A Ilustre Casa de Ramires - Eça de Queiros
Introdução
A Ilustre Casa de Ramires é um romance baseado no cruzamento de
duas narrativas. A primeira consiste na trajetória de um fidalgo
português (Gonçalo Mendes Ramires) cujo destino se confunde com
o de Portugal. A segunda é uma novela que narra um episódio
heróico da vida de um de seus antepassados: Tructesindo Ramires.
Resumo
O Romance de Gonçalo Ramires
Gonçalo Mendes Ramires retorna - após a conclusão do curso de
Direito em Coimbra e após uma breve estadia em Lisboa - para
suas terras no interior de Portugal, próximas à cidade de
Oliveira e à Vila Clara. Aí reencontra a mesma monotonia
provinciana de anos atrás.
Sua irmã, Graça Ramires, está casada com o rico e simplório
José Barrolo, chamado pelos colegas de bacoco, num claro deboche
de sua simplicidade de parvo .
Os seus bons e inseparáveis companheiros, Titó (Antônio
Villalobos), João Gouveia (Administrador da aldeia de Vila
Clara) e o músico Videirinha - que há muito vem escrevendo um
fado, ajudado pelo padre Soeiro, sobre os feitos heróicos da
ilustre casa de Ramires - continuam os mesmos. E os criados da
casa, Rosa e Bento estão a levar a vida de sempre.
Acima de tudo, o oprime a mediocridade da vida provinciana e a
necessidade imperativa de se impor na vida política nacional, o
que lhe parece ser a única saída possível para a sua
condição de fidalgo decaído.
Dentro deste espírito e incitado por um amigo, o José
Castanheiro (editor de uma revista a ser lançada em breve e
chamada Anais de Literatura e de História), ele resolve escrever
uma novela (A Torre de D. Ramires) sobre um velho e ilustre
antepassado: Tructesindo Ramires.
Assim, tendo como cenário os restos da antiga fortificação
medieval erguida por seus remotíssimos avós, e que se encontram
na sua Quinta de Santa Irinéia, ele se põe a recontar a
história de sua casa e de Portugal. Da fortificação resta, na
verdade, apenas os escombros da velha torre, como do glorioso
passado português resta apenas a recordação .
Para tal fim Gonçalo lança mão um poema já escrito por um tio
materno, que ele - com ajuda de outros livros de inspiração
medieval (Alexandre Herculano e Walter Scott) -vai vertendo para
uma prosa na maioria das vezes banal. No entanto, a tarefa não
é fácil e muitas vezes se torna estafante.
Paralelamente à escritura da novela, ele se envolve com as
atividades do cotidiano, que passam pela administração da
quinta, e é obrigado a enfrentar situações que demonstram a
fraqueza de seu caráter.
A mais marcante se dá quando ele se vê obrigado a arrendar a
quinta para um lavrador conhecido como José Casco, e empenha sua
palavra no negócio. Porém, logo em seguida um outro lavrador
melhor qualificado, o Manuel Pereira , lhe oferece uma quantia
maior pelo mesmo direito de arrendamento, e Gonçalo aceita a
segunda proposta se esquecendo da palavra já empenhada ao Casco.
Aliás este episódio coincide narrativamente com um momento no
qual Gonçalo conta os feitos heróicos de seu longínquo
antepassado Tructesindo, que justamente entra num combate para
não recuar da palavra empenhada. Aqui Eça de Queirós, através
de uma ironia fina, demonstra o caráter frágil desta
aristocracia incapaz de dar continuidade à grandeza do passado
português. Porém, lentamente Gonçalo caminhará para a
redescoberta destes valores heróicos de seu passado, alterando
sua trajetória pessoal.
A transformação de Gonçalo pode ser interpretada como um
símbolo do destino Português, e traz elementos típicos do
romance de formação.
