338 7459 (r) Editora Paz e Terra, 1996 Editores responsáveis. Christine Rõhrig e Maria Elisa Cevasco Edição de texto: Thaís Nicoleti de Camargo Produção Gráfica: Katia Halbe Capa: Isabel Carballo Os assassinatos na Rua Morgue: Tradução: Ana Maria M. Tarsumi A Carta Roubada: Tradição. Erline TV dos Santos Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) ' Poe, Edgar Allan, 1809-1849. Os assassinatos na rua Morgue ; A carta roubada/ Edgar Allan Poe ; [ tradução Erline TV dos Santos, Ana Maria Murakani, Samantha Batista]. - Rio de Janeiro Paz e Terra, 1996. IS$N 85.219-0206-9 1. Contos norte-americanos I. Título. IL Título: A carta roubada. Índices para catálogo sistemático: 1. Contos: Literatura norte-americana 813 EDITORA PAZ E TERRA S.A. Rua do Taiunfo, 177 01212-01Ò - São Paulo - SP Tel.: (011) 223-6522 Rua Dias Ferreira n° 417 -Loja Parte 22431-050 - Rio de janeiro - RJ Tel.: (021) 259-8946 Contdlho editorial: Celso Furtado Fernando Gasparian Roberto Schwarz Rosa Freire D'Aguiar As características mentais tidas como analíticas são, si, pouco passíveis de análise. Nós as apreciamos apenas em seus efeitos. Delas sabemos que, entre outras coisas,. são sempre ;para quem as possuí em alto, grau uma fonte do maior prazer. Como o' homem forte exulta em sua habilidade fisicã, deleitando-se com exercícios que fa cem seus músculos agirem, também o analista se glorifica naquela atividade moral que desenredas. Ele deriva prazer até das mais triviais ocupações que possam trazer seus talentos à tona. Gosta de enigmas, de adivinhações, de hieróglifos; exibindo em cada,uma das soluções um.grau: de a~m que parece, às mentes comuns, sobrenatural. Seus resultados, trazidos pela alnia e essência-do método, rn, na-verdade, todo um ar de intuição.' A capacidade de resolução é muito fortalecida.pelo estudo matemático, especialmente pelo ramo mais alto que, injustamente, e apenas por conta de.suas operações retrógradas, tem sido chamado, como se par excellenre, de análise. Ainda assim calcular não é em si analisar. Um jogador de xadrez, por exemplo, faz um movimento sem sobrecarregar o outro. Acontece que o jogo de xadrez, em seus efeitos sobre o caráter mental, é muito mal compreendido. Não estou agora escrevendo um tratado, mas sim, plesmente prefaciando uma narrativa um tanto estranha com observações feitas muito ao acaso. Irei, portanto, aproveitar a ocasião para afirmar que os mais altos poderes do intelecto reflexivo são mais decidí& e proveitosamente desafiados por um simples jogo de damas do que por toda a frivolidade elaborada do xa drez:Neste último, em que as peças têm diferentes e bi zarros;movimentos, com vários e variáveis valores, o que é apenas' complexo é considerado (um erro nada comum) profundo. A atenção é aqui poderosamente posta em jogo. Se se distrai por um instante, um erro é cometido, o que plica perda ou derrota. Sendo os movimentos possíveis não apenas variados, mas também complicados, as proba bilidádes de tais erros são multiplicadas; de nove em dez casosY. '-o jogador mais atento que vence, não o mais pers picaz: No jogo de damas, ao contrário, onde os movimen são cor e têm pouca variação, as,probabilidades de erro são reduziçlas, e sendo a atenção comparativamente desprezada, as vantagens obtidas por qualquer,das partes sao por um acumen superior. Para ser menos abstrato, suponhamos um jogo de damas no qual restem apenas quatro peças, e onde, obviamente, não se espera nenhum erro. É óbvio que aqui a vitória pode ser decidida (tendo os jogadores as mesmas condições) apenas por algum movimento rechembé, resultado de algum grande esforço intelectual. Privado de récursos comuns, o analista mergulha no espírito de seu oponente, identifica-se com ele e não raramente observa, assim, de relance, o único método (às vezes absurdamente simples) pelo qual pode levá-lo a erro ou a precipitação no cálculo. . O uíste* é há muito tempo reconhecido por sua influência no que é chamado poder de cálculo; e homens do mais alto nível intelectual têm experimentado, aparente mente, grande prazer neste jogo, ao mesmo tempo em e consideram o xadrez frívolo. Não há dúvida de que não há nada como ele para desafiar a capacidade analítica. O melhor jogador de xadrez em Christendom não passa de o melhor jogador de xadrez; mas a proficiência no uíste implica uma capacidade de sucesso em todas os empreen * Uíste 1= whist] é um jogo de cartas, considerado o ancestral do bridge, em que predomina o recurso ao cálculo das probabilidades. (N. do E.) 9 dimentos mais importantes, nos quais a mente luta com a mente. Quando eu digo proficiência, quero dizer aquela perfeição no jogo que incluí a compreensão de todo os recursos de onde se deriva vantagem legítima. Estas, não são apenas diversas, mas multiformes, e encontram-se, freqüentemente nas profundidades do pensamento,'intei temente inacessíveis ao.entendimento comum. Observar; atentamente é lembrar distintamente; e, assim,, o jogador de xadrez capaz de grande concentração se sairá muito bem no uíste; pois as regras de Hoyle (baseax4a, meramente no mecanismo do jogo) são suficientes e' geralmente de fácil compreensão. Assim, ter uma boa me môria e proceder "pelo manual são pontos normalmente; co}isíderadoscomo características de um bom jogador. Mas nas questões além de meras regras que a habilidade do analista se revela. Ele faz, em silêncio, uma série de obser vações e inferências. Também as fazem, talvez, seus companheiros; e a diferença na quantidade de-informações obtidas não se deve tanto à validade da inferência como à qualidade da observação. 