fosse porque o chefe havia extressamente proibido burlas com ele, aqueles
jovens do escrit�rio teriam gostado muito de colocar coisas nas gavetas da sua
escrivaninha, misturar seus pap�is. As caricaturas do feio Ab�lio se multiplicavam,
com os cabelos ralos, o nariz comprido. As goza��es, ainda que n�o feitas na
sua cara, eram por demais evidentes. Ab�lio fazia que n�o via.
Uma vez, numa festa de fim de ano no escrit�rio, um grupo de colegas decidiu embebed�-lo
para ver o que ele faria. Colocaram vodca e valium mo�do na coca-cola. Ab�lio
sentiu o gosto estranho, e ia cuspir a coca-cola, mas um grupinho o cercou e
praticamente o for�ou a tomar o �lcool. Mas, para a tristeza dos colegas, ao
inv�s de ficar b�bado falador, ficou s� b�bado vomitador, que sujou a camisa
e teve que lav�-la na pia do banheiro. No fim da festa, quiseram lev�-lo pra
casa, mas ele recusou. �N�o � preciso. Isto logo passa.� O chefe ficou furioso
com a rapaziada, ao ver Ab�lio verde no banheiro, vomitando, j� sem camisa,
quase sem parar em p�. Mas Ab�lio disse que n�o era nada, que n�o se preocupassem,
que ele iria pra casa assim que a camisa secasse. Acabou dormindo no escrit�rio
aquela noite, no ch�o, entre duas escrivaninhas, usando o palet� como travesseiro,
porque quando se sentiu melhor, j� era muito tarde, n�o corriam mais �nibus,
e um t�xi custaria muito dinheiro. Ab�lio, todos sabiam, era um homem controlado,
que n�o gastava dinheiro �-toa.
O que os colegas n�o suportavam era o mist�rio. O chefe, por todos os ind�cios,
n�o se importaria que Ab�lio fosse um criminoso, desde que continuasse sendo
t�o competente no trabalho. Tudo o que n�o tinha solu��o, ca�a na m�o de Ab�lio,
e ele resolvia. Dos mais complicados aos mais simples. Os boatos corriam, com
vida pr�pria, indo e vindo como a �gua da mar�. Uma vez a recepcionista disse
que o viu na rua com uma mulher lind�ssima. Outro, do departamento de contabilidade,
disse que sabia com certeza que Ab�lio mandava dinheiro pra sua m�e em
Minas. Outro disse que ele tinha uma mulher e cinco filhos. Ou que ele era um
assassino perigos�ssimo que matava jovenzinhas incautas que andavam pela rua
sozinhas de noite. Ou que ele passava os fins de semanas em algum culto protestante,
ao qual doava todo seu sal�rio. Um dia algu�m veio com a teoria que decerto
ele era bicha. Todos falaram disto por um tempo. Alguns ficaram adivinhando
requebros. Caricaturas de Ab�lio vestido de Carmem Miranda apareceram. Este
boato, assim como os demais, amainou. Ab�lio seguia sua rotina, completamente
alheio a tudo, cuidando de sua obriga��o, chegando na hora e saindo na hora.
Ano entrante e ano sainte. Tudo a mesma coisa. O pessoal do escrit�rio perdeu
o interesse nele e passou a se concentrar nos amores escandalosos de alguns
rec�m-chegados. Ab�lio continuou ignorando tudo.
Assim que terminou o caf� da manh�, colocou os pratos e a x�cara na pia, encheu de
�gua e colocou tr�s gotas de detergente. Esfregou tudo bem com a esponja, enxaguou.
Colocou para escorrer. Foi � sala, pegou as chaves e saiu, trancando e
conferindo duas vezes se tinha mesmo trancado direito.
Na portaria do pr�dio, recolheu o jornal, disse bom-dia ao porteiro semi-adormecido.
A rua j� come�ava a encher-se de sons e cores, buzinadas. Ab�lio caminhou apressadamente
por duas quadras, dobrou � direita, caminhou mais tr�s quadras, e chegou ao
parque. O port�o j� estava aberto, e ele entrou. Seu banco favorito estava vazio,
e ele se sentou, cuidando de primeiro espan�-lo com o len�o que trazia no bolso
do shorts. Acendeu um cigarro, e come�ou a ler o jornal, marcando os assuntos
mais interessantes com uma caneta vermelha.
Depois de duas horas, voltou � seu apartamento e tomou um banho. Deitou-se na cama,
fechou os olhos por uma meia hora. Levantou-se novamente. Estava completamente
desperto agora. Tomou um banho e se barbeou com cuidado. Fumou mais um cigarro
e se vestiu, desta vez cal�a social e camisa branca, com um par de sapatos pretos.