Outro fato também o desagrada sumamente: o sucesso político de
André Cavaleiro, outrora seu grande amigo, e
"namorado" de sua irmã . Gonçalo nutre por ele um
ódio que se manifesta publicamente por meio de comentários
violentos envolvendo via de regra a bigodeira do Cavaleiro. Este,
por sua vez, ocupa agora o lugar de Governador Civil de Oliveira,
cargo antes exercido pelo falecido pai de Gonçalo. A ruptura,
sem nenhuma justificativa, do namoro existente entre André e
Gracinha está na origem desse rancor que os separa.
Inesperadamente o Deputado Sanches Lucena, velho e rico
proprietário da região, falece deixando toda a fortuna para a
esposa D. Ana Lucena e uma cadeira vaga no parlamento. Eis a
chance tão esperada. No entanto, a indicação para o lugar
passa diretamente pela vontade do Governador Civil.
Aconselhado pelo amigo João Gouveia e movido pelo interesse, ele
reata sua amizade com André Cavaleiro, para assombro de toda a
cidade. O que não se dá sem que antes ele sofra uma aguda crise
de consciência, pois tal reconciliação implica na
aproximação entre o Governador e Gracinha, que ainda nutre
sentimentos inconfessos pelo antigo namorado. Eis aí a sombra de
um possível adultério. Aliás, tema tão caro aos romances da
segunda fase de Eça de Queirós.
Com a reconciliação, começa a campanha de Gonçalo em
direção ao parlamento. Porém, em meio aos preparativos, ele
surpreende um encontro furtivo entre a irmã e o Cavaleiro.
Horrorizado ele se retira para a quinta e se afasta da irmã, do
cunhado e do suposto amigo.
Neste momento, Gonçalo decide retomar a sua narrativa, e passa a
considerar a possibilidade de se casar com a viúva do Lucena
(agora uma mulher riquíssima), apesar de sentir uma forte
repulsa por ela.
Em meio a todos estes acontecimentos, uma noite Gonçalo tem um
pesadelo no qual seus remotíssimos antepassados lhe depositam no
colo suas armas e o incitam a seguir-lhes o caminho da bravura.
Na manhã que sucede a este pesadelo, Gonçalo resolve sair a
cavalo e reencontra acidentalmente um camponês (o valentão
Ernesto de Nacejas) que já o havia destratado duas vezes, sem
que o fidalgo houvesse esboçado a menor reação de revidar as
ofensas sofridas, tal era o seu grau de covardia diante dos
perigos da vida.
Nesta manhã, inexplicavelmente, Gonçalo sente-se tomado de uma
energia e de uma coragem que até então lhe eram desconhecidas:
ele enfrenta o inimigo com violência, ao ponto de quase
desfigurar-lhe a face com um chicote. Depois da luta ele retorna
à quinta, e para sua surpresa reencontra a irmã e o cunhado.
Neste mesmo dia, ao conversar com cunhado, Gonçalo descobre que
o Cavaleiro estava ausente de Oliveira há algum tempo. E,
portanto, afastado de Graçinha. Reconciliado parcialmente com a
própria consciência, ele retoma sua campanha política.
Lentamente Gonçalo vai descobrindo a simpatia que as pessoas
nutrem por sua pessoa e por sua nobre origem, sentimento que ele
mal suspeitara até então, e que lhe faz perceber que ele seria
eleito mesmo sem a ajuda do Governador Civil.
Chega o dia da eleição e Gonçalo vence. Nesta mesma noite, ao
contemplar o vale do alto da torre iluminada, ele percebe com
clareza a mesquinhez de seu caráter e de seus objetivos.
Alguns meses depois, o fidalgo parte para Lisboa, assume o cargo
e começa a levar uma vida mundana, até que inexplicavelmente
desiste de tudo e viaja para a Zambézia na África, de onde
retorna, quatro anos depois, rico e estabelecido.
A novela A Torre de D. Ramires
Gonçalo Mendes Ramires, inspirado num poemeto épico escrito por
um tio e publicado num periódico de província (O Bardo),
resolve contar os feitos heróicos de sua estirpe, em especial de
Tructesindo Ramires.
