No carro
cinza me acomodo e tomo a direção do vento. Norte, Sul, que diferença faria?
Sigo pela estrada poeirenta, é
noite.
Logo mais à frente a auto-estrada
aparece negra qual serpente, pouca luz, silêncio e solidão.
Aos poucos a velocidade aumenta,
assim como a segurança que sempre tive ao dirigir. Mas, como por mágica, cortam
minha frente os trilhos de uma ferrovia. Nem me lembrava mais disso...uma
estrada cortada por outra, sem aviso!
Não
diminuo a marcha, ignorando o sinal inconsciente. Mas, quando estou muito
próximo, percebo o sinal vermelho...parado, não pisca. Não ouço o ruído do
comboio e deixo o carro seguir como se nada houvesse. Nada deve me acontecer.
Olho à direita, enquanto atravesso, pensando que se o trem viesse pela esquerda
eu nem veria.
Juro, não
senti medo!
Mas qual a
minha surpresa ao vê-lo à direita...e se aproximava rapidamente!
Não
acelero, mesmo assim, a desafiar o destino. Acabo de cruzar a ferrovia e vejo o
trem logo atrás, pelo retrovisor, cruzando a escuridão...Cada qual, o trem e
eu, rumo ao seu próprio destino.
As imagens
se confundem na bruma: trem sem ruído, desafio sem medo, estrada escura em
noite imaginária...Sonho!
(verão de
2001)