próprio dos homens de Áries, agora sei. Os cabelos, ainda
em seus lugares no começo da década de 60, brilhavam, emoldurando o rosto que,
aos meus olhos de criança, apenas me dizia ser de meu pai. Nas mãos trazia um
canudo embrulhado com papel pardo, de revistas, certamente, pois a banca sempre
lhe fascinou sobremaneira. Acenava para os passantes festejando as amizades de
infância (coisas que só nós, gente do interior, podemos avaliar), meneava a
cabeça para os clientes que, por isso mesmo deveriam ser tratados com recato.
Sorria olhando para a nossa casa, feliz por chegar! Mas, assim que termina de
subir o primeiro quarteirão da ladeira, meus olhos curiosos se dirigem ao chão,
percebendo ali, bem ali em seus pés, um belo par de sapatos novos! Sem pensar
em nada, pendurei-me na grade pintada de branco e gritei um sonoro “Hei pai, de
sapato novo, hein?!”É claro que fiquei para a história. Os passantes e
nossos vizinhos da rua estreita ouviram e se divertiram com meu jeito
desprendido de garota. Meu pai corou, continuando a caminhar em minha direção
sem deixar de sorrir. Pulei ao chão e me atirei em seus braços sem me importar
com o que ele me dizia a respeito.
Entre nós sempre foi assim, amizade profunda, carinho
bastante, discurso divergente e compreensão.
Hoje, quando me lembro desses tempos de criança,
sinto vivos em mim meus sentimentos infantis de admiração, de amor e de
respeito e, mesmo que a vida tenha nos embrutecido a todos, sei que essas
lembranças ninguém me pode tirar. Continuo a ser a garota de cinco anos, em
algum lugar de mim, e permaneço aquela criança com muitos cabelos e olhos
negros, sapatos de abotoar e meias soquete a combinarem com o vestido de
algodão de corpo comprido, que adorava a varanda, os passantes, os vizinhos e a
casa em que vivi.
Obrigada natureza é sempre bom relembrar o quanto se
é feliz!
(verão
de 2004)