M. Póstumas de Brás Cubas-
Machado de Assis
Prosa Realista - 1881
Vida
Nasceu no dia 21 de junho de 1839 no Rio de Janeiro, mais
precisamente no Morro do Livramento. Nasceu simplesmente um
moleque de morro, franzino e doentio. Era filho de um pintor de
paredes, Francisco José de Assis, e de uma portuguesa, Maria
Leopoldina.
Quando ainda pequeno, ficou órfão de mãe. O pai casou-se
novamente e a madrasta, Maria Inês, contrariando a lenda,
substituiu em cuidados e carinhos a mãe verdadeira e também o
pai, que morreria logo depois. Machado cresceu ao lado de Maria
Inês, lavadeira e doceira, cujas balas o menino vendia na porta
dos colégios que não podia freqüentar.
Naqueles tempos, escola era um privilégio dos mais afortunados.
O menino, aliás, nunca freqüentaria qualquer escola. Machado é,
hoje, o maior exemplo de autodidatismo no Brasil.
Tímido e introspectivo, Machado teve uma vida sóbria,
comportada, sem grandes travessuras de criança, nem grandes
aventuras de rapaz.
· 1855 - aos dezesseis anos, publica seu primeiro poema Ela na
Marmota Fluminense. Esse poema só foi publicado porque Paula
Brito, dono de uma tipografia e de uma livraria, simpatizou-se
com o rapaz e fez dele seu protegido.
· 1856 e 1858 - Machado trabalha como topógrafo, primeiro na
Imprensa Nacional e depois na tipografia de Paula Brito. Nessa época
conhece um jornalista famoso, Manuel Antônio de Almeida, e
outros intelectuais.
· 1858 e 1867 - Machado colabora assiduamente em muitos jornais
e revistas cariocas, nos publicava contos, crônicas e crítica
teatral. No ano de 1857 ingressa no funcionalismo público, em
que sucessivamente teve funções cada vez mais importantes e
chegou a ser um funcionário de prestígio.
· 1869 - casa-se com Carolina Xavier de Novais, irmã do poeta
Faustino Xavier, que viera de Portugal para uma viagem cultural
pelo Brasil. O casamento que iria durar 35 anos e ser dos mais
felizes foi tumultuado, pois os pais de Carolina, portugueses
preconceituosos, não queriam a união da filha com um mulato.
Carolina viria a dar ao pacato e caseiro Machado de Assis a
companhia ideal em sua fase de produção literária.
· 1870 - Machado nos premia com uma intensa atividade literária
e com sucessivas publicações: contos, romances, poesia, teatro
e crítica literária.
· 1881 - Machado atinge sua maturidade literária e publica Memórias
Póstumas de Brás Cubas, um romance. Essa obra vem a ser um
marco na história da Literatura Brasileira.
· 1882 - aparece Papéis Avulsos, uma seleção admirável de
contos.
· 1891- aparece Quincas Borba, o mais filosófico dos romances
machadianos.
· 1896 - é fundada a Academia Brasileira de Letras, e Machado
de Assis, um ano depois, é aclamado seu presidente perpétuo.
· 1899 - surgem Dom Casmurro, romance, obra-prima de drama
moral, e Páginas Recolhidas, seleção de contos.
· 1904 - é publicado o romance Esaú e Jacó, e também morre
sua esposa Carolina.
· 1908 - morre Machado de Assis, festejado, em todos os
sentidos, como o maior escritor brasileiro.
Obra
A classificação (rotulação) de Machado dentro de escolas e
movimentos é problemática e atende apenas à comodidade didática.
O mesmo ocorre com a divisão de sua obra em fases: a primeira
(Romântica) e a segunda (Realista). O que houve em Machado foi
um contínuo aperfeiçoamento.
Sua obra abrange os seguintes gêneros literários:
· Poesia - Crisálidas, Falenas e Americanas (fase romântica) e
Ocidentais (fase parnasiana)
· Teatro - Desencantos, A Queda que as Mulheres têm para os
Tolos, Quase Ministro, Os Deuses de Casa, Tu, Só Tu, Puro Amor,
entre outras. É o aspecto menor da obra machadiana. São mais
contos dialogados, que peças teatrais.
· Crítica - Abrangendo literatura e teatro.
· Crônica - Reunida no livro A Semana.
· Conto - Tão importante quanto o romance machadiano. Contos
Fluminenses, Histórias da Meia-Noite, Papéis Avulsos, Histórias
sem Data, Várias Histórias e Relíquias da Casa Velha.
