Casa de Pensão-Aluísio Azevedo
Amâncio de Vasconcelos, um jovem
maranhense, vem para o Rio de Janeiro, com o propósito de
realizar o curso de Medicina. De início hospeda-se em casa de um
conhecido da família, Luís Campos, que vivia com sua mulher
Dona Maria Hortência e uma cunhada, Dona Cadotinha. Entretanto,
Amâncio encontrara-se! com um amigo e co-provinciano, Paiva
Rocha, e passa a viver uma vida desvairada e boêmia. As extravagâncias
de chegar altas horas da noite, faltar às aulas, embebedar-se, não
lhe eram permitidas em casa de Campos. Por outro lado, o jovem
estudante começara a despertar um certo interesse no coração
de Hortência. Levado por esses motivos, resolve ele mudar-se
para a pensão de João Coqueiro, que lhe fora apresentado por
Paiva Rocha. Acaba envolvido por Amélia, irmã de João
Coqueiro, que finge ignorar o romance e explora-a, exigindo
dinheiro do rapaz (Amâncio). Enredado no ambiente asfixiante e
corrupto da pensão de João Coqueiro e de Mme. Brizard, sua
mulher, envolvido em uma série de tramas, Amâncio resolve
viajar para São Luís, para rever a mãe, agora viúva. João
Coqueiro suspeita da viagem, e consegue que a polícia prenda Amâncio
sob acusação de defloramento, da qual o estudante é absolvido,
em rumoroso julgamento.
Inconformado com a absolvição, João Coqueiro assassina Amâncio
com um tiro.
Observações Importantes
Casa de Pensão é uma espécie de narrativa intermediária entre
o romance de personagem (O Mulato) e o romance de espaço (O
Cortiço). Como em O Mulato, todas as ações ainda estão
vinculadas à trajetória do herói, nesse caso, Amâncio de
Vasconcelos. Mas, como em O Cortiço, a conquista, ordenação e
manutenção de um espaço é que impulsiona, motiva e ordena a ação.
Espaço e personagem lutam, lado a lado, para evitar a degradação.
O romance foi inspirado em um caso verídico, a Questão
Capistrano, crime que sensibilizou o Rio de Janeiro em 1876/77,
envolvendo dois estudantes, em situação muito próxima à da
narração de Aluísio Azevedo.
As teses naturalistas, especialmente o Determinismo, alicerçam a
construção das personagens e das tramas.
No texto que transcrevemos a seguir, Aluísio Azevedo, ao
descrever a formação de Amâncio Vasconcelos, mostra os fatores
que determinaram o seu comportamento e o seu destino: a educação
severa do pai e do mestre-escola, a superproteção da mãe, a sífilis
contraída da ama-de-leite, que são as geratrizes de uma
personalidade reprimida e hipócrita:
"... esses pequenos episódios de infância, tão insignificântes
na aparência, decretaram a diluição que devia tomar o caráter
de Amâncio. Desde logo habituou-se a fazer uma falsa idéia de
seus semelhantes; julgou os homens por seu pai, seu professor e
seus condiscípulos. - E abominou-os. Principiou a aborrecê-los
secretamente, por uma fatalidade do ressentimento, principiou a
desconfiar de todos, a prevenir-se contra tudo, a disfarçar, a
fingir que era o que exigiam brutalmente que ele fosse."
Inseguro, necessitado de proteção materna, Amâncio procura na
pensão carioca o substitutivo da família, incapaz de perceber
as ciladas que lhe são armadas pela proprietária, Mme. Brizard
e pela sensual Amélia. O dinheiro é a mola dessa sociedade
corrupta e hipócrita. Observe o cinismo dos pensamentos de João
Coqueiro, refletindo sobre o comportamento que sua irmã, Amélia,
deveria simular, para envolver Amâncio:
"Amélia, desde que se convertesse numa necessidade para a
vida de Amâncio, este, com certeza, seria o mais interessado em
fazer dela sua esposa; por conseguinte, agora o que convinha era
que a rapariga também ajudasse de sua parte, empregando todo o
jeito e boa vontade de que pudesse dispor.- devia mostrar-se
cordata, simples nos seus gostos, bem arranjadinha, amiga do
asseio, honesta, digna, enfim, de um marido!"