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v i d a: Aristóteles nasceu em 384 a.C na Macedônia,
filho de um médico da corte do rei Amintas II. Alguns historiadores
acreditam que o próprio Aristóteles chegou a ter alguma
formação médica, o que explicaria seu interesse
pelas pesquisas empíricas. Aos 18 anos se muda para Atenas e
estuda na Academia. Foi discípulo de Platão durante 19
anos. Após a morte do mestre, elabora seu próprio sistema
filosófico a partir de uma crítica à teoria das
idéias. Devemos considerá-los historicamente devido a
que Platão e Aristóteles foram base para duas grandes
vertentes do pensamento filosófico e teológico até
os dias de hoje.
Aristóteles foi preceptor (mestre, mentor) de Alexandre, O Grande.
Mas foi de volta a Atenas que o filósofo funda a sua escola peripatética
(de ‘peripatos’, caminho em grego) chamada Liceu. Era chamada peripatética,
pois era costume as aulas serem lecionadas em caminhadas. Falece em
Cális, 322 a.C.
o
b r a s : Deve-se considerar que as obras de Aristóteles,
ao contrário das obras de Platão, chegaram a nós
por via dos textos esotéricos, ou seja, notas de cursos ministrados
por ele, anotações de alunos, etc., o que explica o caráter
mais sistemático. Depois de sua morte alguns escritos foram parar
na biblioteca de Alexandria. Muitos se perderam. Além da relevância
dos textos, como os da Física, Biologia, Política, Poética,
etc., podemos destacar dois textos que são considerados os mais
grandiosos: a Ética a Nicômaco e a Metafísica.
c
r í t i c a a p l a t ã o: Pode-se começar
a análise de sua filosofia com a crítica que Aristóteles
fez ao seu mestre. A crítica consiste, primeiramente, na rejeição
ao dualismo, representado pela teoria das idéias (vide o Resumo
sobre a filosofia de Platão), o que diz respeito às dificuldades
de se explicar a relação entre o mundo inteligível
(das idéias ou formas) e o mundo sensível (dos corpos,
da matéria). Aristóteles aponta para um ‘paradoxo de relação’.
As relações entre dois conjuntos podem ser internas (AB)
ou externas (A, B). Sendo que essa última necessita de um outro
ponto que sustente a relação (C), o que leva a um processo
de pontos infinitos, que sustentem os anteriores (D, E, F, G,...). Se
a relação entre A e B fosse interna, não haveria
problema, mas não é assim que Aristóteles interpreta
a filosofia do mestre.
a
m e t a f í s i c a: O ponto de partida real de sua metafísica
é o conceito de substância individual das coisas e dos
homens. As substâncias são compostas por matéria
e forma. A matéria é o princípio de individuação
e a forma é a maneira como a matéria se organiza em cada
indivíduo. Um homem é único, mas sua forma é
a espécie humana, que é universal para todos os seres
humanos. O dualismo platônico está, agora, no indivíduo,
mas como o nome já diz (indivíduo, ‘indiviso’, que não
se divide), matéria e forma são indissociáveis
em cada ser. A matéria só existe possuinte da forma e
vice-versa. Assim, não existem formas separadas e puras, como
no mundo das idéias de Platão. É apenas o intelecto
humano que, por abstração, separa as realidades para conhecê-las.
Portanto, não existe ‘o homem’ ou ‘o cavalo’, por exemplo.
Para entender sua metafísica é preciso compreender os
conceitos das teorias do ser e da causalidade. Aristóteles busca
superar os impasses entre o monismo de Parmênides e o devir de
Heráclito (vide o Resumo sobre a filosofia Pré-Socrática).
Contra Parmênides, Aristóteles defende a pluralidade composta
de indivíduos. As qualidades, quantidades, relações
dependem da substância individual.
O filósofo afirma
que o “ser se diz de várias formas” e que os pré-socráticos
não compreenderam isso. Um problema conceitual está no
próprio verbo ‘ser’ (em grego einai). Exemplos: “Sócrates
é sábio” (uso predicativo); diferente de “Sócrates
é (existente)” (uso existencial); diferente de “Sócrates
é Sócrates” (uso de identidade, o que nada acrescenta
ao conhecimento).
Para elucidar sua teoria
do ser é preciso conhecer os seus conceitos fundamentais:
Essência e acidente: a essência é aquilo que faz
com que a coisa seja; o que é; o que subjaz; o que suporta os
predicados. Por isso os latinos traduziram o termo grego ousia por substantia
(substância). Os acidentes são as características
mutáveis da coisa, o que explica a mudança, sem afetar
a natureza essencial (Heráclito-Parmênides). “Sócrates
é humano”, isso é essencial, mas “Sócrates é
feio” é uma natureza acidental.
Necessidade e contingência:
o essencial é necessário e o acidental é contingente.
No exemplo, “Sócrates é [necessariamente] humano”, mas
“é [contingentemente] feio”. Sócrates poderia não
ser feio, ou poderia deixar de ser feio (ser ou não ser), mas
não poderia deixar de ser humano em nenhuma hipótese.
Ato e potência:
permite explicar a mudança no que é essencial. Uma maçã
verde, por exemplo, é atualmente verde ou em ato é verde;
mas potencialmente é vermelha ou em potência é vermelha,
madura. Deve-se compreender também que potencialidade é
diferente de possibilidade.
Para elucidar sua teoria
da causalidade é preciso conhecer os seus conceitos fundamentais:
Causa formal: “O que
é?” – Trata da forma sem o conteúdo, da essência
da coisa. Exemplo: o homem.