0 conhecimento necessário reside emi o'que observar. Nosso jogador não se limita ao jogo; nem; porque o jogo é o objeto, deixa de fazer, deduções sobre coisas externas a ele. Examina a fisionomia de seu parceiro, comparando-a cuidadosamente com a de cada u,mÃe seus oponentes Considera o modo de dar as cartas a a rodada;-freqüentemente consegue contar trunfo por 1 n tiunfo, ponto por ponto, por meio dos olhares que os ouros jogadores lançam a suas cartas. Observa cada variação rostos à medida que o jogo progride, reunindo um quivo de idéias das diferenças na expressões de certeza, de surpresa, de triunfo, de pesar. Percebee através de efe se o jogador irá blefar em seguida. Reconhece uma, ogada maliciosa pela maneira com que a carta é jogada na mesa. Uma palavra casual ou inadvertida, a queda ou vi cada acidental de uma carta, com a ansiedade oua sido recebido' pela personagem roubada quando sós no kwdoir real. Enquanto a lia, foi ela intenda subitamente pela entrada de outra nobre persona de quem era seu especial desejo esconder acarta De e um apressado e vão empenho em enfiá-la em urna ,ela foi forçada a colocá-la, aberta como estava, sobre mesa. 0 endereço, contudo, estava voltado parã cima, do o conteúdo escondido, a carta passou desaperte Nessa conjuntura, entra o Ministro R Seus olhos de imediatamente percebem o papel, reconhecem a cali a do endereço, observam a confúsão da personagem a m estava endereçada e ele adivinha seu segredo. Após transações feiras apre sadamente, como é ele seu rume, ele surge com uma carta algo parecida àquela em tão, abre-a, 'finge lê-la e a coloca, então, em precisa aposição com a anterior. Novamente conversa, por uns ìnze minutos, sobre assuntos públicos. Por fim, ao *sair, 1 pega também da mesa a carta à qual não tinha nenhum Ìuéito. Sua dona legítima viu, mas, certamente, não ousou 67 chamar a atenção para o fato na presença da terceira perso vagem, que estava em pé ao seu lado. Q ministro-retirou. se, deixando sua própria carta -.de nenhuma importância sobre a mesa. Aqui, então - disse Dupin para mim - está precisamente o necessário para tornar a ascendência'completa - o ladrão sabe que sua identidade é do conhecimento da pessoa roubada. Sim replicou o chefe de polícia - e o poder assim ganho tem sido usado, nos últimos meses, de modo muito perigoso, com propósitos políticos. A personagem roubada está mais profundamente convencida, a cada dia, da necessidade de reaver a carta. Mas isso, certamente, não pode ser feito abertamente. Em suma, levada ao desespero, -ela confiou o caso a mim. - Para tal caso- disse Dupin, em meio a umma perfeita espiral de fumaça - não se pode imaginar ou desejar um agente mais sagaz. - Você me lisonjeia - replicou o chefe de polícia; mas é possível que tenham pensado assim. - É claro - disse eu -, como você observouu, que a carta ainda está em posse do ministro, uma vez que é esta posse, e não o emprego da carta, que lhe outorga o poder. Com seu emprego, o poder desaparece. - É verdade - disse G. E, corri base nessaa convicção, dei início às investigações. Meu primeiro cui 6R o de fazer uma busca cuidadosa na casa do minisui minha maior dificuldade residia ria necessida-; izá-la sem o seu conhecimento. Acima de tudo, sedo sobre o perigo que poderia resultar caso lhe os motivo para suspeitar de nosso. plano. Mas - disse eu - você está bem au faut. nes vestigações. A polícia parisiensefez isto muitas ve tes. Oh sim, e por esse motivo eu não me desesperei. tos do ministro deram-me também uma grande em. Ele está freqüentemente ausente de casa du a noite inteira. Não tem muitos criados. Dormem certa distância dos aposentos de seu senhor e, senna _maioria napolitanos, embebedam-se facilmente. o chaves, como vocês sabem, com as quais posso r qualquer aposento ou gabinete em Paris. Por três não se passou nenhuma noite sem que eu não estie ocupado, pessoalmente, em revistar a casa_ de D. ha reputação está em jogo, e, para revelar um gransegredo, a recompensa é enorme. Assim, não*abandoa busca até ter-me convencido totalmente de que o rão era um homem mais astuto do que eu. Creio que estiguei cada desvão e canto onde seria possível esnder o documento. Mas não é possível - sugeri -; apesar de a carta r sob a posse do ministro, como ela sem dúvida está, G9 que ele não a tenha guardado m ro local q não a sua própria casa? -- isso é muito pouco provável, disse Dupiin._ As con dições atuais peculiares dos negócios na corte e, especialmente, daquelas intrigas.. nas quais se sabe que D. está envolvido tornam a acessibilidade instantânea do documento - a possibilidade de ser .encontrado a qualquer momento um ponto de importância quase igual ao de sua posse. --= Sua possibilidade de ser encontrado? ---disse