LITERATURA INFANTIL Gostosuras e bobices 111 ( ) À 11 (0 11 o 7 1M I p~,~n USP ~ Je --colo e i glou Mt) l,fá:' ! a editora scipione ér° e j1^c4 A~ 12 editora scipione DIRETORIA Luiz Esteves Sallum Vicente Paz Femandez José Gallafassi Filho Antonio Carlos Fiore GERÊNCIA EDITORIAL Aurelio Gonçalves Filho RESPONSABILIDADE EDITORIAL Lidia M. Melo Chaib ASSISTÊNCIA EDITORIAL Tereza Cristina Bilotta REVISÃO chefia -Sâmia Rios assistência - Miriam de Carvalho Abões preparação - M. Esteta Heider Cavalheiro revisão -Aníbal Mari e J. Roberto Segantini ARTE coordenação geral - Sérgio Yutaka Suwaki edição de arte - Didier D. C. Dias de Moraes coordenação-Alice Reiko Haga capa e miolo - Luiz Trigo ilustrações -Mariângela Haddad pesquisa iconográfica-Gisele Poletto Porto e José de Souza Pessoa fotos -Arquivo da Autora e Laureni Fochetto COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO José Antonio Ferraz COMPOSIÇÃO E ARTE-FINAL Diarte Editora e Comercial de Livros coordenação geral - Nelson S. Urata coordenação de arte-final -Silvio Vivian composição -Tereza Miyako Issaka arte-final - Martha Yoshida e Sueli Minori Issaka IMPRESSÃO E ACABAMENTO Prol-Editora Gráfica Ltda. Editora Scipione Ltda. MATRIZ Praça Carlos Gomes. 5,46 01501-040 São Paulo SP e-mail: scipione(r)scipione.comTi DIVULGAÇÃO Rua l'agundes,121 01508-030 São Paulo SP Tel. (011) 242 8411 Caixa Postal 65131 VENDAS Tel. (011) 277 1788 1999 ISBN 85-262-1398-9 5- EDIÇÃO 0 impressão) Dados Internacionais de Catalogação na Publicação )CIP) )Cimas Brasileira Livro, SP, Brasil) aera,.ovscn, fanny ul.ratara mnntn : so.m.ura. a soeste. 7 nny aora.n.+cn. - s:o ramo : scto+one, 1aa7. - tren.a.enen e qão ,w wa+etiriot 1. L - Literatura totem.-juvenil 2. Lvteratura intento-juvenil I. Titulo. II. aéría. Indkás para catálogo sistemático: 1. Z. LIitura L- :Literatura infantil ucapão J72.41 Literatura lnfanto-juvaníl EJUCapao 772.11 97-2- co 12- Para Taliana Belinky e Júlio Gouveia, que me nutriram - desde sempre - com belas histórias e livros especiais .. . SUMÁRIO PREFÁCIO 7 INTRODUÇÃO 9 • A volúpia de ler, ou ler; um jeito de compreender o mundo 10 1. OUVINDO HISTÓRIAS IS • A importância das histórias 16 • Como contar histórias 18 • Aproveitar o texto 21 • Contar histórias... só para quem rido sabe ler? 22 2. OLHANDO HISTÓRIAS 25 • Histórias sem texto escrito e suas possibilidades 26 • A importância das histórias sem texto escrito para a criança 32 3. SOBRE AS ILUSTRA ÇOES ... CADÊ AS CARAS DO TERCEIRO MUNDO? 35 • Como os livros infantis desenham nossas personagens 36 • Por que analisar as características das ilustrações das personagens? 40 4. 0 HUMOR NA LITERATURA INFANTIL 43 • Idéias engraçadas 44 • 0 tédio, o aborrecimento 44 • 0 mau humor, a irritação 47 • Queixas, lamúrias, lamentações 49 • A incompetência adulta 50 • As instituições 52 • Sustos e espantos 55 • Lobato, Sylvia e Marinho; o humor sempre presente 58 • Emília e Bibi; o humor expresso na alegria de viver 61 • Afinal, porque o humor? 64 5. POESIA PARA CRIANÇAS 65 • Como a poesia é considerada 66 • Brincando com as palavras 67 • As rimas 72 • 0 ritmo 76 • A poesia e as sensações 80 • A poesia e os sonhos 81 • A poesia e as emoções 82 • A poesia e a vivência infantil 85 • A poesia narrativa 89 • A prosa poética 91 • Como trabalhar poesia com as crianças? .... 94 6. SE INITIRANDO DE VERDADES 97 • A literatura também informa 98 • Lendo sobre relações familiares 101 • Lendo sobre a separação 104 • Lendo sobre o crescimento pessoal 107 • Lendo sobre a morte 111 • Lendo sobre as diferentes formas de poder ... 114 7. SE MARAVILHANDO COM OS CONTOS DE FADAS 119 • Os contos de fadas vivem até hoje.... 120 • Os contos de fadas falam de medos... 123 • Os contos de fadas falam de amor 125 • Os contos de fadas falam - e como! - da dificuldade de ser criança 128 • Os contos de fadas falam de carências... 133 • Os contos de fadas falam de autodescobertas 134 • Os contos de fadas falam de perdas e buscas 13,5 8. TRABALHANDO COMA APRECIAÇÃO CRÍ77CA 139 • A leitura em sala de aula 140 • A leitura e o espírito crítico 143 • 0 objeto-livro: o que perceber, o que discutir 145 • Atividades que podem ser desenvolvidas após as discussões 147 9. FREQÜENTANDO E FORMANDO BIBLIOTECAS 149 • Atividade de hoje: ir a uma livraria 150 • A biblioteca particular 152 • Atividade da semana: organizar a biblioteca escolar 154 • Atividade do mês: formar uma boa giboteca 156 • A biblioteca está pronta! Aguardem 158 • A biblioteca pública 161 DICAS DE LIVROS INFANTIS 164 BIBLIOGRAFIA 172 • Sobre conceitos, funções e gêneros da literatura infantil 172 • Sobre história da literatura infantil 172 • Sobre linhas de interpretação da literatura infantil 173 • Outros livros publicados pela autora 173 PREFÁCIO Acho que prefaciar qualquer livro requer, sobretudo, sinceridade. Sou sincera ao revelar que aceitei fazer o prefácio do livro da Fanny quando percebi que a sua leitura me havia transportado para o espaço mágico de um conto de Andersen que marcou a minha infância. O conto era A Rainha da Neve, que ganhei quando acabara de completar 9 anos. Percebo hoje que nenhum outro livro tematizou para mim, de forma tão marcante, a questão do Bem e do Mal, a força da perseverança, o valor dos sentimentos autênticos. Ao terminar de ler o livro de Fanny, senti uma vonta • irresistível de recuperar o meu livro. Resgatei-o do fundo de um armário, na casa de meus pais. Foi grande a emoção de ir aos poucos recordando com precisão cada detalhe do texto, os conflitos terríveis vividos pelas personagens, os arrepios provocados pelas ilustrações que nunca cheguei a saber por quem foram feitas, já que essa informação não era fornecida na minha edição da Cia. Brasileira Editora, São Paulo, 1953... Mas isso, na época em que pela primeira vez entrei em contato com esse conto maravilhoso, não fazia a menor diferença. O que contava mesmo era o poder de evocação dos desenhos, que contribuíram para registrar indelevelmente as representações de Kay e Gerda, do feiticeiro, da Rainha da Neve... Em seu livro, Fanny nos faz refletir sobre a importância e a necessidade de partilhar experiências de leitura, • falar da relação apaixonada que às vezes acontece entre o leitor e determinados textos. Ocorreu-me que esta seria, talvez, a maneira mais sensata, eficaz e significativa de trabalhar leitura na escola, desde as séries iniciais: mostrar que ler não é apenas uma -atividade escolar" a mais, mecânica e descontextualizada, mas uma ativida • vital, que precisa ser, desde cedo, plena de significação. O livro de Fanny possui exatamente esta qualidade: fala o tempo todo da leitura prazer, da leitura que nos acompanha pelo resto da vida, da leitura fonte inesgotável de experiências insubstituíveis. Penso que não seria exagero atribuir à linguagem escolhidapela autora, típica de situações coloquiais pautadas pela informalidade nas relações entre os interlocutores, o mérito de cativar o leitor: Fanny prefere conversar sobre literatura, em vez de dissertar, em estilo acadêmico, sobre o tema. E é exatamente em função do objetivo maior do texto, que é compartilhar com o leitor todo o significado da experiência de ler, que deve ser entendida a sua opção por uma linguagem que busca a todo custo manter o tom pessoal de relato de uma experiência realmente vivida e sentida. Sua linguagem, em muitos momentos, está próxima do estilo coloquial oral e, como este, manifesta-se livre das amarras de uma correção obsessiva segundo os padrões da norma escrita culta. O uso freqüente de construções e vocabulário característicos da linguagem oral tem aqui o efeito de aproximar os interlocutores, criando o clima adequado para se negociar um trabalho mais interessante e tranqüilo com literatura na escola. Vale a pena enfatizar, portanto, a eficácia do uso da linguagem coloquial, neste caso específico. Seria bem mais difícil convencer o leitor sobre o prazer da leitura se a linguagem usada fosse excessivamente formal, acadêmica, hermética... Estou certa de que este livro pode ser de grande utilidade, tanto para professores e alunos do curso de Magistério, como para aqueles que atuam diretamente no 1.0 grau. Uma leitura atenta do texto revelará uma série de atividades possíveis para os vários níveas escolares, que os professores saberão, sem dúvida, explorar com proveito. Maria Bernadete Marques MARIA BERNADETE MARQUES ABAURRE Abaurre é lingüista, professora no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. A VOLÚPIA DE LER, ou LER: UM JEITO DE COMPREENDER O MUNDO Ilustração de Vilh. Pedersen e Lorenz Frolich para o conto -Miudinha", extraída de Contos de Andersen. 3. ed. Rio de janeiro, Paz e Terra, p. 48. Meu primeiro contato com o mundo mágico das histórias aconteceu quando eu era muito pequenina, ouvindo minha mãe contar algo bonito todas as noites, antes de eu adormecer, como se fosse um ritual ... Lembro de sua voz contando `João e Maria" e das várias adaptações que criava em relação à casa da bruxa, sempre sendo construída com todas as comidas de que eu gostava... Havia outras, onde eu era a personagem principal, que ela ia inventando ao sabor dos acontecimentos de cada dia... Um salgueiro que ela dizia chamar-se Fanny porque chorava muito, como eu, e até hoje recordo da minha genuína decepção ao descobrir que não era igual ao 10 meu o nome da tal árvore ... Me acalentava com variações de a "Mindinha", de Andersen, que eu adorava por ser uma personagem petitinha de tamanho, como eu, e todos os objetos que a cercavam serem diminutos. (A identificação com a personagem era total!) Ah, claro, inventava muitas histórias que aconteciam num mundo de paz e fraternidade (ideal a ser atingido), em países socialistas (onde todos tinham casas iguaizinhas, com um jardim à frente...), como a de vovô, que - quando morreu - virou imediatamente uma estrela, a primeira que apareceria todas as noites no céu e com quem eu = Pria conversar muito e sóbre o-que-qui , fi ram histórias bonitas, com explicações do mundo e das acontecências dele, e dum jeito que eu podia me situar num universo onde começava a engatinha No jardim da infância que freqüentei, me lembro de poucas histórias contadas ... Talvez porque não soubessem criar o clima, talvez porque escolhessem as não-marcantes ou envolventes... Lembro bem da "Branca de Neve", porque a fizemos em teatro e eu fui um dos sete anões, aquele que não falava... Com 7 anos, no Mackenzie, minha professora - Dona Nicota - nos iniciou nos mistérios da Cartilha do povo... Tenho viva, gravada, a primeira página até hoje: uma imensa mão, onde cada dedo apontava pruma vogal: a-e-i-o-u... Mas a grande marca do Mackenzie foi a sua biblioteca, que no registro da minha memória era imensa, infinita, onde se podia achar tudo! Ia lá todos os dias, pegava emprestado todos os livros, lia vorazmente ... Nos dois primeiros anos da escola primária, lembro de como era insaciável com O Tesouro da juventude, especialmente com O livro dos contos. O que mais me encantava estava impresso no volume número 1: era ''A dança das doze princesas", que lia, relia, trelia, sempre fascinada ... (só adulta soube que era dos irmãos Grimm ... ) Ah, a volúpia de poder ler sozinha, de mergulhar no mundo mágico das letras pretas que remetiam a tantas histórias fantásticas!!! Como era triste e comovente "O soldadinho de chumbo-, e também triste e dadivosa "A sereiazinha", dois contos de Andersen... Como era deleitoso, delicioso, lagartear (não ao sol, mas onde fosse e nas condições climáticas que fossem... ) com os livros 11 do Monteiro Lobato. Era gostosura pura, era maravilhamento total (não com os didáticos que ele escreveu ... mas com os outros todos, sem dúvida)! Foi o presente mais cobiçado da minha infância: a coleção inteira, de capa marrom, com letras douradas, com os desenhos do Le Blanc, que estão aí na minha estante até hoje, me divertindo e me surpreendendo sempre... E fazendo com que a Emília seja uma das minhas personagens favoritas, desde o momento em que a conheci até hoje, quando busco algo de irreverente e de inesperado para usar em algum de meus escritos... Ilustração de Le Blanc para O Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato. São Paulo, Brasiliense, z947. p. 7. ...0 tentar me envolver com a Condessa de Ségur, mas tê-la achado realmente chatinha... Ficou aquela impressão de coisa pesada, meio assustadora, duma série (que hoje sei que foi editada pela Vecchi) que tinha um montão de Os mais belos contos... da China, da índia, não sei mais de onde... cujos desenhos enormes, pretos, me deixavam meio aterrorizada... Aqueles momentos lacrimogênios de Coração, do De Amicis, que nunca 12 me comoveram, me envolveram, nem provocavam a tristezura doida e boa que "Os sapatinhos vermelhos" me causaram... As aventuras (ou as assim chamadas) não me fascinavam... Nem Júlio Verne (numa coleção de capa vermelha, durinha, que era do papai), nem A ilha do tesouro e outros que tais ... Acho que gostava mais das aventuras pra dentro, pra descoberta das emoções, dos sentimentos, dos caminhos internos, das revelações pela busca e empenho pessoal, do que das saídas com canoas e caravelas que navegavam em águas infestadas de jacarés e hipopótamos e onde os conflitos eram mais lineares e os impasses mais objetivos... Sei que quando tinha uns 9 anos de idade fui matriculada na União Cultural Brasil-Estados Unidos pra aprender inglês, porque já havia lido absolutamente tudo o que havia sido editado para crianças, naquela época, em português... Sei que lá pelos 9, 10 anos, lia José Lins do Rego, me atirava nos Capitães da areia, do Jorge Amado, sofria com as vicissitudes de Clarissa, do Érico Veríssimo, chorava com as histórias de M. Delly, comprava todos os volumes da Coleção das Moças, me encantava com Os meninos da rua Paulo, do Ferenc Molnár; aplaudia Skid, a república dos vagabundos, passava noites com os médicos do Cronin, me espantava com Os miseráveis, do Victor Hugo... Enfim, uma salada literária, onde não reinava nenhum preconceito, onde autores os mais diversos conviviam, onde todos os gêneros se seguiam ou se mesclavam, onde épocas históricas eram vividas através da literatura, onde aprendi a conhecer os meninos da minha terra e das outras ... Da biblioteca da minha casa (onde pegava o volume que bem quisesse e depois comentava com meus pais e amigos o que havia lido), da biblioteca das escolas e dos clubes que freqüentava, mais tarde da Biblioteca Municipal de São Paulo, retirei toda espécie de livro que, por alguma razão, me interessava no momento ... E essa volúpia de ler, essa sensação única e totalizante que só a literatura provoca (em mim, pelo menos... ), esse ir mexendo em tudo e formando