DO PRINCIPIO E ORIGEM DOS INDIOS DO BRASIL E DE SEUS COSTUMES, ADORAÇÃO E CEREMONIAS Este gentio parece que não tem conhecimento do principio do Mundo, do di uvio parece que tem alguma noticia, mas como não tem escripturas, nem caracteres, a tal noticia é escura e confusa; porque dizem que as águas afogarão e matarão todos os homens, e que somente um escapou em riba de um Janipaba, com uma sua irmã que estava prenhe, e que estes dois têm seu principio, e que dali começou sua multiplicação. DO CONHECIMENTO QUE TEM DO CREADOR Este gentio não tem conhecimento algum de seu Creador, nem de cousa do Céo, nem se ha pena nem gloria depois desta vida, e portanto não tem adorarão nenhuma nem cerimônias, ou culto divino mam&abem que-têm alma e que esta n_ morre 1 e de ois da morte vão a uns cem os onde ha muitas fi ueiras o Iónc,9 _ um formoso rio, e todas juntas não fazem outra cousa senão bailar; e têm grande medo do demônio, ao qual chamam Curupira, Taguaigba z, Macachera, Anhanga, e é tanto o medo que lhe têm, que só de imaginarem nelle morrem, como aconteceu já muitas vezes; não no adorão, nem a alguma outra creatura, nem têm ídolos de nenhuma sorte, somente dizem alguns antigos que em alguns caminhos têm certos postos, aonde lhe oferece algumas cousas pelo medo que têm delles, e por não morrerem. Algumas vezes lhe apparecem os diabos, ainda que raramente, e entre elles -fia õUós endemoniados. Opção de alguns feitiços, e feiticeiros, não porque creião nelas, nem osadorem. mas somente se dão a chupar em suas enfermidades, parecendo-lhes que receberão saúde, mas não por lhes parecer que ha nelas divindade, e mais o fazem por receber saúde que por outro algum respeito. Entre elas se alevantarão algumas vezes alguns feiticeiros, a que chamam Caraíba, Santo ou Santidade, e é de ordinário algum Índio de ruim vida: este faz algumas feitiçarias, e cousas estranhas á natureza, como mostrar que ressuscita a algum vivo que se faz morto, e com esta e outras cousas semelhantes traz após si todo o sertão enganando-os dizendo-lhes que não rocem, nem 1 "And they say that the soules are converted finto devils." (Purchas, IV, 1289-1290). 2 Ta9uain, Pi9tan9ua (Purchas, ib.) Knivet dá ainda outro nome do diabo, que é Avasaly em Purchas e Avassaty na tradução portuguesa do dr. José Hygino Duarte Pereira, na Revista do Instituto Histórico, tomo XLI, parte 1a, p. 230. plantem seus legumes, e mantimentos, nem cavem, nem trabalhem, etc., por que com sua vinda é chegado o tempo em que as enxadas por si hão de cavar, e os panicús 3 ir ás roças e trazer os mantimentos, e com esta falsidade os traz tão embebidos, e encantados, deixando de olhar por suas vidas, e grangear os mantimentos que, morrendo de pura fome, se vão estes ajuntamentos desfazendo pouco a pouco, até que a Santidade fica só, ou a matam . Não têm nome próprio com que expliquem a Deus, mas dizem que Tupã é o que faz os trovoes e relâmpagos, e que este e o que lhes deu as enxadas, e mantimentos, e por não terem outro nome mais próprio e natural, chamam a Deus Tupã. DOS CASAMENTOS Entre eles ha casamentos, porém ha muita dúvida se são verdadeiros, assim por terem muitas mulheres, como pelas deixarem facilmente por qualquer arrufo, ou outra desgraça, que entre eles aconteça; mas, ou verdadeiros ou não, entre elas se faziam deste modo. Nenhum mancebo se acostumava casar antes de tomar contrario, e perseverava virgem até que o tomasse e matasse correndo-lhe primeiro suas festas por espaço de dons ou três anos ; a mulher da mesma maneira não conhecia homem até lhe não vir sua regra, depois da qual lhe faziam grandes festas; ao tempo de lhe entregarem a mulher faziam grandes vinhos, e acabada a festa ficava o casamento perfeito, dando-lhe uma rede lavada 5, e depois de casados começava a beber, porque até ali não o consentiam seus pais, ensinando-os que bebessem com tento, e fossem considerados e prudentes em seu falar, sara que o vinho lhe não fizesse mal nem falassem cousas ruins, e então com uma cuya lhe davam os velhos antigos o primeiro vinho, e lhe tinham a mão na cabeça para que não arrevessassem, porque se arrevessava tinham para si que não seria valente, e vice-versa. p0 MUNDO QUE TÊM EM SEU COMMER E BEBER que têm e repartem coW Zamigos de modo que de um peixe que tenhão repartem todos, e têm por grande honra e primor serem überaes, e por isso cobrão muita fama e honra, e a peior injuria que lhes podem fazer é terem-nos por escassos, ou chamarem-lho, e quando não têm que comer são muito soffridos com fome e sed e. Beasts. (Purchas, ib.) "They say Tupan is the thunder and lightning". (Purchas, ib.) "And afhey they were laid, the father tooke e a wedge of stone and did cut upon a post or stake, then they say hee did cut the talles from the grand children and therefore they were borne without them". (Purchas, ib.) Não têm dias em que comão carne e peixe; comem todo gênero de carnes, ainda de animaes immundos, como cobras, sapos, ratos, e outros bichos similhantes, e tambem comem todo enero de fructas, tirando algumas peco nhentas.P sua susfPntação é ordinariamente do que dá a terra sem a cultivarem, como caças e fructas; porém têm certo gênero de mantimentos de boa substancia, e sadio, e outros muitos legumes de que abaixo se fará menção. De ordinario não bebem emquanto comem, mas depois de comer bebem agua, ou vinho que fazem de muitos gêneros de fructas e raizes, como abaixo se dirá, do qual bebem sem regra, nem modo e até caírem. Têm alguns dias particulares em que fazem grandes festas, todas se resolvem , em beber, e durão dons, três dias, em os quaes não comem, mas somente bebem b, e para estes beberes serem mais festejados andão alguns cantando de casa em casa, chamando e convidando quantos achão para beberem 7, e revelando-se continuão estes bailos e musica todo o tempo dos vinhos, em o qual tempo não dormem, mas tudo se vae em beber, e de bêbados fazem muitos desmanchos, e quebrão as cabeças uns aos outros, e tourão as mulheres alheias, etc. Antes de comer nem depois não dão graças a Deus, nem tavão as mãos antes de comer, e depois de comer as alimpao aos ca ellos, corpo e paus; não têm toalhas, nem mesa, comem assentados, ou deitam dos nas redes, ou em cocaras no chão, e a farinha comem de arremesso, e deixo outrass muitas particularidades que têm no comer e beber, porque estas são as principaes. DO MODO QUE TÊM EM DORMIR Todo este gentio tem por cama umas redes de algodão, e ficão nellas dormindo no ar; estas fazem lavradas, e como no ar, e não tem outros cobertores nem roupa, sempre no verão e inverno tem fogo debaixo: não madrugão muito, agazalhão-se com cedo, e pelas madrugadas ha um principal em suas ocas s que deitado na rede por espaço de meia hora lhes prega, e admoesta que vão trabalhar como fizerão seus antepassados, e destribue-lhes o tempo, dizendo-lhes as cousas que hão de fazer, e depois de alevantado continua a pregação, correndo a povoação toda. Tomárão este modo de um passaro que se parece com os falcões o qual canta de madrugada e lhe chamam rei, senhor dos outros passaros, e dizem elles que assim como aquelle passaro canta de madrugada para ser ouvido dos outros, assim convem que os principies fação aquelias falas e prégações de madrugada para serem ouvidos dos seus. DO MODO QUE TÊM EM SE VESTIR Todos andam nus assim homens como mulheres, e não têm gênero nenhum de vestido e por nenhum caso verecundant antes parece que estão no estado de innocencia nesta parte, pela grande honestidade e modestia que entre si guardão, e quando Este entio come em todo o tempo, de _to, e como tem que c noite e d