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prof . v
i c t o r . n a i
n e
25 de outubro de 2006
A concepção
de homem segundo Glauco em A República de Platão
Poderíamos dizer que a concepção de Glauco sobre
a natureza do homem é factual, contingente e fenomênica.
Portanto, já, desde início, podemos observar certa contradição
no seu pensamento: como falar da natureza essencial do homem baseando-se
apenas em fatos passageiros deste ou daquele indivíduo? Mesmo
assim, não podemos deixar de apreciar nem excluir do desenvolvimento
e pesquisa dialéticos o seu poder de observação
da realidade humana e também de argumentação, mesmo
que universalizando sem transcender os fatos.
Encontra-se no Livro II de A República de Platão a discussão
entre Glauco e Sócrates a respeito da justiça: se ela
é proveitosa ou não, e quais os bens que ela pode acarretar
em relação ao indivíduo e à sociedade. No
decorrer desse debate, Glauco deixa clara e distinta a sua posição
com relação isso: o homem é passional, desejoso,
ambicioso e egoísta, tendendo naturalmente à injustiça
ou à justiça quando esta é vantajosa para a sua
pessoa. Mas Glauco não está a tratar ainda do que virá
a ser definido por Platão como a idéia de justiça,
essa universal, mas apenas do que aparenta ser a justiça.
Sócrates, no primeiro
passo do Livro II, buscando uma solução para o problema,
aponta para três tipos de bem: o bem que vale por si, como, p.ex.,
o prazer momentâneo da degustação de um vinho; o
bem que vale pelas conseqüências, como um remédio
amargo que gera benefícios futuros para o corpo; e o bem por
si e pelas conseqüências, como uma fruta, que é saborosa
e ainda faz bem futuro ao corpo. Contra Glauco, Sócrates sustenta
a tese de que o homem tem a capacidade racional de reconhecer valores
para além de bens passionais. Mas reconhece a destreza, a habilidade
de Glauco em descrever o modelo de homem que vê; diz Sócrates
a esse respeito: “Meu caro Glauco! Com que vigor te empenhas em limpar
e avivar, como se fosse uma estátua cada um dos dois homens [o
justo e o injusto], a fim de os submeter a julgamento!” .
Nesse avivar, Glauco sustenta que “a ambição é
coisa que toda a criatura está por natureza disposta a procurar
alcançar como um bem”. E ainda na mesma passagem continua dizendo
que, “por convenção, é forçada a respeitar
a igualdade” . Ou seja, o homem para Glauco é por natureza ambicioso
– como dito – e quando justo, o é por convenção.
E aqui, Glauco adianta o que séculos depois, na idade moderna,
Hobbes chamará de tratado social – uma convenção
necessária para o convívio, porque o homem é o
lobo do homem, e sem esse tratado, o convívio, que interessa
a cada indivíduo, para que outros não cometam injustiças
com um primeiro, não é possível. E é isso
que Glauco fala, em palavras análogas.
Antes disso, Glauco explicita
seu pensamento utilizando o mito de Giges (observemos as alegorias):
um homem encontra dentro de um cavalo de bronze, em baixo da terra,
um defunto possuidor de um corpo maior do que de um homem comum; em
seu dedo reluzia um anel de outro que saltou aos olhos do homem, que
logo o pegou e posteriormente, ao colá-lo, descobre que este
tem o poder de deixá-lo invisível. O homem não
tarda em usar o novo poder para cometer injustiças, o que representa
a téxne do injusto: “o supra-sumo da injustiça
é parecer justo sem o ser”. Para Glauco, “ninguém é
justo por sua vontade, mas forçado, por entender que a justiça
não é um bem para si” , ou é justo, não
moralmente, mas em suas ações para poder tirar proveito
dos outros em situações sociais.
Platão usa diversas
metáforas não à toa: quando diz que Giges encontrou
um cavalo de bronze em baixo da terra com um homem grande dentro, parece
fazer referência ao cavalo da guerra de Tróia, um presente
que vem para destruir a morada; de bronze em baixo da terra, porque
depois chega a dizer que tem homens que nascem do ouro, outros da prata
e outros do bronze – esses últimos relativos aos homens de caráter
mais passionais como afirma Glauco de a única natureza humana;
com um homem aparentemente maior que o comum dentro, o que pode conotar
que na verdade aquele não é um verdadeiro homem e por
isso o modelo de Glauco estaria deturpado; por fim, o nome Giges parece
ter a mesma origem etimológico de giga, que quer dizer grande
ou gigante, e talvez seja uma metáfora relativa ao grande defunto
ou a essa natureza ambiciosa do homem de que fala Glauco.
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i b l i o g r a f i a
PLATÃO. A República. Tradução de
Pietro Nassetti. São Paulo: Ed. Martin Claret, 2006. (Col. A
obra-prima de cada autor). ps. 46, 47, 48
   
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