meus critérios, meus gostos, meus autores de cabeceira, relendo os que me marcaram ou mexeram comigo dum jeito ou de outro (e 13 até me decepcionando com a memória, que guardava algo melhor...), esse perceber que o ler é um ato fluido, ininterrupto (mas onde tudo pode coexistir, como numa improvisação jazzística), de encantamento e de necessidade vital, é algo que trago comigo desde muito, muito pequenina... E foi o que me tornou essa viciada total em ler que sou até hoje! Ler, pra mim, sempre significou abrir todas as comportas pra entender o mundo através dos olhos dos autores e da vivência das personagens... Ler foi sempre maravilha, gostosura, necessidade primeira e básica, prazer insubstitUíveL.. E continua, lindamente, sendo exatamente isso! 14 A IMPORTÂNCIA DAS HISTÓRIAS Ah, como é importante para a formação de qualquer criança ouvir muitas, muitas histórias... Escutá-las é o início da aprendizagem para ser um leitor, e ser leitor é ter um caminho absolutamente infinito de descoberta e de compreensão do mundo ... O PRIMEIRO CONTATO DA CRIANÇA COM UM TEXTO É FEITO ORALMENTE, através da voz da mãe, do pai ou dos avós, contando contos de fada, trechos da Bíblia, histórias inventadas (tendo a criança ou os pais como personagens), 16 livros atuais e curtinhos, poemas sonoros e outros xá muitos momentos para con mais ... contados durante o dia - numa tarde de chuva, lar histõnas para as crianças, ou estando todos soltos na grama, num feriado ou domingo - ou num momento de aconchego, à noite, antes de dormir, a criança se preparando para um sono gostoso e reparador, e para um sonho rico, embalado por uma voz amada. Ler histórias para crianças, sempre, sempre... É poder sorrir, rir, gargalhar com as situações vividas pelas personagens, com a idéia do conto ou com o jeito de escrever dum autor e, então, poder ser um pouco cúmplice desse momento de humor, de brincadeira, de divertimento ... É também suscitar o imaginário, é ter a curiosidade respondida em relação a tantas perguntas, é encontrar outras idéias para solucionar questões (como as personagens fizeram...). É uma possibilidade de descobrir o mundo imenso dos conflitos, dos impasses, das soluções que todos vivemos e atravessamos - dum jeito ou de outro - através dos problemas que vão sendo defrontados, enfrentados (ou não), resolvidos (ou não) pelas personagens de cada história (cada uma a seu modo)... É a cada vez ir se identificando com outra personagem (cada qual no momento que corresponde àquele que está sendo vivido pela criança)... e, assim, esclarecer melhor as próprias dificuldades ou encontrar um caminho para a resolução delas ... É ouvindo histórias que se pode s_ sentir. (também) emoções importantes,, como a tristeza, a raiva, a irritação, o bem-estar, o medo, a alegria, oo pavor, a insegu rança, a tranquilidade, e tantas outras mais, e viver profundamente tudo o que as narrativas provocam em quem as ouve - com toda a amplitude, significância e verdade que cada uma delas fez (ou não) brotar... Pois é ouvir, sentir e enxergar com os olhos do imaginário! ---E ATRAVÉS DUMA HISTÓRIA QUE SE PODEM DESCOBRIR OU TROS LUGARES, outros tempos, outros jeitos de agir e de ser, outra ética, outra ótica... É ficar sabendo História, Geografia, Filosofia, Política, Sociologia, sem precisar saber o nome disso tudo e muito menos achar que tem cara de aula... Porque, se tiver, deixa de ser literatura, deixa de ser prazer e passa a ser Didática, que é outro departamento (não tão preocupado em abrir as portas da compreensão do mundo). 17 COMO CONTAR HISTÓRIAS Para contar uma história - seja qual for - é bom saber como-se, faz. Afinal, nela se descobrem palavras novas, se entra em contato-coma-música e com a sonoridade das frases, dos nomes ... Se capta o ritmo, a cadência do conto, fluindo como uma canção ... Ou se brinca com a melodia dos versos, com o acerto das rimas, com o jogo das palavras ... Contar histórias é uma arte ... e tão linda!!! É ela que equilibra o que é ouvido com o que é sentido, e por isso não é nem remotamente declamação ou teatro... Ela é o uso simples e harmônico da voz. Daí que QUANDO SE VAI LER UMA HISTÓRIA - seja qual for - para a criança, não se pode fazer isso de qualquer jeito, pegando o primeiro volume que se vê na estante ... E aí, no decorrer da leitura, demonstrar que não está familiarizado com uma ou outra palavra (ou com vá 18 Antes de ser lido para ar crianças, o livro precisa ter sido lido pelo narrador. ELIZAGARAY, Alga Marina. El poder de Ia literatura para nirnos y jovenes. Havana, Letras Cubanas. rias), empacar ao pronunciar o nome dum determinado personagem ou lugar, mostrar que não percebeu o jeito como o autor construiu suas frases e ir dando as pausas nos lugares errados, fragmentando um parágrafo porque perdeu o fôlego ou fazendo ponto final quando aquela idéia continuava, deslizante, na página ao lado... Pior ainda, ficar escandalizado com uma determinada fala, ou gaguejar ruborizado porque não esperava encontrar um palavrão, uma palavra desconhecida, uma gíria nova, uma expressão que o adulto-leitor não usa normalmente... Aí não há como segurar a sensação de ridículo e mal-estar, e tudo degringola... Mas claro que NÃO É APENAS NO TERRENO DA LEITURA DAS PALAVRAS QUE A DIFICULDADE PODE SURGIR... E o conteúdo da história, as relações entre as personagens, as mentiras que ela pode colocar, os preconceitos que pode passar, a fragilidade duma narrativa onde não acontece absolutamente nada??? Como enfrentar a própria decepção ou cara de lástima??? Por isso, ler o livro antes, bem lido, sentir como nos pega, nos emociona ou nos irrita... Assim, quando chegar o momento de narrar a história, que se passe a emoção verdadeira, aquela que vem lá de dentro, lá do fundinho, e que, por isso, chega no ouvinte ... A ensaísta cubana Alga Marifa Elizagaray diz uma coisa clara e importante: ' `O narrador tem que transmitir confiança, motivar a atenção e despertar admiração. Tem que conduzir a situação como se fosse um virtuose que sabe seu texto, que o tem memorizado, que pode permitir-se o luxo de fazer variações sobre o tema". Claro que se pode contar qualquer história à criança: comprida, curta, de muito antigamente ou dos dias de hoje, contos de fadas, de fantasmas, realistas, lendas, histórias em forma de poesia ou de prosa ... Qualquer uma, desde que ela seja bem conhecida do contador, escõlhida porque a ache particularmente bela ou boa, porque tenha uma boa trama, porque seja divertida ou inesperada ou porque dê margem pra alguma discussão que pretende que aconteça, ou porque acalme uma aflição... O critério de seleção é do narrador... e o que pode suceder depois depende do quanto ele conhece suas crianças, o momento que estão vivendo, os referenciais de que necessitam e do quanto saiba aproveitar o texto (enquanto texto e enquanto pretexto ... ). 20 APROVEITAR O TEXTO... E para que isso ocorra, é bom que quem esteja contando crie todo um clima de envolvimento, de encan,,to... Que saiba dar as pausas, criar os intervalos, respeitar o tempo para o imaginário de cada criança construir seu cenário, visualizar seus monstros, criar seus dragões, adentrar pela casa, vestir a princesa, pensar na cara do padre, sentir o galope do cavalo, imaginar o tamanho do bandido e outras coisas mais... AH, É BOM EVITAR AS DESCRIÇÕES IMENSAS E CHEIAS DE DE TALHES, deixando o campo mais aberto para o imaginário da criança. Ela quer ouvir mais as conversas, as ações, os acontecimentos ... Afinal, as descrições literárias, além de interessar mais aos maiores, são para serem lidas, e não ouvidas ... AH, É BOM SABER USAR AS MODALIDADES E POSSIBILIDADES DA voz; sussurrar quando a personagem fala baixinho ou está pensando em algo importantérrimo; é bom levantar a voz quando uma algazarra está acontecendo, ou -falar de mansinho quando a ação é calma ... Ah, é bom falar muito baixinho, de modo quase inaudível, nos momentos de reflexão ou de dúvida, e usar humoradamente as onomatopéias, os ruídos, os espantos... Ah, é fundamental dar longas pausas quando se introduz o "Então... ", para que haja tempo de cada um imaginar as muitas coisas que estão para acontecer em seguida... E é bom valorizar o momento em que o conflito está acontecendo e dar tempo, muito tempo, para que cada ouvinte o vivencie e tome a sua posição... AH, É BOM SABER COMEÇAR O MOMENTO DA CONTAÇÃO, talvez do melhor jeito que as histórias sempre começaram, através da senha mágica "Era uma vez ou de qualquer outra forma que agrade ao contador e aos ouvintes ... Ah, e segurar o escutados desde o início, pois se ele se desinteressa de cara, não vai ser na metade ou quase no finalzinho que vai mergulhar ... Ah, não precisa ter pressa em acabar, ao contrário, ir curtindo o ritmo e o _tempo que cada narrativa pede e até exige ... E é bom saber dizer que a história acabou dum jeito especial: "E assim acabou a história. Entrou por uma porta, saiu pela 21 O professor precisa curtir o n mo que cada narrativa pede e até exige. É de fundamental importância que o professor de pré-escola conte histórias para seus alunos. outra, quem quiser que conte outra..." Ou com outro refrão que faça parte do jogo cúmplice entre a criança e o narrador... Ou simplesmente respirar fundo, olhar bem nos olhos e pronunciar -Fim-. Ou ... Ou ... E MOSTRAR À CRIANÇA QUE O QUE OUVIU ESTÁ IMPRESSO NUM LIVRO (se for o caso ... ) e que ela poderá voltar a ele tantas vezes quanto queira (ou deixá-lo abandonado pelo tempo que seu desinteresse determinar...). E quando a criança for manusear o livro sozinha, que o folheie bem folheado, que olhe tanto quanto queira, que explore sua forma, que se delicie em retirá-lo da estante (encontrando-o sozinha, em casa ou na escola), que vire página por página ou que pule algumas até reencontrar aquele momento especial que estava buscando... (mesmo que ainda não saiba ler, ela o encontra ... e fácil!). CONTAR HISTÓRIAS... SÓ PARA QUEM NÃO SABE LER? Ouvir histórias não é uma questão que se restrinja a ser alfabetizado ou não... Afinal, adultos também adoram ouvir uma boa história, passar noites contando causas, horas contando histórias pelo telefone (verdadeiras, fictícias, vontades do que aconteça ... ), por querer partilhar com outros algum momento que não tenham vivido juntos... Quantas vezes, no meio dum papo cálido e próximo, ou agitado e risonho, alguém diz: "Ei, eu já te contei essa história? Não M Nossa ... Pois é... " Se é importante para o bebê ouvir a voz amada e para a criança pequenina escutar uma narrativa curta, simples, repetitiva, cheia de humor e de calidez (numa relação a dois), para a criança de pré-escola ouvir histórias também é fundamental (agora numa relação a muitos: um adulto e várias crianças). Ah, e aí, antes de começar, é bom pedir que se aproximem, que formem uma roda, para viverem algo especial. Que cada um encontre um jeito gostoso de ficar: sentado, deitado, enrodilhado, não importa como ... cada um a seu gosto ... E depois, quando todos estiverem acomodados, aí começar "Era uma vez... " 22 O OUVIR HISTÓRIAS PODE ESTIMULAR o desenhar, o musi car, o sair, o ficar, o pensar, o teatrar, o imaginar, o brincar, o ver o livro, o escrever, o querer ouvir de novo (a mesma história ou outra). Afinal, tudo pode nascer dum texto! No princípio não era o verbo? Então... E mesmo as crianças maiores, que já sabem ler, também podem sentir grande prazer no ouvir... Afinal, não ouvem discos, não escutam rádio (sem nenhuma imagem)?! Alga Marina Elizagaray, no seu livro já citado, lembra: "Não devíamos esquecer nunca que o destino da narração de contos é o de ensinar a criança a escutar, a pensar e a ver com os olhos da imaginação. A narração é um antigüíssimo costume popular que podemos resgatar da noite dos séculos, mas nunca tecnificá-la com elementos estranhos a ela. Usar slides ou qualquer outro meio de ilustração e distração é interferir e neutralizar a sua mensagem, que é sempre auditiva e não visual", 23 Quando a criança sabe ler é diferente sua relação com as histórias; porém, continua sentindo enorme prazer em ouvi-Ias. Ouvir histórias é viver um momento de gostosura, de prazer, de divertimento dos melhores... É encantamento, maravilhamento, sedução ... O livro da criança que ainda não lê é a história contada. E ela é (ou pode ser) ampliadora de referenciais, poetura colocada, inquietude provocada, emoção deflagrada, suspense a ser resolvido, torcida desenfreada, saudades sentidas, lembranças ressuscitadas, caminhos novos apontados, sorriso gargalhado, belezuras desfrutadas e as mil maravilhas mais que uma boa história provoca... (desde que seja boa). Uma das atividades mais fundantes, mais significativas, mais abrangentes e suscitadoras dentre tantas outras é a que decorre do ouvir uma boa história, quando bem contada. Como disse Louis Paswels: -Quando uma criança escuta, a história que se lhe conta penetra nela simplesmente, como história. Mas existe uma orelha detrás da orelha que conserva a significação do conto e o revela muito mais tarde". 