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Schumpeter
A
exposição começa do jeito contraditório de Schumpeter. E um livro sobre crescimento
e dinâmica capitalistas, mas começa com uma visão da economia capitalista na
qual a crescimento está ausente por completo. O retrato inicial feito por
Schumpeter descreve um capitalismo que não tem a ingrediente especial que
proporciona crescimento aos mundos de Smith, Mill, Marx ou Keynes — a
acumulação de capital. Schumpeter descreve, em vez disso, um capitalismo sem
acumulação, um capitalismo cujo fluxo do produção é perfeitamente estático e
imutável, transformando-se em um “fluxo circular” que nunca altera ou expande
sua criação do riqueza. O modelo
se parece com a estado estacionário imaginado par Ricardo e Mill, com a
diferença que a estado estacionário parece a fim do capitalismo para as
primeiros escritores, enquanto que para Schumpeter é o preparo para a começo do
capitalismo. Portanto, devemos examinar as características do fluxo circular
com um pouco mais de cuidado, porque este sistema não tem momentum, ou seja,
impulso, a inércia é a regra do sua vida econômica: “Todo conhecimento o
hábito, depois do adquiridos’, escreve Schumpeter, ‘tornam-se tão firmemente
enraizados em nós quanto a base de uma ferrovia no chão”. Tendo encontrado, por
tentativa e erro, o curso econômico que é mais vantajoso para nós, tendemos a
repeti-lo pela rotina. A vida econômica pode ser um desafio no começo, depois
torna-se um hábito. Mais
importante, neste imutável fluxo do competição é preciso remover todos os
ganhos que excedam o valor da contribuição de cada um na produção. Isto
significa que a competição entre empregadores ira forçá-los a pagar aos seus
trabalhadores o valor total do produto que criam e que as donas de terras e de
outras riquezas naturais irão, da mesma forma, receber por arrendamentos os
mesmos valores com que seus recursos contribuam. Assim, trabalhadores e proprietários
terão suas quotas no fluxo circular. E os capitalistas? Outra surpresa. Os
capitalistas não iriam receber nada, exceto seus ordenados como gerentes. Isto
porque qualquer contribuição para a valor da produção derivado dos bens de
produção possuídas, seria inteiramente absorvido pelo valor do trabalho
necessário para produzir esses bens, mais a valor dos recursos que eles
continham. Desta maneira, exatamente como Ricardo e Mill previram, em uma
economia estática não há lugar para a lucro. A origem dos
lucros é uma questão que foi habilmente manipulada por muitos economistas.
Smith ficou entre considerar o lucro como uma dedução do valor criado pelo
trabalho ou como uma espécie de retomo independente localizado no próprio
capital. Se os lucros fossem uma dedução, claro, a explicação implicaria em que
o trabalho estaria sendo mal retribuído; se fossem uma contribuição de capital,
seria preciso explicar por que os lucros iam para o dono da máquina e não para
seu inventor ou operador. Mill sugere que o lucro era a recompensa pela
“abstinência” dos capitalistas, mas não explica por que os capitalistas
mereciam uma recompensa por uma atividade que funcionava claramente no
interesse deles. Outros economistas descrevem os lucros como sendo os
ganhos do “capital”, falando como se a pá em si fosse paga pela sua
contribuição do produto final. Marx, claro, disse que Smith estava certo
apesar de não sabê-lo – que os lucros eram uma dedução do valor criado pelo
trabalhador. Mas isto era uma parte da teoria do valor do trabalho que todos
sabiam estar equivocada e que portanto não precisava ser levada em conta. Schumpeter
apareceu, então, com uma brilhante explicação para esta questão complicada. Os
lucros, disse ele, não vêm da exploração do trabalho ou dos ganhos do capital.
