Está na hora de
entender que equilíbrio com a natureza não é coisa apenas de
ambientalistas: ou fazemos todos juntos o que precisa ser
feito, ou o planeta resolve as coisas à sua
maneira
por Eugênio
Mussak
Nosso planeta tem cerca de 4,6 bilhões de anos.
Nossa galáxia, a Via Láctea, teria surgido da Grande Explosão
– o Big Bang – há 15 bilhões de anos, e os protoplanetas do
sistema solar começaram a se formar há cinco bilhões de anos,
a partir da condensação do material da monumental nebulosa
formada em torno do Sol.
A atração gravitacional das
partículas que formaram a Terra acabou por criar uma massa
extremamente quente. Quando terminou o estoque de pó estelar,
o planeta parou de crescer e começou a esfriar. Já esfriou o
suficiente para permitir a vida, mas só na superfície, a
chamada crosta, que tem, no máximo, 50 quilômetros de
espessura. Abaixo dela está o manto, que ainda é rocha quente,
comprimida, e que tem mais de 3 000 quilômetros de espessura,
antes do núcleo, que tem também os seus 3 000 quilômetros. O
interior do manto pode atingir temperaturas superiores a 4 000
graus Celsius. De todas as aventuras imaginadas por Júlio
Verne, como a chegada do homem à Lua e ao fundo do mar, a
única que seria impossível é justamente a viagem ao centro da
Terra. Vivemos, portanto, em uma casquinha de maçã, a crosta
terrestre, que começou a esfriar há cerca de três bilhões de
anos, o que permitiu a formação dos primeiros mares
primitivos, que, rapidamente, se transformaram em uma sopa de
material orgânico, capaz de originar as primeiras formas de
vida, como as bactérias e as algas azuis.
A seqüência
de acontecimentos a partir de então forma a intrigante e
maravilhosa trama da evolução. A espécie evoluiu através do
que foi explicado por Darwin, a seleção natural, que
privilegia os mais adaptados em detrimento daqueles
considerados inaptos às variações do meio ambiente. Mas e o
salto de uma espécie para formar outra? Quem explica?
Precisamos de mais tempo para pesquisar, aprender e explicar.
“Tudo o que acontecer com a
terra acontecerá com os filhos da terra. Se os homens
cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos”, disse
o chefe Seattle
Sabemos que a maior parte da história natural foi
dominada por seres inferiores, os invertebrados. Animais com
coluna vertebral começaram a aparecer apenas no período
Siluriano, há cerca de 400 milhões de anos, com os primeiros
peixes. No Carbonífero, há 300 milhões de anos, os anfíbios
iniciaram sua aventura terrestre. Deles vieram os répteis. Há
cerca de 150 milhões de anos, no Jurássico, viveram os famosos
dinossauros.
Os primatas surgiram há 50 milhões de
anos e o primeiro hominídeo há cinco milhões. O
Australopitecus tem cerca de dois milhões de anos, o Homo
erectus um milhão, o homem de Neandertal 250 000, e,
finalmente, o Homo sapiens, nossa espécie, não mais que 40 000
anos. Nossa idade na Terra, portanto, comparada com a
verdadeira história natural, chega a ser humilhante, tão
recentes somos. Isso nos leva a outra reflexão. Como, então,
se somos tão insignificantes, conseguimos dominar outras
espécies e reinar sobre o planeta, ditando as leis de vida e
de morte sobre a biosfera?
A explicação é um capricho
da natureza: nossa incrível capacidade cerebral. Enquanto o
Australopitecus tinha um crânio com cerca de 700 centímetros
cúbicos e o do Homo erectus tinha 1 000, o nosso pode chegar a
2 000 centímetros cúbicos. Maior continente permitiu maior e
mais sofisticado conteúdo – ou vice-versa! Um cérebro
pensante, capaz de compreender os mistérios da natureza, de
criar comunicação sofisticada, de escrever música e poesia, e
de inventar e reinventar tecnologia.
Foi com ele que
criamos a escrita e registramos a história. Escrevemos
romances, explicando a comédia humana. Rabiscamos poemas,
dando voz ao espírito. Interpretamos as mensagens da natureza
e produzimos as ciências. Reescrevemos as leis naturais e as
transformamos em tecnologia. Construímos conforto, velocidade,
transmissão da imagem e do som a distância, desprezando
totalmente o tempo. A inteligência nos diferencia dos animais
e, de certa forma, nos aproxima dos deuses.
Agora,
porém, estamos diante do grande paradoxo do cérebro humano.
Ele é a maravilha das maravilhas, mas tem defeitos de
fabricação. Por exemplo, não lida bem com o tempo.
Considera-se eterno. Não percebe a conseqüência de seus atos
predatórios para as gerações que estão vindo e continuarão a
vir. Vivemos porque nosso corpo vive. E ele é constituído
de mais de 70% de água. Assim como a água-viva, que, às vezes,
nos queima na praia e que tem 98% de água e só 2% de matéria
orgânica, nós somos profundamente dependentes da água do
planeta. E da água doce, que corresponde a cerca de 2,7% do
total da água da Terra. Desse volume, a maior parte está
retida no gelo da Antártida, na calota polar norte, na
Groenlândia e nas geleiras das montanhas.
É quase
inacreditável, mas menos de 1% da água do planeta está
disponível para uso humano, na forma de rios, lagos, lençóis
freáticos e, claro, de chuva. Ainda é bastante água, porém
três questões importantes devem ser consideradas. Primeiro,
sua disposição, que é extremamente irregular no planeta –
cerca de 1,5 bilhão de pessoas não têm acesso regular à água.