24 HISTÓRIAS SEM TEXTO ESCRITO E SUAS POSSIBILIDADES Eva FURNARI Não é de hoje que editoras inglesas, japonesas, americanas, alemãs e outras colocam nas estantes de livrarias de todo o mundo belíssimas publicações totalmente sem texto... Ou melhor, com narrativa apenas visual, onde toda a história é contada através de desenhos ou fotos, sem nenhuma palavra... Também existem livros em que algo do que foi desenhado se move pela página, e outros em que há partes recortadas, permitindo que se formem figuras novas e divertidas ou cenários diversificados (patas de gato, cabeça de avestruz e corpo de elefante ... ou telhado de casinhola com portão de castelo, e por aí vai, vai ... ), para encantamento e fascinação completa da criança. Alguns têm formato sanfonado, de modo a permitir que a história possa ser lida de várias maneiras, juntando partes longínquas, aproximando o inaproximável... Em outros, uma página inteira salta para fora e fica de pé, parada, firme e forte! Há também os que convidam o leitor a movimentar um avião (e ele salta!!) ou a deslocar um trombone para as mãos de outro músico da banda, desde que se mexa em plaquetas devidamente indicadas ... Fácil. Claro, tudo isso em papel duro, cartonado ... Existe ainda um outro tipo, aparentemente com cara de livro, que a gente vai abrindo devagarinho, levantando cada página e fixando-a no chão com o maior dos cuidados, até que se forma um objeto inteiro e grandão, em torno do qual a criança pode andar, brincar e suspirar... E pode surgir diante dos olhos um imenso e delicado circo da Inglaterra de bem antigamente ou um atual zoológico americano ... Uma loucura, um arrepio, uma belezura extasiante! ! ! Aqui no Brasil, algumas décadas atrás, algumas editoras enveredaram por algumas dessas possibilidades gráficas... Depois pararam. Só recentemente recomeçaram a aparecer livros onde toda a história é contada através de imagens. Eva Furnari tens feito coisas incríveis no gênero. Com seu desenho divertido, coloridérrimo, suas figuras em 26 i fo-c,, p~r, Wlp-m, umirmmitsa s~ ps ~Oz ~r -um A th, ~M omw"L, No. c, CT'i!, 1,wn UhCir qtucítil 31,il ha,ei,ark n fl,a Iluring thr mktIU do nomor ~I ti t I i z ir M e gQ e ti ão r f e r 27 movimento constante, suas personagens expressivas, publicou livros deleitosos. Contando de um palhaço desastrado e perplexo (Amendoim), de velhinhas surpreendentes, mágicas, risonhas, aprontadeiras (Filó e Marieta), de pessoas solenes e assustadiças (Zuna e Arquimedes), personagens que se misturam com bichinhos domésticos, dragões, ratinhos, caixas de molas, varas de condão e outras figuras e objetos que atravessam as cenas ... E os três volumes da série Ping-Póing, então, onde, além do que acontece em cada página, cada página se estende pra próxima, formando mil histórias? Mocinhas malcriadas andando de patinete podem estar junto com assaltantes ou fadas de sorriso gaiatíssimo. Bebês chorões se aproximam de distintos cavalheiros intelectuais ou de homens vestindo armaduras medievais. Senhoras de coque de repente estão ao lado de elefantes e alto-falantes, podendo virar regador ou luneta... O mundo pode ser revisto, os objetos transformados, as pessoas modificadas pela página que está ao lado, que a cada momento pode ser outra, formando quantas situações se queira ... Juntar a primeira com a décima ou com a oitava, ou parar a terceira e ir juntando com todas as outras ... Como der na veneta! E o leitor sorri, ri, se espanta, se encanta, olha assim meio bobo porque nunca pensou em nada parecido, ao mesmo tempo que dá de cara com a cara de gente que parece velha conhecida... E fica brincando horas, olhando devagarinho ou depressa, formando e imaginando mil e uma histórias ... 29 Quem embaralha se atrapalha, de Eva Furnari. São Paulo, FTD, 1986. Quem embaralha se atrapalha, de Eva Furnari. São Paulo, FTD, 1986. Ângela LAGO Angela Lago, sabendo usar uma atmosfera noturn, requintada, mineiríssima, se movimenta no universo i sonho. Em Era uma vez, utilizando a página dupla c mo um todo ou a dividindo em três partes, passeia co toda sorte de elementos: estrelas, hortênsias, anjc muitas janelas abertas, torres e sinos, lira no telhad objetos voadores, uma gata com óculos escuros, telh sugestivas e detalhes vários que pedem para ser sorvid devagar e bem de mansinho ... Juarez Machado, um dos pioneiros desse jeito de f zer livros infantis, lançou há anos Domingo de manhâ Ida e volta, onde mostra toda uma possibilidade de hi tória circular, infinda... Seu desenho grandão, colorida seu uso inteligente da página, vai conduzindo a acoi tecência pela perspectiva do olhar... É o movimento, andança, que faz o roteiro do visto, do percebido, c sentido, do que quer ser vivido, mexendo com a intel gência e a agudeza do leitor/olhador... Tem a Edith Derdyk, em sua História se; frmnnnn... , feita em preto e branco, usando dum tra5 inteligente, mais insinuando do que revelando, mistt rando figuras minúsculas com imensos novelos emar, nhados de lã e pedindo que se recortem algumas d, partes já assinaladas no livro, para assim ir refazendo todo, ir modificando o que existe na superfície d folha ... E como as coisas se alteram! 30 Tem também o Eliardo França, nos vários volumes da coleção Gato e Rato e em O baile e A festa, em que, embora apareçam legendas curtas, escritas por Mary França, estas seriam totalmente dispensáveis, tal o impacto visual que as ilustrações provocam ... Os desenhos vivos, as situações de conflito, de impasse, expressas num movimento agitado, bonito, compactado, as cores fortes e tão bem distribuídas, contam dum modo único suas histórias de bichos e suas desavenças, de mares e ventos, sempre indo-vindo, vindo-indo... e se resolvendo! O Pega-Pega, de Eliardo França e Mary França. 8. ed. Ática, São Paulo, 1986, p. 12. A suíça Monique Felix tem duas maravilhas -traduzidas": O ratinho que morava no livro e A nova aventura do ratinho, onde sua personagem, um rato (claro!), vai andando por páginas em branco, descobrindo o que o cerca, fuçando, olhando tudo, carregando ou construindo as coisas de que necessita, rasgando tudo o que o impede de se aproximar daquilo que o atrai... Para enfim 31 A nova aventura do ratinho, de Moniyue Felix. i. ed. Sau Paulo. Melhoramentos. 1987. p. 19. atingir seu objetivo! ... e se surpreender com sua desc berra, que desencadeia uma nova aventura e nos pel de surpresa. A IMPORTANCIA DAS HISTÓRIAS SEM TEXTO ESCRITO PARA A CRIANÇA Sim, mas além do talento gráfico desses desenhistas, importante perceber sua habilidade para construir tod uma narrativa següenciada, completa, sem precisar d palavras ... Sua capacidade de contar uma história d modo ágil, vivo, usando traços moventes, conheciment da cor e domínio da página, das páginas, do livro com, um todo ... De maneira harmônica, bonita, inteligent e cutucante... E, AO PRESCINDIR DO VERBO, DÃO TODA POSSIBILIDADE PA RA QUE A CRIANÇA O USE ... Oralizando essas histórias, co 32 locando um texto verbal, desenvolvendo algumas das situações apenas sugeridas (personagens que aparecem apenas como figuração, como elemento de perturbação do todo ou para salientar um momento ou uma possibilidade insólita), ampliando um detalhe proposto e daí refazendo o todo, de modo novo e pessoal... Criando uma história a partir duma cena colocada, misturando várias, musicalizando alguma relação, sonorizando uma descoberta feita, inventando enfim as possibilidades mil que narrativas apenas visuais (quando inteligentes e bem-feitas) permitem e estimulam... Fora o prazer de folhear um álbum (colorido ou branco e preto), que a magia dum traço solto, duma cor poética, dum enquadramento insuspeito, dum saber ver diferente, dum refinamento no acabamento, permite e provoca... E é tão bom saber ver o belo ou descobrir o que é bonito sem que antes se suspeitasse disso... Esses livros (feitos para crianças pequenas, mas que podem encantar aos de qualquer idade) são sobretudo experiências de olhar... De um olhar múltiplo, pois se vê com os olhos do autor e do olhador/ leitor, ambos enxergando o mundo e as personagens de modo diferente, conforme percebem esse mundo... E é tão bom saborear e detectar tanta coisa que nos cerca usando este instrumento nosso tão primeiro, tão denotados de tudo: a visão. Talvez seja um jeito de não formar míopes mentais ... 33 a Sugestões de atividades que podem ser desenvolvidas com as crianças em sala de aula. COMO OS LIVROS INFANTIS DESENHAM NOSSAS PERSONAGEM: É incrível como se confundem e até se reforçam, n livros infantis, o ético e o estético. Invariavelmente, a bruxa, o gigante > bruxa, o gigante e outras personagens são extremamen feias, ou até monstruosas, grotescas ou deformadas, f zendo com que o afastamento físico, a repulsa instint vã, a reação da pele sejam o detonador do temor e c medo, e não a ameaça emocional do que eles represei iam - de fato - para a criança ... Afinal, a bruxa não mostrada como um ser misterioso, enigmático, que c< nhece e domina outros saberes, que pode até ser muit sedutora e atraente (e por isso perigosa e ameaçadora a fada, a princesa, a mocinha > A fada, a princesa, a mocinha, são sempre protótipo da raça ariana: cabelos longos e loiros, olhos azuis, core o mocinho, o príncipe > esbelto, altura média, roupa imaculada ... O mocinho, príncipe, é alto, corpulento, forte, elegante, bem bat beado (ou até imberbe), sempre com o aspecto de quer acabou de sair do banho, mesmo depois de ter cavalga do dias a fio e enfrentado mil perigos de toda espécie qualidade ... par ou mie > Quando essas personagens passam a ser pai ou mãe seguem mais ou menos os mesmos padrões estéticos: tal vez com óculos ou barba ou cabelo cuidadosament penteado, evidentemente em outra faixa etária (na do 30, em geral ... ), com algum indicativo profissional (ma Ia de executivo ou estetoscópio de médico no pescoço avental de cozinha ou de professora ... ), mas isso finde pende inteiramente de como agem, se comportam, sen tem, lutam por seus valores, se cansam, ou o que seja naquele momento que estão vivendo ... Estão sempr em forma, sempre prontos, sempre cuidados, sempr em ordem ... o negro > O preto? Ora, somente ocupa funções de serviçal (se tor doméstico ou industrial, e aí pode ter um uniform, profissional que o defina enquanto tal e que o limit nessa atividade, seja mordomo ou operário...). Normal mente é desempregado, subalterno, tornando claro que é coadjuvante na ação e, por consequencia, coadjuvam a mulher negra > na vida... Se mulher, é cozinheira ou lavadeira, gordons e bunduda. Seu ótimo coração e seu colo amigo são ex 36 presos no texto ou talvez nas entrelinhas ... Importa que sua apresentação física não seja das mais agradáveis, das mais audaciosas ou belas... Altivos e elegantes?? Nunquinha ... Se for ladrão, marginal ... claro, é pobre, desdentado, sujo, com roupas rasgadas, preto de preferência, feio e bastante assustador! Nenhum colarinho-branco, evidente, é denunciado ou sequer indiciado como suspeito... Pode também surgir como malfeitor de origem oriental inconteste, com turbante e tudo pra não deixar nenhuma dúvida sobre sua proveniência asiática ... a o ladrão, o marginal Ilustração de Sônia Banhara para o poema 'Leite, pão e mel extraída de No mundo da lua, de Roseana Murray. Belo Horizonte. Mzgurlzm, p. 24, O rei é velho, com uma coroa devidamente depositada na nobre cabeça, com barbas brancas e longas, muito mais para associar a idéia do poder com a de longevidade do que com a de sabedoria, pois, em geral, o monarca não é mui atilado ou sagaz ... De qualquer modo, não é jovem ou ligeiramente maduro, pois este parece não estar apto para conquistar o poder, por mais corajoso, audaz, valente, idealista que já tenha se mostrado... Os consultores, assessores, ministros e demais membros da corte que opinam sobre qualquer questão normalmente 37 a o rei a os assessores e Ilustração de joré Carlos de Brito para o livro Quem roubou o bisão?, de Haroldo Maranhão. Sdo Paulo, Quinteto Editorial, p. 6. são maduros, bem nutridos, até gordotes, com gesto lentos e pesados, ficam permanentemente de pé (parec não existirem mesas para reuniões ... ) e estão sempr agrupados em torno do rei ... Conversa de bastidores reuniões secretas entre alguns, puxações de tapetes d outros, pelo jeito não fazem parte da história... Mulhe res e jovens jamais surgem em momentos de confabula ção ou decisão políticas. a tia, a vizinha, a professora > Agrupadas, como se pertencessem à mesma confraria estão as tias, as vizinhas, a professora ... Em sendo cha coadas, todas atendem por "tia''. Usam tailleur discreto, são gordotas, o cabelo é preso num coque severo, nc mínimo estão na meia-idade (de preferência são idosas). Mui pouco sorridentes, destituídas de qualquer charme ou graça, sem inventiva no vestir, se metem em tudo o que não lhes diz respeito e, claro, são solteironas ... Nunca esportivas, nunca surpreendentes, nunca coquetes, jamais jovens ou pelo menos joviais, por melhores companheiras que possam ser, por mais disponíveis e 38 abertas que estejam pruma conversa ou brincadeira... Aliás, se limitam a oferecer guloseimas, e não afagos, carinhos ou cafunés... já o avô ou a avó são invariavelmente velhos, quase anciões (pelo jeito não existem avós na faixa dos 40, 50 anos de idade). E por estarem em tão adiantado estágio da vida, seu cansaço é de tal ordem que se apresentam sempre sentados. De preferência em convidativas e amplas poltronas, já que são gordos (a avó, certamente... o avô, não obrigatoriamente. Pode estar de pijama, com chinelas, talvez com cachimbo, lendo jornal ... ). Raramente saem à rua, raramente andam, pouquíssimo se movimentam pela própria casa. Sentados e contemplativos. E mais se lembram do que vivem. E mais escutam do que discutem... Se falam, é pra contar algo que aconteceu num passado remotíssimo (!!), que tem sabor de lenda, que faz as crianças ficarem magicamente quietas (não fascinadas, ah, isso não...). As crianças, claro, são bonitas. Sendo menino ou menina, a criança-padrão é branca, de classe média, bem alimentada, tratada, bem vestida, bem cuidada ... Co a a avo ou o avô Ilustração de Sônia Barboja para o poema -Amarelinha-, extraída de No mundo da lua, de Roseana Murray. Belo Horizonte, Mzguzkm. p. 19. AMARELINHA Pula-pula-amarelinha a menininha de tranca. Pula-pula, e a amarelinha até parece uma valsa. Pula-pula-amarelinha e a menininha enquanto pula balança a trança. Pula-pula-amarelinha, e como é boa essa dança. 39 mo se uma criança provinda da melhor classe média na( pudesse ser desleixada, despenteada, estar suada, perde seu laço de fita, nem mesmo quando joga futebol, pul, amarelinha ou anda quilômetros ... Só se é -realista' a garota pobre > com a garota pobre, negra, e aí feia... índios e japoneses só surgem como figuração eventualérrima (mesmo que seja o melhor amigo do herói ou heroína ou participante da turma...) ou pra formar um painel didático-patriótico um tanto quanto demagógico ... POR QUE ANALISAR AS CARACTERÍSTICAS DAS ILUSTRAÇÕES DAS PERSONAGENS? Não se trata, aqui e agora, de analisar a qualidade dos desenhos de nossos livros infantis. Mesmo porque temos indiscutivelmente ilustradores de primeirérrima qualidade!! Muito menos de lutar por desenhos do tipo realista (aliás, em geral feios e duros enquanto traço) ou retirar a magia e o encantamento da página. Mas ficar atento aos estereótipos, estreitadores da visão das pessoas e de sua forma de agir e de ser... E ajudar a criança leitora a perceber isso. O resultado visual até pode ser bonito (e é, muitas e muitas vezes) mas onde vamos parar em termos dos preconceitos transmitidos? AFINAL, PRECONCEITOS NÃO SE PASSAM APENAS ATRAVÉS DE PALAVRAS, MAS TAMBÉM - E MUITO!! - ATRAVÉS DE IMAGENS. E se vêem tanto esses estereótipos estéticos europeus, definindo as personagens boas e más, as simpáticas e as terrificantes, as confiáveis e as condenadas à deslealdade eterna... As que estão e estarão no centro da ação e as que nunca deixarão de ser meras coadjuvantes, simplesmente passando - e bem a distância - pelas áreas de decisão (na família, no clube, na rua, na escola, no palácio, não importa onde ... ). As relações de poder, os que a ele ascenderão (e quando), os que se destinam à marginalidade perpétua, os que terão uma vida regrada e confortável (e também quando)... Enfim, o lugar que os bonitos (e, portanto, bons) ocupam neste mundo e 40 no futuro e aqueles que os feios (e, portanto, maus) possuem agora e provavelmente para sempre... Quem é bonito ou quem é feio (segundo qualquer padrão estético vigente) obviamente não tem nenhuma relação com quem é bom ou mau (segundo qualquer moral em vigor). Mesmo porque se podem estabelecer relações entre feio / boa gente - bonito / mau-caráter - jovem /sábio -velho /ingênuo e muitas outras, fácil, fácil... É só olhar para o lado e ver que podemos ser um pouco de tudo, como pessoas contraditórias que somos, conforme a visão que tenhamos de nós mesmos, do outro e do mundo, a cada etapa de nosso crescimento pessoal, a cada contato humano, a cada situação vivida ou evitada. Como dizia o Marquês de Sade: "A ética é uma questão de geografia", e a estética talvez seja uma questão de História... Saber interpretar o momento, ampliar os referenciais, não se limitar com estereótipos, não endossar os disparates impostos, não reforçar os preconceitos, é buscar talvez no estético o momento de ruptura, de transgressão, onde não haja falsas e tolas correspondências, mas descobertas de toda a sedução encoberta, da beleza e sabedoria a serem reveladas, de padrões que não são os dos chamados paise desenvolvidos. Afinal, vivemos na América Latina e j ertencemos ao Terceiro Mundo!!! 