eu. Quero dizer, de ser destruído - disse Dupin. --É verdade --observei. -0 documento certamente está na casa, então. Quanto a ele estar na própria pessoaa do ministro, podemos considerar isso como fora de cogitação. Completamente, disse ochefe de polícia Nós o atordamos por duas vezes, como se %ssemos salteadores, e ele foi rigorosamente revistado sob minha própria supervisão. Você poderia ter-se.poupado esse trabalho, disse Dupin. - D., presumo, não é nenhum tolo, e deve ter antecipado essas emboscadas, como era de se prever. - Não um tolo compléto - disse G. -~ Mas eele é um poeta, algo que considero estar somente um degrau acima da tolice. - É verdade - disse Dupin, após uma longa e penativa baforada de seu cachimbo - apesar de eu mesmo ter perpetrado alguns versos de pé, quebrado. 7n Você poderia detalhar --- disse-eu os pormea sua investigação? -Bem, o fato é que aproveitamos o tempo e procu por todo lugar. Tenho muita experiência nesses as Vasculhei todo c ;prédio, cômodo por cômodo, cardo as noites de uma semana inteira a cada um. ramos, primeiramente, a mobília do apartamento. mos todas as gavetas; e eu presµmo que vocês sabem para um agente policial bem treinado, uma gaveta é algo impossível. Todo hóm~(n que permite que gaveta sá~ lhe escape' em investigações desse tipo é tolo. A coisa é tio óbvia. Há uma certa quantidade de aço a- ser considerado em cada armário. Temos regras sas para tanta. Nem mesmo a qüinquagésima parte uma linha pode nos escapar. Depois dos armários, pasos às cadeiras. As almofadas, nós examinávamos com ongas agulhas que vocês já me viram empregar. Das rernovemos os tampos. - Por quê? - Às vezes o tampo de urna mesa, ou outro tipo de obília semelhante, é removido por uma pessoa com o m' de esconder um objeto: então, a perna é escavada, o igo depositado dentro da cavidade, e o tampo recoloca 0 fundo e os tampos das cabeceiras das camas são uti nados da mesma forma.. 71 - Mas a cavidade poderia ser detectada pello som? - perguntei.. --- De forma alguma se, quando o artigo é depositado, há suficiente enchimento de algodão ao seu redor. Além do mais, no nosso caso, fomos obrigados a trabalhar em silêncio. - Mas você pode não ter removido, não ter desmontado todas as peças de mobilia nas quais teria sido possível depositar algo, da maneira que você mencionou. Uma carta pode ser comprimida em uma fina espiral, não diferindo muito em forma ou aspecto de uma grande agulha de tricô, e neste formato ela poderia ter sido inserida den. tro do desvão de uma cadeira, por exemplo. Você desmontou todas as cadeiras? Certamente que não; mas fizemos melhor: examinamos os assentos de cada cadeira que havia na casa, bem corno as junções de cada peça do mobiliário, com a ajuda de um poderosíssimo microscópio. Se houvesse quaisquer traços recentes de alteração, nós os teríamos detectado instantaneamente. Uma única marca de verruma, por exemplo, teria sido tão óbvia quanto uma maçã. Uma modificação qualquer na cola, qualquer falha nas juntas teria sido suficiente para denunciar o local. Presumo que você tenha olhado nos espelhos, rio espaço entre o vidro e o fundo, hem como procurado nos leitos e nas roupas de cama, entre as cortinas e os tapetes. 72 Isso é claro;-após examinarmos cada polegada dá bílis desta macieira, examinamos então ,a casa em si. rdimos sua superfície inteira em compartimentos, os s numeramos de forma a que nenhum fosse esqueci , incluindo as duas casas imediatamente adjacentes, com microscópio, tal qual dantes. -- As duas casas adjacentes? - exclamei. VVocê e ter tido uns bons problemas! Tivemos; mas a recompensa oferecida é prodigiosa. Vocês incluíram, na investigação, o chão ao redor casas? - A área toda é ladrilhada. Examinamos o mmusgo stente entre os ladrilhos, verificamos que estavam intactos. - Você olhou entre os papéis de D., certammente, e ntro dos livros da biblioteca? -- Lógico; abrimos cada embrulho e pacote;; não só rimos todos os livros, mas também viramos cada página m cada volume, não nos contentando apenas em sacudios,, como é costume de alguns de nossos oficiais de polícia. Medimos também a grossura de cada capa de livro, com a maior precisão, e aplicamos a cada uma o mais zeloso e minucioso exame do microscópio. Se qualquer uma das enca dernações tivesse sido remexida recentemente, seria absoiutamente impossível que o fato tivesse escapado à nossa observação. Inclusive cinco ou seis volumes, que haviam 73 chegado havia pouco do encadernador, foram -dád mentee examinados, longitudinalmente, com as agulhas. -- Você explorou o chão por debaixo dos taapetes? - Sem dúvida. Removemos todos os tapetes ee:examinamos as tábuas com b microscópio. - E os papéis de parede? -- Também. Vocês olharam nos porões? - - Olhamos Então - disse eu =vocês estão fazendo algum erro de calculo, e a carta miro está na casa, como-você 'supõe. Temo que você esteja certo nesse ponto - disse o chefe de polícia. - E, agora, flupin; o que você me aconselha a fazer? Uma nova busca no edifício. -- Isso é absolutamente desnecessário -= rreplicou G., Estou tão_ certo de que a carta não está na casa quanto estou de que respiro. Não tenho melhor conselho a lhe dar disse Dupin. --Você tem, certamente, uma descrição precisa da carta? Oh, sim? - E aqui o chefe de polícia, tirando do bolso um bloco de anotações, começou a ler eru voz alta uma breve exposição sobre a aparência interna e especial mente externado documento perdido. Logo após terminar a leitura, retirou-se mais profundamente abatido do que 'amais o vira antes. 