· Romance - Fase romântica: Ressureição, A Mão e a Luva,
Helena e Iaiá Garcia. Apesar de rotulados "românticos"
, há nesses romances elementos realistas: a análise psicológica
e o fato de que as heroínas ajam por interesse na obtenção de
"status" social e não por amor, mola central da
narrativa romântica. Fase realista: Memórias Póstumas de Brás
Cubas, Quincas Borba e D. Casmurro, que constituem a Trilogia
Machadiana, Esaú e Jacó e Memorial de Aires.
Considerações Gerais
A ruptura com a narrativa linear:
Os fatos e as ações não seguem um fio lógico ou cronológico,
obedecem a um ordenamento interior, são relatados à medida que
afloram à consciência ou à memória do narrador, num processo
que se aproxima do impressionismo.
A organização metalingüística do discurso narrativo:
É comum, na ficção machadiana, que o narrador interrompa a
narrativa para, com saborosa e bem-humorada bisbilhotice,
comentar com o leitor a própria escritura do romance, fazendo-o
participar de sua construção; ou ainda, para dialogar sobre uma
personagem, refletir sobre um episódio do enredo ou tecer suas
digressões sobre os mais variados assuntos.
Machado assume a posição de quem escreve e ao mesmo tempo se vê
escrevendo. Esses comentários à margem da narração constituem
o principal interesse, pois neles está a mensagem artística do
escritor.
O universalismo
Machado captou na sociedade carioca do século XIX, os grandes
temas de sua obra. O seu interesse jamais recaiu sobre o típico,
o pitoresco, a cor local, o exótico, tão ao gosto dos românticos.
Buscou, na sociedade do seu tempo, o universal, a essência
humana, os grandes valores filosóficos: a essência e a aparência;
o caráter relativo da moral humana; as convenções sociais e os
impulsos interiores; a normalidade e a loucura, o acaso, o ciúme,
a irracionalidade, a usura, a crueldade.
A pobreza de descrições, a quase ausência da paisagem são
ainda desdobramentos dessa concentração na análise psicológica
e na reflexão filosófica. As tramas dos romances machadianos
poderiam, sem grandes prejuízos à narrativa, ser transplantadas
para qualquer época e qualquer cidade.
Os grandes arquétipos
Uma das linhas mestras da ficção machadiana parte do
aproveitamento dos arquétipos, que remontam à tradição clássica
e aos textos bíblicos. (Arquétipo = modelo de seres criados;
padrão exemplar; imagens psíquicas do inconsciente coletivo, e
que são o patrimônio coletivo de toda a humanidade.)
Assim, o conflito dos irmãos Pedro e Paulo, em Esaú e Jacó,
remonta ao arquétipo bíblico da rivalidade entre Caim e Abel; a
psicose do ciúme de Bentinho, em D. Casmurro, aproxima-se do
drama de Otelo e Desdêmona, de Shakespeare.
O pessimismo
Machado revela sempre uma visão desencantada da vida e do homem.
Não acreditava nos valores do seu tempo e, a rigor, não
acreditava em nenhum valor. Mais do que pessimista ou negativa,
sua postura é niilista ("nil" - nada). O
desmascaramento do cinismo e da hipocrisia, do egoísmo e do
interesse, que se camuflavam sob as convenções sociais é o
cerne de grande parte da ficção machadiana.
O capítulo final de Memórias Póstumas, o antológico das
negativas, é exemplo cabal do pessimismo do autor:
Capítulo CLX
Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a
celebridade do emplastro, não fui ministro, não fui califa, não
conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas,
coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu
rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semidemência
do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa
imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente
que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a
este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que
é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: - Não
tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa
miséria.
A ironia, o humor negro
A forma de revolta de Machado era o rir; quase sempre um riso
amargo que exteriorizava o desencanto e o desalento ante a miséria
física e moral de suas personagens. Observem o texto:
Daqui inferi eu que a vida é o mais engenhoso dos fenômenos,
porque só aguça a fome , com o fim de deparar a ocasião de
comer, e não inventou os calos, senão porque eles aperfeiçoam
a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a sabedoria
humana não vale um par de botas curtas.
Tu minha Eugênia, é que não as descalçaste nunca; foste aí
pela estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como
os enterros pobres, solitária, calada, laboriosa, até que
vieste também para esta outra margem... O que eu sei é se a tua
existência era muito necessária ao século. Quem sabe? Talvez
um comparsa de menos fizeste patear a tragédia humana.