41 O humor na literatura infantil `1 IDÉIAS ENGRAÇADAS Sapomorfose, de Cora Rónai. Há livros onde o autor parte duma idéia engraçada, divertida, insôlita... Ruth Rocha em Marcelo, marmelo, martelo brinca com a dificuldade que os adultos têm em compreender a linguagem da criança e o quanto querem impor palavras que para ela não fazem o menor sentido. Haroldo Maranhão, no Dicionarinho maluco, reinventa significados de palavras, joga com o jeito como elas se relacionam num sem-fim que vai passando pela cabeça da criança... Mario Prata, em O homem que soltava pum, conta de como um pacato cidadão salva a cidade dum incêndio tenebroso através de um pum, por todos conhecido e finalmente celebrado. Ziraldo, na coleção Corpim, narra histórias do ponto de vista de Rolim, um umbigo, e de Juvenal, um joelho, mostrando o mundo através do que eles enxergam e têm condições de ver... (o que é saboroso!) O TÉDIO, O ABORRECIMENTO... Há autores que, em diferentes livros, apontam de modo irônico, gozativo, facetas do comportamento adulto - não exatamente as mais exemplares - mas as mais humanas e facilmente encontráveis e reconhecíveis, como o tédio, o aborrecimento. ' `A bruxa rodou e rodou pela casa. Preparou um caldo de morcego (que tomou sem muito apetite), leu algumas páginas do Novo Manual de Bruxaria (que achou muito elementar) e, finalmente, decidiu arrumara casa: com algumas palavras mágicas, pôs grandes teias de aranha no teto e cobriu toda a mobília de pó. Depois, cansada, foi para a janela, vendo o dia lá fora e esperando que ele piorasse um pouco para poder sair; mas o dia não piorava. " ... Quem disse que bruxa não tem rotina doméstica, que não se cansa ou não se aborrece mortalmente com os infortúnios dum dia nada favorável??? 44 Joelho do Juvenal, de Ziraldo. São Paulo, Melhoramentos, p. 11. E ficava muito atento conversando cora o pé (pois 1 joelho e pé se falam). 45 Viviam como gato e cachorro, de Elvira Vigna. Rio de janeiro, Paz e Terra, p. 9, Elvira Vigna, no ótimo Viviam como gato e cachorro mostra a chateação infinda de alguém, chamado por vá rios e ilustres nomes no decorrer de sua nobre vida, ma: que, nem por isso, atendia a quem resolvesse querê-Ic por perto ... Ou remotamente pensava nessa possibilida. de tão aborrecida... cRfredo quando era pequeno também se chamava e fê. C'.P.is que cresceu, ele virou 'RIfredo, (Carão von,tfred , ou só (@arão. ~550 porque, atém de ser muito antipático e besta, também diziam que ele era um herói de guerra. 6 os heróis de guerra ás vezes acabam virando nobres: condes, viscondes ou barbes, cXãs para `; tfre do tanto fazia chamá-to de @arão ou de ntunes, de Pedro, de Cha to , Você aí Qúa(quer nome que chamassem, ele não respondia mesmo. tfredo. 46 ism como gato e cachorro, O MAU HUMOR, A IRRITAÇÃO... alguém, chamado por váter de sua nobre vida, mas quem resolvesse querê-lo pensava nessa possibilida E a irritação, a raiva, o descontrole adulto, não merecem parágrafos saborosos? Ora, pois... Em Sapomorfose, lá pelas tantas se lê: -Como vocés sabem, unhas de dragão são umaa coisa absolutamente indispensável nas técnicas de bruxaria. Sem unhas de dragão, nada feito. uxa cuspiu, chutou o gato, deu umas vassouradas ruja. E resolveu ir à cidade encomendar nova remessa pelo reembolso postal. Pegou a vassoura de reserva de cima do armário. Ainda muito aborrecida, transformou o corvo numa galinha-d'angola, e saiu voando pela janela. Mas tudo estava contra ela. No correio, soube que as unhas de dragão levariam pelo menos quinze dias para chegar. A funcionária que teve a infeliz lembrança de avisá-la da demora virou lagartixa, e hoje vive numa caixa postal abandonada. " E ainda a mistura de bruxa com reembolso postal, de corvo com funcionária do Correio, todos sofrendo conseqüências de magias desconfortáveis provocadas pelo mesmo mau humor, é deliciosa... Sylvia Orthof começa Cabidelim assim: "Eu estava chateada da vida. Tão chateada, que esqueci o motivo da chateação. Era alguma coisa misturada com raiva da vizinha, unha encravada, falta de dinheiro, além de ter detestado aquele domingo porque chovia". Gente grande também esquece por que é que começou a se chatear e, quando vê, já misturou tudo e já está pra lá de furiosa, ranzinza, com muitas e diferentes coisas/pessoas e por razões as mais diferentes... Tacus, no livro de nonsense que escreveu e ilustrou, A criação das criaturas, inventa bichos novos, que são críticas, pra lá de agudas, ao estranho comportamento humano. Ao descrever o Borororó, vai falando dos ímpetos assassinos que alguns seres provocam, pelo tanto que irritam os que com eles têm que conviver, mesmo que por pouco tempo... 47 Nonsense: (história) sem compromisso com o real, com o lógico e, por isso mesmo, inesperada. movimento constante, suas personagens expressivas, publicou livros deleitosos. Contando de um palhaço desastrado e perplexo (Amendoim), de velhinhas surpreendentes, mágicas, risonhas, aprontadeiras (Filó e Marieta), de pessoas solenes e assustadiças (Zuna e Arquimedes), personagens que se misturam com bichinhos domésticos, dragões, ratinhos, caixas de molas, varas de condão e outras figuras e objetos que atravessam as cenas... E os três volumes da série Ping-Póing, então, onde, além do que acontece em cada página, cada página se estende pra próxima, formando mil histórias? Mocinhas malcriadas andando de patinete podem estar junto com assaltantes ou fadas de sorriso gaiatíssimo. Bebês chorões se aproximam de distintos cavalheiros intelectuais ou de homens vestindo armaduras medievais. Senhoras de coque de repente estão ao lado de elefantes e alto-falantes, podendo virar regador ou luneta... O mundo pode ser revisto, os objetos transformados, as pessoas modificadas pela página que está ao lado, que a cada momento pode ser outra, formando quantas situações se queira... Juntar a primeira com a décima ou com a oitava, ou parar a terceira e ir juntando com todas as outras... Como der na veneta! E o leitor sorri, ri, se espanta, se encanta, olha assim meio bobo porque nunca pensou em nada parecido, ao mesmo tempo que dá de cara com a cara de gente que parece velha conhecida... E fica brincando horas, olhando devagarinho ou depressa, formando e imaginando mil e uma histórias... Quem embaralha se atrapalha, de Eva Furnari. São Paulo, FTD, 1986. 29 Quem embaralha se atrapalha, de Eva Furnan. São Paulo, FTD, 1986. Angela LAGO Àngela Lago, sabendo usar uma atmosfera noturna requintada, mineiríssima, se movimenta no universo c sonho. Em Era uma vez, utilizando a página dupla a mo um todo ou a dividindo em três partes, passeia coi toda sorte de elementos: estrelas, hortênsias, anjo muitas janelas abertas, torres e sinos, lira no telhado objetos voadores, uma gata com óculos escuros, teW sugestivas e detalhes vários que pedem para ser sorvido devagar e bem de mansinho... Juarez Machado, um dos pioneiros desse jeito de f zer livros infantis, lançou há anos Domingo de manhã Ida e volta, onde mostra toda uma possibilidade de hi tória circular, infinda ... Seu desenho grandão, colorido seu uso inteligente da página, vai conduzindo a ator tecência pela perspectiva do olhar... É o movimento, andança, que faz o roteiro do visto, do percebido, d sentido, do que quer ser vivido, mexendo com a intel: gência e a agudeza do leitor/olhador... Tem a Edith Derdyk, em sua História se,, frmnnnn .... feita em preto e branco, usando dum traç inteligente, mais insinuando do que revelando, mistu rando figuras minúsculas com imensos novelos errara nhados de lã e pedindo que se recortem algumas da partes já assinaladas no livro, para assim ir refazendo todo, ir modificando o que existe na superfície d folha ... E como as coisas se alteram! 30 Tem também o Eliardo França, nos vários volumes da coleção Gato e Rato e em O baile e A festa, em que, embora apareçam legendas curtas, escritas por Mary França, estas seriam totalmente dispensáveis, tal o impacto visual que as ilustrações provocam ... Os desenhos vivos, as situações de conflito, de impasse, expressas num movimento agitado, bonito, compactado, as cores fortes e tão bem distribuídas, contam dum modo único suas histórias de bichos e suas desavenças, de mares e ventos, sempre indo-vindo, vindo-indo ... e se resolvendo! O Pega-Pega, de Eliardo França e Mary França. 8. ed. Ática, São Paulo, 1986, P. 12. A suíça Monique Felix tem duas maravilhas -traduzidas": O ratinho que morava no livro e A nova aventura do ratinho, onde sua personagem, um rato (claro!), vai andando por páginas em branco, descobrindo o que o cerca, fuçando, olhando tudo, carregando ou construindo as coisas de que necessita, rasgando tudo o que o impede de se aproximar daquilo que o atrai... Para enfim 31 A nova aventura do ratinho, de Monique Felix. 3. ed. Sào Paulo, Melhoramentos. 1987, p. 19. atingir seu objetivo! ... e se surpreender com sua descoberta, que desencadeia uma nova aventura e nos pega de surpresa. A IMPORTÂNCIA DAS HISTÓRIAS SEM TEXTO ESCRITO PARA A CRIANÇA Sim, mas além do talento gráfico desses desenhistas, é importante perceber sua habilidade para construir toda uma narrativa següenciada, completa, sem precisar de palavras ... Sua capacidade de contar uma história de modo ágil, vivo, usando traços moventes, conhecimento da cor e domínio da página, das páginas, do livro como um todo... De maneira harmônica, bonita, inteligente e cutucante... E, AO PRESCINDIR DO VERBO, DÃO TODA POSSIBILIDADE PA RA QUE A CRIANÇA O USE.,. Oralizando essas histórias, co 32 locando um texto verbal, desenvolvendo algumas das situações apenas sugeridas (personagens que aparecem apenas como figuração, como elemento de perturbação do todo ou para salientar um momento ou uma possibilidade insólita), ampliando um detalhe proposto e daí refazendo o todo, de modo novo e pessoal... Criando uma história a partir duma cena colocada, misturando várias, musicalizando alguma relação, sonorizando uma descoberta feita, inventando enfim as possibilidades mil que narrativas apenas visuais (quando inteligentes e bem-feitas) permitem e estimulam... Fora o prazer de folhear um álbum (colorido ou branco e preto), que a magia dum traço solto, duma cor poética, dum enquadramento insuspeito, dum saber ver diferente, dum refinamento no acabamento, permite e provoca... E é tão bom saber ver o belo ou descobrir o que é bonito sem que antes se suspeitasse disso ... Esses livros (feitos para crianças pequenas, mas que podem encantar aos de qualquer idade) são sobretudo experiências de olhar... De um olhar múltiplo, pois se vê com os olhos do autor e do olhador/ leitor, ambos enxergando o mundo e as personagens de modo diferente, conforme percebem esse mundo ... E é tão bom saborear e detectar tanta coisa que nos cerca usando este instrumento nosso tão primeiro, tão denotados de tudo: a visão. Talvez seja um jeito de não formar míopes mentais... 33 a Sugestões de atividades que podem ser desenvolvidas com as crianças em sala de aula. COMO OS LIVROS INFANTIS DESENHAM NOSSAS PERSONAGENS É incrível como se confundem e até se reforçam, nos livros infantis, o ético e o estético. Invariavelmente, a a bruxa, o gigante > bruxa, o gigante e outras personagens são extremamente feias, ou até monstruosas, grotescas ou deformadas, fa zendo com que o afastamento físico, a repulsa instinti va, a reação da pele sejam o detonador do temor e do medo, e não a ameaça emocional do que eles represen tam - de fato - para a criança ... Afinal, a bruxa não é mostrada como um ser misterioso, enigmático, que co nhece e domina outros saberes, que pode até ser muito sedutora e atraente (e por isso perigosa e ameaçadora). a fada, a princesa, a mocinha > A fada, a princesa, a mocinha, são sempre protótipos da raça ariana: cabelos longos e loiros, olhos azuis, corpo o mocinho, o príncipe > esbelto, altura média, roupa imaculada... O mocinho, o príncipe, é alto, corpulento, forte, elegante, bem barbeado (ou até imberbe), sempre com o aspecto de quem acabou de sair do banho, mesmo depois de ter cavalga do dias a fio e enfrentado mil perigos de toda espécie e qualidade... pai ou mãe > Quando essas personagens passam a ser pai ou mãe, seguem mais ou menos os mesmos padrões estéticos: talvez com óculos ou barba ou cabelo cuidadosamente penteado, evidentemente em outra faixa etária (na dos 30, em geral ... ), com algum indicativo profissional (mala de executivo ou estetoscópio de médico no pescoço, avental de cozinha ou de professora...), mas isso independe inteiramente de como agem, se comportam, sentem, lutam por seus valores, se cansam, ou o que seja, naquele momento que estão vivendo ... Estão sempre em forma, sempre prontos, sempre cuidados, sempre em ordem ... o negro > O preto? Ora, somente ocupa funções de serviçal (se tor doméstico ou industrial, e aí pode ter um uniforme profissional que o defina enquanto tal e que o limite nessa atividade, seja mordomo ou operário ... ). Normal mente é desempregado, subalterno, tornando claro que é coadjuvante na ação e, por conseqüência, coadjuvante a mulher negra > na vida... Se mulher, é cozinheira ou lavadeira, gordona e bunduda. Seu ótimo coração e seu colo amigo são ex 3G presos no texto ou talvez nas entrelinhas... Importa que sua apresentação física não seja das mais agradáveis, das mais audaciosas ou belas... Altivos e elegantes?? Nunquinha ... Se for ladrão, marginal ... claro, é