74 aproximadamente um mês, ele nos fez outra ira e encontrou-nos ocupados de maneira semelhante â outra 'vez. Tomou um cachimbo e uma cadeira e come ou uma conversa casual. Por fim, disse-lhe: -- Bens, mas G., o que me diz sobre a cartta rouba,da? Presumo que você finalmente se tenha convencido de ue não há nada que possa lograr o' ministro. -- Raios o partam! S m desisti. Fiz a novaa investiaçao, contudo, como Dupin sugeriu. Mas foi tudo itrabaho perdido, como eu já previa. - De quanto era a recompensa que você me ccionou? - perguntou Dupin. Bem, bastante considerável, uma recompensa bastante generosa, não gostaria de dizer quanto precisamente. Mas uma coisa vou dizer: não me importaria de dar um cheque de cinqüenta mil francos, a qualquer um que me conseguisse aquela carta. Q fato é que ela está se tomando a cada dia mais e mais importante e, recentemente, a recompensa foi dobrada. Mesmo que ela tivesse sido triplica la; contudo, eu -não poderia mais do que fiz. -- Bem -- disse Dupin, dentre as baforadass de seu cachimbo - eu realmente penso, G., que você não se aplicou ao máximo a esse caso. Você poderia... fazer um pouco mais, penso eu, não? Como? De que forma? - Bem - puff, puff - você poderia - pufff,, puff - conseguir um conselheiro, não? - puff, pufff, puff. Você se recorda da história que contam sobre. o Abernethy? - Não. Dane-se o Abernethy! - Pode estar certo. Que se dane, se assim deseja. Mas, em certa ocasião, um rico avarento formulou.um plano de extorquir desse Abernethy uma consulta médica. Levantando, para tal propósito, em uma conversa entre ínti .- mos, ele insinuou seu caso para o médico, como se retratasse o de um indivíduo imaginário. Vamos supor, disse o avarento, que seus sintomas sejam tais e tais; agora, doutor, o que o senhor o aconselharia a fazer? Eu 'o aconselharia -disse Abernethy - a passar por uma consulta, sem dúvida -alguma. - Mas - disse o chefe de polícia, um poucoo desconcertado ---- eu estou perfeitamente disposto a seguir con selhos e a pagar por eles. Eu realmente daria cinqüenta mil francos para qualquer um que me ajudasse nesse assunto. - caso - replicou Dupin, abrindo uma gavetta e mostrando um livro de cheques - você e me preencher um cheque com a quantia mencionada. Quando você o tiver assinado, eu lhe darei a carta. Eu estava perplexo. O chefe de polícia parecia absolutamente estupefato. Por alguns minutos permaneceu mudo sem ação, olhando incredulamente para meu amigo com a 76 Aberta e olhos que paxeoiam saltas das ózbiras. Final mente, aparentando .restabelecer-se, pegou de tonar pena e, diversas pausas e olhares vagos, preencheu e assinou um cheque de cinqüenta mil francos e o entregou por sobre mesa a Dupin.. O último examinou-o cuidadosamente e epositou-o em sua carteira de notas Abrindo então um euritaire, pegou de lá uma carta e deu-a ao chefe de polícia. 11 O funcionário pegou-a tomado de louca alegria, abriu-a com mãos trêmulas, lançou um rápido olhar sobre seu conteúdo e, então, andando com esforço, lutou para chegar à porta, precipitou-se porfim, sem cerimônias, para fora do aposento e da casa, sem emitir uma só sílaba desde que Dupin- lhe pedira para preencher o cheque. -Quando ele se foi, meu amigo dignou-se a dar-me algumas explicações. A polícia parisiense disse ele é extremamente hábil à sua maneira. É perseverante, engenhosa, sagaz e, profundamente versada sobretudo nos conhecimentos que suas obrigações demandam. Dessa forma, quando G. detalhou para nós seu método de busca na casa de D., senti-me inteiramente confiante de que ele havia feito uma investigação satisfatória-até onde seus esforços lhe permitiam. - Até onde seus esforços lhe permitiam? - Sim - disse Dupin. As medidas adotadas eeram não somente as melhores possíveis, como também foram 77 levadas a cabo com absoluta perfeição. Se a carta tivesse sido depositada, dentro dos limites de suas buscas, esses indivíduos a teriam encontrado, serra duvida. Eu simplesmente ri. Mas ele parecia estar falardo sério. As medidas, então-continuou ele eram boas à sua maneira e bem executadas; seus defeitos residiam em serem inaplicáveis ao caso e ao homem. Certa classe de meu~ altamente engenhosos é para o chefe de polícia espécie de leito de Procusto ao qual ele forçosamente adagia seus planos. Mas ele erra perpéCga°me e por ser muito profundo ou muito superficial com o caso que tem em mãos. Muitos alunos de colégio raciocinam melhor do que ele. Eu conheci um de aproximadamente oito anos de idade, cujo sucesso na adivinhação no jogo de "par ouu ímpar" atraía admiração universal. Esse jogo é simples, e jogado com bolas de gude. Um jogador segura em suas mãos um certo número destas bolinhas e pergunta ao ou tio se esse número é ímparou par. Se o-palpite estiver certo, o adivinhador ganha