Este nobre antepassado de Gonçalo tudo sacrificou, inclusive a
vida do próprio filho, para defender a palavra e a honra
empenhada.
Tructesindo Ramires, fiel vassalo e alferes-mor de D. Sancho,
jurara a este rei defender a honra e vida da infanta D. Sancha.
Com a morte do monarca abre-se uma luta pela sucessão e pela
afirmação de D. Afonso II no trono de Portugal, e este se
indispõe com suas irmãs D. Teresa e D. Sancha.
A infanta busca ajuda e apoio no rei de Leão e Castela
(tradicionais inimigos da nação portuguesa), e convoca o
socorro de Tructesindo Ramires. Este atende prontamente ao apelo
da infanta - consciente que lutará ao lado de antigos inimigos -
e manda seu próprio filho, Lourenço Ramires, a frente de uma
primeira força guerreira, enquanto ele próprio prepara um grupo
fortemente armado que lhe seguirá.
Lourenço é interceptado em meio da jornada por um grupo
fortemente armado e comandado por Lopo de Baião, o Bastardo, que
fora enviado por D. Afonso II, com ordens de impedir o avanço
das forças de Tructesindo. No entanto, por atrás deste motivo
aparente Lopo de Baião esconde um desejo de vingança pessoal,
pois no passado ele havia se apaixonado por D. Violante, filha de
Tructesindo, que havia lhe negado a dama em casamento.
As duas forças se enfrentam duramente, Lourenço sai derrotado,
e é feito prisioneiro pelo Bastardo, que em seguida marcha em
direção ao castelo dos Ramires. Ao alcançar as fortes
muralhas, ele manda um arauto solicitar uma audiência com
Tructesindo.
Durante o diálogo Lopo de Baião tenta demover o velho guerreiro
de ajudar a infanta e insiste em alcançar a permissão de se
unir a D. Violante. Tructesindo Ramires mostra-se irredutível em
relação as duas propostas, e o Bastardo degola impiedosamente
Lourenço diante dos olhos do pai. Em seguida, foge com seus
guerreiros.
Tructesindo mantém-se quase imperturbável diante da morte do
filho, e sai em busca do covarde assassino. Em meio a
perseguição seu grupo chega a uma encruzilhada e o chefe
guerreiro ordena que três batedores encontrem a pista de Lobo de
Baião.
Com as informações trazidas por eles, D. Garcia Veigas, o
Sabedor - amigo e companheiro fiel de Tructesindo - descobre a
estratégia de fuga do Bastardo. Eles também ficam sabendo que
há pouca distância está D. Pedro de Castro, amigo do velho
Ramires e partem em busca de abrigo em suas terras.
D. Garcia elabora um plano de captura do traidor covarde. A
estratégia é colocada imediatamente em prática e obtém
sucesso. Lopo de Baião cai prisioneiro das forças de
Tructesindo e é submetido a uma morte humilhante e
dolorosíssima: ele é amarado aos restos de uma ponte num lago
infestado de sanguessugas que lentamente lhe consomem até a
última gota de sangue.
Interessante é observar que esta cena final, tão adequada ao
passado glorioso e guerreiro de Portugal, apresenta também um
claro viés Naturalista pela crueza da descrição de aspectos
fisiológicos cruéis e repulsivos. A elaboração estética da
cena está de acordo com os objetivos de Gonçalo ao escrever sua
novela histórica, pois ele desejava dar um forte colorido
Realista à narrativa despindo-a das brumas românticas nas quais
seu tio havia envolvido a trágica história de Tructesindo
Ramires.
Análise da Obra
Gonçalo e Portugal: dois destinos inseparáveis
A Ilustre Casa de Ramires é um romance de clara dicção
realista no qual Eça de Queirós tenta sintetizar na figura de
Gonçalo as fraquezas e as grandezas de Portugal, fazendo de seu
destino pessoal uma "alegoria" daquilo que lhe parecia
ser a única saída possível para os impasses e contradições
de um país outrora tão poderoso (Idade Média e Renascimento),
e hoje (final do século XIX) tão decaído.
