O FEIJÃO E O SONHO - Orígenes Lessa
Nascido no interior paulista, no início deste século, Orígenes
Lessa revelou desde muito cedo uma atração incoercível pelos
livros. Participou de vários jornais escolares e essa atividade
influiu positivamente na formação do futuro escritor.
Militou profissionalmente na imprensa e na publicidade e seu
primeiro romance - exatamente O Feijão e o Sonho - foi
distinguido na Academia Brasileira de Letras com uma láurea de
grande prestígio nos meios literários: O Prêmio Alcântara
Machado.
Autor traduzido para vários idiomas e com várias obras
adaptadas para o cinema e para a televisão, seu texto é
límpido e de fácil assimilação, com histórias que marcam
pela profunda humanidade e lirismo que transmitem ao leitor um
sentimento de familiaridade aconchegante e envolvente do qual é
difícil escapar. Nunca foi um escritor destacado nas
"igrejinhas" e rodas literárias, dirigindo a maioria
de suas obras para o público infanto-juvenil, no que reside seu
grande mérito como autor que de fato incentiva e desperta o
gosto pela leitura.
A OBRA
Publicado em 1938, O Feijão e o Sonho caiu no agrado da crítica
e do público exatamente por desenvolver uma temática tão a
gosto do caráter romântico do brasileiro médio. A trama gira
em torno de Campos Lara, poeta que vive a embalar o sonho da
criação literária, alheio aos aspectos práticos da luta pela
sobrevivência. Casado com Maria Rosa, a relação é um
desajuste só. Campos Lara sonhando, escrevendo, poetando; Maria
Rosa batalhando, preocupando-se e, principalmente, azucrinando a
vida do irresponsável marido. Os rendimentos conseguidos pelo
poeta, dando aulas ou escrevendo para os jornais são
extremamente escassos e insuficientes para fazer frente às
despesas da família. Os credores não dão sossego; o senhorio
cobra os aluguéis atrasados; o dono da farmácia deixa de
fornecer medicamentos para a filharada adoentada; a alimentação
é parca e de má qualidade: a vida é um inferno.
A todo esse desacerto, Campos Lara não dá a mínima atenção.
Sua cabeça, povoada de versos e de orgulho intelectual não
desce do limbo em que se encontra para encarar problemas triviais
de manutenção familiar. Seus mirabolantes projetos literários
enchem sua vida e seu tempo. Pula de emprego em emprego, vê seus
alunos escaparem e os que permanecem são os que não podem
pagar. Maria Rosa luta desesperadamente contra a miséria e o
infortúnio.
Ao final, com a situação financeira mitigada, mas não de todo
regularizada, Campos Lara e Maria Rosa ajustam-se e sonham com o
futuro do filho caçula. Será advogado... Engenheiro... Até que
Campos Lara descobre que seu filho será, como ele, poeta... E
isso o enche de orgulho, esquecendo todo o drama e o sofrimento
que palmilhou durante toda uma existência, exatamente por
dedicar-se à poesia, uma atividade sem qualquer compensação
financeira, num país de analfabetos.
Análise Crítica
O texto, como bem sugere o título, sustenta-se sobre duas linhas
básicas: o feijão é o lado prático da vida. A necessidade de
o indivíduo prover o próprio sustento e o da família. A luta
pela sobrevivência que se desenvolve em cada momento da
trajetória do homem pela vida afora. O sonho é a fantasia, a
quimera que cada um tem dentro de si. A aspiração de grandeza,
de desligamento dessa realidade tão dura e desagradável. As
duas linhas formam a grande antítese alicerçadora da vida. Os
que se fixam no feijão tornam-se amargos, desagradáveis,
agressivos. A obsessão pelo lado prático da existência
impede-os de tomar uma atitude carinhosa, compreensiva,
aconchegante diante daqueles que deles se aproximam. Os adeptos
do sonho perdem o senso da realidade e tornam-se desajustados em
um mundo excessivamente materialista. São criticados,
espezinhados, humilhados e sua vida é um rosário de sofrimentos
e de dor.
Pela data da publicação - 1938 -, quando o autor contava apenas
35 anos, o livro não é, evidentemente, autobiográfico.
Entretanto sua trama conduz para fatos sobejamente conhecidos com
inúmeros artistas de todas as áreas. Orígenes Lessa não
inovou em nada, mas apenas deu forma literária a uma história
sobejamente conhecida e repetida desde sempre: o artista
sonhador, pobre e incompreendido; a mulher que o impele à luta e
o obriga a encarar o lado prático da vida. Nenhuma novidade...
O grande mérito está no despojamento da linguagem; na trama
simples; na sugestão de que se podem encontrar significados
profundos em atitudes aparentemente superficiais dos personagens;
no processo de iniciação do jovem leitor nos caminhos do
consumo da literatura; na exploração inteligente do idealismo
tão próprio da juventude ainda não batida pelo tempo e pela
desilusão.