uma bolinha se estiver erra 'do, perde. O menino de que falo ganhou todas as bolinhas escola. Certamente ele tinha alguma regra de adiv°ião baseadas na mera observação-e na medida da astúe seus oponentes. Por exemplo, se seu adversário fos tolo deslavado que, éstendendo-lhe sua mão-fechada perguntasse; "Par ou ímpar?" - e o nosso menino ficasse par' e perdesse, na segunda tentativa ele nceria, porque ele diz eritãõ a si mesmo: "O tolo tini m número par na primeira tentativa, e sua astúcia, só lhe suficiente para fazer com que as teniha ímpar' na segun t1a. Logo, vou dizer ímpar." Ele diz ímpar e ganha. Agora, com um tolo um pouco mais inteligente do que o primeiro, ele pensaria dessa forma: "Esse sujeita descobre que ,na primeira vez eu disse ímpar, e na segunda ele vai propor a si mesmo, num primeiro impulso, uma simples variação de par para ímpar. Um segundo pensamento, no entanto, lhe sugerirá que essa variáção é muito simples, e ele final mente vai se_ decidir por um número par como antes''. Ele diz par e ganha. Esse tipo de raciocínio do menino, que seus companheiros denominavam afortunado, o que é, em última análise? -- É tão somente - disse eu -- a identificcação do intelecto do raciocinadór como de seu oponente. É isso disse Dupin. - Perguntando ao menino sobre os modos pelos quais ele efetuava a identificação completa que consistia no seu sucesso, recebi a seguinte resposta: ".Quando quero descobrir quão esperto, ou quão obtuso, quão bom, ou quão perverso, é meu oponente, eu moldo a expressão de minha face de modo a repetir. o mais exatamente possível a dele, e então espero para ver que pensamentos ou sentimentos surgem em minha mente ou coração, como se fossem correspondentes à expressão. Essa resposta do menino reside no fundo de toda a falsa profundidade què tem sido atribuída a Rochefoucauld, á U Bougive, a Maquiavel e a Campanella. -- E a identificação - disse eu - do intellecto do -raciocinados com o de seu oponente, depende, se bem lhe entendo, da exatidão coma qual o intelecto do oponente é medido. - Na prática, depende disso - replicou Duppin -, e 6 chefe de polícia e seu grupo falham com tanta freqüên cia primeiro por falta dessa identificação e, segundo, por uma má aferição, ou por uma não-aferição do intelecto com o qual estão envolvidos. Eles consideram somente suas pró prias idéias de engenhosidade e, ao procurar por-qualquer coisa escondida, atentam somente às formas peias quais Mes a teriam escondido. De certo modo, eles estão certos canto a esse aspecto - uma vez que sua engenhosidade uma representante fiel daquela da masca. Mas, quando a astúcia de um indivíduo em particular é diversa em forma da deles próprios, o criminoso os despista, sem qualquer dúvida. Isso sempre acontece quando tal astúcia está aci ma da deles e, também, quando ela está abaixo. Eles não m flexibilidade de princípios em suas investigações. Na lhos das hipóteses, quando incitados por algumaa emer cia pouco comum, ou por uma recompensa extraordi 'kiária, eles aumentam ou exageram suas velhas formas de Mítica, sem tocar em seus princípios. O que, por exem 80 nesse caso de D., for feiro para variar o princípio de ? p que são essas perfurações e sondagens, percursóes, es microscópicos e divisão da superfície do edifício polegadas quadradas o que é tudo isso senão um' era na aplicação de um princípio ou conjunto de prin-. pios de busca,- baseado num conjunto de noções ieferen s à engenhosidade humana, à qual o chefe de polícia, na a rotina de suas obrigações, se acostumou? Você não que ele tomou como, certo que todos os homens, ao esaderem uma carta, escolhem não exatamente o buraco ito por uma verrruma dentro da perna de uma cadeira, pelo menos, algum buraco ou canto fora do caminho, ugerido pelo mesmo tipo de pensamento que teria levao um homem a esconder uma carta num buraco feito por verruma dentro da perna de uma cadeira? E você não e também que tais esconderijos recherchés são adotados mente paraa ocasiões comuns e somente por intelectos omuns? Porque, em todos os casos de ocultamentó, a dissição dó artigo escondido, a disposição dele nessa forma e recherrhé é, em primeiro lugar, presumível e presumida; ogo, sua descoberta depende não tanto da perspicácia, mas sim do mero cuidado; paciência e determinaçãoo dos investigadores. E, quando o caso é de importância, ou, o que dá no mesmo, quando a recompensa é de magnitude . . nunca se pensou que as qualidades em questão pudessem falhar. Você vai entender-agora o que eu quis dizer ao 81 sugerir que, se a carta roubada•estivesse dentro dos limites de busca do chefe de polícia, em outras palavras, se o princípio de ocultamente dela estivesse compreendido nos princípios do chefe de polícia '--•- a descoberta da carta teria sido, por fim, algo fora de questãó. Esse funcio-nário, contudo, está sempre profundamente mistificado, e a causa remota de sua derrota reside na suposição de que o ministro é um' bobo, porque ele conseguiu renome corno poeta. Todos os tolos são poetas; isso é o que ochefe de políciapensa; e ele é meramente culpado de um non cdâMbutto meddii ao inferir daí que todos os poetas são tolos. Mas é ele de ,fato