pobre, desdentado, sujo, com roupas rasgadas, preto de preferência, feio e bastante assustador! Nenhum colarinho-branco, evidente, é denunciado ou sequer indiciado como suspeito... Pode também surgir como malfeitor de origem oriental inconteste, com turbante e tudo pra não deixar nenhuma dúvida sobre sua proveniência asiática ... O rei é velho, com uma coroa devidamente depositada na nobre cabeça, com barbas brancas e longas, muito mais para associar a idéia do poder com a de longevidade do que com a de sabedoria, pois, em geral, o monarca não é mui atilado ou sagaz ... De qualquer modo, não é jovem ou ligeiramente maduro, pois este parece não estar apto para conquistar o poder, por mais corajoso, audaz, valente, idealista que já tenha se mostrado ... Os consultores, assessores, ministros e demais membros da corte que opinam sobre qualquer questão normalmente 37 a o ladrão, o marginal Ilustração de Sônia Bar15ora para o poema "Leite, pão e mel ", extraída de No mundo da lua, de RQreana Murray. Belo Horizon te. Miguilim, p. 2+. a o rei a os assessores a tia, a vizinha, a professora Ilustração de joré Carlos de Brito para o livro Quem roubou o bisão?, de Haroldo Maranhão. São Paulo, Quinteto Editorial, p. 6. são maduros, bem nutridos, até gordotes, com gesto lentos e pesados, ficam permanentemente de pé (parec( não existirem mesas para reuniões...) e estão sempre agrupados em torno do rei... Conversa de bastidores, reuniões secretas entre alguns, puxações de tapetes dt outros, pelo jeito não fazem parte da história... Mulheres e jovens jamais surgem em momentos de confabulação ou decisão políticas. Agrupadas, como se pertencessem à mesma confraria, estão as tias, as vizinhas, a professora... Em sendo chamadas, todas atendem por "tia". Usam tailleur discreto, são gordotas, o cabelo é preso num coque severo, no mínimo estão na meia-idade (de preferência são idosas). Mui pouco sorridentes, destituídas de qualquer charme ou graça, sem inventiva no vestir, se metem em tudo o que não lhes diz respeito e, claro, são solteironas ... Nunca esportivas, nunca surpreendentes, nunca coquetes, jamais jovens ou pelo menos joviais, por melhores companheiras que possam ser, por mais disponíveis e 38 abertas que estejam pruma conversa ou brincadeira... Aliás, se limitam a oferecer guloseimas, e não afagos, carinhos ou cafunés ... Já o avô ou a avó são invariavelmente velhos, quase anciões (pelo jeito não existem avós na faixa dos 40, 50 anos de idade). E por estarem em tão adiantado estágio da vida, seu cansaço é de tal ordem que se apresentam sempre sentados. De preferência em convidativas e amplas poltronas, já que são gordos (a avó, certamente... o avô, não obrigatoriamente. Pode estar de pijama, com chinelas, talvez com cachimbo, lendo jornal ... ). Raramente saem à rua, raramente andam, pouquíssimo se movimentam pela própria casa. Sentados e contemplativos. E mais se lembram do que vivem. E mais escutam do que discutem ... Se falam, é pra contar algo que aconteceu num passado remotíssimo (!!), que tem sabor de lenda, que faz as crianças ficarem magicamente quietas (não fascinadas, ah, isso não...). As crianças, claro, são bonitas. Sendo menino ou menina, a criança-padrão é branca, de classe média, bem alimentada, tratada, bem vestida, bem cuidada... Co a a avo ou o avo Ilustraçjo de Sônia Barbosa para o poema -Amarelinha-, extraída de No mundo da lua de Roseana Murray. Belo Horizonte, Miguilem, p. 19. Pula-pula-amarelinha a menininha de trança. . Pula-pula, e a amarelinha até parece uma valsa. Puta-pula-amarea i nha e a menininha enquanto puía balança a trança. Pula-pula-amarelinha, e como é boa essa dança. 39 mo se uma criança provinda da melhor classe média na( pudesse ser desleixada, despenteada, estar suada, perde seu laço de fita, nem mesmo quando joga futebol, puh amarelinha ou anda quilômetros ... Só se é -realista' a garota pobre > com a garota pobre, negra, e aí feia... Índios e japonese, só surgem como figuração eventualérrima (mesmo que seja o melhor amigo do herói ou heroína ou participante da turma ... ) ou pra formar um painel didático-patriótico um tanto quanto demagógico ... POR QUE ANALISAR AS CARACTERÍSTICAS DAS ILUSTRAÇÕES DAS PERSONAGENS? Não se trata, aqui e agora, de analisar a qualidade dos desenhos de nossos livros infantis. Mesmo porque temos indiscutivelmente ilustradores de primeirérrima qualidade!! Muito menos de lutar por desenhos do tipo realista (aliás, em geral feios e duros enquanto traço) ou retirar a magia e o encantamento da página. Mas ficar atento aos estereótipos, estreitadores da visão das pessoas e de sua forma de agir e de ser... E ajudar a criança leitora a perceber isso. O resultado visual até pode ser bonito (e é, muitas e muitas vezes) mas onde vamos parar em termos dos preconceitos transmitidos? AFINAL, PRECONCEITOS NÃO SE PASSAM APENAS ATRAVÉS DE PALAVRAS, MAS TAMBÉM - E MUITO!! - ATRAVÉS DE IMAGENS. E se vêem tanto esses estereótipos estéticos europeus, definindo as personagens boas e más, as simpáticas e as terrificantes, as confiáveis e as condenadas à deslealdade eterna... As que estão e estarão no centro da ação e as que nunca deixarão de ser meras coadjuvantes, simplesmente passando - e bem a distância - pelas áreas de decisão (na família, no clube, na rua, na escola, no palácio, não importa onde ... ). As relações de poder, os que a ele ascenderão (e quando), os que se destinam â marginalidade perpétua, os que terão uma vida regrada e confortável (e também quando)... Enfim, o lugar que os bonitos (e, portanto, bons) ocupam neste mundo e 40 ão no futuro e aqueles que os feios (e, portanto, maus) pos er suem agora e provavelmente para sempre... Ia Quem é bonito ou quem é feio (segundo qualquer padrão estético vigente) obviamente não tem nenhuma es relação com quem é bom ou mau (segundo qualquer ue moral em vigor). Mesmo porque se podem estabelecer e relações entre feio/boa gente - bonito/mau-caráter - jovem/sábio -velho /ingênuo e muitas outras, fácil, fácil... É só olhar para o lado e ver que podemos ser um pouco de tudo, como pessoas contraditórias que somos, conforme a visão que tenhamos de nós mesmos, do outro e do mundo, a cada etapa de nosso crescimento pessoal, a cada contato humano, a cada situação vivida ou evitada. Como dizia o Marquês de Sade: "A ética é uma questão de geografia", e a estética talvez seja uma questão de História... Saber interpretar o momento, ampliar os referenciais, não se limitar com estereótipos, não endossar os disparates impostos, não reforçar os preconceitos, é buscar talvez no estético o momento de ruptura, de s transgressão, onde não haja falsas e tolas correspondências, mas descobertas de toda a sedução encoberta, da beleza e sabedoria a serem reveladas, de padrões que não são os dos chamados paíse desenvolvidos. Afinal, vivemos na América Latina e pertencemos ao Terceiro Mundo!!! 41 O humor na literatura infantil Há livros onde o autor parte duma idéia engraçada, divertida, insólita... Ruth Rocha em Marcelo, marmelo, martelo brinca com a dificuldade que os adultos têm em compreender a linguagem da criança e o quanto querem impor palavras que para ela não fazem o menor sentido. Haroldo Maranhão, no Dicionarinho maluco, reinventa significados de palavras, joga com o jeito como elas se relacionam num sem-fim que vai passando pela cabeça da criança ... Mario Prata, em 0 homem que soltava pum, conta de como um pacato cidadão salva a cidade dum incêndio tenebroso através de um pum, por todos conhecido e finalmente celebrado. Ziraldo, na coleção Corpim, narra histórias do ponto de vista de Rolim, um umbigo, e de Juvenal, um joelho, mostrando o mundo através do que eles enxergam e têm condições de ver... (o que é saboroso!) O TÉDIO, O ABORRECIMENTO... Há autores que, em diferentes livros, apontam de modo irônico, gozativo, facetas do comportamento adulto - não exatamente as mais exemplares - mas as mais humanas e facilmente encontráveis e reconhecíveis, como o tédio, o aborrecimento. `A bruxa rodou e rodou pela casa. Preparou um caldo de morcego (que tomou sem muito apetite), leu algumas páginas do Novo Manual de Bruxaria (que achou muito elementar) e, finalmente, decidiu arrumar a casa: com algumas palavras mágicas, pôs grandes teias de aranha no teto e cobriu toda a mobília de pó. Depois, cansada, foi para a janela, vendo o dia lá fora e esperando que ele piorasse um pouco para poder sair; mas o dia não piorava. " ... Quem disse que bruxa não tem rotina doméstica, que não se cansa ou não se aborrece mortalmente com os infortúnios dum dia nada favorável??? Joelho do Juvenal, de Ziraldo. São Paulo, Melhoramentos, p. 11. E ficava muito atento conversando core o pé (pois t joelho e pé se falam). 45 Viviam como gato e cachorro, de Elvira Vigna. Rio de janeiro, Paz e Terra, p. 9. Elvira Vigna, no ótimo Viviam como gato e cachorro mostra a chateação infinda de alguém, chamado por vá rios e ilustres nomes no decorrer de sua nobre vida, mas que, nem por isso, atendia a quem resolvesse querê-lc por perto ... Ou remotamente pensava nessa possibilidade tão aborrecida ... lfredo quando era pequeno também se chamava Pefé. 7,lepois que cresceu, ele virou` qtfredo, Carão von lf red , ou só Carão. ~sso porque, além de ser muito antipático e besta, também diziam que ete era um heráí1 de guerra. 6 os heróis de guerra às vezes acabam viscondes ou barões. 46 vLrando nobres: condes, @arão ou de lloc c ai ou Qúa(quer nome que sem, ele não respon dia mesmo. m as para 'gUre do tanto fazia chamá to de ntunes, de Pedro, de Cha Ifredo. chamas O MAU HUMOR, A IRRITAÇÃO... E a irritação, a raiva, o descontrole adulto, não merecem parágrafos saborosos? Ora, pois... Em Sapomorfose, lá pelas tantas se lê: "Como vocês sabem, unhas de dragão são uma coisa absolutamente indispensável nas técnicas de bruxaria. Sem unhas de dragão, nada feito. P ruxa cuspiu, chutou o gato, deu umas vassouradas ruja. E resolveu ir à cidade encomendar nova remessa pelo reembolso postal. Pegou a vassoura de reserva de cima do armário. Ainda muito aborrecida, transformou o corvo numa galinha-d'angola, e saiu voando pela janela. Mas tudo estava contra ela. No correio, soube que as unhas de dragão levariam pelo menos quinze dias para chegar. A funcionária que teve a infeliz lembrança de avi. ã-la da demora virou lagartixa, e hoje vive numa caixa postal abandonada. " E ainda a mistura de bruxa com reembolso postal, de corvo com funcionária do Correio, todos sofrendo conseqüências de magias desconfortáveis provocadas pelo mesmo mau humor, é deliciosa... Sylvia Orthof começa Cabidelim assim: "Eu estava chateada da vida. Tão chateada, que esqueci o motivo da chateação. Era alguma coisa misturada com raiva da vizinha, unha encravada, falta de dinheiro, além de ter detestado aquele domingo porque chovia Gente grande também esquece por que é que começou a se chatear e, quando vê, já misturou tudo e já está pra lá de furiosa, ranzinza, com muitas e diferentes coisas/pessoas e por razões as mais diferentes... Tacus, no livro de nonsense que escreveu e ilustrou, A criação das criaturas, inventa bichos novos, que são críticas, pra lá de agudas, ao estranho comportamento humano. Ao descrever o Borororó, vai falando dos ímpetos assassinos que alguns seres provocam, pelo tanto que irritam os que com eles têm que conviver, mesmo que por pouco tempo ... 47 Nonsense: (história) sem compromisso com o real, com o lógico e, por isso mesmo, inesperada. A criação das criaturas, de Tacus. São Paulo, IBRASA, p. 22. O BOrOroró E uma espécie muito mixa, mas de um mixo pomposo. Aquele mixo que confia em si. Não tem nada, é apenas uma coisinha redonda e pelada, com dois olhos saltando da testa, umas perninhas muito finas e não mede mais que vinte centímetros. No entanto possui, orgulho da espécie, uma excelente voz de baixo tenor. E canta. Canta, porém, sempre a mesma canção, Uma coisa irritante, que se repete dia e noite, dia e noite. Narcisistas até a medula, vivem a se contemplar, cantando nas beiras dos rios e é aí que os outros animais vêm por trás e os matam afogados. Não por algum instinto assassino atávico, que esses animais possuíssem, mas tão somente por uma humana irrïtação. QUEIXAS, LAMÚRIAS, LAMENTAÇÕES... O setor das queixas, lamúrias e lamentações adultas também é objeto do olho humorado dos escritores. Assim, em A breve história de Asdrúbal, o Terrível, de EIvira Vigna, fica-se sabendo que: "0 pai de Asdrúbal era Sigmundo, o Horroroso. Sua especialidade: entrar nos 48 sonhos das pessoas, transformando-os em pesadelos-... E o dito progenitor, numa reunião com todos os monstros, se lamenta: -Passo as noites em claro, e isso sem falar no trabalho que dá me fantasiar de rinoceronte, de caveira e de mim mesmo Além de a lista de figuras que podem atemorizar ser insólita, a idéia de se fantasiar permanecendo exatamente do jeito que se é, é no mínimo desconcertante e divertida! Sylvia Orthof, num dos episódios do delirantemente engraçado Os bichos que tive descreve esta cena, que muita gente já viu, viveu ou ouviu contar: "A rã esperneava, detestando a cerimônia. Teresa pegou um barbante e tentava amarrar o santinho no pescoço da rã. Foi quando a rã, que parece que não queria ser batizada, escorregou da minha mão, deu vários pulos e caiu dentro do decote de Dona Margarida, mãe de Teresa. Foi um berro só! - Parece que as mães não gostam de rãs dentro do decote - pensei espantada. Parece que a rã também não gostou do decote de Dona Margarida, pulou pra fora e caiu no chão, com olhos arregaladíssimos ". Berro de mãe é respondido com olhar de espanto de rã... Direitos e reações semelhantes, ora; por que não??? Ilustração de Gê Orthof para o livro Os bichos que tive. Rio de janeiro, Salamandra, p. 8. 