Um pouco da história da nossa viola

As violas são instrumentos que têm a cara do Brasil.
 Ou melhor “as caras” do Brasil.
No meu caso aqui, "cara de mineiro". 


 Seguindo o rastro da viola em Minas, pra saber de onde ela veio, cheguei ate o 
Ze-Côco, José Barbosa dos Santos, nascido em 1912 em Riachão, distrito de 
nova Brasilia, município vizinho de São Francisco MG. Fabricou a partir de  1930. 
Estabeleceu-se em Montes Claros em 1977.  Sujeito muito simples e cheio da 
sabedoria. Sabedoria daquelas da prática que só o tempo dá.
Ele contava que o próprio pai não queria que ele aprendesse o ofício de fabricar e 
nem a arte de tocar, Mas ele insistiu e acabou fazendo bem os dois. Só tive o 
prazer de conhece-lo poucos anos antes de sua morte. As violas de sua 
fabricação ainda estão por aí e o seu som registrado em muitos discos, tendo ele 
trabalhado até 1998.
Zé-Côco do Riachão estava lá em Montes Claros e outro foco das violas esteve 
bem mais perto de mim aqui em Conselheiro Lafaiete, cidade que se chamava 
antigamente, “Queluz de Minas”. Lá duas famílias; Os Meirelles e os Salgado, 
firmaram nome fabricando violas que eram comercializadas principalmente nas 
festas do Jubileu do “Senhor de Bom Jesus de Congonhas” que acontecia 
anualmente.  Tenho a honra de ter sido presenteado pela Sra. Gracia Meirelles, 
bistena de Benjamim Candido Meirelles, em setembro de  2006 com uma cópia de 
uma das poucas fotos existentes da oficina do velho Benjamim, com a seguinte 
dedicatória:
“Dedilhando ou confeccionando, mesmo que por lapso de tempo não deram a 
continuidade, tanto pelos Meirelles como pelos Salgados, a tradição das 
maraviolhosas “violas de Quieluz” seguirá seu rumo pelas mãos de quem tão bem 
já as faz.”
Tive oportunidade de restaurar muitas dessas violas de períodos diferentes e em 
péssimo estado de conservação. Apenas umas poucas em condições de uso. 
Dessas famílias ainda vivem alguns descendentes mas nenhum herdou a arte da 
fabricação, sendo que as ultimas violas de queluz foram provavelmente feitas na 
década de 1950, segundo o colecionador Cláudio Alexandrino .
Sabendo que as violas chegaram até nós através dos portugueses, 
provavelmente desde as primeiras viagens daqueles colonizadores, busquei 
encontrar a similaridade entre os nossos representantes mais antigos e os 
registros das violas feitas lá em Portugal. No meu entender, exceto pela cintura 
muito acentuada, de acordo com as descrições e fotos das violas registradas no 
livro “Instrumentos Musicais” de Luis L. Henrique - Fundação Calouste 
Gulbenkian- Lisboa 2006;  as violas feitas por Zé-Côco e aquelas feitas pelos 
Meirelles e Salgado tem parentesco próximo com a  “Viola Campaniça” de 
Portugal. Lá, as violas se conservaram sem muitas modificações ao longo dos 
anos, tendo características regionais bem definidas. E notícias recentes, fruto do 
intercambio entre nossos músicos e os de lá, dão conta que as várias formas de 
manifestação que usam a viola estão em vias de extinção.
Ao contrário, aqui no Brasil a viola vem cada vez mais encontrando espaço.Num 
país tão grande como o nosso nada mais normal que a viola se regionalizasse, 
adquirindo várias “caras”.Viola Nordestina, Viola Pantaneira, Viola Paulista, Viola 
Mineira e etc...
Desde que ingressei na arte da fabricação dos instrumentos de cordas, a viola me 
chamou a atenção pelo potencial que ali estava, relegado a um segundo plano 
quase pejorativo, tratada como “viola caipira”.Desde 1986 faço violas. Naquela 
época as fábricas de São Paulo-maior pólo industrial Brasileiro-faziam violas 
principalmente para atender à demanda de um público de pouco poder aquisitivo 
e não investiam na qualidade dos instrumentos. Existiam em todo o Brasil apenas 
alguns poucos Luthiers que tinham condições de aperfeiçoar o instrumento. Assim 
assumi a bandeira de fazer violas para uma nova geração de violeiros. 
Incorporando todo tipo de avanço no que diz respeito ao desenho (ergonomia e 
estética), afinação e executabilidade, alem de experiências com a utilização de  
materiais modernos e tradicionais.

Vergilio Lima

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