O peso de um sobrenome

 

O noivado quase não saiu. Na véspera, a moça se apresentou chorosa para o pai. Amava muito o namorado, queria casar-se com ele e não queria magoá-lo, mas não podia suportar a idéia de ter o seu sobrenome, brega demais: Silva.

Quando ela pensava no sobrenome, não podia deixar de lembrar do Dino da Silva Sauro, personagem de seriado americano, cujas características principais eram patéticas. Ela herdara Becker de seu pai como sobrenome, o que era motivo de orgulho.

A principio, quando ela o conheceu na faculdade, não parecia ser importante. Porém ela nuca poderia imaginar que de um romance sem grandes aspirações, um dia fosse se apaixonar a ponto de casar-se com ele.

Ela o conheceu pelo seu primeiro nome, Antônio, ou melhor, pelo apelido carinhoso o qual o chamavam seus colegas de classe, Toni. Ele estava no seu último ano de Letras. Era um rapaz inteligente graças a sua dedicação. Levava muito a serio o que fazia. Durante a semana trabalhava com o pai numa oficina mecânica de fundo de quintal. Às vezes passava o final de semana fazendo trabalhos para outros alunos da faculdade para poder sustentar seu curso. Já tivera passado dificuldades, inclusive fome. Esperava mudar de vida e a formação em Letras parecia ser o caminho mais correto.

Patrícia, a noiva, por sua vez teve uma formação oposta a de Antônio. Ela aos 23 anos estava no segundo ano de psicologia. Carreira escolhida pelo pai, psicólogo conceituado na cidade. Ela nunca tinha trabalhado. Quando passou no vestibular ganhou de presente um carro zero de seu pai e, foi este mesmo carro que um dia falhou no estacionamento da faculdade. Era noite, ela dava partida, e nada. Já estava ligando para a assistência quando Antônio, que estava com o seu Fusca 78 estacionado ao lado, se ofereceu para dar uma olhada. O problema não era muito complicado, mas demorou alguns minutos para consertar. Enquanto ele mexia no motor, conversavam. Apesar de Antônio não falar muito ela percebeu sinceridade e muita inteligência no rapaz, qualidade que achava em extinção nos rapazes de seu circulo de amizades.

Outro dia encontraram-se por acaso na biblioteca, onde conversaram algumas horas. Não demorou muito estavam namorando. Ela foi conhecendo Antonio aos poucos, seus colegas, sua família, seus gostos. Ele era uma pessoa simples e batalhadora. Era só qualidade. Ela, de fato, gostava muito dele. Na faculdade, os colegas de Patrícia, não concordavam muito com aquele namoro, e muitas vezes brincavam ao se referir ao jovem: como Tonho, Tonhinho, seu Silva da Patrícia. Ela não se incomodava com isso. Porém um dia seu pai lhe perguntou, despretensiosamente, quando ela se tornaria a senhora Silva. Então ela percebeu, pela primeira vez, que quando se casasse com Antônio, também se tornaria Silva.

Antônio terminou a faculdade e logo começou a lecionar Português em duas escolas na rede Publica. Trabalhou um ano para dar entrada num apartamento. Achando-se capaz de constituir uma família, pediu Patrícia em noivado. Apesar de ter pensado no sobrenome e imaginado as gozações que seu novo nome “brega” poderiam lhe render no futuro, ela concordou em marcar o noivado.

A festa aconteceu na casa de Antonio. Muitos parentes e amigos foram convidados, mas vieram como era de se esperar, mais da parte do noivo. Na festa Patrícia começou a solidificar seus fantasmas em relação ao nome e sobrenome do noivo. Era Tonho daqui, Tonhinho dali, senhor Silva daqui e, o pior, a mais nova integrante da família dos Silvas: a senhora Patrícia Becker da Silva.

Os fantasmas do preconceito começavam a torturá-la dia e noite. Não sabia bem o porquê, mas as qualidades que antes enalteciam o noivo, eram qualidades dos pobres, ou de Silvas. Tudo o que se referia a pobreza ela acabava relacionando ao sobrenome. Ela via que ele era um simples professor, seus pais não tinham formação, ele morou a vida toda numa vila, pagou a faculdade com muita dificuldade, continuava com o Fusca 78, e a justificativa de toda esta miséria ela atribuía o sobrenome Silva.

Ela se perguntava: como não percebi isso antes? Quem nasce Silva. Morre Silva. Mas ela não tinha esquecido por completo as qualidades de Antônio e tristemente sabia que o amava, e muito. Nela havia um conflito interno que atormentava a alma. Era terrível. Parecia que ao casar-se com ele teria que carregar uma cruz para o resto de sua vida. Ela tentava se controlar. Evitava ir à casa dele. Evitava conversar com suas colegas que faziam piadinhas de mau gosto. Procurou sozinha ajuda nos livros de psicologia e muitas vezes conversava com o pai sobre o assunto. Fazia de tudo para esquecer aquela realidade que ela inventara.

Enfim chegou o grande dia do casamento. Tudo parecia perfeito: seu vestido, a igreja decorada, os padrinhos e os convidados. Um casamento de gala onde inclusive os Silvas estavam elegantes. A cerimônia começa normalmente, mas quando chega o bendito momento de assinar o livro sagrado. A noiva segura a caneta dourada entre seus dedos finos e delicados e começa a empalidecer. Sua mão treme. Naquele momento ela percebeu que estava preste a selar seu destino. O suor junto com as lagrimas começaram a escorrer-lhe na face. Em seu peito o coração batia acelerado. O noivo e os convidados após momentos de impaciência acabam  ficando preocupados com a situação. Quando ela começa a escrever o primeiro nome vagarosamente, depois o segundo e finalmente o fim... Ela cai, morta, atingida por uma parada cardíaca fulminante que lhe salvou de um futuro comum como Silva.

Vagner Rogério Carneiro

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