49 A criação das criaturas, de Tacus. São Paulo, IBRASA, p. G2-3. E Tacus, ao criar outra de suas criaturas - o Risauro - dá conta da chatice de outro tipo de gente, que permanece sem nenhum desconfiômetro, esteja onde estiver, fale com quem quer que seja, encha quem for, pelo tempo que conseguir... Arre!!! o 1~ O riatao é um cinta Adora contar piWea eem praça, dá menor riefa arpurrto coma a senpre wcwsa o fim. faz fora de hora a é nanara um ow mìatn, guardo a pema está de naco ~ sara na rrows sares a da: "Como é que ~_OU r^ ~a morar de -ri Só fia sino r* tara de ww a coma e oaniara ao não deu mam paa Ma. 5~ tudo o pw a gema o~ cantar como no, Mã- a ainda diz, no uso de rena idéias -Eu já téãta penando em fanar sco. irn irra? Eu *0 faiai para voei " Marca v ambos~ é a úk~ vnita. foca a Maca gaisdaìra a daaocbra K~ que a gesta M escave P> Dia de festa E tudo que lá havia, • tudo o que havia lá, que se chamasse alegria que se chamasse poesia só sabia • sabiá. Ouçam como ele assobia assobia • sabiá. Nas estrofes finais do poema, a brincadeira com sat e sabiá - um bom trocadilho - e ainda assobia... se contar a leveza das imagens. Neste outro poema, de Cecília Meireles, o trocadill é entre a letra erre e o verbo errar: • menino dos FF e RR • menino dos ff e rr é o Orfeu Orofilo Ferreira: ai com tantos rr, não erres! Jogos de palavras são muito usados em poesias finfa tis, e as crianças adoram a brincadeira. Na música pop lar brasileira, esse jogo também é muito utilizado, con no poema-canção que Chico Buarque criou para a pe Os saltimbancos, chamado "A galinha". Muito gosto o trocadilho: chocar-se (espantar-sç) e chocar (aquecer ovo), além de brincar com ovo, novo e vovô! Chico BUARQUE DE HOLANDA > Todo ovo que eu boto me choco • novo. Todo ovo éacara é a clara • vovô. 68 Também o Elias José, em Um pouco de tudo, joga Um pouco de tudo, de Elias Jo com diferentes significados da palavra grilo: sé. Ilustração de Marcelo Cipis e Milton QOis. Sdo Paulo, Ediyõer Paulinas, p. 7. Grilo Grilado • grito coitado anda grilado • eu sei • que há. Salta pra aqui, salta pra ali. Cri-cri pra cá, cri-cri pra lá. • grilo coitado anda grilado • não quer contar. No fundo não ilude, é só reparar em sua atitude pra se desconfiar. • grilo coitado anda gritado • quer um analista • quer um doutor. Seu grilo, eu sei: • seu grilo é um grilo de amor. 69 Sérgio CAPARELLI t> O autor dá contemporaneidade ao poema quando Ih acrescenta um analista, junta o bucólico com o urbano fala de amor como desencadeante de grilações, repete estribilho - que é algo geralmente gostoso de ouvir - e constrói um poema divertido. Utiliza muito a aliteração, repetição de fonemas pari produzir efeito. Esse recurso poético também é empre gado em cantigas de roda, em brincadeiras de rua ou nc jeito divertido de um poeta brincar com o b, criando si. tuações inesperadas, relações de bravice, juntando um bebê babão com um barbeiro, e contar um episódio engraçado de ouvir, que constitui ao mesmo tempo um desafio à leitura em voz alta... como fez o Sérgio Caparelli, em um dos poemas do Boi da cara preta: • barbeiro e o babeiro • barbeiro comprou um babeiro para a baba de seu filho: - Baba agora, bebê babão, • babeiro, babar é bom. Depois foi fazer a barba • único pai de seu filho: Barbeio a barba e não babo, sou barbeiro sem babeiro. Mas ao limpar o babeiro sua barba se encheu de baba e o barbeiro embrabeceu com babeiro, barba e baba. Cecília MEIRELES (1901-1964) Natural do Rio de janeiro, foi professora primária e universitána. Em 1934, criou no Rio deJaneiro a primeira biblioteca infantil do Brasil. Escreveu poesia (para adultos e crianças) e crônica. Ou de, ao usar a consoante r, produzir e provocar um som semelhante ao de uma engrenagem esquentando, martelando, girando ... É o que Cecília Meireles faz num de seus poemas do livro Isto ou aquilo: Roda na rua Roda na rua a roda do carro. Roda na rua a roda das danças. 70 A roda na rua rodava no barro. Na roda da rua rodavam crianças. O carro, na rua. Soa tão diferente esta "Moda da menina trombuda", onde a mesma Cecília, mantendo o m, faz com que se altere totalmente seu rumo quando dele aproxima outra vogal, tornando-o mais duro ou mais macio, mais fechado ou mais aberto ... É a moda • menina muda • menina trombuda que muda de modos e dá medo. (A menina mimada!) É a moda • menina muda que muda • modos e já não é trombuda. (A menina amada!) E ainda fala de como o amor, o carinho, afeta e modifica os afetos e o jeito de ser e de sentir de cada um... (Tão, tão bonito!!!) Há quem saiba usar bem o anagrama, como Bartolomeu Campos de Queirós, quando escreveu seu tão belo -RAUL-LUAR": RAUL e LUAR mesmo nome escrito de duas maneiras diferentes Neste belo poema gráfico, ele faz um paralelo entre RAUL/menino que gosta do luar e LUAR /luz da lua no 71 Anagrama: palavra ou frase obtidapela mudança de posição de letras de outra palavra ou frase. céu/e que gosta de Raul, e continua inventando nov: relações e novas palavras: RA UL é LUAR O raulluava... E mais tarde: R UA, lugar de encontro do Luar e do Raul o luar ruiva... R UA VA, ato da lua passear na rua do Raul Uma lindeza fazer com que a mesma palavra, escritÍ de forma diferente - uma de trás para frente, outra de frente para trás - permita tantas aproximações, ima gens, relações, descobertas ... que um poeta encontra c que fazem com que o leitor se encante! AS RIMAS Vinícius de MORAES (19131980) Nascido no Rio de janeiro, foi poeta, jornalista (crítico de cinema) e autor de letras de música popular, tendo sido um dos iniciadores da bossa-nova, As rimas - outro recurso poético - são tão gostosa; de ler e ouvir quando bem escolhidas, bem trabalha das! ... Não podem é ser postas sem nenhum critério pois há regras poéticas que as definem bem: podem vis intercaladas, rimando a primeira com a segunda linhaa ou então de outro jeito, dependendo do tipo de versifi cação que cada poeta escolhe para cada poema que faz Vinícius de Moraes, em seu livro A arca de Noé, pu. blicou este poema: 72 Bom dia, Pingüim Onde vai assim Com ar apressado? Eu não sou malvado Não fique assustado Com medo de mim. Eu só gostaria De dar um tapinha No seu chapéu jaca Ou bem de levinho Puxar o rabinho Da sua casaca. Rimas gostosas, bem usadas e uma cândida proposta duma criança um tantinho perversa, que não é nenhum modelo de santidade e que até se espanta com a vontade do pingüim de dar o fora rapidinho... Pudera! Elias José, ao descrever a flor hortênsia, faz com que as rimas fluam sem forçar barra alguma, usa uma imagem pouco explorada na poesia - a da flor gorda - e mostra a obesidade sob outro ponto de vista: 73 Um pouco de tudo, de Elias Jc sê. Ilustrações de Marcelo Cipis Milton Cipir. São Paulo, Ediçõc Paulinas, p. 18. Hor~sia Hortênsia, hortênsia. flor rainha de paciência. Olhando pra ela, sempre tão bela, dá esperança. Mas não lhe diga. -- a não ser por intriga,que ela precisa dde uma balança. Hortênsia. hortênsia, tão sorridente, toda gordura, engorde a gente só de ternura. 74 O português Sidônio Muralha brinca com as sílabas, usando a repetição de modo muito bem-humorado e obtendo um efeito - nas rimas - de eco ... eco ... eco... Conversa Quando um tatu encontra outro tatu tratam-se por tu: - Como estás tu, Tatu? - Eu estou bem e tu, Tatu? Essa conversa gaguejada ainda é mais engraçada: - Como estás tu, ta-ta, ta-ta, Tatu? - Eu estou bem e tu ta-ta, ta-ta, Tatu? Digo isso para brincar pois nunca vi um ta, ta-ta, tatu gaguejar. O fato de a rima ser simpática e lúdica não significa que seja obrigatória e que não existam versos livres, livres ... Agora, rimar mão com não, oco com toco ou sufoco, também com ninguém é não fazer esforço algum... É simplesmente buscar o fácil, o rápido, o que geralmente resulta numa grandissíssima bobagem, sem significado algum, sem acréscimo nenhum ... E isso não é tíabalhar com a palavra, não é rabiscar mil vezes até conseguir a musicalidade nova, a imagem que não esteja gasta, o efeito mágico e belo, a surpresa no rimar - obtendo novas possibilidades de dizer... Uma vez, disse o Mario Quintana: 7S "Descobrir continentes é tão fácil como esbarrar [com um elefant Poeta é aquele que encontra uma moedinha [perdida. O RITMO O ritmo é outra marca essencial da poesia. É o qu possibilita acompanhamento musical ao que é lido o ouvido. Dado pelos olhos que vão seguindo linhas e 1 nhas, dado pela voz que fala, pelo corpo que se mo-, junto, seguindo o compasso dos versos, a cadência d poema, o envolvimento acontecendo por inteiro. Pode ser lindamente bailável, leve, rodopiante, com um dos poemas de José Paulo Paes, em É Isso ali: José Paulo PAES > halsinha É tão fácil dançar uma valsa, rapaz... Pezinho pra frente Pezinho pra trás, Pra dançar uma valsa é preciso só dois. 0s01 com a lua Feijão com arroz. Pode ser marcado, quase tiquetaqueado, fazendo com que os olhos andem até em movimento pendular 76 assim repetindo, repetindo... e, de repente, uma quebra no compasso, que é também um final de história. Como se lê no poema de Manuel Bandeira que está no livro Berimbau e outros poemas, bonito, bonito ... Debussy Para cá, para lá... Para cá, para lá... Um novelozinho de linha... Para cá, para lá ... Para cá, para lá ... Oscila no ar pela mão de uma criança (Vem e vai...) Que delicadamente e quase a adormecer o balança - Psiu... - Para cá, para lá... Para cá e .. . - O novelozinho caiu. Ou, ainda, como escreveu o mesmo Manuel Bandeira, desta vez com ritmo forte, cadenciado, marcado, que se mantém sempre, que caminha - por cada verso - como um trem pelos trilhos. E novas cenas vão se formando, novas paisagens vão surgindo, velhas lembranças vêm voltando, novos desejos e vontades se firmando - de voltar logo pro lugar de onde saiu. Trem de ferro Café com pão Café com pão Café com pão Virge Maria que foi tarso maquinista? Agora sim Café com pão Agora sim Voa, fumaça Corre cerca Ai seu foguista Bota fogo 77 Manuel BANDEIRA (18861968) Nascido em Recife, viveu grande parte de sua vida no Rio de Janeiro. Iniciou-se como poeta simbolista, mas grande parte de sua obra poética reflete bem as influências do Modernismo: o uso da linguagem oral, a reação à rigidez das regras gramaticais, a temática brasileira. Dedicou-se também à prosa (crônicas, críticas, ensaios) e à tradução. Na fornalha Que eu prece: o Muita força Muita força Muita força Oô... Foge, bicho Foge, povo Passa ponte Passa poste Passa pasto Passa boi Passa boiada Passa galho De ingazeira Debruçada No riacho Que vontade De cantar! Oô... Quando me prendero No canaviá Cada pé de cana Era um oficiá Oô.. Menina bonita Do vestido verde Me dá tua boca Pra matá minha sede Oô... Vou mimbora vou mimbora Não gosto daqui Nasci no sertão Sou de Ouricuri Oô... Vou depressa Vou correndo Vou na toda Que só levo Pouca gente Pouca gente Pouca gente... 78 Ou ainda a repetição buscada pra reproduzir os movimentos dum cotidiano chato e repetitivo de gentes diversas, à espera de uma ruptura, de uma quebra de tudo, que ... nem sempre acontece. Gente imóvel acaba fazendo um mundo imóvel, daí o ritmo dessas pessoas e de seu mundinho nunca se alterar. Como mostra o Mario Quintana em: Ritmo Na porta A varredeira varre o cisco varre o cisco varre o circo Na pia a menininha escova os dentes escova os dentes escova os dentes No arroio a lavadeira bate roupa bate roupa bate roupa até que enfim se desenrola toda a corda e o mundo gira imóvel como um pião! Lendo esses poemas (e os que virão nas próximas páginas), damos com alguns que obedecem a uma métrica específica, um jeito obrigatório de construir as frases, de colocar um número determinado de palavras, de rimar... E com outros, livres, abertos, que vão sendo construídos conforme a emoção, a vontade, a boniteza buscada pelo autor... Um soneto ou uma trova podem ser tão válidos e belos quanto um poema concreto. Importa é que a escolha seja a melhor pra idéia, e que a idéia e os versos sejam os mais belos pro leitor... Se soar falso, desafinar, não está tocando na tecla certa, e, ao invés de provocar espanto, desperta bocejos ou irritação. Poesia ruim não dá pra agüentar! 79 Mano QUINTANA Poeta gaúcho nascido em 1906, dedica-se à poesia, à prosa poética, à crônrca e ao conto. A POESIA E AS SENSAÇÕES Ah, mas quando a poesia é boa, que sensações algui escritos provocam e evocam! Em "Sonho de Olga", c Cecília Meireles, imagens visuais, escorregadias, aquát cas, marítimas surgem fortes ... (aqui a primeira e a últ ma estrofe): A espuma escreve com letras de alga o sonho de Olga A espuma escreve com algas na água o sonho de Olga... Sabores, líquidos e sólidos, todos mui doces, surges na memória de Ricardo Azevedo quando descreve % casa de meu avô" (transcrita aqui a última estrofe): Ricardo AZEVEDO > Ah como é boa essa vida na casa do meu avô Bem melhor do que sorvete Mais gostosa que bombom Que refresco, chocolate Bolo, bala, caramelo. Ah como é doce essa vida Na casa do meu avô! Devia ser ótima mesmo!!! Parecida com a imagem c, lida e nutritiva, toda querer-bem, que a casa dos ave tem na memória ou na vivência de tanta gente... Roseana Murray, em Falando de pássaros e gatos, des Greve com sensibilidade as texturas, a sensação do vente provocando sons e deslocamentos ... Roseana MURRAY > casa de gato é no canto da rua mobília de vento tapete de lua casa de pássaro é pendurada no azul casa sonora de cantos e ventos 80 • Mario Quintana descreve uma sensação de vibração, de som perdido, de silêncio inteiriço, buscado e achado ... Canção de vidro • nada vibrou... Não se ouviu nada... Nada... Mas o cristal nunca mais deu o mesmo som. Cala, amigo... Cuidado, amiga... Uma palavra só Pode tudo perder para sempre... • é tão puro o silêncio agora! (arrepiantemente belo!!!) A POESIA E OS SONHOS Outros poemas retratam os sonhos, os desejos, as vontades, e fazem com que surja - no leitor - a visualização de seus próprios anseios ou idéia de felicidade... José Paulo Paes fala não do sonho comum, mas de uma parte tão específica, inesperada ... e realmente importante, que no entanto tantas e tantas vezes passa despercebida do. desejante: Modéstia Eu nem queria voar no 14-Bis pelo céu • Paris. Já ficaria muito feliz apenas com o incrível chapéu • Santos Dumont. 81 E o lindo Mario Quintana ilumina o céu com as po; veis puxadas nas pernas dum grilo ... Tão simples, i aparentemente pouco e tão céu todo-aberto. Noturno arrabaleiro Os grilos... os grilos... Meu Deus, se a gente Pudesse Puxar Por uma Perna Um só Grilo, Se desfianâni todas as estrelas! A POESIA E AS EMOÇÕES Ah, a poesia fala sobretudo de emoções ... De sent mentos vividos, sentidos, provocados. Fala de amor, vezes de um amor antigo, lembrado por despertar alg de especial, de único. É o que faz Cecília Meireles, en As meninas Arabela abria a janela. Carolina erguia a cortina. E Maria olhava e sorria: -Bom dia! " Arabela foi sempre a mais bela. Carolina a mais sábia menina. 82 • nsaremos em cada menina que vivia naquela janela; uma que se chamava Arabela, outra que se chamou Carolina. Mas a nossa profunda saudade é Maria, Maria, Maria, que dizia com voz de amizade: "Bom dia!" Não, não é o amor e a saudade do primeiro namorado... É o provocado por uma voz meiga, sorridente que deseja o melhor para os outros... Há tantas formas de se tornar inesquecível... Há o sentimento de amor-ternura, de admiração pela simplicidade, pela boniteza no se relacionar, no ir... De que fala tão suavemente Vinícius de Moraes, em "São Francisco" (aqui, apenas a estrofe final). ti as Lá vai São Francisco Pelo caminho Levando ao colo Jesuscrutinho Fazendo festa No menininho Contando histórias Pros passarinhos. • o sentimento de tristeza, de perda de algo muito querido, presente em tantos momentos da vida, ao qual Mario Quintana poeticamente dá vida e do qual ao mesmo tempo reclama a vida perdida... Uma simples elegia Caminhozinho por onde eu ia andando • de repente te sumiste, o que seria que te aconteceu Eu sei... o tempo..