COLABORAÇÃO

 

A colaboração deste mês vem do meu parceiro e amigo, Prof. Jorge Luís Bahiense, a quem agradeço do fundo do meu coração. Este texto foi originalmente escrito para uma aula dada em 1999, no Instituto de Educação, para 850 alunos do curso GPI. Aproveitem.

                                                                             

REVOLUÇÃO FRANCESA 

Paris, 14 de Julho de 1789, passa da meia-noite do dia 13 quando as massas populares camponesas cruzam os portões da cidade com a ajuda das massas urbanas. É uma multidão desnorteada, que saqueia o que pode comer. Tudo que parece com luxo ou ostentação é tomado ou destruído.

As tochas iluminam rostos cansados e sofridos. O tumulto alastra-se rapidamente e ninguém sabe precisar ao certo o que pode acontecer. Paus, pedras, espadas, foices, ancinhos, tudo que pode servir como arma é usado. Os ricos, os padres e os aristocratas são arrancados de suas casas e igrejas e justiçados sumariamente e todos gritam: “Enforquem! Enforquem!”.

Mas de onde vem tudo isso? Quem era essa gente que invadiu Paris e derrubou o trono absolutista e alterou a velha ordem? De que forma cidadãos comuns transformaram-se em revolucionários?

É, de verdade, uma história muito longa, de uma trajetória bem acidentada e que determinou o nascimento de uma nova etapa do processo histórico ao elevar a burguesia ao poder, encerrando o ciclo do antigo regime na Europa Ocidental.

E possível certamente falar em Revoluções Francesas, isto é, na conjugação de quatro momentos que não eram articulados na origem.

O 1º é a revolução proposta pela burguesia com um projeto político definido, uma filosofia social e uma proposta econômica liberal. Eram só 500 mil em 26 milhões e não tinham força numérica para tomar o poder e excluir os aristocratas. Tem o projeto, mas não a base para executá-lo.

O 2º é a revolta aristocrática contra a nova postura da monarquia. Aparentemente voltam-se contra ela porque seus privilégios foram diminuídos, mas com uma razão bem mais profunda - eles temiam as massas e o rumo que a revolta camponesa poderia tomar. Começam a descobrir mais identidades do que diferenças com os burgueses, principalmente a propriedade privada, bastando para isto abrir mão de seus privilégios estamentais e políticos, para, pelo menos, conservar as sua terras.

Mas é verdadeiramente nas massas que reside à força do movimento revolucionário, a alavanca do processo que oferece a base de apoio que sustenta a aplicação do projeto político da burguesia. A massa tinha duas faces e cada uma delas forma as outras duas revoluções.

O 3º é a revolução do campo. O grito da miséria e dos desvalidos; dos excluídos da terra e que estavam dispostos a tê-la, comprando-a com o pouco que conseguiram juntar ou tomando-a assim que fosse possível.

O 4º movimento é o da rua dos “sans-culottes”, dos desempregados, dos miseráveis que vagavam pelas ruas. Eram multidões sem freios e sem nenhum respeito por qualquer pessoa ou de qualquer instituição. Moravam nas ruas, morriam de peste e morriam de fome.

Eram 21 milhões de pessoas vivendo na França dos Bourbons em um total de 17 milhões que permaneciam como servos. O prolongamento da seca até 1789 produziu o quadro clássico do caos e então, tudo começou. Cerca de 10 milhões de pessoas simples transformaram seus instrumentos de trabalho em armas, mataram seus senhores, incendiaram as propriedades, saquearam o que havia e puseram-se em movimento. Rumaram para Paris. Porque Paris? Ninguém sabe explicar ao certo. Guiados por uma espécie de mão invisível, pegaram as estradas que levavam à cidade luz. Alguns desistiram; milhares morreram no caminho, de fome ou subnutrição; cinco milhões chegaram em Paris naquele 13 de Julho. Muitos por acaso pensavam que o lado de dentro dos muros da cidade apresentaria algo melhor? Acreditavam que sim.

Mas não havia nada melhor; encontraram apenas o outro lado da mesma miséria.

 (CONTINUA MÊS QUE VEM)                                              

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