a cada hora e momen tem o em tudo "And there be men that empoe e whole vessel of wine". (Purchas, ib.) "And be merrie." (Purchas, ib.) Faltam estas palavras em Purchas. algum homem fala com mulher vira-lhe as costas. Porém para saírem galantes, usão de varias invenções, tingindo seus corpos com certo sumo de uma arvore 9 com que ficam pretos, dando muitos riscos pelo corpo, braços, etc., a modo de imperiaes' Também se empennão, fazendo diademas e bracelletes, e outras invenções muito lustrosas, e fazem muito caso cl todo genero de pennas finas. Não deixão crear cabello nas partes de seu corpo, porque todos os arrancão, somente os da cabeça deixão os quaes tosquião de muitas maneiras, porque uns o trazem comprido com uma meia lua rapada por diante, que dizem tomárão este modo de S. Thome, e parece que tiverão deite alguma noticia, ainda que confusa. Outros fazem certo genero de coroas e circules que parecem frades: as mulheres todas têm cabellos compridos. e de ordinario pretos,-e de uns e outros é o cabello corredio; quando andão anojados deixão crescer o cabello, e as mulheres quando andão de dó, cortão os cabellos, e tambem quando os maridos vão longe, e nisto mostrão terem-lhe amor e guardaremlhe lealdade; é-tanta a variedade " que têm em se tosquiarem, que pela cabeça se_ conhecem as nações. - Agora já andão alguns vestidos, assim hhomens como mulheres, mas estimão-no tão pouco que o não trazem por honestidade, mas por ceremonia, e porque lho mánáão trazer, como se vê bem, pois alguns saem de quando em quando com umas jõrnes que lhes dao pelo umbigo sem mais nada, e outros somente com uma carapu i p ça na cabeça, e o mais vestido deixão em casa: as mulheres fazem muito caso de fitas e pentes. DAS CASAS Usão estes índios de umas ocas ou cascas de madeira cobertas de folha ' z, e são de comprimento algumas de duzentos e trezentos palmos, e têm duas e tres portas muito pequenas e baixas; mostrão sua valentia em buscarem madeira e esteios muito grossos e de dura, e ha casa que tem cincoenta, sessenta ou setenta lanços de 25 ou 30 palmos 1 3 de comprido e outros tantos de largo. Nesta casa mora um principal, ou mais, a que todos obedecem, e são de ordinario paréntes_ e em cada lanço destes pousa um casal com seus filhos e famllla, sem haver repartimento entre uns e outros, e entrar em uma destas casas é ver 1 4 um lavarinto, porque cada lanço tem seu fogo e suas redes armadas, e alfaias, de modo que entrando nella se vê tudo quanto tem, e casa fia que tem duzentas e mais pessoas. "Of certaine fruite (Purchas, ib.) "Many white stroakes, after the fashion of round hose, and other kinde of garments (Purchas, ib.) II Vanitle. (Purchas, ib) 12 Palme tree legues. (Purchas, ib.) Ouarters. (Purchas, ib.) To enter. (Purchas, ib) DA CREACÃO DOS FILHOS As mulheres parindo, (e parem no chão), não levantão a creança, mas levantaa o pai, ou alguma pessoa que tourão por seu compadre, e na amizade ficão como os compadres entre os Christãos;o pai lhe corta a vide com os dentes,ou com duas pedras, dando com uma na outra, e logo se põe a jejuar até que lhe cae o umbigo, que é de ordinario até os oito dias, e até que não lhe caia não deixam o jejum, e em lhe caindo, se é macho lhe faz um arco com frechas, e lho ata no punho da rede, e no outro punho muitos molhos d'ervas, que são os contraries que seu filho ha de matar e comer, e acabadas estas ceremonias fazem vinhos com que alegrão todos. As mulheres quando parem logo se vão lavar aos rios, e dão de mamar á creança de ordinario anuo e meio sem lhe darem de comer outra cousa; amão os filhos extraordinariamente, e trazem-nos mettidos nuns pedaços de redes que chamão typoya - e os levão às roças e a todo o genero de serviço, às costas, por frios e calmas, e trazem-nos como ciganas escanchados no quadril, e não lhes dão nenhum genero de castigo 1 6. Para lhes não chamarem os filhos 1 7 têm muitos agouros, porque lhe põem algodão sobre a cabeça, penna de passares e paus, deitão-nos sobre as palmas das mãos, e roção-nos por ellas ara que ereção Estimão mais fazerem bem aos filhos que a si 1 proprios, e agora estimão multo e amão os padres, porque Ih'os crião e ensinão a ler, escrever e contar, cantar e tanger, cousas que eles muito estimão. 1 rem-no: entrando, pois, logo o hospede na casa o assentão na rede, e depois de assentado, sem lhe falarem, a mulher e filhas e mais amigas se assentam ao redor, com os cabellos baixos, tocando com a mão na mesma pessoa, e correção a chorar todas em altas vozes, com grande abundancia de lagrimas, e ali centão em prosas trovadas quantas cousas têm acontecido desde que se não virão até aquella hora, e outras muitas que imaginão, e trabalhos que o hospede padeceu pelo caminho, e tudo o mais que pôde provocar a lastima e choro. O hospede neste tempo não fala palavra, mas depois de chorarem por bom espaço de tempo limpão as lagrimas, e ficão tão quietas, modestas, serenas e alegres que parece nunca chorarão, e logo se saudão, e dão o seu Ereiupe 18, e lhe trazem de comer, etc.; e depois destas cerimonias centão os hospedes ao que vêm. Tambem os homens se chorão uns aos outros, mas é em casos alguns graves, como mortes, desastres de guerras, etc; têm por grande honra agazalharem a todos e darem-lhe todo o necessario para sua sustentação, é algumas i r DO COSTUME QUE TÊM EM AGASALHAR OS HOSPEDES IS 16 17 18 Tupyia. (Purchas, ib.) "That their children may not crie". (Purchas, ib.) Faltam estas palavras em Purchas. Or welcome. (Purchas, 1 V, p. 1.292). Entrando-lhe algum hospede pela casa a honra e agazalho que lhe fazem é chora- -- peças, como arcos, frechas, passaros, pennas e outras cousas, conforme a sua pobreza, sem algum genero de estipendio. DO COSTUME QUE TÊM EM BEBER FUMO Costumão estes gentios beber fumo de petigma por, outro nome erva santa; esta serão e fazem de uma folha de palma uma canguera, que fica como canudo de canna cheio desta herva, e pondo-lhe o fogo na ponta metem o mais grosso na boca, e assim estão chupando e bebendo aquelle fumo, e o têm por grande mimo e regallo, e deitados em suas redes gastão em tomar estas fumaças parte dos dias e das noites. A alguns faz muito mal, e os atordoa e embebeda; a outros faz bem e lhes faz deitar muitas reimas pela boca. As mulheres tambem o bebem, mas são as velhas e enfermas, porque é elle muito medicinal, principalmente para os doentes de asthma, cabeça ou estomago, e daqui vem grande parte dos Portuguezes beberem este fumo, e o têm por vicio, ou por preguiça, e imitando os índios gastão nisso dias e noites. DO MODO QUE TÊM EM FAZER SUAS ROÇARIAS E COMO PAGÃO UNS AOS OUTROS Esta nação não tem dinheiro -com que possão satisfazer aos serviços que lhes fazem, mas vivem comutatione rerum e principalmente a troco de vinho fazem quanto S AA querem, assim quando hão de fazer algumas cousas, fazem vinho e avisando os visinhos, e apelidando toda a povoação lhes rogão os queirão ajudar em suas roças, o que fazem de boa vontade, e trabalhando até as 10 horas tornão para suas casas a beber os vinhos, e se aquelle dia se não acabam as roçarias, fazem outros vinhos e vão outro dia até as 10 horas acabar seu serviço; e deste modo usão os brancos prudentes 19, e que sabem a arte e maneira dos índios, e quanto fazem por vinho, por onde lhes mandão fazer vinhos, e os chamão às suas roças e canaveaes, e com isto lhes pagão. Também usão de ordinário, por troco de algumas cousas 20, de contas brancas que se fazem de buzios, e a troco de alguns ramaes dão até as mulheres, e este é o resgate ordinario de que usão os brancos para lhes comprarem os escravos e