- as ervas más... a vida... 83 Não, não foi a morte que acabou contigo: Foi a vida. Ah, nunca a vida fez uma história mais triste Que a de um caminho que se perdeu... E raramente se leu uma história tão linda, tão tocan te, tão profunda e verdadeiramente triste, sobre algo que só os olhos dum poeta mui enxergados veriam: o ca minho e o descaminho dum caminhozinho ... E há a emoção do medo, às vezes do terror - geral mente tratada de modo assustador, como convém ao te ma - poucas vezes do modo humorado, compreensivo e delicado de José Paulo Paes: Historinha de horror Certa vez eu sonhei que embaixo da cama havia um monstro medonho. Acordei assustado e fui olhar: de fato, embaixo da cama havia um monstro medonho. Ele me viu, sorriu e me disse, gentil: `Durma! Sou apenas o monstro dos seus sonhos-. Manuel Bandeira conta das dificuldades e desacertos para a conquista: Porquinho-da-índia Quando eu tinha seis anos Ganhei um porquinho-da-india. Que dor de coração me dava Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão! Levava ele pra sala Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos Ele não gostava: Queria era estar debaixo do fogão. Não fazia caso nenhum das ternurinhas... - O meu porquinho-da-india foi a minha priimeira namorada. 84 A POESIA E A VIVÊNCIA INFANTIL E há ainda toda uma série de poemas que falam de experiências, vivências infantis ... Elza Beatriz - no livro A menina dos olhos - tem este, gostoso e melódico: I~3~cii1~g~1~1~ Eu fiz de papel dobrado um barquinho e naveguei. Fiz um chapéu de soldado e soldadinho - marchei: Fiz avião, fiz estrela embarquei dentro-voei. Agora fiz um brinquedo - o melhor que já brinquei - guardei num ppapel dobrado o primeiro namorado (o seu nome eu inventei...) Não é um relato nostálgico do adulto falando de coisas suas, de outras épocas - que também não deixam de ter sua beleza - mas falando duma saudade próxima à criança, relativa a experiências recentes, a seu crescimento em relação a objetos lúdicos, sentimento que permite toda sorte de viagens imaginárias para dentro e para fora dela própria. 8S A menina dos olhos, de Elza Beatriz. Ilustrações de Paulo Bernardo. Belo Horizonte, Miguilim, p. 18. Roseana Murray, em seu livro No mundo da l, aborda com sensibilidade o brincar de faz-de-conta noção de realidade que qualquer criança tem, conhec aplica em seu jogo: O pirata O menino brinca de pirata: sua espada é de ouro e sua roupa de prata. Atravessa os sete mares em busca do grande tesouro. Seu navio tem setecentas velas de pano e é o terror do oceano. Mas o tempo passa e ele se cansa de ser pirata. E vira outra vez menino. 86 Tão lindo, tão colorido, tão iluminado, tão grandioso, tão divertido, o mundo mágico que a criança pode criar... E como sabe, sozinha, o momento de cortar... José Paulo Paes poetiza, brinca em cima duma cantiga de roda tradicional, altera seu desfecho (tudo é mutável, claro ... ), para falar de desacertos acontecidos (intencionais ou não??) nesta vida: ACIDENTE Atuei o pau no gato, mas o gato É isso ali, de José Paulo Paes. Ilustrações de Carlos Brito. Rio de Janeiro, Salamandra, P. 32. 87 E encontra uma solução nova pra questão do pau ati ralo no gato, além de não fazer uma tragédia descabela da por conta da morte do rato... Não foi nada alén dum acontecimento chato, ora... Cecília Meireles, tão próxima do universo da criança fala sobre a opção, a escolha, a querência definida. O último andar No último andar é mais bonito; do último andar se vê o mar. É lá que eu quero morar. O último andar é muito longe: custa-se muito a chegar. Mas é lá que eu quero morar. (...) De lá se avista o mundo inteiro: tudo parece perto, no ar. É lá que eu quero morar; no último andar. E há razões claras, definidas, sentidas, visuais... é difícil conquistar esse universo urbano, tem que se subir muito, se cansar, mas é de lá - e apenas de lá - que se pode ver o mundo todinho... E quando é clara a escolha, definido o porquê de se jogar na caminhada, aí vale a pena! Ainda Cecília coloca com leveza o peso que significa cada escolha, em "Ou isto ou aquilo" (final): Ou isto ou aquilo; ou isto ou aquilo... e vivo escolhendo o dia inteiro! Não sei se brinco, não sei se estudo, se saio correndo ou fico tranqüilo. Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo. 88 E viva a dúvida permanente, a escolha revista e refeita a cada nova situação de vida, pra se perceber que o melhor - para cada um - depende de seu momento, de suas vontades, de suas necessidades, de seus impulsos ... Sempre pode ser isto ou pode ser aquilo ... É saber optar e correr o risco ... A POESIA NARRATIVA Há, ainda, na nossa literatura infantil, inúmeras narrativas contadas sob a forma de versos. Inteirinhas rimadas, melodiosas, obedecendo à cadência escolhida pelo autor. Algumas são ótimas. Só para refrescar a memória: Pé de pilão, do Mario Quintana; Um rei e seu cavalo de pau, do Elias José; Melhor que a encomenda, escrita pela Edy Lima; A árvore cheia de estrelas, do João das Neves... Ruth Rocha tem várias histórias rimadas, versejadas e ritmadas, dentre elas: Bom dia todas as cores, As coisas que agente fala, O que os olhos não vêem ... Sem esquecer o poema gráfico-colorido do Ziraldo, o belo, aflito e triste Flicts. Existe também uma variedade enorme de edições de poesias para adultos, onde se encontram muitos escritos bonitos e estimulantes que as crianças gostariam de ouvir. É procurar bem procurado em qualquer livro do Carlos Drummond de Andrade, do irreverente Oswald de Andrade, da inquietante Adélia Prado ou do inesperado Murilo Mendes ... É buscar em antologias, ou mesmo em livros esparsos, aqueles poemas da Cecília Meireles e do Mario Quintana que ainda não tiveram edições para público infantil ... É se deparar com alguns poemas do Fernando Pessoa, com a fase modernista do Guilherme de Almeida, com a delícia nordestina do Ascenço Ferreira, com a simplicidade comovente e sábia de Dom Hélder Câmara. É procurar também nos poemas concretos as brincadeiras gráficas e os jogos verbais que os poetas sabem fazer bem, e selecionar os que poderão instigar a criança... Como este, que se chama "Viva vaia'': 89 Carlos DRUMMOND de Andra • (1902-1987) Mineiro de Itabira, iniciou sua vida de jornalista e escritor em Belo Horizonte, ten • se transferido em 1934 para o Rio de Janeiro, onde morreu. Além de dedicar-se à poesia, é autor de crônicas e contos. É muito conhecido entre nós, ten • também obras editadas em muitos outros países. Para crianças escreveu História de dois amores, ilustrada pelo Ziraldo. Poesia - 1949-1979, de Augus to de Campos. São Paulo, Duas Cidades, p. 201. Cancioneiros da Bahia, de Dori val Caymmi: São Paulo, Martins, p. tos. E, claro, buscar a poesia do Chico Buarque de Hola: da, do Paulinho da Viola, do Caetano, do Gilberto G: do Lamartine Babo, do Dorival Caymmi e de tantos o tros letristas nossos, para encontrar veios poéticos belís~ mos, que podem chegar até a criança de modo simples aberto, todo porosidade e já com melodia ao fundo... ter outra experiência de ler e sentir um poema-cantig Eu fiz uma viagem Eu fiz uma viagem A qual foi pequenininha Eu saí dos Olhos d'Água Fui até Alagoinha. Agora colega veja Como carregado eu vinha Trazia a minha ` `nega - E também minha filhinha Trazia o meu tatu-bola Filho do tatu-bolinha Trazia o meu facão Com todo o aço que tinha Vinte couros de boi manso Só no bocal da bainha Trazia uma capoeira 90 Com quatrocentas -galinha " Vinte sacos de feijão E trinta sacos de farinha Mas a sorte desandou Quando eu cheguei em Alagoinha Bexiga deu na "nega'' Catapora na filhinha Morreu o meu tatu-bola Filho do tatu-bolinha Roubaram o meu facão Com todo o aço que tinha Vinte couros de boi manso Só no bocal da bainha Morreu minha capoeira Das quatrocentas "galinha" Gorgulho deu no feijão, Colega, E deu mofo na farinha A PROSA POÉTICA E há tanta belezura a ser desfrutada em algumas histórias infantis brasileiras... Não em forma de versos, mas de pura prosa poética. Lygia Bojunga Nunes, em Tchau, escreve quatro con- ,i Lygia Bojunga NUNES tos belos, densos, envolventes... E neles se depara com parágrafos desta qualidade literária: "Cada hora de recreio, cada domingo inteiro, cada hora-de-fazer-dever eu escrevia a história da minha vontade de morrer. E fui achando tão dzfcil de fazer, que em vez de sentir vontade de morrer eu só pensava como é que se fazia a história de uma vontade de morrer; em vez de sentir a dor do amor, eu só sentia a força que eu fazia pra contar a dor". (A transformação das vontades, a mudança do primordial, a descoberta de algo mais envolvente e mais 91 desafiante do que o sofrimento inicial... ) Ou, em outro conto: "0 Barco tomou um susto quando o Menino pisou nele; quanto! quanto tempo sem sentir alguém assim perto. 0 Menino aluou a madeira do banco, aponta do dedo tocou no leme, de leve, feito fazendo uma festa. E o susto do Barco virou suspiro. " Não é assim mesmo que acontecem os contatos que levam ao amor... do recolhimento espantado/ lembradc ao suspiro?!! E Ciça Fittipaldi, em João Lampião, em momentos diferentes da história, marca tão lindamente a passagem dos tempos: ' `0 tempo não é que rola? Rolou nas águas sumiu. Lembrança ficou guardada lá onde o mar junta com o rio ". ` `Feijão feijoou, milho milhou, mandioca mandiocou • o tempo do tempo dele? Madura, madurou. " "Vive agora de andança, com seu candeeiro na mão. Conta estória de lembrança, inventa de coração. E o tempo pra ele não passa? Passa. Passa no passo de João Lampião. " Se acompanha pelas águas, pelas colheitas, pelo caminhar iluminado, iluminando cada etapa com sua linguagem, cada palavra sentida, pensada, inventada, marcada, marcando... Lindo! Ana Mana MACHADO D Ana Maria Machado, ao contar, em 0 menino Pedro • seu boi voador, o quanto a fantasia de uma criança é negada, ridicularizada, incompreendida e desvalorizada, mostra - lá no finalzinho - como ela surge vitoriosa e conquistadora. Ninguém acreditava na existência do boi voador... Pois então: "Ficaram todos tão embevecidos com o boi voados que nem notaram que de repente toda aquela beleza virou surpresa. Ele sentou para comer, e beber com a fome • a sede de quem acabava de muito voar e brincar. No prato só tinha um bife - o que Pedro tinha guardado para ele. Mas o boi voador logo deu um jeito. Da irmã de Pedro comeu o feijão. E todo o arroz de seu irmão. Do prato da mãe, raspou a salada. Da verdu • do paz, não sobrou nada. 0 avô ficou sem a laranjada. E a avó, gulosa e aflita, ficou fazendo beicinho sem a batata frita. Só Pedro comeu direito. E ria à toa, o goza 92 Cifa Fll IIPALDI • r: - Pra vocês todos, bem feito! Quem mandou rir • boi voador?" Vivina de Assis Viana, que caminha com suavidade, delicadeza, ternura, pelo universo da criança, preservando cada um dos pequenos momentos tão cheios de significado e boniteza, conta, em O rei dos cacos: `Então todas as tardes, antes de irmos para casa, nós afastamos as tábuas, entramos dentro do tanque, e guardamos, em mesinhas feitas com pedacinhos de outras tábuas e tijolos, os cacos do dia. Quase todos estão lá. Falta um só, pequeno, branco, com listas cor-de-rosa que meu irmão insiste em dizer que são de outra cor. Esse ele guarda separado, dentro de uma caixinha pequena, que é guardada dentro de uma caixinha grande, junto com muitas outras coisas só dele: pedrinhas, penas de passarinho, apitos, filipes de café, que são dou grãos de café juntos, pedacinhos de cuia com goma esticada que chamamos de viola, e caixas e mais caixas de fósforos... E guardou junto com as coisas só dele. E pôs o nome dele: o rei dos cacos. r O rei dos cacos não pode ser visto a qualquer hora. Só em dias muito especiais, quando meu irmão resolve procurar a caixinha grande cheia de coisas. Ele tira todas, uma por uma, posso ver tudo desde que não ponha a mão em nada, guarda de novo, fecha, pronto, acabou. Durmo pensando no rei dos cacos, ele também. " O saber colecionar algo de especial, o saber guardar com requinte e cuidados únicos, o organizar um ritual no espaço e no tempo para ver uma preciosidade - rara e insubstituível para a criança -, a deferência com que o objeto é tratado... Não importa se um caco, pois pode ser até o rei deles ... Bartolomeu Campos de Queirós, palavra sempre de- a Bartolomeu Campos purada, exata, sem supérfluos, buscada, buscada... e de QUEIRÓS achada, sabe falar dos sentimentos e emoções mais profundos e dolorosos dum ser em crescimento, sem ser piegas e sem fazer concessão de espécie alguma... Em Os ciganos se lêem parágrafos desta qualidade poética: "Foi • seu pai que ele herdou essa mania calada, esse jeito escondido e mais a saudade de coisas que ele não conhecia, mas imaginava. Sua vontade de partir veio, porém, • desamor. Tudo em casa já andava ocupado: as cadei 93 ras, as camas, os pratos, os copos. Mesmo o carinho distribuído. Por tantas vezes ele quis oferecer sua mão às ciganas, mas recusava, explicando para si mesmo que mão de menino não tem leitura, as linhas não são definidas. Seu medo, no entanto, era outro. Ele tinha cisma de as ciganas descobrirem seus sonhos e não confirmarem suas esperanças. " Ah, esta eterna dúvida, este grande e imenso temor do ser humano, em qualquer época da vida... sentir o desamor e temer a não-concretização do sonho verbalizado ... COMO TRABALHAR POESIA COM AS CRIANÇAS? sugestões de atividades > São tantos os elementos para se trabalhar poesia com as crianças, em sala de aula... O ler em voz alta um poema amado com a emoção que ele despertou ... O encontrar poesias que mexeram com o sensorial de cada um (visão, olfato, paladar...) e perceber como aconteceram escolhas diferentes por razões diversas ... O procurar poemas que falem de assuntos paralelos, parecidos, mas tratados de outra forma, valorizados por outro ângulo ... O trocar experiências pessoais a partir de um poema que tenha sido vivido - por cada leitor - à sua maneira, no seu momento de vida, de modo mais abrangente, mais específico ou mais distanciado. O ter um caderno, um álbum, uma agenda, onde anotar poemas inteiros ou versos que pareceram particularmente belos ou sábios ou perspicazes ou esclarecedores ou incríveis ... O musicar, tornando cantigas, algumas expressões poéticas, que dão aquela vontade de criar uma melodia. O descobrir ritmos e lê-los em conjunto ou em voz alta... O escrever os próprios, a partir dum jogo de rimas - fáceis ou difíceis -, de significados, de inversões, de brincadeiras com o sentido das palavras, através da cor, da textura, do movimento de cada palavra, cada frase ou estrofe ... 