O outono se aproxima, mudando as cores de São Paulo já tão acinzentada. A garoa, tão famosa, começa a marcar presença nas tardes paulistanas, expondo os corpos de todos ao sabor da intempérie. Chega a ser agradável a umidade, ainda pouca, logo após vários meses de calor intenso.
Caminho descompromissadamente pela calçada, prestando atenção aos passantes que se acotovelam na faixa estreita sem se olharem ou se tocarem. São todos desconhecidos, rostos anônimos, ao menos para mim, que observo as feições “apertadas” da maioria que carrega quilos de preocupações de todas as espécies, como se isso fosse obrigação primeira.
O concreto enegrecido do chão por onde se passa faz com que eu sinta nojo de tanta impureza, já que a chuva ainda é em pequena quantidade para promover a limpeza esperada.
A uns vinte metros à minha frente antevejo uma massa atirada ao chão, como trapos ali deixados sobre algo arredondado. Sou curiosa e me prendo momentaneamente àquele volume estranho, já imaginando o que haveria ali de fato. Infelizmente, sem surpresa quase que nenhuma, sou obrigada a constatar a presença de um homem. Que cena! Deitado ao chão na transversal da calçada imunda, jazia quase de bruços, as mãos espalmadas ao lado do corpo, o rosto colado ao cimento praticamente invisível debaixo de toda a poeira que havia. Estava em frente a um boteco, desses pequenos em que se serve a cachaça a quem adentrar a porta. O vício o levara até lá, mas certamente já não tinha noção de mais nada, sem nada ou coisa alguma a perder. Bebeu simplesmente e caiu em frente ao bar.
As pessoas que passavam por ali desviavam, descendo a sarjeta em direção à rua, quase desculpando o infeliz. Alguns olhavam com piedade, outros fingiam indiferença ou sentiam mesmo isso, jamais saberei.
Pensei em rezar por ele, mas não sabia o que pedir por alguém assim. Invoquei o anjo da guarda e respirei fundo, tentando não me comover demais.
O vento encanado da Rua Augusta traz de volta as coisas banais, que povoam as cabeças de todos, inclusive a minha, e começo a rever minha lista de afazeres, afinal, este é o motivo de eu estar caminhando a essa hora. Tomo cuidado com os transeuntes mais afoitos, aperto a bolsa contra o corpo quente e olho para frente, procurando a luz que vem do alto permeando os prédios à minha volta e, num suspiro, sigo em frente sem qualquer remorso.
(outono de 2003)