escravas que têm para comer. DAS JOIAS E METARAS Usão estes índios ordinariamente, principalmente nas festas que fazem, de colares de buzios, de diademas de pennas e de umas metaras 2 1 edras que metem no beiço de baixo) verdes, brancas, azues, muitas finas e que parecem esmeraldas ou cristal, sáo redondas e algumas tão compridas que lhe dão pelos peitos, e ordinario é em os grandes principaes terem um palmo e mais de comprimento: também usão de manilhas brancas dos mesmos buzios, e nas orelhas metem umas pedras brancas de comprimento de um palmo e mais, e estes outros similhantes são os arreios com que se vestem em suas festas, quer sejão em matanças dos contraries, quer de vinhos, e estas são as rri uezas,que mais estimão que quanto têm. DO TRATAMENTO QUE FAZEM ÁS MULHERES E COMO AS ESCUDEIRÃO Costumão estes índios tratar bem ás mulheres, nem lhes dão nunca, nem pelejão com ellas, tirando em tempo de vinhos, porque então de ordinario se vingão deitas, dando por desculpa depois o vinho que beberão e logo ficão amigos como dantes, e não durão muito os ódios entre elles, sempre andão juntos e quando vão fóra a mulher vai de traz e o marido diante para que se acontecer alguma cilada não caia a mulher nella, e tenha tempo para fugir emquanto o marido peleja com o contrario, etc., mas à tornada da roça ou qualquer outra parte vem a mulher diante, e o marido de traz, porque como tenha já tudo seguro, se acontecer algum desastre possa a mulher que vai diante fugir para casa, e o marido ficar com os contraries, ou qualquer outra cousa. Porem em terra segura ou dentro na povoação sempre a mulher vai diante, e o marido de traz, porque são ciosos e querem sempre ver a mulher. DOS SEUS BAI LOS E CANTOS Ainda que são malencolicos, têm seus jogos, principalmente os meninos, muito varies e graciosos, em os quaes arremedão muitos generos de passaros, e com tanta festa e ordem que não ha mais que pedir, e os meninos são alegres e dados a folgar e foigão com muita quietação e amizade, que entre elles não se ouvem nomes ruins, nem pulhas, nem chamarem nomes aos pais e mães, e raramente quando jogão se desconcertão, nem desavêm por causa alguma, e raramente dão uns nos outros, nem pelejão; de pequeninos os ensinão os pais a bailar e cantar e os seus bailes não são differenças de mudança, mas é um continuo bater de pés estando quedos, ou andando ao redor e meneando o corpo e cabeça, e tudo fazem por tal compasso 2 2 , com tanta serenidade, ao som de um cascavel feito ao modo dos que usão os meninos em Espanha, com muitas pedrinhas dentro ou umas certas sementes de que tambem fazem muito boas contas, e assim bailão cantando juntamente, porque não fazem uma cousa sem outra, e têm tal compasso e ordem, que às vezes cem homens bailando e cantando em carreira, enfiando uns detrai dos outros, acabão todos juntamente uma pancada, como se estivessem todos em um lugar; são muito estimados entre elles os cantores, assim homens como mulheres, em tanto que se tourão um contrario bom cantor e inventor de trovas, por isso lhe dão a vida e não no comem nem aos filhos. As mulheres bailão juntamente com os homens, e fazem com os braços e corpo grandes gatimanhas e momos, principalmente quando bailão sós. Guardão And pleasantnesse as can be desired. (Purchas, 1 V, p. 1.293). Or Portugal. (Purchas, ib.) To change some things for. (Purchas, ib.) Broaches. (Purchas, ib.) t f entre si diferenças da vozes em sua consonancia, e de ordinario as mulheres levão os tiples, contraltos e tenores. DOS SEUS ENTERRAMENTOS São muito maviosos 23 e principalmente em chorar os mortos, e logo como algum morre os parentes se lanção sobre elle na rede e tão depressa que ás vezes os afogão antes de morrer, parecendo-lhes que está morto, e os que se não podem deitar com o morto na rede se Jeitão pelo chão dando grandes baques, que parece milagre não acabarem com o mesmo morto, e destes baques e choros ficão tão cortados que às vezes morrem. Quando chorão dizem muitas lastimas e magoas, e se morre a primeira noite 24, toda ella em peso chorão em alta voz, que é espanto não rançarem. Para estas mortes e choros chamão os vizinhos e parentes, e se é principal, ajuntase toda a aldeia a chorar, e nisto têm Lambem seus pontos de honra, e aos que não chorão lanção pragas, dizendo que não hão de ser chorados: depois de morto o tavão, e pintão muito galante, como pintão os contraries, e depois o cobrem de fio de algodão que não lhe parece nada, e lhe metem uma cuya 2 5 no rosto, e assentado o metem em um pote que para isso têm debaixo da terra, e o cobrem de terra, fazendo-lhe uma casa, aonde todos os dias lhe levão de comer, porque dizem que como rança de bailar, vem ali comer, e assi os vão chorar por algum tempo todos os dias seus parentes, e com elle metem todas as suas joias e metaras 2 , para que as não veja vinguem, nem se lastime; mas o defunto tinha alguma peça, como espada, etc., que lhe havião dado, torna a ficar do que lha deu, e a torna a tomar onde quer que a acha, porque dizem que como um morre perde todo o direito do que lhe tinham dado. Depois de enterrado o defunto os parentes estão em continuo pranto de noite e de dia, começando uns, e acabando outros; não comem senão de noite, armão as redes junto dos telhados, e as mulheres ao segundo 2 7 dia cortão os cabellos, e dura este pranto toda uma lua, a qual acabada fazem grandes vinhos para tirarem o dó, e os machos se tosquião, e as mulheres se enfeitão tingindo-se de preto, e estas ceremonias e outras acabadas, correção a communicar uns com os outros, assim homens como as mulheres; depois de lhes morrerem seus companheiros, algumas vezes, não tornam a casar, nem entrão em festas de vinhos, nem se tingem de preto, porém isto é raro entre elles, por serem muito dados a mulheres, e não podem viver sem eilas. DAS FERRAMENTAS DE QUE USÃO Antes de terem conhecimento dos Portuguezes usavão de ferramentas e instrumentos de pedra, osso, pau, cannas, dentes de animal, etc., e com estes derrubavão Wicked. (Purchas, ib.) At avening. (Purchas, ib.) Couering. (Purchas, ib.) Broaches. (Purchas, ib.) After t tie daies. (Purchas, ib.) grandes matos com cunhas de pedra, ajudando-se do fogo; assim mesmo cavavão a terra com uns paus agudos e faziam suas metaras 2 8 , contas de buzios, arcos e frechas tão bem feitos como agora fazem, tendo instrumentos de ferro, porém gastavão muito tempo a fazer qualquer cousa, pelo que estimão muito o ferro pela facilidade que sentem em fazer suas cousas com eile, e esta é a razão porque folgão com a com municação dos brancos 29. DAS ARMAS DE QUE USÃO As armas deste gentio o ordinario são arcos c frechas e delles se hhnrão muito, e os fazem de boas madeiras, e muito galantes, tecidos com palma de varias cores, e lhes tingem as cor as e verde ou vermelho, e as frechas fazem muito galantes, buscando para elias as mais formosas pennas que acnãõ; fazem estas trechas de varias cannas, e na ponta lhes metem entes e animaes ou umas certas cannas muito duras e crueis, ou uns paus agudos com muitas farpas, e ás vezes as ervas com peçonha. Estas frechas ao parecer, parece cousa se zombaria, porém é arma cruel; passão umas couraças de algodão, e dando em qualquer pau o abrem pelo meio, e acontece passarem um homem de parte a parte, e ir pregar no chão: exercitão-se de muito pequenos nestas armas, e são grandes frecheiros e tão certeiros que lhes não escapa passarinho por pequeno que seja, nem bicho do mato, e não tem mais que quererem meter uma frecha por um olho de um passaro, ou de um homem, ou darem em qualquer outra cousa, por pequena que seja, que