: : : AMAPE ESPECIAL ECOLOGIA : : :


Desde o início da Revolução Industrial, jogamos 271 bilhões de toneladas de carbono na atmosfera e criamos outros poluentes, que continuam maculando o ar, a terra e a água. Está na hora de outra revolução por Rui Dantas Os cientistas ambientais estão chegando a alarmantes conclusões sobre a poluição na Terra. Centros urbanos e industriais produzem cada vez mais gases estufa, com a queima de combustíveis fósseis, e muitas fábricas continuam derramando resíduos tóxicos nas bacias hidrográficas. Grandes queimadas colaboram para agredir o equilíbrio do planeta – por sinal, em duas frentes: destruindo a floresta e entupindo a atmosfera com gás carbônico. Baterias e pilhas disseminam a contaminação do solo, da água e também do ar, já que são acomodadas em lixões e depois incineradas. A mineração, que utiliza mercúrio para a lavagem das pedras, espalha seu refugo em rios e riachos, contaminando as águas e, conseqüentemente, peixes, plantas e daí todo o ecossistema. Oitenta por cento da poluição nas grandes cidades vem do escapamento de veículos. Os 20% restantes cabem a outras fontes poderosas, como as fábricas e os incineradores de lixo. O gás carbônico – que, por incrível que pareça, não faz mal ao homem – é o maior responsável pelas variações do efeito estufa e daí, muito provavelmente, pelas mudanças radicais no clima do planeta. Ocorre que o mundo sempre teve grandes emissões desse gás por conta de queimadas naturais, da atividade dos vulcões, da excreção humana e da decomposição de materiais orgânicos. Digamos que, até aí, tudo bem. O problema é que, com a queima de combustíveis fósseis, como o petróleo e o carvão, as emissões de gás carbônico estão atingindo níveis aterradores. Segundo dados do Oak Ridge National Laboratory, citados no livro Estado do Mundo, do Worldwatch Institute, desde o início da Revolução Industrial, em 1751, cerca de 271 bilhões de toneladas de carbono foram jogadas na atmosfera. Nos últimos 50 anos, somente os Estados Unidos emitiram em torno de 186 bilhões de toneladas do poluente. Como resultado dessa ação contínua, a natureza pode entrar em desequilíbrio e o efeito estufa – que, em sua essência, é benéfico e deveria colaborar para manter agradável o ambiente na Terra – pode ter efeitos devastadores. Neste século, se nada for feito para minimizar o problema, estima-se que a temperatura do planeta suba até 6 graus Celsius. Os cientistas divergem sobre os efeitos desse salto nos termômetros. Há correntes que acreditam que essa variação não aquecerá o ecossistema, uma vez que, com a abundância de gás carbônico, o fitoplâncton (vegetação marinha) terá mais alimento e, assim, produzirá mais oxigênio. A maior parte da comunidade científica, porém, acha que estamos em maus lençóis. O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), um fórum de discussão da Organização das Nações Unidas que aconteceu em fevereiro, na Holanda, fez previsões pouco animadoras acerca da poluição e do aquecimento global, prevendo degelo nos pólos, enchentes, erosão e secas. “O impacto das atividades humanas sobre o clima do planeta nas próximas décadas deveria ser o suficiente para convencer os governos sobre a importância da implementação do Protocolo de Kyoto”, diz o diretor de campanhas da seção brasileira do Greenpeace, Délcio Rodrigues. Em linhas gerais, esse acordo determina que nações desenvolvidas, como Japão, Inglaterra, Canadá e França, devem reduzir as emissões de CO2 até 2012. Os Estados Unidos – país que tem 4% da população da Terra, mas emite 25% de todo os gases que interferem no efeito estufa – não aceita o tratado. O QUE PODE SER FEITO A saída definitiva é uma só: parar de poluir. Mas isso é um sonho distante, já que a economia mundial está calçada em processos poluidores, herança de um tempo em que o meio ambiente não entrava em nossa lista de preocupações. Será preciso que, aos poucos, mudemos o foco de nossas pesquisas, redirecionando investimentos para tecnologias e modos de produção que não comprometam a saúde do planeta – e, por extensão, a nossa. Felizmente, essa revolução está em curso. Em vários países, mas principalmente na Europa, mais e mais