Segundo, a redistribuição das chuvas, provocada pelos
desmatamentos e outras agressões do homem. Terceiro, e
patético, a desproporção entre nossa capacidade poluidora e o
controle que temos sobre essa poluição.
“Se não
possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível
vendê-los? Essa idéia me parece estranha”, disse o chefe
Seattle quando, em 1854, o presidente americano fez uma
proposta de compra de seu território. “Somos parte da terra e
ela é parte de nós. Os picos rochosos, os sulcos úmidos nas
campinas, o calor do corpo do potro e o homem – todos
pertencem à mesma família”, continuou, demonstrando um
conhecimento antecipado dos ciclos da matéria. “Tudo o que
acontecer com a terra acontecerá com os filhos da terra. Se os
homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos. Isso
sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence à
terra...”. A carta do velho índio transformou-se no mais
pungente documento de consciência ecológica jamais escrito.
Impressiona pela lucidez, especialmente por ter sido escrito
em meados do século 19, quando a palavra ecologia nem havia
sido inventada.
“Da alga microscópica ao
imponente pinheiro dos planaltos do sul, todos os
vegetais são capazes de uma
mágica”
“...
O homem e a terra são da mesma matéria...” Acerto científico.
Nosso corpo é 23% carbono. De onde ele vem? Do ar, de onde é
capturado pelos vegetais, que o repassam para nós, que o
devolvemos pela respiração. Um átomo de carbono de uma célula
de nosso cérebro pode ter pertencido, há milhões de anos, ao
epitélio da cauda de um dinossauro. É o mesmo, que não se
perde, não se cria, só se recicla.
Os elementos
químicos, os compostos, como a água, e até a energia
necessária para que a vida se processe, pertencem a ciclos. Se
o ciclo for interrompido em algum lugar, inviabiliza a
continuidade do ciclo e a própria vida. O nitrogênio,
principal componente do ar que respiramos, só chega até nós
porque bactérias do solo são capazes de capturá-lo e depois
entregá-lo a alguns vegetais – principalmente as leguminosas,
como o feijão e a soja – que, com ele, sintetizam proteínas,
que nós comemos. Ou comemos a carne de algum animal que as
comeu. Quando queimamos o solo, matamos as bactérias que
absorvem o nitrogênio, interrompendo o ciclo. E aí vamos ter
que fazer correções – caso contrário a natureza as faz e da
maneira que lhe for mais conveniente.
A transferência
da energia é ainda mais fascinante. Qualquer plantinha, da
alga microscópica do mar ao imponente pinheiro dos planaltos
do sul, todos os vegetais são capazes de uma mágica. Reagem
duas substâncias abundantes, a água e o dióxido de carbono. O
carbono separa-se do oxigênio e liga-se à água, dando origem a
uma molécula orgânica, chamada carboidrato, e a uma molécula
de oxigênio livre, que é devolvida para a atmosfera,
possibilitando nossa respiração. Resumidamente:
H2O + CO2 CH2O + O2
Essa reação, que qualquer escolar conhece,
chama-se fotossíntese. Foto, porque só pode acontecer na
presença da luz, especialmente a solar. Síntese, porque
termina por sintetizar (produzir) algum material orgânico, no
caso, uma molécula de carboidrato (CH2O – carbono mais água).
E é aí que reside a mágica – ou milagre. Nessa simples
molécula, o vegetal tem a capacidade de armazenar a luz, que
veio do Sol, em forma de energia química. Quando nós comemos a
planta, ou comemos a carne do animal que a comeu, estamos
recebendo essa molécula energética. Fazemos, então, a reação
contrária. Reagimos o carboidrato com o oxigênio (por isso
respiramos), reconstituindo a água, que sairá pela urina e
pelo suor, e o gás carbônico, que sairá pela respiração,
liberando finalmente aquela energia armazenada.
Em
suma, se nós vivemos, estamos gastando energia. Qualquer ato
fisiológico em nosso corpo depende de energia. Se estamos
escrevendo, pensando, se o nosso coração bate, estamos
gastando energia. Quando lemos, respiramos, mantemos a
temperatura do corpo em 36 graus Celsius, consumimos energia.
E de onde vem essa energia toda? Só de um lugar: do Sol!
Através dos fenômenos ao mesmo tempo complexos e simples, que
são a fotossíntese e o seu oposto, liberador de energia, a
respiração celular. Para algumas pessoas, é mais fácil ver
Deus nessas reações da natureza do que nas grandes
catedrais.
Quando lemos os grandes clássicos, ou a
filosofia dos gregos, ou os livros religiosos, ou os tratados
de psicologia, ou a poesia contemporânea, encontramos, como
pano de fundo, sempre o mesmo dilema: a busca da felicidade
pelo homem e a sua total incompetência em encontrá-la. Hoje
temos o auxílio da ciência, para nos ajudar a entender melhor
a natureza humana, suas ambições e suas ansiedades. Não é
razoável acreditar que a simples observação do que é natural,
ou normal, ao nosso redor, pode ajudar a nos compreendermos
melhor? A paciência dos ciclos naturais. O tempo certo para
cada reação química acontecer, para cada folha cair, para cada
flor nascer, para cada broto surgir e cada árvore morrer. Como
despoluiremos o rio? Parando de poluir. Como salvaremos o
planeta? Parando de ameaçá-lo. No caminho, quem sabe,
entenderemos de vez que não é a Terra que precisa ser salva.
Somos nós.
Eugênio Mussak é médico fisiologista,
professor de biologia, e ajuda grandes empresas a obter mais
eficiência a partir de conhecimentos de história natural