o não fação muito ao seu alvo, e por isso são muito temidos, e tão intrepidos e ferozes que mete espanto. São como bichos do mato, porque entrão pelo sertão a caçar despidos e descalços sem medo nem temor algum. Veem sobre maneira, porque á legua enxergão qualquer cousa, e da mesma maneira ouvem; atinão muito; regendo-se pelo sol, vão a todas as partes que querem, duzentas e trezentas leguas, por matos espessos sem errar ponto, andão muito, e sempre, de galope, e principalmente com cargas, nenhum a cavalo os pôde alcançar: são grandes pescadores e nadadores, nem temem mar, nem ondas, e aturão um dia e noite nadando, e o mesmo fazem remando e ás vezes sem comer. Também usão por armas de espadas de pau, e os cabos deltas tecem de palma de varias cores e os empennão com pennas de várias cores, principalmente em suas festas e matanças: estas espadas são crueis, porque não dão ferida, mas pisão e quebrão a cabeça de um homem sem haver remedio de cura. DO MODO QUE ESTE GENTIO TEM ACERCA DE MATAR E COMER CARNE HUMANA 30 De todas a honras e gostos da vida, nenhum é tamanho para este gentio como matar e tomar nomes nas cabeças de seu contraries, nem entre elles ha festas que Broaches. (Purchas, ib.) The Portugais. (Purchas, ib.) And of their creating lemen. (Purchas, [V, p. 1.294 cheguem ás que fazem na morte dos que matam com grandes ceremonias, as quaes fazem desta maneira. Os que tomados na guerra vivos são destinados a matar, vêm logo de lá_ com_ um signal, que é uma Gordinha delgada ao pescoço, e se é homem que pôde fugir traz uma mão atada ao pecoço debaixo da barba, e antes de entrar na povoações que ha pelo caminho os enfeitão, depennando-lhes as pestanas e sobrancelhas e barbas, tosquiando-os ao seu modo, e empennando-os com pernas amarellas tão bem assentadas que lhes não apparece cabello: as quaes os fazem tão lustrosos como aos Espanhoes os seus vestidos ricos, e assim vão mostrando sua victoria por onde quer que passão. Chegando á sua terra, o caiem a receber as mulheres gritando e juntamente dando palmadas na boca, que é recebimento commum entre elies, e sem mais outra vexação ou prisão, salvo que lhes tecem no pescoço um colar redondo como corda de boa grossura, tão dura como pau, e neste colar começão de urdir grande numero de braças de corda delgada de comprimento de cabelios de mulher, arrematada em cima com certa volta, e solta em baixo, e assim vai toda de orelha a orelha por detrai das costas e ficão com esta coleira ma horrenda cousa; e se é fronteiro e pôde fugir, lhe poem em lugar de grilhões por baixo dos i±lhos uma p_ ea de fio de tecido muito apertada, a qual para qualquer faca fica fraca, se não fossem as guardas que nenhum momento se apartão delie, quer vá pelas casas, quer para o mato, ou ande pelo terreiro, que para tudo tem liberdade, e commumente a guarda é uma que lhe dão por mulher, e também para lhe fazer de comer, o qual se seus senhores lhe não dão de comer, como é costume, toma um arco e frecha e atira á primeira galinha ou pato que vê, de quem quer que seja, e ninguém lhe vai á mão, e assim vai engordando, sem por isso perder o somno, nem o rir e folgar como os outros, e alguns andão tão contentes com haverem de ser comidos, que por nenhuma via consentirão ser resgatados para servir, porque dizem que é triste cousa morrer, e ser fedorento e comido de bichos. Estas mulheres são commumente nesta guarda fieis, porque lhes fica em honra, e por isso são muitas vezes moças e filhas de príncipe, maxime se seus irmãos hão de ser os matadores, porque as que não têm estas obrigações muitas vezes se afeiçoão a elles de maneira que não somente lhes dão azo para fugirem, mas também se vão com elles; nem ellas correm menos riscos se as torrão a tomar que de levarem umas poucas de pancadas, e ás vezes são comidas dos mesmos a quem derão a vida. Determinado o tempo em que ha de morrer, começam as mulheres a fazer louça, a saber: panellas, alguidares, potes para os vinhos, tão grandes que cada um levará uma pipa; isto prestes, assim os principaes como os outros mandão seus mensageiros a convidar outros de diversas partes para tal lua, até dez, doze leguas e mais, para o qual ninguem se excusa. Os hospedes vêm em magotes com mulheres e filhos, e todos entrão no lugar com danças e bailos, e em todo o tempo em que se junta a gente, ha vinho para os hospedes, porque sem eile todo o mais agazalhado não presta; a gente junta, começão as festas alguns dias antes conforme ao numero, e certas cerimonias que precedem, e cada uma gasta um dia. Primeiramente têm elles para isto umas cordas de algodão de arrazoada grossura, não torcidas, se não tecidas de um certo lavor galante; é cousa entre eles de muito preço, e não nas têm senão alguns principaes, e segundo ellas são primas, bem feitas, e el les vagorosos " , é de crer que nem em um anuo se fazem: estas estão sempre muito guardadas, e levão-se ao terreiro com grande festa e alvoroço dentro de uns alguidares, onde lhes dá um mestre disto dous nós, por dentro dos quaes com força corre uma das pontas de maneira que lhes fica bem no meio um laço; estes nós são galantes e artificiosos, que poucos se achão que os saibão fazer, porquetêm algumas dez voltas e as cinco vão por cima das outras cinco, como se um atravessasse os dedos da mão direita por cima dos da esquerda, e depois a tingem com um polme de um barro branco como cal e deixão-nas enxugar. O segundo dia trazem muito feixes de cannas bravas de comprimento de lanças e mais, e á noite poem-nos em roda em pé, com as pontas para cima, encostados uns nos outros, e pondo-lhes ao fogo ao pé se faz uma formosa e alta fogueira, ao redor da qual andão bailando homens e mulheres com maços de frechas ao hombro, mas andão muito depressa, porque o morto que ha de ser, que os vê melhor do que é visto por causa do fogo, atira com quanto acha, e quem leva, leva, e com o são muitos, poucas vezes erra. Ao terceiro dia fazem uma dança de homens e mulheres, todos com gaitas de cannas e batem todos á uma no chão ora com um pé, ora com outro, sem discreparem, juntamente e ao mesmo compasso assoprão os canudos, e não ha outro cantar nem falar, e como são muitos e as cannas umas mais grossas, outras menos, além de atroarem os matos, fazem uma harmonia que parece musica do inferno, mas elles aturão nellas como se fossem as mais suaves do mundo; e estas são suas festas, afora outras que entremetem com muitas graças e adivinhações. Ao quarto dia, em rompendo a alva, levão o contrário a lavar a um rio, e vãose detendo para que, quando tornarem, seja já dia claro, e entrando pela aldea, o preso vai já com olho sobre o hombro, porque não sabe de que casa ou porta lhe ha de sair um valente que o ha de aferrar por detrai, porque, como toda sua bemaventurança consiste em morrer como valente, e a ceremonia que se segue é já das mais propínquas á morte, assim como o que ha de aferrar mostra suas forças em só elle o subjugar sem ajuda de outrem, assim elle quer mostrar animo e forras em lhe resistir; e às vezes o faz de maneira que, afastando-se o primeiro como cansado em luta, lhe succede outro que se tem por mais valente homem, os quaes ás vezes ficão bem enxovalhados, e mais o ficarião, se já a este tempo o captivo não tivesse a pêa ou grilhões. Acabada esta luta elle em pé, bufando de birra e cansaço com o outro que o tem aferrado, sae com coro de nymphas que trazem um grande alguidar novo pintado, e nelle as cordas enroladas e bem alvas, e posto este presente aos pés do captivo, começa uma velha como versada nisto e mestra do coro a entoar uma cantiga que as outras ajudão, cuja