Causa material: “De que
é feito?” – Trata da matéria, do conteúdo da coisa.
Exemplo: aquele homem, composto de ossos, músculos, etc.
Causa eficiente: “Por
que isso é?”; “Quem fez?” – Trata da fonte primária para
que a coisa seja.
Causa final: “Para que?”
– Trata da finalidade da coisa, qual seu fim, seu propósito?
É por essa tese que a filosofia aristotélica é
chamada de teleológica (telos, fim, finalidade em grego). Toda
a realidade tem um propósito de ser.
A divisão do conhecimento:
O conhecimento se divide em prático (praxis), produtivo (poiesis)
e teórico. Sendo que esse último é subdividido
na física (estudo das coisas naturais), matemática (estudo
da quantidade, do número) e a filosofia primeira (proté
philosophia).
É o saber teórico
que constitui a ciência como conhecimento da realidade; e a metafísica
a que estuda o ente enquanto ente [chamou-se posteriormente de ontologia
(onto, ente)] que trata da ciência mais geral possível
do ser das coisas e também estuda a parte teológica, para
provar qual é a causa primeira de todas as coisas e qual a natureza
dessa realidade, chamada Deus (Theos).
A metafísica,
segundo o especialista Giovanni Reale, é entendida em quatro
sentidos:
I. Como arqueologia (de a??? (arkhé), princípio) ou etiologia
(de aitia, causa): que busca as causas primeiras e os primeiros princípios;
II. Como ontologia: a discussão do ente enquanto ente, do que
consiste a coisa enquanto o que é mais universal e real;
III. Como substância (ousia): ao qual todos os outros remetem;
IV. Como teologia: a ciência do Ser Perfeito, Imóvel –
Deus.
A física natural
pode ser entendida enquanto o estudo de tudo o que é material
de forma geral; enquanto biologia, estudos dos entes vivos; e enquanto
psicologia (de psykhé, alma), que trata propriamente da natureza
do homem, ou seja, o que o anima (do latim anima, alma) – trata das
sensações, das paixões, da memória, dos
sonhos, sobre a razão e o sobre intelecto.
O saber prático
é o que inclui a política e a ética, que são
práticas, não se tratam de um conhecimento puramente teórico,
pois a finalidade é a ação correta e eficaz e não
a operação do intelecto (o que é prévio).
A ética é o estudo das virtudes ou da excelência
(areté) do homem enquanto ser moral, ou seja, que possui a faculdade
(ou potência) de querer, de eleger, de escolher. Nas definições
e palavras de Aristóteles: “Nosso objetivo é tornar-nos
homens bons, ou alcançar o grau mais elevado do bem humano. Este
bem é a felicidade; e a felicidade consiste na atividade da alma
de acordo com a virtude”, que defini-se, “virtude é um hábito
operativo bom” (Ética a Nicômaco, I), e complementa-se:
“a virtude é o que está no meio”, ou seja, na moderação
dos bens, na prudência (sophrosine). O corajoso, p.ex., é
o homem que está entre o medo excessivo e a temeridade, ou iniciativa
de risco a qualquer custo. A virtude é o próprio saber
ético-prático; e a política é aquela que,
conseqüentemente, se fundamenta nos preceitos éticos.
Há também
o saber produtivo. Trata-se da estética (de aithesis, sentidos),
que são as artes produtivas ou criativas, como a poética
(de poiesis). Aqui Aristóteles trata da tragédia grega
como a que produz no homem a catarsis, que tem um caráter purificador,
pois o teatro tem um papel de imitação da vida real (mímeses)
e, propriamente a tragédia, pode fazer com que os espectadores
tenham vivências indiretas fazendo com que isso os leve ao amadurecimento.
Por último deve-se
conhecer a lógica, que constitui um saber instrumental e metodológico,
para dar rigor ao discurso e à maneira de pensar cientificamente.
Não se inclui nos parâmetros do conhecimento propriamente,
pois qualquer forma de conhecer supõe uma certa lógica.
Mas para conhecer bem o discurso e desenvolver-se para chegar as verdades,
é preciso um critério rigoroso, proposto pelo filósofo.
Um dos principais meios lógicos é o silogismo, que pode
ser bem representado com um exemplo clássico da história
da lógica: “Todo homem é mortal; Sócrates é
homem; logo, Sócrates é mortal”. Se há validade
na primeira premissa (todo homem é mortal) em relação
a segunda (Sócrates é homem) é impossível
chegar a outra conclusão (logo, Sócrates é mortal),
o que não garante a verdade, nem das premissas, nem da conclusão,
mas a validade. A verdade é dada por outros meios.
Conclusão: Pode-se
notar que o processo do conhecimento aristotélico é mais
linear que o de Platão, pois não há rupturas nem
desvio (como na caverna). Passo a passo, dialeticamente, desde o primeiro
conhecimento mais simples, vai se chegando ao conhecimento de todas
as coisas, pressupondo o anterior:
Sensação
(aithesis) > memória (mnemósine) > experiência
(empeiria) > arte, técnica (téchne) > ciência,
conhecimento (episteme).
A filosofia, portanto,
consiste numa ciência mais elevada, que se inicia nos sentidos,
mas transcende-os. Trata-se do conhecimento das causas primeiríssimas
e mais universais de todas as coisas, que sustente as demais formas
do conhecimento.
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i b l i o g r a f i a
MARCONDES, Danilo. Iniciação à história
da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein.
   
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