: : v i c t o r . n a i n e . a r i s t ó t e l e s
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prof . v i c t o r . n a i n e
v i d a:
Aristóteles nasceu em 384 a.C na Macedônia, filho de um médico da corte do rei Amintas II. Alguns historiadores acreditam que o próprio Aristóteles chegou a ter alguma formação médica, o que explicaria seu interesse pelas pesquisas empíricas. Aos 18 anos se muda para Atenas e estuda na Academia. Foi discípulo de Platão durante 19 anos. Após a morte do mestre, elabora seu próprio sistema filosófico a partir de uma crítica à teoria das idéias. Devemos considerá-los historicamente devido a que Platão e Aristóteles foram base para duas grandes vertentes do pensamento filosófico e teológico até os dias de hoje.
Aristóteles foi preceptor (mestre, mentor) de Alexandre, O Grande. Mas foi de volta a Atenas que o filósofo funda a sua escola peripatética (de ‘peripatos’, caminho em grego) chamada Liceu. Era chamada peripatética, pois era costume as aulas serem lecionadas em caminhadas. Falece em Cális, 322 a.C.

o b r a s : Deve-se considerar que as obras de Aristóteles, ao contrário das obras de Platão, chegaram a nós por via dos textos esotéricos, ou seja, notas de cursos ministrados por ele, anotações de alunos, etc., o que explica o caráter mais sistemático. Depois de sua morte alguns escritos foram parar na biblioteca de Alexandria. Muitos se perderam. Além da relevância dos textos, como os da Física, Biologia, Política, Poética, etc., podemos destacar dois textos que são considerados os mais grandiosos: a Ética a Nicômaco e a Metafísica.

c r í t i c a a p l a t ã o: Pode-se começar a análise de sua filosofia com a crítica que Aristóteles fez ao seu mestre. A crítica consiste, primeiramente, na rejeição ao dualismo, representado pela teoria das idéias (vide o Resumo sobre a filosofia de Platão), o que diz respeito às dificuldades de se explicar a relação entre o mundo inteligível (das idéias ou formas) e o mundo sensível (dos corpos, da matéria). Aristóteles aponta para um ‘paradoxo de relação’. As relações entre dois conjuntos podem ser internas (AB) ou externas (A, B). Sendo que essa última necessita de um outro ponto que sustente a relação (C), o que leva a um processo de pontos infinitos, que sustentem os anteriores (D, E, F, G,...). Se a relação entre A e B fosse interna, não haveria problema, mas não é assim que Aristóteles interpreta a filosofia do mestre.

a m e t a f í s i c a: O ponto de partida real de sua metafísica é o conceito de substância individual das coisas e dos homens. As substâncias são compostas por matéria e forma. A matéria é o princípio de individuação e a forma é a maneira como a matéria se organiza em cada indivíduo. Um homem é único, mas sua forma é a espécie humana, que é universal para todos os seres humanos. O dualismo platônico está, agora, no indivíduo, mas como o nome já diz (indivíduo, ‘indiviso’, que não se divide), matéria e forma são indissociáveis em cada ser. A matéria só existe possuinte da forma e vice-versa. Assim, não existem formas separadas e puras, como no mundo das idéias de Platão. É apenas o intelecto humano que, por abstração, separa as realidades para conhecê-las. Portanto, não existe ‘o homem’ ou ‘o cavalo’, por exemplo.
Para entender sua metafísica é preciso compreender os conceitos das teorias do ser e da causalidade. Aristóteles busca superar os impasses entre o monismo de Parmênides e o devir de Heráclito (vide o Resumo sobre a filosofia Pré-Socrática). Contra Parmênides, Aristóteles defende a pluralidade composta de indivíduos. As qualidades, quantidades, relações dependem da substância individual.

O filósofo afirma que o “ser se diz de várias formas” e que os pré-socráticos não compreenderam isso. Um problema conceitual está no próprio verbo ‘ser’ (em grego einai). Exemplos: “Sócrates é sábio” (uso predicativo); diferente de “Sócrates é (existente)” (uso existencial); diferente de “Sócrates é Sócrates” (uso de identidade, o que nada acrescenta ao conhecimento).

Para elucidar sua teoria do ser é preciso conhecer os seus conceitos fundamentais:
Essência e acidente: a essência é aquilo que faz com que a coisa seja; o que é; o que subjaz; o que suporta os predicados. Por isso os latinos traduziram o termo grego ousia por substantia (substância). Os acidentes são as características mutáveis da coisa, o que explica a mudança, sem afetar a natureza essencial (Heráclito-Parmênides). “Sócrates é humano”, isso é essencial, mas “Sócrates é feio” é uma natureza acidental.

Necessidade e contingência: o essencial é necessário e o acidental é contingente. No exemplo, “Sócrates é [necessariamente] humano”, mas “é [contingentemente] feio”. Sócrates poderia não ser feio, ou poderia deixar de ser feio (ser ou não ser), mas não poderia deixar de ser humano em nenhuma hipótese.

Ato e potência: permite explicar a mudança no que é essencial. Uma maçã verde, por exemplo, é atualmente verde ou em ato é verde; mas potencialmente é vermelha ou em potência é vermelha, madura. Deve-se compreender também que potencialidade é diferente de possibilidade.

