EUA sobrevivem à base de intervencionismo

Por muito tempo os "tigres asiáticos'' foram apresentados como o modelo econômico do futuro. Então veio a crise. A reação dos EUA foi que ela demonstrava a superioridade de seu modelo econômico,caracterizado por um duro individualismo e um capitalismo empresarial,assim com a queda do modelo econômico que contempla a intervenção estatal.

Essa posição é absurda.Antes de mais nada, esses foram fracassos do mercado,não do chamado modelo japonês, e podem ser creditados em grande medida à liberalização realizada para abrir os mercados financeiros para o livre fluxo de capitais.

Em segundo lugar, é ridículo falar de um modelo norte-americano caracterizado por um duro individualismo e livre da interferência estatal. O governo de Ronald Reagan foi o mais antimercado da história moderna dos EUA. Duplicou virtualmente as barreiras contra importações para tentar salvar a indústria norte-americana.

Se tivesse aberto os mercados nos anos 80, os produtos japoneses, de qualidade superior, poderiam ter aniquilado as indústrias automobilísticas, de aço e de semicondutores dos Estados Unidos, liquidando a principal base industrial do país.Reagan não apenas levantou as barreiras aduaneiras. Também protegeu a indústria norte-americana e investiu fundos públicos em tecnologia avançada.

Nos anos 70 havia uma grande preocupação com a falta de competitividade das empresas norte-americanas, que estavam perdendo terreno nos mercados mundiais. O Pentágono respondeu com um programa chamado Manufactoring Technology, para projetar o que se denominou de "a fábrica do futuro",com produção integrada,, controle computadorizado de equipamentos e tecnologia flexível. Esse programa foi ampliado por Reagan e finalmente foi entregue à iniciativa privada.

Esse é o duro individualismo dos EUA que se compara ao sistema do Leste asiático, orientado pelo Estado e agora em crise.

Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve( banco central dos Eua), recentemente falou das enormes conquistas do capitalismo de mercado e da capacidade de escolha dos consumidores.

Apresentou uma lista de exemplos,da qual a Internet foi o principal.

Internet, um plano estatal

A internet foi durante 30 anos um programa do Pentágono, cujas iniciativas, "hardware" e tecnologia foram desenvolvidos às expensas do dinheiro público. Depois foi entregue à iniciativa privada. A faculdade de escolha do consumidor foi nula.

O mesmo acontece com os outros exemplos citados par Greenspan: computadores, satélites e transitores,, que inicialmente foram desenvolvidos no âmbito público e depois entregues ao setor privado.

Ao discutir a crise é importante entender que a Ásia não é um lugar homogênio. Taiwan, por exemplo, foi apenas tocada pela crise. E a Coréia do Sul tem uma economia muito sólida, a décima primeira do mundo.

Os países do Leste da Ásia são muito diferentes entre si. A Malásia teve um boom econômico, porém sua economia estava em grande parte em mãos estrangeiras. A Indonésia é um "negócio de família",já que a riqueza da família Suharto e de seus cupinchas é estimada em US$ 30 bilhões, o que equivale ao pacote de ajuda do FMI.

A Tailândia é, por seu lado, um país muito pouco firme, com uma enorme pobreza, onde houve desenvolvimento econômico, porém em bases muito débeis.

Na Coréia do Sul os problemas econômicos estavam estreitamente ligados, segundo muitos analistas, à liberalização forçada dos mercados financeiros. Os EUA pressionaram fortemente a Coréia do Sul para que abrisse seus mercados financeiros, aos quais inicialmente afluiu uma enorme quantidade de capital especulativo, que logo se retirou. Aos sul-coreanos ficou então o papel de "carregar o morto".

Isso aconteceu no anos 80, um período no qual os conglomerados industriais da Coréia do Sul se tornaram mais independentes do controle estatal. Muitos deles, não todos, são bastante corruptos. Pediram empréstimos enormes, que não poderiam pagar. Então tudo caiu, porém sobre uma economia de muito sucesso.

Análise de longo prazo

A mesma coisa é certa no Japão, que desde a restauração Meiji, há cerca de 130 anos, vem tendo a mais alta taxa de crescimente economico do planeta, mesmo tendo em conta a devastação total da Segunda Guerra Mundial. O crescimento dos países na períferia do Japão, principalmente a Coréia do Sul e Taiwan, não tem paralelo na história moderna. Agora se encontram em dificuldades. Porém, não podemos esquecer que a análise sobre os modelos e os processos econômicos somente é válida se, em vez de considerar breves lapsos de tempo, commo se está fazendo atualmente a respeito da crise asiática, enfocar períodos extensos.

Noam Chomsky para a FOLHA DE SÃO PAULO 25/12/1998

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