letra é conforme a ceremonia, emquanto ellas cantão os homens tomão as cordas, e metido o laço no pescoço lhe dão um nó simples junto dos outros grandes, para que se não possa mais alargar, e feita de cada ponta uma -a Their taking pleasure. (Purchas, :V, p. 1.295) roda de dobras as metem no braço á mulher que sempre anda detrai delle com este peso e se o peso é muito pelas cordas serem grossas e compridas, dão-lhe outra que traga uma das rodas, e se elle dantes era temeroso com a coleira, mais o fica com aquelles dons nós tão grandes no pescoço da banda detrai, e por isso diz um dos pés de cantiga: nós somos aquellas que fazemos estirar o pescoço ao passaro, posto que depois de outras ceremonias lhe dizem noutro pé: Si tu foras papagaio, voando nos fugiras. A este tempo estão os potes de vinho postos em carreira pelo meio de uma casa grande, e como a casa não tem repartimentos, ainda que seja de 20 ou 30 braças de comprido, está atulhada de gente, e tanto que começão a beber é um lavarinto ou inferno ve-los e ouvi-los, porque os que bailão e cantão aturão com grandíssimo fervor quantos dias e noites os vinhos durão: porque, como esta é a propria festa das matanças, ha no beber dos vinhos muitas particularidades que durão muito, e a cada passo ourinão, e assim aturão sempre, e de noite e dia cantão e bailão, bebem e falcão cantando em magotes por toda a casa, de guerras e sortes que fizerão, e como cada um quer que lhe oução a sua história, todos fallãoa quem maisalto,afora outros estrondos, sem nunca se calarem, nem por espaço de um quarto de hora. Aquelia manhã que começão a beber enfeitão o captivo por um modo particular que para isso têm, a saber: depois de limpo o rosto, e quanta penugem nelle ha, o então com um leite de certa arvore que pega muito, e sobre elle poem um certo pó de umas cascas de ovo verde de certa ave do mato, e sobre isto o pintão de preto com pinturas galantes, e untando também o corpo todo até a ponta do pé o enchem todo de penna, que para isto têm já picada e tinta de vermelho, a qual o faz parecer a metade mais grosso, e a cousa do rosto o faz parecer tanto maior e luzente, e osolhos mais pequenos, que fica uma horrenda visão, e da mesma maneira que alies têm pintado o rosto, o está tambem a espada, a qual é de pau ao modo de uma palmatoria, senão que ã cabeça não é tão redonda, mas quasi triangular, e as bordas acabão quasi em gume, e a haste, que será de 7 ou 8 palmos, não é toda roliça, terá junto da cabeça 4 dedos de largura e vem cada vez estreitando até o cabo, onde tem uns pendentes ou campainhas de penna de diversas cores, é cousa galantes e de preço entre alies, alies lhe chamão lngapenambin, orelhas da espada. O derradeiro dia dos vinhosfazem no meio do terreiro uma choça de palmas ou tantas quantos são os que hão de morrer, e naquella se agazalha, e sem nunca mais entrar em casa, e todo o dia e noite é bem servido de festas mais que de comer, porque lhe dão outro conducto senão uma fructa que tem sabor de nozes, para que ao outro dia não tenha muito sangue. Ao quinto dia pela manhã, ali ás sete horas pouco mais ou menos, a companheira o deixa, e se vai para casa muito saudosa e dizendo por despedida algumas lastimas pelo menos fingidas; então lhe tirão a peia e lhe passão as cordas do pescoço á cinta, e posto em pé á porta do que o ha de matar, sae o matador em uma dança, feito alvo como uma pomba com barro branco, e uma 32 a que chamão capa de penna, que se ata pelos peitos, e ficão-lhe as abas para cima como azas de Anjo, e nesta dança dá uma volta pelo terreiro e vem fazendo uns esgares extranhos com olhos e corpo, e com as mãos arremeda o minhoto que desce á carne, e com estas diabruras chega ao triste, o qual tem as cordas estiradas para as ilhargas e de cada parte um que o tem, e o captivo, se acha com que atirar, o faz de boa vontade, e muitas vezes lhe dão com que, porque lhe saem muitos valentes, e tão ligeiros em furtar o corpo que os não pôde acertar. Acabado isto, vem um honrado 33, padrinho do novo cavaIleiro que ha de ser, e tomada a espada Ih'a passa muitas vezes por entre as pernas, metendo-a ora por uma parte ora por outra da prgpria maneira que os cachorrinhos dos sanfonineiros, lhe passão por entre as pernas, e depois tomando-a pelo meio com ambas as mãos aponta com uma estocada aos olhos do morto 34, e isto feito lhe vira a cabeça para cima da maneira que delia hão de usar, e a mete nas mãos do matador, já como apta e idonea com aquellas bençãos para fazer seu officio para o qual se põe algum tanto ao lado esquerdo, de tal geito que com o gume da espada lhe acerta no toutiço, porque não tira a outra parte 35, e é tanta a bruteza destes que, por não temerem outro mal senão aquelle presente tão inteiros estão como se não fosse nada, assim para faltar, como para exercitar as forças, porque depois de se despedirem da vida com dizer que muito embora morra, pois muitos tem mortos, e que alem disso cá ficão seus irmãos e parentes para o vingarem, e nisto aparelha-se um para furtar o corpo, que é toda a honra de sua morte. E são nisto tão ligeiros que muitas vezes é alto dia sem o poderem matar, porque em vindo 36 a espada pelo ar, ora desvia a cabeça, ora lhe furta o corpo, e são nisto tão terríveis que se os que têm as pontas das cordas o apertão, como fazem quando o matador é frouxo, alies 3 7 tão rijo que os trazem a si e os fazem afrouxar em que lhes pese, tendo um olho neles e outro na espada, sem nunca estarem quedos, e como o matador os não pode enganar ameaçando sem dar, sob pena de lhe darem uma apupada, e alies lhe adivinhão o golpe, de maneira que, por mais baixo que venha, num assopro se abatem e fazem tão rasos que é cousa extranha, e não é menos tomarem a espada aparando-lhe o braço por tal arte que sem lhe fazerem nada correm com alia juntamente para baixo e a metem de baixo do sovaco tirando pelo matador, ao qual, se então não acudissem, o outro o despacharia, porque têm alies neste acto tantos agouros que para matar um menino de cinco anos vão tão enfeitados como para matar algum gigante, e com estas ajudas ou afouteza tantas vezes dá, até que acerta algumas e esta basta, porque tanto que alie cae lhe dá tantas até lhe que lhe quebra a cabeça, posto que já se vio um que a tinha tão dura, que nunca lha puderão quebrar, porque como a trazem sempre descuberta, têm as cabeças tão duras que as nossas em comparação delias ficão como de cabaças, e quando querem injuriar algum branco lhe chamão cabeça mol le. Garment. (Purchas, 1 V, p. 1.296). Honorabie ludge. (Purchas, ib.) Of the man which is to dia. (Purchas, ib.) For he striketh ar another placa. (Purchas, ib.) Men he sees. (Purchas, ib.) Hee puis. (Pu rchas, ib.) Se este que matarão ao cair cae de costas, e não de bruços, têm-no por grande agouro e prognostico que o matador ha de morrer, e ainda, que caia de bruços têm muitas ceremonias, as quaes se se não guardão têm para si que o matador não pode viver; e são muitas delias tão penosas que se alguem por amor de Deus sofresse os seus trabalhos não ganharia pouco, como abaixo se dirá. Morto o triste, levão-no a uma fogueira que para isto está prestes, e chegando a ella, em lhe tocando com a mão dá uma pellinha pouco mais grossa que véu de cebola, até que todo fica mais limpo e alvo que um leitão pellado, e então se entrega ao carniceiro ou magarefe, o qual lhe faz um buraco abaixo do estomago, segundo seu estylo, por onde os meninos primeiro metem a mão e tirão pelas tripas, até que o magarefe corta por onde quer, e o que lhe fica na mão é o quinhão de cada um, e o mais se reparte pela