Retratista

 

Algo me dizia que me surpreenderia com a figura simples que adentrara a loja há pouco.

O rapaz, de aparência simples, tímido e com o olhar baixo, desses olhares que se vêem nas pessoas que se acanham, por parecerem simples mesmo, e o era.

Vestido com jeans surrado, sapatos velhos e camisa xadrez, perguntou-me o óbvio:-

_ Vocês vendem quadros aqui?

É exatamente o que fazemos, e então, respondi afirmativamente. Ele me perguntou, apontando para uma das telas:

_ E quanto custa uma dessas?

Eu lhe disse o valor e levantei-me, colocando-me à disposição do cliente que eu sabia não ter dinheiro suficiente para a compra. Mas ele carregava uma pasta, dessas que os artistas de rua carregam consigo. Ah, que vontade de ver o que ele desenha ou pinta...eu ainda não sabia, mas já tinha adivinhado que deveria ser bom. Nem sei por que isso me ocorreu mas, a verdade é que eu, de alguma forma sabia e, a esta altura, sobreveio outra pergunta:

_ Fazem molduras também?

_ Sim, respondi novamente.

Ele fez menção de abrir a pasta, mas sentiu-se inseguro e eu, percebendo, coloquei-o à vontade dizendo se ele gostaria de fazer um orçamento.

Meio sem jeito, apoiou a pasta na mesa de trabalho, tomando cuidado para não colocá-la inteira, como se achasse que não deveria fazê-lo. Abriu-a e, tirando um papel em branco, disse-me:

_ Um desse tamanho, em quanto fica?

Sem esperar que ele permitisse, tomei o papel nas mãos com o intuito de medi-lo, e virei. Ah, se curiosidade matasse!

Que coisa boa se ver um bom desenho. Era a face de um garoto, em preto e branco, com delicada sombra que não evidenciava nenhum traço. Esmaecido, sutil, os olhos da figura brilhavam! Via-se que desenvolvera a técnica sozinho, mas, era tão naturalmente artístico, que sorri de alegria por encontrar um artista nato. É tão raro!

Perguntei a ele onde aprendera a desenhar, e ele me disse:

_ Em casa!

Em casa...isto é, já nasceu sabendo e apenas se aperfeiçoa agora. Que coisa linda de se ver!

Bom, para encurtar a história, fiz vários orçamentos, baixando custos, mas ele disse que não tinha o dinheiro. Perguntei então se ele achara caro e ele, simplesmente, disse não, o preço é bom, apenas não tenho o dinheiro.

Por essa porta, entram pessoas que podem pagar pelo que compram, mas nem todas entendem a importância de se fazer o que se gosta com aquilo que se tem.

Mesmo não vendendo nada a ele me senti feliz por ter acertado em cheio que teria uma boa surpresa e, também, que existe gente que, como eu, sabe exatamente o seu tamanho e potencial, acreditam no que fazem e em sua capacidade criativa, sem medo.

Ele conhece o mundo que o cerca e sabe dos valores que as coisas têm. De que adianta um retrato sem a moldura?

Valores...e tantos precisam de tanto para não saber o valor que têm...

 

 

          (verão de 2001)

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