São o resultado de outro processo. Os lucros aparecem numa economia estática
quando o fluxo circular falha em seguir seu curso rotineiro. Uma inovação
implica na existência de um inovador — alguém que é o responsável por combinar
as fatores do produção de novas formas. Este não é, evidentemente, um homem de
negócios “normal”, que segue as rotinas preestabelecidas. A pessoa que introduz
mudanças na vida econômica é um representante de outra classe ou, mais
precisamente, de outro grupo, porque os inovadores não vêm necessariamente de
nenhuma classe social especifica. Schumpeter pegou uma antiga palavra do léxico
econômico e a usou para descrever este revolucionários da produção. Ele os
chamou de empreendedora. Empreendedores e sua atividade inovadora são, assim, a
fonte de lucro no sistema capitalista. Por que,
então, o empreendedor realiza sua tarefa precária e muitas vezes não
reconhecida? “Primeiro”, diz Schumpeter, “porque em geral existe um sonho, e a
determinação de fundar um reino particular, apesar de não haver,
necessariamente, também o sonho de uma dinastia... Há, além disso, a vontade do
conquistar: o impulso de lutar, de provar que é superior aos outros, do ter
sucesso não pelos frutos do sucesso, mas pelo sucesso em si... Por fim, há a alegria
de criar, de fazer coisas ou apenas de utilizar a própria energia e a
imaginação.” ‘The
Theory of Economic Development lançou Schumpeter em uma carreira acadêmica que
teve do ser interrompida por um curto período, imediatamente antes da Primeira
Guerra Mundial, por uma incursão no governo e negócios. Em 1919 ele concordou
em juntar-se a uma comissão de nacionalização da indústria estabelecida pelo
novo governo socialista da Alermanha. Um jovem economista perguntou-lhe como
alguém que exaltava tanto a empresa privada podia tomar parte em uma comissão
cujo objetivo era nacionalizá-la. “Quando alguém quer cometer suicídio”,
respondeu Schumpeter, “é bom ter um médico a mão.” No mesmo ano ele foi
convidado para ser ministro da Economia do recém-formado governo
centro-socialista da Áustria. Trabalhou em um ambicioso plano para estabilizar
a moeda austríaca, mas conflitos o desencontros forçaram sua demissão antes do
plano ser aprovado. Ele provavelmente falharia — nada teria dado certo no
avassalador movimento inflacionário que tomava força naquele momento. Seguiu-se
um breve período em que foi diretor do Banco Biedermnann, um banco privado do
Viena, mas foi arrastado pela tormenta (assim coma pela desonestidade de alguns
de seus sócios). Depois
disso foi que sua carreira realmente começou, primeiro como professor visitante
no Japão, depois na Alemanha e logo em seguida em Harvard, onde seus modos e
aparência rapidamente fizeram dele um personagem conhecido no campus. Foi
lá, também, que ele se casou com Elizabeth Boody, que também era economista;
por fim, foi lá onde declarou que a depressão era uma boa ducha fria,
observação esta que pelo menos um estudante jamais esqueceu. Schumpeter
lançou Business Cycles, um trabalho- do mil páginas, em dois volumes, publicado
em 1939. Ele atribuía a severidade da depressão, em partes ao fato de não haver
um mas sim três tipos de ciclos econômicos — um do duração muito curta, um
segundo com um ritmo do sete a onze anos, e um terceiro com pulsação mais
ampla, de cinqüenta anos, associada as invenções da época, tal coma a
locomotiva a vapor ou o automóvel — e que esses três ciclos tinham chegado em
seu período de baixa ao mesmo tempo. Uma segunda razão era o impacto negativo
de fatores externos, que iam desde a Revolução Russa até uma política do
governo de formas geral inapta. Estes últimos detalhes estavam “fora” do
alcance da teoria dos ciclos econômicos, mas contribuem de alguma forma para o