communidade, salvo algumas partes principaes que por grande honra, se dão aos hospedes mais honrados, as quaes elles levão muito assadas, de maneiras que não se corrompão, e sobre elias depois em suas terras fazem festas e vinhos de novo. DAS CEREMONIAS QUE SE FAZEM AO NOVO CAVALLEIRO Acabando o matador de fazer seu officio, lhe fazem a elle outro desta maneira: tirada a capa de penna, e deixada a espada, se vai para casa, á porta da qual o está esperando o 38 mesmo padrinho que foi com um arco de tirar a mão, a saber, as pontas uma no lumiar de baixo e a outra em cima, e tirando pela corda como quem quer atirar, o matador passa por dentro tão subtilmente que não toca em nada, e em elle passando, o outro alarga a corda com um signa( de pezar, porque errou o a que atirava, como que aquilio tem virtude para depois da guerra o fazer ligeiro, e os inimigos o errarem; como é dentro começa de ir correndo por todas as casas, e as irmans • primas da mesma maneira diante delle dizendo: "meu irmão se chama W' repetindo por toda a aldea, e se o Cavalleiro tem alguma cousa boa, quem primeiro anda lha toma até ficar sem nada. Isto acabado tem pelo chão lançados certos paus de pilão 39, sobre os quaes elle está em pé aquelie dia com tanto silencio, como que dera • pasmo nelle, e levando-lhe ali a apresentar a cabeça do morto, tiram-lhe um olho, • com as raizes ou nervos delle lhe untão os pulsos, e cortada a boca inteira lha metem no braço como manilha, depois se deita na sua rede como doente, e na verdade elle o está de medo, que se não cumprir perfeitamente todas as ceremonias, o ha de matar a alma do morto. Dali a certos dias lhe dão o habito, não no peito do pellote, que elle não tem, senão na propria pelle, sarrafaçando-o por todo o corpo com um dente de cutia que se parece com dente de coelho, o qual, assim por sua pouca subtileza, como por elles terem a pelle dura, parece que rasgão algum pergaminho, e se elles são animosos não lhe dão as riscas direitas, senão cruzadas, de maneira que Picão uns lavores muito primos, e alguns gemem e gritão com as dores. Acabado isto, tem carvão moído e sumo de erva moura 40 com que ellesesfregao as riscas ao travei, fazendo-as arreganhar e inchar, que é ainda maior tormento, e em quanto lhe carão as feridas que durão alguns dias, está elle deitado na rede sem falar nem pedir nada, e para não quebrar o silencio tem a par de si agua e farinha e certa frusta como amendoas, que chamão mendubis 41 , porque não prova peixe nem carne aquelles dias. Depois de sarar, passados muitos dias ou meies, se fazem grandes vinhos para elle tirar o dó e fazer o cabello, que até alli não fez, e então, se tinge de preto, e dali por diante fica habilitado para matar sem fazerem a elle ceremonia que seja trabalhosa, e elle se mostra tambem nisso honrado ou ufano, e com um certo desdem, como quem tem já honra, e não a ganha de novo, e assim não faz mais que dar ao outro um par de pancadas, ainda que a cabeça fique inteira e elle bulindo, vai-se para casa, e a este acodem logo a lhe cortar a cabeça, e as mães com os meninos ao solto lhe dão os parabens, estreara-os para a guerra tingindo-lhes os braços com aquelie sangue: estas são as façanhas, honras, valentias, em que estes gentios tourão nomes de que se prezão muito, e ficão dali por diante Abas, Murubixaba, Moçacara, que são títulos e nomes de cavaleiros: e estas são as infelizes festas, em que estes tristes antes de terem conhecimento de seu Creador põem sua felicidade e glória. DA DIVERSIDADE DE NAÇÕES E LINGUAS Em toda esta província ha muitas e varias nações de differentes línguas, porém uma é a principal que comprehende algumas dez nações de Indios: estes vivem na costa do mar, e em uma grande corda do sertão, porém são todos estes de uma só lingua ainda que em algumas palavras discrepão e esta é a que entendem os Portuguezes; é facil, e elegante, e suave, e copiosa, a difficuldade deita está em ter muitas composições 42; porem dos Portuguezes, quasi todos os que vêm do Reino e estão cá de assento e communicacãò com os Indios a sabem em breve temo, e os filhos dos Portuguezes cá nascidos a sabem melhor que os Portuguezes, assim homens como mulheres, principalmente na Capitania de São Vicente, e com estas dez nações de Indios têm os Padres communicação por lhes saberem a lingua, e serem mais domesticos e bem inclinados: estes furão e são os amigos antigos dos Portuguezes, com cuja ajuda e armas, conquistarão esta terra, pelejando contra seus proprios parentes, e outras diversas nações barbaras e erão tantos os desta casta que parecia impossível poderem-se extinguir, porem os Portuguezes lhes têm dado tal pressa que quasi todos são mortos e lhes têm tal medo, que despovoão a costa e fogem pelo sertão a dentro até trezentas a quatrocentas leguas. Os primeiros desta lingua se chamão[Pot aras l43 senhores da Parahiba, 30 leguas de Pernambuco, senhoresdo melhor pau do Brasil e grandes amigos dos France 40 41 Broamerape.(Purchas, ib.) 38 Amenduins. (Purchas, ib.) The same iudge or stickler. (Purchas, 1 V, P. 1.297) 42 39 Comparisons. (Purchas, ib.) Certaine legges of a certaine Tree, called Püan (Purchas, ib) 43 Pitiguaras. (Purchas, ib.) zes, e com elles contratarão até agora, casando com elles suas filhas; mas agora na era de 84 foi a Para hiba tomada por D logo Flores, General de Sua Magestade, botando os Francezes fora, e deixou um forte com cem soldados, afora os Portuguezes, que ta mbem têm seu Capitão e Governador Fructuoso Barbosa, que com a principal gente de Pernambuco levou exercito por terra com que venceu os inimigos, porque do mar os da armada não pelejarão. Perto destes vivia grande multidão de gentio que chamão Viatã, destes já não ha nenhuns, porque sendo elles amigos dos Potyguaras 44 e parentes os Portuguezes os fizerão entre si inimigos, dando-lhos a comer, para que desta maneira lhes pudesse fazer guerra e tenos por escravos, e finalmente, tendo uma grande fome, os Portuguezes em vez de lhes acodir, os captivarão e mandarão barcos cheio a vender a outras Capitanias: ajuntou-se a isto um clerigo Portuguez Magico, que com seus enganos os acarretou todos os a Pernambuco, e assim se acabou esta nação, e ficando os Portuguezes sem vizinhos que os defendessem dos Potyguaras 4 5, os quaes até agora que forão desbaratados, perseguirão os Portuguezes dando-lhes de supito nas roças, fazendas, e engenhos, queimando-lhos, e matando muita gente portugueza, por serem muito guerreiros; mas já pela bondade de Deus estão livres deste sobroco. Outros ha a que chamão Tupinabas! estes habitão do Rio Real até junto dos Ilhéos; estes entre si erão tombem contraries, os da Bahia com os do Camamu e Tinharê 46 radores do Rio de Janeiro, estes destruirão os Portuguezes quando povoarão o Rio, e deles ha muitos poucos, e alguns que ha no sertão se chamão Ararape. Outra nação se chama arij_ ó habitão além de São Vicente como oitenta leguas, contraries dos Tupinaquins de São Vicente; destes ha infinidade e correm pela costa do mar e sertão até o Paraguay, que habitão os Castelhanos. Todas estas nações acima ditas, ainda que diferentes, e muitas delias contrarias umas das outras, têm a mesmá língua, e nestes se faz a conversão, e tem gránde_ -espeito aos Padres _da Com:. p,anhiá e no sertão suspirã9 por elles, e lhes chamão Aba_rê e Pai, desejando 49 a suas terras converte-los, e é tanto este credito que alguns Portuguezes de ruim consciencia se fingem Padres, vestindo-se em roupetas, abrindo coroas na cabeça, e dizendo que são Abarês e que os, vão buscar para as igrejas dos seus pais, que são os nossos, os