poeta? perguntei. Há dois irmãos, eu sei; e ambos alcançaram reputação nas letras. O ministro, creio eu, escreveu com erudição sobie cálculo diferencial. Ele é um matemático, e não um poeta. Você está errado. Eu o conheço bem; ele é ambas as coisas. Como poeta e'matemático, ele poderia raciocinar bem; como mero matemático, ele não poderia ter raci 'nado, e estaria assim à mercê do chefe de polícia. Você me surpreende - disse eu - com essas ;opiniões, que têm sido contraditas pela voz do mundo. Você não pretende desprezar uma idéia que é bem aceita há séculos. O raciocínio matemático tem sido considerado, por longa data, como a razão par excelkw. -1l y a à parlar--replicou Dupin, citando Chamfort ne toara idbe publique, reate convention rua,- ert une sortira, 92 elle a c"r erro au pios ~ noszW. Os matemáticos, asseguro, fizeram: de tudo para prolongar o erro 'co ao qual você está aludindo, o que, todavia, não o, certo apenas por sua divulgação como verdade,. Com a arte merecedora de uma causa -melhor, par.exemplo, insinuaram o termo "análise" em aplicação à álgebra. franceses são a origem desse logro em particular; mas um termo é de alguma importâncià, se as palavras der ,-algum valor de sua aplicabilidade, então '"anáhsc smite à- álgebra tanto quanto, em latim., "ao$kíwo imica "ambição, "reliÈo" "religião", ou 'bomím bons W um de senhores honrados. Vejo que você tem uma' querela .- disse eu m alguns dos algebristas de Paris. Ma prossiga. = Discuto a êfcácïa, e logo o valor, dó figo de saciinio que é cultivado de uma forma especial, diferente' lógico abstrato. Discuto, em particular, a razão extraído estudo matemático. As matemáticasc são a ciência da rma e quantidade; o raciocínio matemático só é lógico ndo aplicado à observação da forma e quantidade. O rande erro reside,em supor que mesmo as verdades da pura álgebra são 'abstraídas da verdade comum. Deve-se apostar - replicou Dupin, citando Chamfort - quetoda a pública, toda convenção aceita é uma tolice, porque conveio ao ero o~r'. (trad. de J.Paulo Paes) (N. do E.) 83. E esse erro é tão notório que fico perplexo com a universalidade de sua aceitação. Os axiomas matemáticos não são axiomas de verdades gerais. O que é verdade na r~o - de forma e quantidade é muitas vezes grandemente falso no que se refere às morais, por exemplo. Nessa última ciência é muito comumente falso que as partes agregadas são iguais ao todo. Na química o axioma também falha. Na consideração da causa ele falha; porque duas causas, cada umaa de um dado valor, não têm, necessariamente, um valor, quando unidas, igual à soma de seus valores em separado. Há inúmeras outras verdades matemáticas que só são verdadeiras dentro dos limifes da relação. Mas o matemático argumenta com suas verdades finitas, por meio do hábito, como se elas fossem de uma aplicabilidade geral e absoluta -como o mundo de fato imagina que elas sejam. Bryant, em sua erudita Mythology, menciona uma fonte de erro análoga, quando diz que, "apesar de não acreditarmos nas fábulas pagãs, esquecemo-nos disso çontinuamente e fazemos inferências a partir delas como se fossem.realidades existentes". Entre os algebristas, contudo, que são igualmente pagãos as "fábulas pagãs" merecem crédito e as inferências são feitas, não tanto por um lapso de memória, mas por um aturdimento do cérebro. Em resumo, eu nunca encontrei um matemático puro em que pudesse confiar fora de suas raízes e de suas equações, ou algum que não sustentasse clandestinamente como ponto 84 que xZ-+ px era absoluta e incondicionalmente igual , e, tendo-o feito entender o que você quer dizer, saia a de seu alcance, tão rápido quanto for conveniente, rque, acima de qualquer dúvida, ele se empenhará em rrubá-lo. - Quero dizer - continuou Dupin, enquanto eu mplesmente ria com suas últimas observações - que, o ministro fosse não mais que um matemático, o chefe polícia não teria necessitado passar-me um cheque. u o conhecia, contudo, como -matemático e poeta, e inhas medidas foram adaptadas à sua capacidade, com ferência às circunstâncias pelas quais ele se encontrava - eado. Eu o conhecia como um cortesão também, e mo um intrigante audacioso. Um homem como esse, onsiderei, não poderia desconhecer os modos comuns a ação policial. Ele não poderia ter deixado de anteciar - e os eventos provaram que ele não o fez - as mboscadas às quais foi sujeito. Ele deve ter previsto, efleti, as investigações em seu edifício. Suas freqüentes usências -de casa durante a noite, aclamadas pelo chefe e polícia como ajuda providencial para seu sucesso, coniderei somente como artimanhas para dar à polícia a portunidade de buscas profundas, e assim impressionáa rapidamente com a convicção de que a carta não estaa no prédio. Pensei também que toda a linha de pensaento que eu estava me esforçando, por detalhar para 85 você agora, referente ao invariável princípio policial de, busca de objetos escondidos- senti que toda essa linha de pensamentoteria de passar pela mente do ministro. Ela o levaria, impexativamente, a desprezar todos os recantos comuns de esconderijo. Ele;não poderia, eu refleti, ser tão fraco ao ponto de não ver que o mais intrincado