agravamento da situação. O livro de
Schumpeter interessa por uma razão principal: o capitalismo, como qualquer
outro sistema social, não vive só de pão. Ele requer uma fé; neste caso, fé nos
valores e virtudes da civilização que o capitalismo produz e que por usa vez
reproduzem o capitalismo. E, apesar do sucesso econômico do sistema, esta fé
estava perdendo sua força mobilizadora. Assim o
livro termina – mais uma vez! – com uma nota contraditória. Julgado puramente
por uma base econômica, o capitalismo ainda tem um longo prazo para seu
dinheiro; realmente, como Schumpeter diz na penúltima frase, caso seu esquema
da interação de três ciclos seja verdade, as três décadas seguintes terão mais
flutuação do que as últimas duas. Então, vem a desconcertante última frase:
“Mas não se pode esperar que a correnteza sociológica mude”. Mas a visão
plenamente desenvolvida do futuro do capitalismo não emerge até 1942, quando
Schumpeter publica Capitalism, Socialism and Democracy, um livro que mudou o
modo como pensava-se sobre o sistema. O livro
começa com Marx. A visão de Schumpeter era completamente oposta à de Keynes, e
ele também detestava intensamente o fato de Keynes atrair a atenção e admiração
no mundo inteiro, enquanto ele tinha que se contentar com o reconhecimento de
seus pares acadêmicos. Mas o antagonista na vida intelectual de Schumpeter não
era Keynes, e sim Marx. Marx o
Profeta, Marx o Sociólogo, Marx o Economista, Marx o Mestre: estes são os
quatro capítulos com que o livro começa. Talvez já esteja evidente onde os dois
homens vão concordar e discordar, para Marx, a essência do capitalismo é a
mudança dialética e o desequilíbrio auto-induzido. Isto tudo é água para o
moinho de Schumpeter – na verdade, a concepção de Marx do desenvolvimento
imanente do capitalismo é sem dúvida a origem da visão de Schumpeter. No
entanto, Marx coloca a causa de seu dinamismo na luta entre a classe
trabalhadora e a classe proprietária – uma luta que espreme continuamente a
mais valia e, assim, motiva todos os capitalistas (não só os pioneiros) a obter
seus lucros através de inovações que economizem trabalho. É a partir
desse ponto que começa o pensamento de Schumpeter – uma visão que enfatiza o
lado “burguês” do capitalismo e não o seu aspecto insaciável e voraz.
Para ele este componente burguês era a expressão cultural do empresário racional
e hedonista que ele via como a absoluta antítese do guerreiro fanfarão que
corre atrás de glória. “A evolução do estilo de vida burguês pode ser mais
facilmente e talvez melhor descrita em termos da gênese do traje de passeio”.
Deste modo, na visão de Schumpeter o capitalismo não consegue o importante
ímpeto em sua figura central, o capitalista burguês, mas em um ser marginal, em
um intruso: o empreendedor novo-rico. Marx e Veblen teriam duvidado que
houvesse entre eles alguma diferença, mas ela é crucial para a interpretação do
sistema de Schumpeter. As
implicações da tese de Schumpeter são perturbadoras, não apenas para o
capitalismo, mas também para a economia. O grande valor dos filósofos profanos
não está na habilidade em deduzir a direção para a qual a sociedade estava se
movendo? A economia não se constrói sobre a capacidade de prever – tanto de
forma genérica quanto de forma específica? E o cenário de Schumpeter não
significa que tudo isso agora é passado e que, seja qual for a capacidade
previsão da economia, isso não mais importa? Voltaremos a esta questão decisiva
no último capítulo. Mas ainda não terminamos com a quixotesca figura de
Schumpeter. Ainda falta o último lance de sua história. Veremos que esse lance
acrescenta mais do que um simples insight na biografia de Schumpeter.