trazem enganados, e em chegando ao mar os repartem entre si, vendem e ferrão, fazendo primeiro neiles lá no sertão grande mortandade, roubos e saltos, tornando lhes as filhas e mulheres, etc., e se não forão estes e semelhantes estorvos já todos os desta língua forão convertidos á nossa santa fé. Ha outras nações contrarias e inimigas destas, de differentes línguas, que em sertão vizinho aos Tupinaquins habitão os Guaimurês 50, e tourão algumas oitenta leguas de costa, e para o sertão quanto querem, são senhores dos matos selvagens, muito encorpados, e pela continuação e costume de andarem pelos matos bravos tem os couros muito rijos, e para este effeito açoutão os meninos em pequenos com uns cardos para se acostumarem a andar pelos matos bravos; não têm roças, vivem de rapina e pela ponta de frecha, comem a mandioca crua sem lhes fazer mal, e correm muito e aos brancos não dão senão de salto, usão de uns arcos muito grandes, trazem uns paus feitiços muito grossos 51, para que em chegando logo quebrem as cabeças. Quando vêm á peleja estão escondidos debaixo de folhas, e dali fazem a sua e são mui temidos, e não ha poder no mundo que os possa vencer; são muito covardes em campo, e não ousão sair, nem passão agua, nem usão de embarcações, nem são dados a pescar; toda a sua vivenda é do mato; são crueis como leões; quando tourão alguns contraries cortão-lhe a carne com uma çsnna de que fazem as frechas, e os esfolão, que lhes não deixão mais que os ossos e tripas: se tourão alguma criança e os perseguem, para que lha não tomem viva lhe dão com a cabeça em um pau, desentranhão as mulheres prenhes para lhes comerem os filhos assados. Estes dão muito trabalho em Porto Seguro, Iihéos e Camamu, e estas terras se vão despovoando por sua causa; não se lhes pode entender a língua. Alem destes, para o sertão e campos de Caátinga vivem muitas nações Tapuyas, que chamão Tucanuço 52, estes vivem no sertão do Rio Grande pelo direito de Porto Seguro; têm outra língua, vivem no sertão antes que cheguem ao Aquitigpe nome geral se chamãoTapuya1 e tombem entre si são contrarias; primeiramente no Por uma corda do Rio de São Francisco vivia outra nação a que chamavão aaé'té; e tombem havia contraries 4 7 entre estes e os de Pernambuco. Dos Iihéos Porto Seguro até Espírito Santo habitava outra nação, que charriavãolTupinaquimuestes procederão dos de Pernambuco e se espalharão por uma corda do sertão, mulpiplicando grandemente, mas já são poucos; estes forão sempre muitos inimigos das cousas de Deus, endurecidos em seus erros, porque erão vingativos e querião vigor-se comendo seus contraries e por serem amigos de muitas mulheres: já destes ha muitos christão e são firmes na fé. Ha outra nação parentes destes, que corre do sertão de São Vicente até Pernambuco, a que chamão Tupíguae: estes erão sem numero, vão-se acabando, porque os Portuguezes os vão buscar para se servirem delles, eosque Ihesescapão fogem para muito longe, por_ r nãoJsere çráuos. Ha outra nação vizinha a estes, que chamão Apigapigtanga e Muriapígtanga. Tombem ha outra nação contraria aos Tupinaquins, que chamão Guaracaio ou itati. Outra nação mora no Espirito Santo a que chamão Tegme mino 48: erão contraries dos Tupinaquins, mas já são poucos. Outra nação que se chama Tamuya, mo Pitiguaras. (Purchas, ib.) 49 Pitiguaras. (Purchas, ib.) lntrare. (Purchas, IV, p. 1.298) 50 Thye would come to. (Purchas, ib.) Contrarieties. (Purchas, ib.) 5 1 Guamures. (Purchas, ib.) Timimino. (Purchas, ib.) 52 Certaine stones made a purpose verie bigge. (Purchas, ib.) Tunacunu. (Purchas, 1 V, p. 1.299) 1 n, e chamão-se Nacai 5 3. Outros ha que chamão Oquigtajuba. Ha outra nação que chamão Pahi: estes se vestem de panno de algodão muito tapado e grosso como rede, com este se cobrem como com saio, não tem mangas; têm differente língua. No Ari ha outros que tambem vivem no campo indo para o Aquitigpe. Há outros que chamão Parahió, é muita gente e de differente língua. Outros que chamão Nhandeju 54, tambem de differente língua. Ha outros que chamão Macutü. Outros Napara; estes têm roças. Outros que chamão Cuxaré; estes vivem no meio do campo do sertão. Outros que vivem para a parte do sertão da Bahia que chamão Guayaná, têm língua por si. Outros pelos mesmo sertão, que chamão Taicuyú vivem em casas, têm outra língua. Outros no mesmo sertão, que chamão Cariri 5 5, têm língua differente: estas tres nações e seu vizinhos são amigos dos Portuguezes. Outros que chamão Pigrú, vivem em casas. Outros que chamão Obacoatiára, estes vivem em ilhas no Rio de São Francisco, têm casas como cafuas debaixo do chão; estes quando os contraries vêm contra enes botão-se á agua, e de mergulho escapão, e estão muito debaixo d'agua, têm frechas grandes como chuços, sem arcos, e com ellas pelejão;são muito valentes, comem gente, têm differente língua. Outros, que vivem muito pelo sertão a dentro, que chamão Anhehim 56, têm outra língua. Outros que vivem em casas, que chamão Aracuaiati, têm outra língua. Outros que chamão Cayuara, vivem em covas, têm outra língua. Outros que chamão Guaranaguaçu S 7, vivem em covas, têm outra língua. Outros muito dentro no sertão que chamão Camuçuyara, estes têm mamas que lhes dão por baixo da cinta, e perto dos joelhos, e quando correm cingem-nas na cinta, não deixão de ser muito guerreiros, comem gente, têm outra língua. Ha outra nação que chamão /gbigra-apuajara 58 senhores de paus agudos, porque pellejão com paus tostados agudos, são valentes, comem gente, têm outra língua. Ha outra que chamão Aruacuig 59, vivem em casas, têm outra língua, mas entendem-se com estes acima ditos, que são seus vizinhos. Outros ha que chamão Guayacatu e Guayatun; estes têm língua differente, vivem em casas. Outros ha que chamão Curupehé 60, não comem carne humana, quando matam cortão a cabeça do contrario e levão-na por amostra, não têm casa, são como ciganos. Outros que chamão Guayó, vivem em casas, pellejão com frechas ervadas, comem carne humana, têm outra língua. Outros que chamão Cicú têm a mesma lingua e costumes dos acima ditos. Ha outros a que chamão Pahajú, comem gente, têm outra língua. Outros ha que chamão Jaicujú, têm a mesma língua que estes acima. Outros que chamão Tupijó, vivem em casas, têm roças, e têm outra língua. Outros Maracaguaçú, são vizinhos dos acima ditos, têm a mesma língua. Outros chamão-se Jacurujú; têm roças, vivem em casa, têm outra lingua. Outros que se chamão TaPUUyS 6 1 são vizinhos dos sobreditos acima, têm a mesma língua. Outros ha que chamam Anacujú; têm a mesma língua e costumes que os de cima e todos pellejão com frechas ervadas. Outros que se chamão Piracujú; têm a mesma língua que os de cima e frechas ervadas. Outros ha que chamão Taraguaig, têm outra língua, pellejão com frechas ervadas. Ha outros que chamão Panacujú 6 2, sabem a mesma linguados outros acima ditos. Outros chamão Tipe, são do campo, pellejão com frechas ervadas. Outros ha que chamão Guacarajara, têm outra língua, vivem em casas, têm roças. Outros vi zinhos dos sobreditos que chamão Camaragõã. r. Ha outros que chamão Curupyá, forão contrários dos Tupinaquins. Outrosque chamão Aquirinó têm differente língua. Outros que chamão Piraguaygaguig, vivem de baixo de pedras, são contraries dos de cima ditos. Outros que chamão Pinacujú. Outros ha que chamão Parapotõ, estes sabem a língua dos do mar. Outros Caraembâ, tem outra língua. Outros que chamão Caracuju, tem outra língua. Outrosque chamão Mainuma, estes se misturão com Guaimurês, contrarios dos do mar; entendem-se com os Guaimurês, mas têm outra lingua. Outros ha que chamão Aturary tambem