e remoto recesso de sua casa poderia ser tão aberto como os mais simples armários aos olhos, às investigações, às verrumas e aos microscópios do chefe de polícia. Eu vi, em resumo, que ele poderia ser dirigido, na verdade, a simplicidade,. se não dëliberadamente,.induzido a ela por unia escolha pessoú. Você se lembrará, talvez, de como o çhefe de polícia riu-se quando lhe sugeri, em nossa pri meitá entrevista, que seria possível que esse mistério lhe perturbasse, tanto por ser muito evidente. -- Sim -- disse eu - recordo-me bem do divverciento dele. Eu realmente pensei que ele fosse ter convulsões. --D mundo material -continuou Dupin - abunnda em analogias muito precisas com o mundo imaterial; por isso, alguns tons de verdade têm sido dados ao dogma retórico, de que a metáfora ou símile podem ser feitos para reforçar um argumento como, também, para embelezar uma descrição. O princípio, da vir inertúre, por exemplo, parece ser idêntico na física e na metafísica. Não é mais verdadeiro, na primeira, que um corpo grande é posto em 86 ovimento com maior dificuldade do que um pequeno, e ue seu mornexrum subseqüente é proporcional à sua difi uldade, do que oé.na segunda, que o intelecto de maior capacidade, por mais enérgico, mais constante e mais notàvel em seus movimentos do que aqueles de um nível inferior, é, contudo; posto em movimento com maior difnculdade e é riais embaraçado e cheio de hesitação nos primeiros passos de seu progresso. Por sinal: você reparou alguma vez quais dos, sinais de rua, sobre as portas das ojas, atraem mais a nossa atenção? Nunca pensei nisso, disse eu. -- Há um jogo de adivinhação, prosseguiu eele"que é jogado com um mapa. Um dos jogadores diz ao outro que ache unta dada palavra - o nome de unia cidade, um rio, um estado, um império qualquer=palavra, em resumo,' sobre a variada e confusa superfície do mapa. Um novato no jogo geralmente procura atrapalhar seu oponente dando-lhe os nomes de letras mais miúdas. fitas o veterano escolhe palavras em letras grandes, ocupando' de, uma ponta a outra do mapa. Estas, como os sinais- e anúncios de letras bem grandes nas ruas, escapam à observação por força de serem excessivamente óbvios. Aqui o equívoco físico é precisamente análogo, à inapreensão pela qual o intelecto sofre ao passar despercebido por aquelas considerações tão palpavelmente evidentes. Mas esse é um ponto, parece-me, uri pouco acima, ou abai 877 xo, do entendimento do chefe de polícia. Ele nunca pen sou que seria provável ou possível que o ministro tivesse depositado a carta imediatamente abaixo do nariz de; todo o mundo, de forma a melhor evitar que qualquer porção desse mundo a percebesse. - Mas, quanto mais' refleti sobre a ousadaa, audaciosa e perspicaz engenhosidade de D.; sobre o fato de que o documento deve ter sempre estado à mão, se ele quisesse usá-lo para um determinado propósito; e sobre a evidencia decisiva, obtida pelo chefe de_ polícia, de que ela não estava escondida nos limites da busca comum daquéle dignitário mais convencido eu me tornava de que, para esconder essa carta, o ministro lançara mão de urn expediente amplo e sagaz, procurando, por fim, não escondê-la. Cheio dessas idéias, armei-me com um par cie óculos verdes e fui, numa bela manhã, muito por acaso, ao I-lòtel Ministerial. Encontrei D. em casa, recostandose, bocejando e preguiçando, como sempre, fingindo estar no mais extremo ennui. Ele é, provavelmente, o mais enérgico ser humano vivo - mas isso somente quando ninguém o vê. Para estar quite com ele, reclamei de meus olhos fracos, e lamentei a necessidade .dos óculos, sob a proteção dos quais eu cautelosa e minuciosamente inspecionei o apartamento, enquanto aparentava estar atento somente à conversa de meu anfitrião. 99 Prestei especial atenção a uma; grande escrivaninha perto da qual ele estava sentado, e sobre a qual estavam, confusamente, algumas cartas e outros papéis, comum ou dois instrumentos musicais e alguns livros. Lá, contudo, após longo e deliberado exame, não encontrei nada que despertasse particulares suspeitas. Por fim, meus olhos,percorrendo o aposento, caíram sobre um porta-cartões barato, de filigrana e papelão, que pendia, oscilante, por um sujo laço azul, de um pequeno prego de bronze, logo abaixo do -meio do consolo da darei- ra. Nessa armação, que continha três ou quatro compartimentos, estavam cinco ou seis cartões de visita e uma úníca carta. Esta última estava muito manchada e amassada... Estava praticamente cortada ao meio, como se o intuito de rasgá-la, num primeiro momento, tivesse sido, num segundo, alterado ou adiado. Tinha um grande lacre preto, marcado muito visivelmente com o monograma D., e estava endereçada, em uma pequenina letra feminina, a D., o próprio ministro. Estava descuidadamente, e até mesmo desdenhosamente, enfiada dentro de uma das divisões mais altas da armação. Tão logo vi aquela carta, concluí ser a que eu estava procurando. Para todos os efeitos, ela era radicalmente diferente daquela cuja tão detalhada descrição o chefe de polícia nos havia lido. Aqui o lacre era grande e preto, com o monograma de D.; lá ele era pequeno e vermelho, 89 com as armas ducais