pessoas lêem os rótulos do que compram nos supermercados para saberem se, durante sua produção, a natureza foi respeitada. A demanda por carros ecologicamente corretos, é grande o bastante para fomentar movimentação entre os grandes fabricantes. A Ford, a GM, a BMW e a DaimlerChrysler, entre outras, têm protótipos de automóveis e ônibus elétricos ou movidos a hidrogênio líquido. Ou seja, é razoável pensar que, sim, a economia mundial pode convergir em novas e surpreendentes tecnologias não poluidoras sem abrir mão de seus princípios capitalistas. E que, de certa forma, ainda que apenas como consumidores – exigindo carros sem fumaça ou selos de comprometimento ambiental nas embalagens de margarina –, podemos amenizar ou até reverter o processo de degradação do planeta. Tudo isso, entretanto, vai levar muito tempo. Por hora, podemos começar reduzindo drasticamente a combustão de compostos fossilizados, como a gasolina e o diesel, e até mesmo dos recursos renováveis, como o álcool (que, ao contrário do que se pensa, também polui). Américo Sansigolo Kerr, professor da disciplina que estuda a poluição no Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF/USP), acha que várias decisões devem ser tomadas simultaneamente. A primeira – e mais óbvia – é a priorização dos transportes coletivos nas grandes cidades, o que teria como efeito subseqüente a redução dos transportes individuais. A ênfase deveria ser dada a metrôs, tróleibus e bondes. Como tudo isso demanda investimentos pesados, em países como o Brasil o professor sugere a difusão de corredores de ônibus, opção menos cooperativa com o ambiente, mas possível de ser implantada a curto prazo. Para transporte de longas distâncias, teríamos de usar mais ferrovias e hidrovias, menos poluidoras do que rodovias. Outra sugestão é criar cinturões agrícolas nas áreas periféricas das capitais, para evitar que caminhões ganhem a estrada em longas jornadas, espalhando sujeira na atmosfera. Entram ainda na lista de tarefas a implantação da coleta seletiva de lixo nos centros urbanos e a construção de usinas de compostagem e de energia biotérmica, iniciativas que acabariam minando o uso dos incineradores – uma tremenda fonte de poluição nos países em desenvolvimento. O uso de pesticidas, que poluem o ar e a água, também poderia ser dramaticamente reduzido se houvesse mais diversidade nas espécies cultivadas, uma vez que as pragas tendem a atacar as áreas de monocultura. “Alguém já viu uma floresta, com suas milhares de espécies vivendo juntas, ser destruída por pragas?”, pergunta o professor Kerr. Por último, mas não menos importante, a população mundial precisa reduzir seu consumo de energia – seja ela qual for. Em vários países é comum a queima de combustíveis ou de carvão para o fornecimento de energia elétrica e, até que esses fundamentos sejam revistos, as pessoas fariam bem em aprender a gastar o mínimo possível de eletricidade. Mesmo onde há supremacia de fontes hidrelétricas, como no Brasil, é necessário considerar as diversas relações poluidoras de todo o sistema. Levando essa idéia de contenção ao extremo, podemos concluir que todo e qualquer tipo de consumo produz, de alguma forma, um tipo ou mais de poluição. Claro, queremos continuar andando de carro, queremos vestir roupas que nos façam sentir bem e, sempre que possível, ir ao cinema e comer pipoca. Mas uma atitude individual menos pautada em excessos e mais sintonizada em necessidades reais seria bastante bem-vinda. A Terra ficaria grata, eternamente grata. CENÁRIO NEGATIVO Os Estados Unidos atrasam sua parte no processo de descarbonização e os outros países também não alcançam as metas desejadas. As implicações da poluição no efeito estufa se confirmam, gerando uma sucessão impressionante de catástrofes naturais. CENÁRIO POSITIVO A demanda por produtos ecologicamente corretos estimula a busca de novas matérias-primas e tecnologias não-poluidoras. Descarbonizada e readaptada, a economia mundial torna-se mais próspera e menos agressiva ao meio ambiente. Até Cubatão tem chances O carro do futuro já existe Buraco no ozônio pode aumentar As Bruxas da Petrobrás

 

 
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