Na trajetória pessoal de Gonçalo nós encontramos uma
interpretação corajosa da alma portuguesa contemporânea de
Eça de Queirós. A covardia deste fidalgo, sua pusilanimidade,
suas aspirações de um futuro glorioso, suas crises de
consciência, tudo é Portugal indeciso diante de seu presente e
de seu futuro.
Assim, o destino de Gonçalo traduz muito daquilo que Eça de
Queirós (na fase final de sua produção literária) acreditava
ser o caminho viável para o país: a retomada das tradições e
do ilustre passado português materializados na veia
expansionista e colonialista da nação, outrora um dos maiores
impérios do mundo.
O navio que leva Gonçalo para África chama-se justamente
Portugal, e é bom lembrar que este Ramires volta de lá
enriquecido e completo na sua transformação iniciada na pátria
após o sonho com seus antepassados lhe entregando as armas, e
após a vitória sobre o valentão de Nacejas.
É evidente aqui a profunda releitura da história portuguesa
proposta por Eça de Queirós que - após os arroubos de violenta
e devastadora crítica presente nos romances de sua segunda fase,
no quais não se cansava de fustigar a mediocridade da pátria -
se dedica agora a descobrir um caminho possível para a nação.
Assim, a crítica queirosiana torna-se mais branda e
"construtiva" porque é movida por um desejo de
compreensão sincera do destino português. O Eça de Queirós
incansável, o socialista da primeira hora cede seu lugar a um
aristocrata um tanto quanto cínico e irônico, mas não de todo
desencantado.
Nesta fase, seu esforço de crença na nação parece, na maioria
da vezes, como ideologicamente comprometido, porém suas enormes
qualidades literárias e estilísticas absorvem o leitor para
dentro da trama romanesca tão bem urdida a partir das duas
narrativas que se completam pela oposição e simbolizam
verrossimilmente o destino de Portugal.
Se na sua fase mais combativa, em especial no Crime do Padre
Amaro e no Primo Basílio, Eça de Queirós elabora um crítica
contundente da burguesia lisboeta e dos ranços da vida
provinciana e de suas instituições hipócritas e aviltantes,
atacando a moral vigente e o atraso do país; na sua última fase
o autor vai lentamente se aproximando do universo rural, agrário
e aristocrático que marca o passado português.
Assim, ao lado do espírito crítico que nunca abandonou o autor,
surge uma idealização do passado português e de suas origens
gloriosas que servem então de baliza para o tão almejado futuro
que ser quer também glorioso.
O elogio bucólico do campo e da aristocracia soa na verdade como
Sebastianismo mal disfarçado, porém despido do misticismo e do
messianismo que sempre o acompanharam.
Gonçalo, filho de uma casa mais antiga que Portugal, parte em
direção à África e de lá volta glorioso e rico, ao
contrário de D. Sebastião que movido por seus sonhos de glória
acaba enterrado nas areias de deserto.
Passado e presente, glória e decadência, grandeza e fragilidade
estão de tal forma imbricados neste romance como estão na vida
lusitana. Esse senso das contradições, que marcavam Portugal na
segunda metade do século XIX, é a força motriz que põe em
movimento a máquina romanesca e cria o dinamismo interno tão
rico e verdadeiro de Gonçalo. E se ao leitor parece utópica e
sonhadora a solução encontrada pelo autor para o destino de seu
personagem (Gonçalo = Portugal), nem por isso ela deixa de ser
uma aspiração da alma lusitana.
O diálogo entre a tradição e a decadência de Portugal
O romance A Ilustre Casa de Ramires foi iniciado no ano de 1894,
e sua primeira publicação integral data de 1900, logo após a
morte do autor, que não chegou a completar a revisão final do
texto. Tal tarefa coube ao escritor Júlio Brandão.