Para elucidar sua teoria da causalidade é preciso conhecer os seus conceitos fundamentais:

Causa formal: “O que é?” – Trata da forma sem o conteúdo, da essência da coisa. Exemplo: o homem.

Causa material: “De que é feito?” – Trata da matéria, do conteúdo da coisa. Exemplo: aquele homem, composto de ossos, músculos, etc.

Causa eficiente: “Por que isso é?”; “Quem fez?” – Trata da fonte primária para que a coisa seja.

Causa final: “Para que?” – Trata da finalidade da coisa, qual seu fim, seu propósito? É por essa tese que a filosofia aristotélica é chamada de teleológica (telos, fim, finalidade em grego). Toda a realidade tem um propósito de ser.

A divisão do conhecimento: O conhecimento se divide em prático (praxis), produtivo (poiesis) e teórico. Sendo que esse último é subdividido na física (estudo das coisas naturais), matemática (estudo da quantidade, do número) e a filosofia primeira (proté philosophia).

É o saber teórico que constitui a ciência como conhecimento da realidade; e a metafísica a que estuda o ente enquanto ente [chamou-se posteriormente de ontologia (onto, ente)] que trata da ciência mais geral possível do ser das coisas e também estuda a parte teológica, para provar qual é a causa primeira de todas as coisas e qual a natureza dessa realidade, chamada Deus (Theos).

A metafísica, segundo o especialista Giovanni Reale, é entendida em quatro sentidos:
I. Como arqueologia (de a??? (arkhé), princípio) ou etiologia (de aitia, causa): que busca as causas primeiras e os primeiros princípios;
II. Como ontologia: a discussão do ente enquanto ente, do que consiste a coisa enquanto o que é mais universal e real;
III. Como substância (ousia): ao qual todos os outros remetem;
IV. Como teologia: a ciência do Ser Perfeito, Imóvel – Deus.

A física natural pode ser entendida enquanto o estudo de tudo o que é material de forma geral; enquanto biologia, estudos dos entes vivos; e enquanto psicologia (de psykhé, alma), que trata propriamente da natureza do homem, ou seja, o que o anima (do latim anima, alma) – trata das sensações, das paixões, da memória, dos sonhos, sobre a razão e o sobre intelecto.

O saber prático é o que inclui a política e a ética, que são práticas, não se tratam de um conhecimento puramente teórico, pois a finalidade é a ação correta e eficaz e não a operação do intelecto (o que é prévio). A ética é o estudo das virtudes ou da excelência (areté) do homem enquanto ser moral, ou seja, que possui a faculdade (ou potência) de querer, de eleger, de escolher. Nas definições e palavras de Aristóteles: “Nosso objetivo é tornar-nos homens bons, ou alcançar o grau mais elevado do bem humano. Este bem é a felicidade; e a felicidade consiste na atividade da alma de acordo com a virtude”, que defini-se, “virtude é um hábito operativo bom” (Ética a Nicômaco, I), e complementa-se: “a virtude é o que está no meio”, ou seja, na moderação dos bens, na prudência (sophrosine). O corajoso, p.ex., é o homem que está entre o medo excessivo e a temeridade, ou iniciativa de risco a qualquer custo. A virtude é o próprio saber ético-prático; e a política é aquela que, conseqüentemente, se fundamenta nos preceitos éticos.

Há também o saber produtivo. Trata-se da estética (de aithesis, sentidos), que são as artes produtivas ou criativas, como a poética (de poiesis). Aqui Aristóteles trata da tragédia grega como a que produz no homem a catarsis, que tem um caráter purificador, pois o teatro tem um papel de imitação da vida real (mímeses) e, propriamente a tragédia, pode fazer com que os espectadores tenham vivências indiretas fazendo com que isso os leve ao amadurecimento.

Por último deve-se conhecer a lógica, que constitui um saber instrumental e metodológico, para dar rigor ao discurso e à maneira de pensar cientificamente. Não se inclui nos parâmetros do conhecimento propriamente, pois qualquer forma de conhecer supõe uma certa lógica. Mas para conhecer bem o discurso e desenvolver-se para chegar as verdades, é preciso um critério rigoroso, proposto pelo filósofo. Um dos principais meios lógicos é o silogismo, que pode ser bem representado com um exemplo clássico da história da lógica: “Todo homem é mortal; Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal”. Se há validade na primeira premissa (todo homem é mortal) em relação a segunda (Sócrates é homem) é impossível chegar a outra conclusão (logo, Sócrates é mortal), o que não garante a verdade, nem das premissas, nem da conclusão, mas a validade. A verdade é dada por outros meios.

Conclusão: Pode-se notar que o processo do conhecimento aristotélico é mais linear que o de Platão, pois não há rupturas nem desvio (como na caverna). Passo a passo, dialeticamente, desde o primeiro conhecimento mais simples, vai se chegando ao conhecimento de todas as coisas, pressupondo o anterior:

Sensação (aithesis) > memória (mnemósine) > experiência (empeiria) > arte, técnica (téchne) > ciência, conhecimento (episteme).

A filosofia, portanto, consiste numa ciência mais elevada, que se inicia nos sentidos, mas transcende-os. Trata-se do conhecimento das causas primeiríssimas e mais universais de todas as coisas, que sustente as demais formas do conhecimento.


: : b i b l i o g r a f i a
MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein.


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