entrão em communicação com os Guaímurês. Outros ha que chamão Quígtaío, tambem communicão e entrão com os Guaimurês- Ha outros que chamão Guigpé; estes forão moradores de Porto Seguro. Outros se chamão Quigrajubê 6 3, são amigos dos sobreditos. Outros que chamão Angarari, estes vivem não muito longe do mar, entre Porto Seguro e o Espirito Santo. Outros que chamão Amixocori são amigos dos de cima. Ha outros que chamão Çarajã: vivem no sertão da parte de São Vicente;forão do Norte correndo para lá, têm outra língua. Ha outros que chamão Apitupá; vivem no sertão para a banda de Aquítipi. Outros ha que chamão Caraguatajara; têm língua differente. Ha outros que chamão Aguiguira, estes estão em communicação com os acima ditos. Outra nação ha no sertão contraria dos Muriapígtanga e dos Tarapé, é gente pequena, anã, baixos do corpo, mas grossos de perna e espaduas, a estes chamão os Portuguezes Pigmeo, e os Indios lhe chamão Tapig-y-mirim 64, porque são pequenos. Outros ha que chamão Quiríciguíg, estes vivem no sertão da Bahia, bem longe. Outros que chamão Guirig são grandes cavalieiros e amigos dos ditos acima. Outros se chamão Guajerê; vivem no sertão de Porto-Seguro muito longe. Há outra nação que chamão Aenaguig; estes forão moradores da terras dos Tupinaquins, e porque os Tupinaquins ficarão senhores das terras 65 se chamão Tupinaquins. Ha outros que chamão Guaytacã; estes vivem na costa do mar entre o Espirito Santo e Rio de Janeiro; vivem no campo e não querem viver nos matos e vão comer ás roças, vêm dormir ás roças, vêm dormir ás casas, não têm outros thesouros, vivem como o gado que pasce no campo, e não vêm ás casas mais que a dormir; correm tanto que a cesso tourão a caça. Outros que chamão lgbigranupâ 66, são contraries Nacy. (Purchas, ib.) Mandeiu. (Purchas, ib.) Cariu. (Purchas, ib.) Anhelim. (Purchas, ib.) Guainaguacu. (Purchas, ib.) lobíora Apuayara. (Purchas, ib.) Anuacuig. (Purchas, ib.) Cumpehe. (Purchas, ib.) Tapecuiu. (Purchas, ib.) Pahacuiu. (Purchas, ib.) Guigraiube. (Purchas, ib.) Taepyquiri. (Pu rchas, 1 V, p. 1.300) Of the Mountarnes. (Purchas, ib.) lgbigranupan. (Purchas, ib.) dos Tupinaquins e communicão com os Guaimurês; quando fustão com os contraries fazem grandes estrondos, dando com uns paus nos outros. Outros que chamão Quirigmã, estes forão senhores das terras da Bahia e por isso se chama a Bahia Quigrigmurê 67. Os Tupjnabas os botárão de suas terras e ficarão senhores dellas, e os Tapuyas forão para o Sul. Ha outros que chamão Maribuió; morão no sertão em direito do Rio Grande. Outros que chamão Cataguá; esses vivem em direito de Jequericarê entre o Espirito Santo e Porto-Seguro. Outros ha que chamão Tapuxeríg; são contraries dos outros Tapuyas, comem-lhes as roças. Outros que morão pelo sertão que vai para São Vicente, chamão-se Amocaxõ, forão contrarios dos Tupinaquins. Outros que chamão Nonhã 68, têm rostos muito grandes. Há outros, e estes se chamão Apuy, morão perto do campo do sertão, são grandes cantores, têm differente lingua. Outros ha que chamão Panaquiri 69, differentes dos acima ditos. Outros tombem differentes que chamão Bigvorgya 70. Há outra nação que chamão Piriju, e destes ha grande numero. Todas estas'setenta e seis nac, es dé Tapuyas, que têm as mais dellas differentes lingua, são gente brava, silvestre e indomita, são contrarias quasi todas do gentio que vive na costa do mar, vizinhos dos Portuguezes: somente certo genero de Tapuyas que vivem no Rio São Francisco, e outros que vivem mais perto são amigos dos Portuguezes, e lhes fazem grandes agazalhos quando passão por suas terras. D'estes ha muitos christãos que forão trazidos pelos Padres do sertão, e aprendendo a lingua dos do mar que os Padres sabem, os batizarão e vivem muitos deites casados nas aideas dos Padres, e lhes servem de interpretes para remedio de tanto numero de gente que se perde, e somente com estes Tapuyas se pode fazer algum fructo; com os mais Tapuyas, não se pode fazer conversão por serem muito ondeies e terem muitas e differentes linguas diffjcultosas. Somente fica um remedio, se Deus Nosso Senhor não descobrir outro, e é havendo ás mãos alguns filhos seus aprenderam a lingua dos do mar, e servindo de interpretes fará algum fructo ainda que com grande dificuldade pelas razões acima ditas e outras muitas. NOTAS Quando se estuda a manifestação da idéia por cheio da palavra, o espírito deve procurar no exame dos radicais a significação mais genérica possível, a qual, sempre que for particularizada, o será mediante a adição de radicais demonstrativos (prefixos e sufixos nas línguas arianas). Sendo assim, repugna-nos quase instintivamente a interpretação dos vocábulos, como a soem fazer geralmente, pela homofonia das dicções, o que induz aos mais graves erros, e é inteiramente contrário ao verdadeiro espírito lingüista. Entretanto nas línguas que não têm monumentos escritos, e cujo conhecimento, de mais a mais, nos é transmitido por meio de caracteres os mais diferentes e variados, conforme o modo de representar os sons, isto é, seguindo ortografias inteiramente arbitrárias e diferentes umas das outras, é, na falta de outros dados, justamente o homofonia o que nos pode guiar para acertamos com o radical, que constitui o fundamento do vocábulo. De Nhandui ou Yandui ou Jandui (nome do célebre morubixaba da Paraíba no tempo da dominação holandesa) é difícil de se explicar como se formasse Jean Dory (no escrito de Roulox Baro), e ainda se chegasse ao nome alatinado por Barleu na forma Jandovius Evidentemente a homofonia aqui nos guia para que reconheçamos que, além do mais, existe em "Jean Dory" erro de escrita ou de cópia, porque, escrito com ortografia francesa, "Jean-doui" já corresponde bastante aproximadamente ao nome Nhandui (célebre por ser ótimo na carreira), nome este que nos reporta a nhandú (ave corredora) com o sufixo i, que pode ter sido alterado de yb, principal. Por conseguinte, apesar de reconhecermos que a homofonia não pode e não deve servir, por via de regra, para decidirmos do parentesco e derivação comum do vocábulo (como se vê em cessão e sessão), contudo somos obrigados a aceitá-la em diversas circunstâncias. Limito-me a este cavaco simplesmente para que se me desculpe, em diversas interpretações dos vocábulos que seguem, 'o submeter-me por vezes a esse modo de explicar as dicções, tão geralmente seguido, mormente por aqueles que têm a mania de explicar as etimologias dos vocábulos dos indígenas, e que nesse intuito não trepidam em inventar radicais que não há, ou em formular combinações e composições inteiramente arbitrárias. Já uma ocasião observamos quanto é estúrdia a mania de se querer por força uma explicação e uma dedução etimológica para todo e qualquer vocábulo indígena e a impertinência com que se exige daquele que estuda línguas americanas a decifração de cada vocábulo, sem se importarem se esse vocábulo está ou não estropiadíssimo. Na mesma ocasião fizemos ver que tão exigentes em relação aos vocábulos das línguas americanas não o são igualmente em relação aos da própria língua que falam. Querem por força que, quem estuda língua de bugre, destrince por miúdo, sílaba por sílaba, letra por letra, a palavra tangapema (cacete de guerra dos índios) e não são capazes de explicar nem aproximadamente a palavra durindana ou a palavra catana. Não é só. Como vêem na ciência comporem-se palavras como polipodio (que julgam suficientemente explicada logo que se reporta ao grego e se traduz - muitos pés), querem igualmente Cuirimure. (Purchas, ib.) Nonea. (Purchas, ib.) Panaguiri. (Purchas, ib.) Bigrorgya. (Purchas, ib.)