O tempo da ação do romance é muito provavelmente o mesmo do
tempo da escritura, ou seja, a trajetória de Gonçalo se
desenvolve na última década do século XIX. Este foi um dos
períodos mais crucias e humilhantes da história de Portugal,
principalmente por causa do famoso episódio conhecido como
Ultimato que se deu no ano de 1890 quando a Inglaterra exigiu a
sumária retirada de Portugal de suas legítimas possessões na
África. A ordem britânica foi acatada causando no país uma
forte comoção pública e uma reação imediatamente xenófoba.
O Ultimato está diretamente ligado ao avanço imperialista e ao
neocolonialismo das grandes nações capitalistas na segunda
metade de século XIX, e diante destas nações Portugal se sente
impotente e destituído de uma verdadeira estrutura econômica
que lhe permitisse competir em pé de igualdade.
O "atraso" histórico da nação e sua impotência
ficou patente naquela manhã de 11 de Janeiro de 1890, e era
necessário que Gonçalo lá fosse para trazer de novo a África
de volta para Portugal, pelo menos no romance e no imaginário
lusitano. Eis A Ilustre Casa de Ramires: compensação simbólica
de uma derrota histórica.
Este romance, como já demonstramos, narra a trajetória do
fidalgo Gonçalo Mendes Ramires, filho de uma das casas mais
nobres e mais antigas de Portugal, anterior mesmo à fundação
da nação. Entre seus antepassados constam heróis portugueses
presentes aos feitos mais importantes da história do país e da
Europa.
No entanto, no início da narrativa, Gonçalo representa
justamente o oposto deste heroísmo e desta glória passada, pois
nada mais é do que um fidalgo sem verdadeiro estofo moral:
fraco, covarde e ambicioso, ele busca de todas as formas se
projetar no cenário político nacional. Sua maior aspiração é
conseguir uma cadeira no parlamento que lhe garantisse a
estabilidade social tão desejada.
Para alcançar seus objetivos iniciais ele é capaz de negociar e
jogar com a própria consciência e com os princípios morais
aparentemente mais sólidos. Porém, justamente no momento em que
ele atinge os seus objetivos e consegue a tão almejada cadeira
parlamentar, lhe advém a aguda consciência da mediocridade e da
mesquinhez de seus desejos. Após algum tempo de vida mundana e
política em Lisboa, ele decida abandonar tudo. Parte para a
África e depois de quatro anos retorna a Portugal enriquecido
por meio do esforço próprio.
Paralelamente a esta narrativa - e como já demonstramos - vai
sendo tecida uma outra narrativa, levada penosamente a cabo por
Gonçalo, pois na sua sede de estabelecer uma reputação
política, ele resolve consolidá-la com um perfil intelectual e
literário digno de seus dotes morais.
Assim, influenciado por um antigo amigo da faculdade em Coimbra,
ele resolve escrever uma novela histórica de sabor medieval tão
ao gosto da literatura do início do século XIX, cuja matéria
envolve um episódio heróico em torno de Tructesindo Ramires, um
dos seus mais ilustres antepassados. Além de se cobrir de
glórias literárias, seu objetivo é recolocar em circulação o
próprio nome e sua origem nobre.
Porém, toda a narrativa de Gonçalo não passa de uma versão em
prosa, frouxa e mal elaborada de um poema escrito anos atrás por
um tio e publicado num jornal de província. Seus talentos
literários não passam da mal dissimulada cópia, como sua
estrutura moral não passa de um jogo hábil entre interesse e
conveniência social.
O que surpreende então o leitor neste jogo narrativo queirosiano
é justamente a justaposição entre o passado e o presente, ente
os "áureos" tempos e o presente decaído. De um lado,
temos a mediocridade da vida provinciana e de sua aristocracia
decaída. De outro, o passado glorioso de Portugal, mas há muito
perdido.
Romance de formação e narrativa medieval se fundem de tal
maneira que são elevados à condição de uma
"alegoria" do desejado destino português, que só
poderia - ao que parece - ser retomado por meio de uma
reconciliação com o passado colonial da nação.
Gonçalo só se reabilita, moral e pessoalmente, quando decide
abandonar Lisboa com toda a sua hipocrisia social, e parte em
direção à África.