Resumo
Brás Cubas, já falecido, conta, do outro mundo, as suas memórias:
Expirei em 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns
sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía
trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos.
Galhofando dos ascendentes, fala da própria genealogia. Assevera
que morreu de pneumonia apanhada quando trabalhava num invento
farmacêutico, um emplastro medicamentoso. Virgília, sua
ex-amante, que já não via há alguns anos, visitou-o nos últimos
dias de vida. Narra Brás Cubas um delírio que teve durante a
agonia: montado num hipopótamo foi arrebatado por uma extensa e
gelada planície, até o alto de uma montanha, de onde divisa a
sucessão dos séculos.
Além dos pais, tiveram grande influência na educação do
pequeno Brás Cubas três pessoas: tio João, homem de língua
solta e vida galante; tio ldefonso, cônego, piedoso, e severo;
Dona Emerenciana, tia materna, que viveu pouco tempo. Brás
passou uma infância de menino traquinas, mimado demasiadamente
pelo pai. Aos dezessete anos apaixona-se por Marcela, dama
espanhola, com quem teve as primeiras experiências amorosas.
Para agradar Marcela, Brás começa a gastar demais, assumindo
compromissos graves e endivida-se. Marcela gostava de jóias, e
Brás procurava fazer-lhe todos os gostos. Marcela amou-me, diz
Brás Cubas, durante quinze meses e onze contos de réis. Quando
o pai tomou conhecimento dos esbanjamentos do filho, mandou-o
para a Europa: vais cursar uma Universidade, justificou. Em
Coimbra, Brás segue o curso jurídico e bachare-la-se. Depois,
atendendo a um chamado do pai, volta ao Rio: a mãe estava
moribunda. E, de fato chega ao Brasil, e a mãe falece. Passando
uns dias na Tijuca, conhece Eugênia, moça bonita, mas com um
defeito na perna que a fazia coxear um pouco. Com ela mantém um
romance passageiro.
O pai de Brás tem duas ambições para o filho: quer casá-lo e
fazê-lo deputado. Tudo faz para encaminhá-lo no rumo do
casamento e procura aumentar o círculo de amigos influentes na
política, a fim de preparar o caminho para o futuro deputado.
Assim é que Brás Cubas é apresentado ao Conselheiro Dutra, que
promete ajudar ao jovem bacharel na pretendida ascensão política.
Brás nesta altura vem a conhecer Virgília, filha do Conselheiro
Dutra, pela qual se apaixona. Parecia, com isso, que os sonhos do
pai sobre Brás estavam prestes a realizar-se: bem-encaminhado na
política e quase noivo. Entretanto acontece um imprevisto: surge
Lobo Neves, que não somente lhe rouba a namorada, mas também
cai nas boas graças do Conselheiro Dutra. Vendo assim preterido
o filho, o pai de Brás sente-se profundamente desapontado e
magoado. Veio a falecer dali a alguns meses, de um desastre.
Virgília casa-se com Lobo Neves e, pouco tempo depois, vê
eleito deputado o marido. Mas, na verdade, Virgília casara-se
com Lobo por interesse, e ama realmente Brás Cubas. Virgília e
Brás principiam a encontrar-se com freqüência e, em breve,
tornam-se amantes . Lobo Neves adora a esposa e nela confia
inteiramente. Aliás não tinha muito tempo para observar o que
se passa, já que estava entregue totalmente à política.
Narra nesta altura Brás Cubas o encontro que teve com seu
ex-colega de escola primária, Quincas Borba, que se tornara um
infeliz mendigo de rua. Depois do encontro com Quincas, Brás
percebe que o maltrapilho lhe roubara o relógio.
Os encontros amorosos entre Virgília e Brás suscitam comentários
e mexericos dos vizinhos, amigos e conhecidos. Por esse motivo,
Brás propõe a Virgília a fuga para um lugar distante. Virgília,
porém, pensa no marido que a ama e na família, e sugere uma
casinha só nossa, metida num jardim, em alguma rua escondida. A
idéia parece boa a Brás, que sai remoendo a proposta: uma
casinha solitária, em alguma rua escura. Virgília e sua
ex-empregada, chamada Dona Plácida, se encarregam de adornar a
casa e, aparentemente, quem ali reside é Dona Plácida. Ali os
dois amantes se encontram sem maiores embaraços, e sem
despertarem suspeitas.