Penteou os cabelos ralos com muito cuidado. Colocou os �culos, que pareciam
ser de grau, mas n�o eram. Na m�o, levava uma sacola de papel.
Na esquina, tomou um �nibus e ficou nele por cerca de uns quarenta minutos. Desceu,
atravessou a rua e entrou no edif�cio. Na portaria, se identificou e obteve
um crach�. Marisa j� o esperava, vestida de roupa alaranjada. Os cabelos
presos num pequeno coque, as m�os na porta, claramente em expectativa.
�Entre, Jo�o Paulo.� Ela sorriu. �Estava esperando voc�.�
Ele se aproximou e a beijou no rosto, levemente. Ela levou as m�os at� o rosto dele.
�Estou aqui, mam�e. Trouxe o jornal pra ler pra voc�.�
�N�o agora. Senta aqui e vamos conversar primeiro, sim?� Ela se sentou na cama de
solteiro e fez sinal com a m�o para que ele se sentasse no lugar ao seu lado.
Ele se sentou, ela colocou a m�o direita na sua m�o esquerda. �Voc� est� mais
magro, Jo�o Paulo?� �Talvez um pouco, mam�e. Deve ser o trabalho no tribunal.�
Ela colocou a cabe�a no ombro de Ab�lio. �Ah, meu filho, que bom que voc� pode vir
me ver sempre. Que bom.� Ficaram assim por alguns minutos, depois come�aram a conversar.
Ele lhe contou dos casos no tribunal. Ela lhe contou das pequenas hist�rias do hospital.
Ele perguntou se algum m�dico tinha vindo ver seus olhos, e ela disse que n�o,
n�o esta semana. Ele perguntou o que ela tinha comido ultimamente, e se gostaria
que ele lhe trouxesse alguma fruta diferente na semana que vem, ou da pr�xima
vez, porque ele talvez tivesse que ir a Bel�m para tentar resolver um caso importante.
Ela disse que n�o se preocupasse. Falaram do tempo. Lembraram hist�rias de antigamente.
Lembraram de gente conhecida. Ningu�m vinha visit�-la mais. Que pena. Mas sempre
ela sabia que Jo�o Paulo jamais se esqueceria de vir. Isto era o que mais importava.
A enfermeira veio com a cadeira de rodas, e ele p�de lev�-la ao jardim. Ali ele
leu as not�cias do jornal para ela, descascou uma laranja e separou os gomos
para ela, colocando-os num guardanapo de papel no colo dela. Espantou uma abelha
que se aproximou demais dela. Comentou das coisas da cidade. Marisa disse que
o pessoal do hospital era muito bom. �Sempre atendem r�pido quando toco a campainha,
especialmente depois que ca� h� dois meses, lembra?� Sim, ele se lembrava. Tivera
que sair correndo do trabalho mas tinha chegado quando ela j� tinha entrado
em cirurgia. Tinham sido dias de agonia. O chefe sabia que ele estava com problemas
pessoais s�rios, e n�o tinha descontado os dias faltados. Nem feito perguntas.
O atestado do m�dico tinha bastado.
Duas horas passaram r�pido, e o hor�rio de visita se acabou. Ab�lio levou-a na cadeira
de rodas ao quarto e apertou a campainha, chamando a enfermeira. Ela n�o gostava
de ficar sozinha quando ele ia embora. Enquanto a enfermeira n�o chegava, Ab�lio
alisava o cabelo de Marisa. �Se eu n�o vier no pr�ximo domingo, mam�e, eu mando
umas frutas para voc�, est� bem? E n�o se preocupe comigo. A viagem a Bel�m
� coisa simples.� Ela segurava as m�os de Ab�lio, mas n�o pediu que ele ficasse.
Ela sabia que ele n�o podia ficar.
Um �ltimo beijo no rosto de Marisa, Ab�lio sai do quarto assim que a enfermeira
chega. Passa pela portaria e deixa o crach�. Faz algumas perguntas sobre a dieta
de Marisa, e se ele pode mandar uma cesta de frutas no fim de semana que vem.
As duas recepcionistas dizem que pode, desde que mande com um bilhete identificando
de onde vem. Ab�lio agradece e sai � rua.
Uma das recepcionistas, a mais nova no trabalho, comenta, �Puxa, um filho t�o dedicado!
Se preocupa tanto pela m�e.� A outra responde, pensativa, �N�o � o filho
n�o. Era grande amigo do filho dela, que morreu logo que ela entrou aqui.�
De volta ao apartamento, Ab�lio tira a roupa domingueira, volta a colocar os shorts,
e se deita na cama. Vira para o lado, e apanha a foto.
�Ela est� bem, Jo�o Paulo. Estou fazendo tudo o que posso. Ela jamais vai saber que
voc� n�o est� mais aqui.�
Beija o retrato e o coloca sobre o peito. Fecha os olhos. E dorme.