Assim, este romance - um dos melhores do autor, do ponto de vista
do estilo e da construção romanesca - é na verdade um elogio
da Aristocracia e do Colonialismo como elementos restauradores da
glória portuguesa, o que não passa de Sebastianismo mal
disfarçado, e de desejo de retorno a tempos supostamente mais
felizes e heróicos.
A oscilação existente entre o espírito crítico e combativo da
segunda fase e o "conservadorismo" ideológico deste
romance da terceira fase de Eça de Queirós marca bem os
impasses de toda uma geração empenhada na transformação de
Portugal.
Linguagem e estilo
A Ilustre Casa de Ramires é um romance narrado em terceira
pessoa, e apresenta um narrador onisciente que constrói e
explora com agudeza os conflitos interiores de Gonçalo Mendes
Ramires. Seu distanciamento e objetividade permitem ao leitor
acompanhar a lenta e progressiva transformação do personagem em
direção a sua reabilitação moral e social.
O narrador queirosiano conduz com eficiência o desenrolar dos
meandros da consciência do fidalgo e de seus embates com a vida,
e maneja com habilidade inquestionável uma linguagem que oscila
entre diversos tons e registros que vão do irônico até o
lírico, passando pelo satírico e até pelo épico, orquestrando
um universo de referências literárias ilustres dentro da
tradição portuguesa e mesmo européia. Paródia,
intertextualidade e metalinguagem são peças fundamentais de seu
jogo estilístico.
Assim, há uma recuperação das novelas de cavalaria medievais,
que por sua vez foram muito exploradas pelo romance romântico
europeu. No romance tal recuperação se dá numa chave crítica
que demonstra o desgaste desta tendência e o que nela há de
artificial e retórico. Alexandre Herculano e Walter Scott são
matéria de recuperação intertextual via paródia e sátira.
No entanto, é perceptível que o registro satírico e paródico
que envolve a novela A Torre de D. Ramires vai sendo lentamente
abandonado assumindo uma coloração verdadeiramente épica que
demonstra a adesão do narrador, e de Gonçalo, ao passado
heróico português, síntese das esperanças de um futuro
regenerado.
À medida que Gonçalo se transforma sua dicção também muda, e
com ela a posição do narrador diante da novela medievalista.
Isto se dá de tal maneira, que o final glorioso - apesar de
violento e bárbaro - da narrativa medieval coincide com a
reabilitação de Gonçalo. Aquilo que começara como uma
mesquinha necessidade de projeção social e política termina
como um hino à nação e a seu passado glorioso que espelharia
um futuro também promissor.
A linguagem de Eça de Queirós apresenta uma consciência
crítica da tradição literária lusitana e européia, e espelha
as contradições da própria nação.
Assim, linguagem e representação estética se constituem em
função da representação do real histórico, conferindo
legitimidade estética a estrutura romanesca, mesmo quando a
solução apresentada para o futuro de Gonçalo e de Portugal
parece fruto de uma idealização de teor claramente regressivo e
conservador.
Acreditar - no auge da modernidade capitalista - na função
redentora da aristocracia e no neocolonialismo como destino
histórico de um povo é no mínimo um sonho compatível com uma
nação já há muito descartada da competição capitalista das
grandes potências européias do século XIX.
A linguagem realista e irônica (traço marcante de toda obra do
autor), numa necessidade de coerência interna com o projeto
ideológico apresentado, lentamente cede lugar a um registro
épico e restaurador que se opõe ao tom agressivo e irônico
combativo da segunda fase de Eça de Queirós.
Idealização do passado, elogio da aristocracia, defesa do
neocolonialismo, adesão à função regeneradora da nobreza são
na verdade variantes de uma crença messiânica chamada
Sebastianismo, e se constituem no desejo de compensação
simbólica diante de uma realidade social e histórica marcada
por impasses consideráveis.
Assim, as oscilações aparentemente contraditórias da linguagem
deste romance são na verdade uma síntese do aspecto conflitivo
da consciência do fidalgo Gonçalo Mendes Ramires e da sua
função de símbolo vivo dos descaminhos de Portugal.