Vamos começar refletindo novamente sobre a contradição central da descrição que
Schumpeter faz do capitalismo. Ela resida na justaposição que encontramos em
seu Theory of Economic Development – o capitalismo é retratado como um “fluxo
circular” estático, inerte, imutável e como um sistema apanhado em uma dinâmica
de movimento, uma dinâmica que mais tarde seria chamada de temporal da
destruição criativa. Para
Schumpeter o fluxo circular nos permite apreciar o impacto do trabalho do
empreendedor, não meramente como a força impulsionadora do capitalismo, mas
também como fonte de seu único fluxo de lucros. Mas há um outro modo de
interpretar a estranha justaposição de Schumpeter. Os empreendedores, vamos
recordar, não vêm de nenhuma classe social em especial, são apenas os
possuidores de um talento para a inovação. O “desenvolvimento” capitalista não
é, portanto, intrínseco ao capitalismo como tal. É a dinamização da sociedade
nas mãos de uma elite não capitalista! Schumpeter
novamente dá outra cutucada em Marx, dirigida contra a idéia marxista de uma
força revolucionária do proletariado. “Está tudo errado, o proletariado não
pode ser a força que provoca mudanças porque em virtude de seu grande número
tem que se manter na faixa dos seres humanos normais. Proletários individuais
podem possuir capacidade de liderança, mas a liderança em si só pode ser
ocupada por uma pequena minoria. Por isso que Schumpeter sempre se mostra tão
comedido quanto ao advento do socialismo, pois quem iria então cuidar da
economia gerencial? Isto é
teoria econômica? Não, segundo as concepções convencionais. É melhor
classificada como teoria do movimento histórico. A economia meramente descreve
os meios pelos quais tal movimento ocorre em uma sociedade que recompensa as
habilidades exercidas no mercado em vez de no campo de batalha ou no
púlpito. Assim, Schumpeter emprega seu modelo econômico para dar forma a
uma “visão” mais ampla. O termo é de Schumpeter. Em sua magistral análise do
pensamento econômico, no qual ele trabalhou até a sua morte em 1950, a “visão”
está no centro das coisas. A análise pode ser a grande glória da economia, mas
a análise não nasce pronta na mente de um economista. Há um processo
“pré-analítico” que precede nosso cenários lógicos, um processo do qual não
podemos escapar e que assume de forma inevitável as cores dos nossos mais
íntimos valores e preferências. “O trabalhos analítico... dá corpo à imagem das
coisas como as vemos; onde houver qualquer possível motivo para se desejar vê-las
sob determinada luz, e não sob qualquer outra, o modo com veremos as coisas
dificilmente poderá ser diferente do modo com queremos vê-las.” Assim sendo,
será que a economia é uma ciência visionária – uma análise de mundos que
queremos ver, ou não podemos evitar de ver, em vez de ser uma distante e
objetiva dissecação de um mundo que está “ali” sem ambigüidade? Permanece
um último nó na corda. Lembremos da introdução do jovem Schumpeter no ambiente
de uma escola aristocrática de Viena, onde ele absorveu os valores que viriam a
ser tão importantes em sua vida. Estaremos enganados em ver estes valores
transferidos para sua visão da história na qual uma elite se torna a força
condutora central? Certamente esta elite é a aristocracia, que dá corpo à
crença na superioridade natural dos poucos escolhidos não pelo sangue, mas sim
por “intelecto e vontade”. É, deste modo, uma aristocracia de talento. Esta é a
elite à qual Schumpeter pertence. Assim, o drama da história, tal como
Schumpeter a vê, justifica que não só o capitalismo, como também um grupo
baseia-se em algo mais durável e valioso do que um simples nome ou
nascimento. Portanto, há uma congruência final entre a experiência
pessoal e a visão histórica que desembaraça várias contradições. É
interessante notar que Schumpeter nunca fez palestras sobre suas próprias
teorias, apesar dos pedidos de estudantes e colegas; um estudioso sugeriu que
isto se dava porque ele sentia em última análise suas formulações não eram
adequadas. Não sabemos se ele aspirava ser um grande visionário – o que
certamente foi. Como analista ou visionário, todo mundo que se interessa por
economia deve conhecê-lo não só por causa do que ele realizou dentro da
disciplina, mas também porque nas próprias realizações Schumpeter demonstrou
suas limitações. |
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