Sucede que, por motivos políticos, Lobo Neves é designado como
presidente de uma província e, dessa, forma, tem de afastar-se
com a mulher. Brás fica desesperado e pede a Virgília que não
o abandone. Quando tudo parece sem solução, eis que surge Lobo
Neves e, para agradar ao amigo da família, convida Brás Cubas a
acompanhá-lo, como secretário. Brás aceita. Os mexericos se
tornam mais intensos e Cotrim, casado com Sabina, irmã de Brás
Cubas, procura fazer ver ao cunhado que a viagem seria uma
aventura muito perigosa. Mais por superstição do que pelos
conselhos de Cotrim, Lobo Neves acaba não aceitando mais o cargo
de presidente, porque o decreto de nomeação saíra publicado no
Diário Oficial num dia 13, e Lobo Neves tinha pavor do número
treze considerado um número fatídico.
Lobo Neves recebe uma carta anônima denunciando os amores da
esposa com o amigo. Isso faz com que os dois amantes se mostrem
mais reservados, embora continuem encontrando-se na Gamboa (onde
ficava a casa de Dona Plácida). Surge então um acontecimento
que vem alterar a situação dos personagens: Lobo Neves é
novamente nomeado presidente, e desta vez parte então para o
interior do país, levando consigo a esposa. Brás procura
distrair-se e esquecer a separação. Aliás, o tempo se havia
escoado e, embora ainda se sentisse forte e com saúde, era já
um cinquentão.
A irmã Sabina, que vinha procurando "arranjar" um
casamento para Brás, volta a insistir em seu objetivo. A
candidata, uma moça prendada, chamava-se Nhá-Loló. Mesmo sem
entusiasmo, Brás aparenta interesse pela pretendente, mas Nhá-Loló
vem a falecer durante uma epidemia.
O tempo vai passando. Mais por distração do que por idealismo.
Faz-se deputado e, na assembléia, vem a encontrar-se com Lobo
Neves que havia voltado da província . Encontra-se também com
Virgília, que não tinha a beleza antiga que o havia atraído
anteriormente. Assim, por desinteresse recíproco, chegam ao fim
os amores de Brás e Virgília.
Quincas Borba, o mendigo, reaparece e lhe restitui o relógio,
passando a ser um freqüentador da casa de Brás. Quincas Borba
estava mudado: não era mais mendigo, recebera uma herança de um
tio em Barbacena. Virara filósofo: havia inventado uma nova
teoria filosófica-religiosa, o Humanismo, e não falava noutra
coisa. O próprio Brás Cubas passa a interessar-se muito pelas
teorias de Quincas Borba.
Morre, por esse tempo, Lobo Neves, e Virgília chorou com
sinceridade o marido, como o havia traído com sinceridade. Também
vem a falecer Quincas Borba, que havia enlouquecido
completamente.
Brás Cubas deixou este mundo pouco depois de Quincas Borba, por
causa de uma moléstia que apanhara quando tratava de um invento
seu, denominado emplastro Quincas Borba. E o livro conclui: Ao
chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno
saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas
(refere-se ao último capítulo do livro): não tive filhos, não
transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria".
Personagens
· Brás Cubas - narrador - morto aos 64 anos - "ainda próspero
e rijo", fidalgo
· Marcela - Segundo grande amor de Brás Cubas, uma prostituta
de elite, cujo amor por Brás duraria quinze meses e onze contos
de réis.
· Virgilia - filha do comendador Dutra, segundo o pai de Brás,
Bento Cubas A "Ursa Maior" amante de Brás Cubas
casa-se com Lobo Neves por interesse.
· Quincas Borba - menino terrível que dava tombos no paciente
professor Barata, colega de escola de Brás que o encontrará
mais tarde mendigo que rouba-lhe um relógio mas retorna-o ao
colega após receber uma herança. Desenvolve a filosofia do
humanismo: "Ao vencedor as batatas ao vencido ódio ou
compaixão".
· Eugênia - Filha de Eusébia e Vilaça, menina bela embora
coxa.
· Nhá Loló - moça simplória, tinha dotes de soprano - morre
de febre amarela..
· Cotrim - casado com Sabina, irmã de Brás; ambos
interesseiros
· Nhonhô - filho de Virgília
· D. Plácida empregada de Virgília confidente e protetora de
sua realção - extra conjungal
· Lobo Neves - casado com Virgília, homem frio e calculista.