O estilo deste romance representa uma verdadeira síntese do
melhor estilo queirosiano em todas a suas oscilações, e é
fruto de um desejo sincero de compreensão profunda do destino
português e das possibilidades de superação do sentimento de
decadência da pátria tão característico da geração de Eça
de Queirós.
Glossário
Antero de Quental (1842-1891). Poeta e uma das figuras centrais
da Questão Coimbrã e do Realismo português. Suas obras
principais são Odes Modernas e os Sonetos.
Anticlericalismo. Temática marcante na literatura realista
baseada na crítica da hipocrisia das instituições religiosas,
principalmente do clero católico.
Conferências do Cassino. Conferências públicas pronunciadas no
Cassino Lisbonense no ano de 1870, e que pelo seu teor de
crítica social foram proibidas pelo governo português. Eça de
Queirós participou discorrendo sobre A nova literatura - o
Realismo como nova expressão da Arte.
Flaubert, Gustave (1821-1880). Romancista francês autor do
romance Madame Bovary que é considerado a primeira expressão
plena do Realismo na literatura oitocentista. Esta obra trata
diretamente do tema do adultério feminino.
Herculano, Alexandre (1810-1877). Grande escritor e historiador
do Romantismo português. Seu romance de temática medieval mais
famoso é Eurico, o Presbítero.
Medievalismo. Temática romântica baseada na idealização do
passado medieval europeu.
Naturalismo. Escola literária que representa um desdobramento
radical do Realismo e que se caracteriza pela aplicação de
teses "científicas" (principalmente de natureza
biológica e determinista) no tentativa de explicação das
complexas e contraditórias estruturas da sociedade moderna.
Questão Coimbrã. Polêmica literária ocorrida no ano de 1865
envolvendo vários intelectuais e escritores portugueses em torno
da discussão sobre a oposição entre o Romantismo e o Realismo.
Realismo. Escola literária da segunda metade do século XIX que
se opõe aos devaneios e idealizações românticas buscando
analisar diretamente as grandes contradições da moderna
sociedade burguesa e capitalista.
Romance de formação. Também conhecido como Bildungsroman
(alemão) e caracterizado por traçar o desenvolvimento interno
de um personagem central que se embate em busca de um sentido
"pleno" para a própria existência em crise.
Romantismo. Escola literária que predominou na primeira metade
do século XIX e foi marcada pela ruptura com os modelos da
Poética Clássica. Nela predomina o subjetivismo e o intenso
sentimentalismo muitas vezes materializados numa tendência
escapista e evazionista na qual as contradições existências e
sociais são dimensionadas por uma constante idealização.
Sebastianismo. Crença de origem popular que habita o imaginário
lusitano e que se baseia na morte e desaparecimento do rei D.
Sebastião nas areias de Alcácer Quibir no ano de 1578. Como a
morte deste rei o trono português foi dominado pela coroa
espanhola de 1580 a 1640, marcando o declínio do poderio
português. A partir deste momento surge o mito de que D.
Sebastião há de retornar e com ele glória de Portugal
renascerá.
Scott, Walter (1771-1832). Escritor romântico, de origem
escocesa, que se dedicou principalmente ao romance histórico de
temática medievalista. Sua obra mais conhecida é Ivanhoe.
Ultimato. Incidente histórico deflagrado no dia 11 de Janeiro de
1890 e no qual Portugal se viu obrigado a ceder às pressões
britânicas em torno de possessões coloniais portuguesas na
África. A aceitação, por parte do governo português, das
condições impostas pela Inglaterra causou verdadeira comoção
nacional ferindo duramente o orgulho lusitano.
Zola, Émile (1840-1902). Escritor francês responsável pelo
desenvolvimento da Escola Naturalista. Sua obra mais famosa é o
gigantesco painel romanesco intitulado Les Rougon-Macquart no
qual se encontram romances como Germinal, Naná e a Besta Humana.