da fajmOU S.; aqui o endereço para o ministro era, diminuto e feminino; U o sobrescrito para uma certa personagem real era marcadamente audacioso e decidido; apenas o -tamanho constituía em pontes de correspondência: Mas, então, as radicais diferenças eram excessivas; a sujeira, o estado manchado e amarrotado;do papel, tão inconsistentes com os verdadeiros hábitos metódicos de D., tão sugestivos de um intuito de enganar o observador, passando uma idéia de inütilïdade do documento; essas coisas, juntamente com a situação muito evidente do documento, completamente à vista de qualquer visitante e, portanto, exatamente de acordo com: as conclusões às quais eu havia chegado anteriormente, essas coisas, digo, estavam, comprobatórias de suspeitas, para alguém queviera com a; intenção de suspeitar. Alonguei minha visita o quanto pude e, enquanto mantinha a mais animada discussão com o ministro sobre um tópico que eu bem sabia que jamais falharia em interessá-lo e excitá-lo, mantive minha atenção cravada sobre a carta. Neste exame, memorizei sua aparênciaa externa e disposição no porta-cartões, chegando a uma descoberta que desfez, por fim, qualquer dúvida trivial que eu pudesse ter. Examinando as bordas do papel, observei que elas estavam mais desgastadas do que pareceria necessário. Elas apresentavam a aparência quebrada que é manifesta quando um papel duro, tendo sido por vez dobrado, 90 redobrado no sentido oposto, sobre as marcas ou bordas que a dobra original havia formado. Essa descoberta. foi suficiente. Estava clara para mim que acarta havia sido virada do avesso, como uma luva, reendereça~da e relacrada. Dei bom dia ao ntinlstro e saí então, deixando uma tabaqueira de-ouro sobre a mesa. Na manhã seguinte fui atrás da tabaqueira e retornamos, com a mesma animação, nossa conversa do dia Interior. Enquanto isso, contudo, um , grande estrondo, como ode uma pistola, foi ouvido imediatamente abaixo das janelas do. hotel, seguido de uma série de berros e gritos apavorados de uma multidão. D. correu para o batente da janela, abriu-a e olhou para fora.. Enquanto isso, andei até. o porta-cartões, peguei a carta, coloquei-a em meu bolso e substituí-a por um fa r-simsle (no que se refere ao seu exterior), que eu havia cuidadosamente preparado em' minha casa, imitando o monograma de D., sem grande esforço, por meio de um lacre feito com miolo de pão. O distúrbio na rua havia sido ocasionado pelo comportamento desvairado de um homem com um mosquete, que havia disparado no meio de uma aglomeração de mulheres e crianças. A arma estava, contudo, descarregada, e o homem seguiu seu caminho como se fosse um lunático ou um bêbado. Quando ele se foi, D. voltou da janela pata onde então me dirigia, após ter-me apoderado do objeto em questão. Logo depois, despedi-me. O suposto lunática era, na verdade, um homem a meu serviço. A1 Mas que propósito você tinha? perguntei - em substituir a carta por `um fac-símile? Não teria sido melhor tê-lo apanhado abertamente na primeira visita e saído? - D.; replicou Dupin -, é um homem desespeenado, e um homem de nervos. Sua casa, também, não está desprovida de serviçais dedicados aos seus_ interesses. Se eu tivesse feito a precipitada tentativa que você sugere; eu po deria nunca ter deixado o ministério vivo. As boas pessoas .de-Paris poderiam não mais ouvir falar de minha pessoa. Mas eu tinha um objetivo à parte dessas considerações. você conhece minhas predisposições políticas. Nesse assunto, eu atuo como um partidário da senhora em questão. Por dezoito meses o ministro a teve em seu poder. Agora ela o tem nas suas, uma vez que, não sabendo que a carta não está mais em suas mãos, o ministro continuará com suas exigências como se ainda a tivesse. Em assim sendo, ele inevitavelmente se encarregará de sua própria destruição política, sem demora. Sua queda, também, não será menos precipitada do que estranha. Não há quaisquer problemas, em se falar sobre a facilis descensos Auemi*; mas, em todos os tipos de ascenção, como Catalani disse sobre o canto, subir é muito mais simples que descer. Na situação atual, não tenho qualquer simpatia-ou pelo menos nenhuma pena-de quem desce. Ele é aquele motutrxan horr wám, um homem de gênio, mas sem princípios. Confesso, no entanto, que gostaria muito de conhecer o caráter preciso de seus pensamentos, quando, desafiado por ela a quem o chefe de polícia se refe re como "uma certa personagem", ele for reduzido ao ato de . abrir a carta que deixei para ele no porta-cartões. -Como? Você colocou nela algo em -particullar? Bem - não me pareceu de todo certo deixar'o interior em branco - isso teria sido insultante.'D., em Viena, certa vez, fez-me um ato maldoso, ao qual lhe'respondi, bem humoradamente, que não me esqueceria. Então, como sabia que ele sentiria alguma curiosidade quanto à identidade da pessoa que lhe subrepujara, pensei que' seria uma pena não_ lhe dar uma pista. Ele conhece bem minha letra, e eu somente copiei no meio da página em branco as palavras: - un dessein ri funeste, àI n'est digne d'Atrree, est digne de Thyest*. ... um projeto táo funesto,, se não é digno de Atrée, é digno de Thyest. (N. do E.) 93