Desço pelo elevador, como sempre faço. Confiro mentalmente os
itens de minha bolsa, torcendo para que nada tenha sido esquecido: livros e
alguns cadernos, canetas e lápis, carteira com documentos e óculos .
O tempo urge, apesar das
poucas dezenas de metros entre mim e a escola. Apresso-me, como é meu hábito, olhando para a frente, para o alto e
acreditando
que tudo dará certo.
Os carros se alinham pela
rua, quase a se encostarem uns aos outros, dificultando a travessia. A calha é
como um rio que nunca pára e os carros, assim como as águas, são as gotas que
se revezam a engrossar a enxurrada de mentira.
Em alta velocidade,
misturando-se à paisagem dura, entrelaçam-se as motos, pilotadas por corpos sem
nome, tornados iguais devido aos capacetes. Ônibus, vindos de todos os lados da
cidade, embaçam a visão que se teria das demais faixas, expelindo fumaça preta
e fedorenta.
Misturo-me à gama de
estudantes apressados que, como eu, investem seu tempo e dinheiro no ato de
estudar. Todos somos desiguais. Cabelos de variadas cores, calças que se
arrastam ao chão, bem ao gosto dos jovens rebeldes sem causa; moças certinhas,
a ensaiarem a maneira de ser dos que operam a carreira escolhida. Muitos
jovens, outros nem tanto, e vários como eu que se dão ao luxo de tentar de novo
e aqui estão a aprender como se faz, agora, em outro século, a despeito do
tempo que permanecemos afastados dos livros didáticos.
O sinal de pedestres abre e
a massa humana atravessa ligeiro. Do outro lado da rua seguem como formigas de
um mesmo formigueiro, sem se olharem. Adentram a porta vermelha que separa os
mundos e se afundam no miolo do quarteirão a buscar o futuro que se persegue,
melhor do que antes.
(inverno de 2003)