94 de eu a er o SE A PROFESSORA FOR LER UM POEMA PARA A CLASSE - que o conheça bem, que o tenha lido várias vezes antes, que o tenha sentido, percebido, saboreado. Para que passe a emoção verdadeira, o ritmo e a cadência pedidos, que sublinhe o importante, que faça pausas para que cada ouvinte possa cobrir - por si próprio - cada passagem, cada estrofe, cada mudança ... Que a criança goste de ler, de sorver devagarinho, sem pressa, a poesia que encontrar ... Que, ao folhear um livro, saiba reparar numa passagem bem escrita e que saboreie esse momento de boniteza que o autor elaborou. Ou, ao se deparar com o mal escrito, com o tolo, com o desprovido de emoção e sensações, com o texto apressado, mal resolvido, que perceba e registre o quanto aquilo não quer dizer absolutamente nada... E que comente, fale e leia alto, pra demonstrar seu espanto - não com o bom e o novo, mas com o malfeito ou o batido.. . E, SE FOR SELECIONAR ALGUMA POESIA PRA SER LIDA PELAS CRIANÇAS, que não seja a escrita por iniciantes, que ainda estão à procura da forma. Ë melhor recorrer àqueles autores que já dominam o verbo, constroem o verso, controlam o ritmo, sabem eliminar o supérfluo, para condensar - de modo exato e belo - as imagens, e provocar encantamento, suspiros, concordância, gostosura, sorriso, vontade de querer mais, de repetir, de dizer -Ah, é isto! " ou "Oh, é aquilo! ", de precisar ler de novo pra melhor se inteirar, pra compreender lá no fundinho ou descobrir algo que - na primeira ou na segunda leitura - não foi percebido ... de até querer guardar - dum modo especial - palavras que abriram as portas da compreensão dum mundo mágico e sábio (que nem se intuía, imaginava ou percebia que era assim...). Pois, como escreveu um dia, lindamente, o poeta Oswald de Andrade: "Aprendi com meu filho de dez anos Que a poesia é a descoberta Das coisas que nunca vi.- 95 A LITERATURA TAMBÉM INFORM. Qualquer livro, qualquer assunto, pode ter uma linguagem, um tratamento, um encaminhamento, mais envolvente e mais pessoal... Depende da postura e da crença do autor. Querer saber de todo o processo que acontece nascimento até a morte, faz parte da curiosidade nat da criança, pois se trata da vida em eral e _d_g_suá_prá em particular... Saber sobre seu corpo, sua sexualid: seus problemas de crescimento, sua relação (fácil ou cultosa) com os outros faz parte do se perguntar sob mesma e do precisar encontrar respostas ... Querer cutir relações familiares fáceis/ difíceis/conflituadas/ perstvas /gregárias / simpaticonas etc., e até a nova es turação das famílias - nestas décadas onde há ta casamentos desfeitos e refeitos - faz parte do repert indagativo e questionados de toda pessoa... Querer saber mais sobre aflições, tristezas, dificu des, conflitos, dúvidas, sofrências, descobertas que tros enfrentam, para poder compreender melhor as próprias, faz parte das interrogações de qualquer ser mano em crescimento ... Querer se enfronhar mais questões do poder, no jogo das manipulações políti nas discussões sobre o mundo circundante, faz parte curiosidade de qualquer um que veja o noticiário da ou escute o do rádio ou leia jornal ou ouça as discus~ - que acontecem em cada esquina - sobre como t, isso se reflete no cotidiano de cada um, de cada famí de cada rua, de cada cidade ... A CRIANÇA, DEPENDENDO DE SEU MOMENTO, DE SUA E7 RIÊNCIA, DE SUA VIVÊNCIA, DE SUAS DÚVIDAS, PODE ESTAR TERESSADA EM LER SOBRE QUALQUER ASSUNTO... A quest~ saber como o tema é abordado: se sem medo, sem re: vas, sem fugir das questões principais ou fazer-de-co quee não existem... Ou, colocando num parágrafo, ch de evasivas, mil explicações, às vezes até confusas ou a balhoadas, não dando nem tempo para que a cria leitora pense, elabore, resolva, se identifique, concor discorde, critique, negue etc. a forma como tal ou q questão está sendo explicada / proposta / vivida / tesoo da / lidada. Estamos falando de literatura ... Portanto, não se trata de livros didáticos, de não-ficção, onde se disserta, dá uma explicação objetiva, se ca, dura... Não é a monstração dum teorema (a vida não é bem assim. . 98 e, do rural opria 'dade, difibre si r dis 1 Isestrutantos rtório uldae ousuas rhu nas tcas, e da aTV ssões tudo ília, MEIN0é ereta Io ataçade, qual lvi nem a explanação dum fenômeno científico distante, que acontece num laboratório de ciências e onde se busca provar algo que não está exigindo nenhuma emoção ou envolvimento pessoal... Estamos falando de literatura, de ficção, de histórias, onde se aborda um - ou vários problemas - que a criança pode estar atravessando ou pelo qual pode estar se interessando ... De uma leitura que não é óbvia, discursiva ou demonstrativa do tal tema... Onde ele flui natural e límpido, dentro da narrativa - que evidentemente não tratará apenas disso. E, para encarar um dos assuntos da chamada realidade, não é necessário que a linguagem do autor seja realista. Pode até ser, mas não é obrigatório ... Pode ser crua, dura; mas também pode ser poética, suave, tristonha; como pode ser humorada, divertida, irônica ... A linguagem, o tom, o escritor escolhe conforme concebeu sua história, suas personagens, seu desenvolvimento, seu final, a partir de sua convicção ou necessidade de tocar neste ou naquele assunto... Agora O QUE NAO FAZ SENTIDO É ABORDAR UMA QUESTAO DE MODO SUPERFICIAL, contar uma história de modo mascarado, maquilado, pretensamente facilitado ... Porque o autor não se sente à vontade para discutir tal ou qual tema (e se sente pressionado pelos que cobram dele mais modernidade etc. e tal), ou levantar tópicos que ele viveu mal ou não elaborou o suficiente dentro de si: não importa se a relação com sua avó, a angústia com a solidão ou o modo como enfoca a morte ... Ou colocar situações de vida que, nele escritor, ainda provocam pudor, timidez, seja a relação com a namorada, com o próprio corpo ou com quem está no poder, no comando (da família ou do país ... ). QUALQUER ASSUNTO PODE SER IMPORTANTE, e isso não depende apenas da curiosidade da criança (se não estiver' particularmente interessada no tema, lerá sem maiores envolvimentos ... e dia virá em que aquele livro lhe será revelador e esclarecedor!). Depende também do desenvolvimento do mundo, das contradições que a criança vive e encontra à frente, se se envolve com elas ou apenas observa os fatos, e para isso é preciso estar atento e poroso a tudo o que acontece ... (há temas datados, que pela pró 99 trase de Júlio VERME (1828-1905) Escritor francês, considerado o precursor da ficção científica. É dele A volta ao mundo em oitenta dias. João Guimardes ROSA (19081967) Escritor mineiro cuja originalidade está na criação de vocábulos e estruturas de frases de tendência tanto regionalista quanto erudita, de grande efeito estético. Escreveu o romance Grande sertão: veredas, novelas e contos. Érico VERÍSSIMO (1905-1975) Romancista gaúcho de grande popularidade, é autor, entre outras obras, da trilogia O tempo e o vento, onde estão presentes tradições e fatos históricos do Rio Grande do Sul. Dedicou-se também à literatura infantil e infanto juvenil, escrevendo As aventuras do avião vermelho (1936), O urso-com-música-na-barriga (1938), A vida do elefante Basílio (1939) e outros livros. pria evolução dos costumes deixaram de ser polêmico! pois, dum jeito ou de outro, a civilização os integrou há outros que estão surgindo devagarinho, há outro efervescentes, sobre os quais o momento de falar urge se impõe). Mas, sobretudo, o assunto tem que ser importante mobilizador, verdadeiro para o autor, para que o trãt de modo inteiro, digno ... Senão vira uma grande' boba gem, pois o preconceito surge nas entrelinhas, a não -convicção do escritor se flagra num parágrafo ou capín lo inteiro, se desmente pela boca duma personagem. -s percebe o mal-estar do autor... Quer dizer, abordou ur tema contemporâneo, mas de modo antigo, mofado boboca... Se violentou e não esclareceu nenhur leitor... Como disse uma vez o sábio Guimarães Rosa "O trágico não vem a conta-gotas", ou seja, quem que tocar em algo verdadeiramente trágico tem que mergi; lhas de cabeça, jorrando o vidro todo. Senão, a cois perde a dimensão e se torna um melodrama... E aí, que era pra chorar, dá é pra rir... Fundamental para que a questão passe como venda defira é que o escritor esteja convencido de sua importân cia... Senão é mais uma pincelada demagógica, nad acrescentadora, nada esclarecedora, para quem lê. . Qualquer que seja o tema escolhido, que ele seja traba lhado com verdade, sentimento, vivência, clareza pc parte do autor... Ou que seja uma opção pela função de escrevinhado como disse Érico Veríssimo, em Solo de clarineta: -Desde que, adulto, comecei a escrever rommance! tem-me animado até hoje a idéia de que o menos qu um escritor pode fazer, numa época de atrocidades e ir justiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer lu sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre el caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e ac tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acer damos o nosso toco de vela ou, em último caso, risque mos fósforos repetidamente, como um sinal de que nã desertamos nosso posto. " 100 LENDO SOBRE RELAÇÕES FAMILIARES Assim, as relações familiares são encaradas de várias formas por diferentes autores. Naumin Aizen, em Era uma vez duas avós, uma his- a Naumin ALZEN tória bem curtinha para crianças pequenas, retrata suas duas avós: Sonia e Ester. As duas diferentes: fisicamente, no humor, no gostar de dar comida, no lidar com a emoção (uma nunca chorava, a outra, às vezes ... uma beijava, a outra não; uma aconselhava, a outra não ... ). Uma alegre, risonha; a outra triste, durona - apesar de as duas terem levado vidas batalhadas, suadas, difíceis ... e ensinado - a esse seu neto - cada qual a seu modo, dando ou negando, demonstrando ou timidamente disfarçando... o quanto a vida pode ser boa! Ronaldo Simões Coelho, em Macaquinho, conta uma ,i Ronaldo Simões COELHO história curta e cálida. Fala da relação entre um pai e um filho (Macaco e Macaquinho) sem que surja nenhuma mãe ou avó ... Só os dois. No momento de dormir, quando a criança de tudo faz para ficar perto do pai por mais e mais tempo (como tantas ... ), buscando uma aproximação maior, esticando o encontro. De verdade, o filho quer carinho, proximidade, e não apenas que o pai tome providências prático-domésticas (tipo colocar o cobertor, dar mamadeira, levar pra fazer xixi etc.)... Ah, como ele tem que chamar a atenção do pai - que parece não entender - que ele precisa mesmo é do bem-querer ... O resto é só pretexto ... es, Flávio de Souza, em A mãe da menina e a menina da a Flávio de SOUZA que mãe, conta dum dia especial entre uma menina de 7 in- anos e sua mãe. De como ela quer saber mais da mãe, luz de como descobre reações e comportamentos dela, de co ela mo experimenta suas roupas para se surpreender, com a aos parecença entre as duas ... E de como descobre que a mãe e já tinha sido menina, quando vê uma velha foto dela, e quanto, no seu olhar, ainda revelava um pouco da criane- ça que ela fora... e como resolve dar um presente para a mãe no Dia da Criança. E aí vive hesitações, dúvidas ... depois, a expectativa, a ansiedade, a espera de que a mãe abra o pacote, o vexame ao pensar que fizera algo tolo ... Tantas sensações e emoções pelas quais alguém passa quan 101 v do resolve enfrentar algo especial... E ver a mãe choran do, ver que ela passara o dia todo desenhando, se permi tindo ser criança ... A filha abraçando uma pessoa-adul ta-mãe que cuidava dela e da casa mas que também fora menina um dia, e que guardava isso dentro de si, pron tinho pra explodir, pra sair... Uma história delicada, humana, que provoca um nó na garganta, que faz uma lágrima rolar de mansinho ao ficar claro que a filha com preendera a mãe e que a mãe correspondera à filha... Assim, uma relação humana é tão bonita, com suas idas e vindas, suas tentativas e desacertos, pra chegar a uma descoberta fundamental! Mima PINSKY D Mirna Pinsky, no seu delicado As muitas mães de Ariel, faz com que o menino descubra as muitas facetas, lados, aspectos que sua mãe possui, dependendo do momento em que vive ... Sem mistificações, sem querer que uma pessoa seja vista como uma tábua lisa de passar roupa... Ao contrário, ela é toda angulosa, toda cheia de lados, de contradições, como qualquer ser humano em geral e como qualquer mãe em particular... É preciso perceber os lados para poder se inteirar da pessoa e se relacionar com ela... Uma idéia totalizante, globalizadora, num tratamento muito bonito... Vivina de Assis VIANA > Vivina de Assis Viana, em 0 jogo do pensamento, narra a relação terna entre uma mãe e uma filha e a relação das duas com o pai, sem que nenhum se perca como pessoa, como individualidade. Há contação de histórias, aconchegos, cafunés, a sensação gostosa da textura do cabelo e a força encorajante dum aperto de mão, e há temores de que o que havia sido mágico, na infância da mãe, já não o seja para a menina, que vive na era dos plásticos, da TV, das metrópoles. E também os flashes de tudo o que está acontecendo no mundo, que passam pela cabeça preocupada e informada da mãe ... E quando a luz se apaga na cidade toda, no escuro a brincadeira entre as duas, onde se joga às claras: adivinhar o que o pai estaria pensando naquele momento, em seu escritório... E o que cada uma vai colocando, dizendo, priorizando e mostrando o quanto o conhecem, cada uma a seu modo, nos contrapontos de necessidades e vontades diversas... E a constatação de que os problemas do mundo - por ser ele tão pequeno - são também os problemas e as preocupações das pessoas ... (um jogo de pensamento, de idéias, de gerações, de honestidade; um joga 102 de se inteirar do outro a partir de si, sem perder a consciência do mundo, do tempo, da geografia, da História, da responsabilidade e do sofrimento com tudo o que acontece neste mandão ... ). Ilustração de Darcy Penteado para o livro O jogo do pensamento, de Vivina de Assis Viana. Belo Horizonte, Comunicação, p. 13. Num dos contos de Mamãe é a mulher do pai, de Werner Zotz, exatamente o primeiro do volume, uma criança, ao abrir a porta do quarto, percebe haver uma relação amorosa, carinhosa, sexual entre os pais... Num primeiro momento se enraivece, sente ciúme, até compreender que sua mãe (que tanto gosta dela) também é, afinal de contas, a mulher de seu pai ... Faz parte das relações familiares conhecer o papel de cada um e saber que a proximidade de alguns (em situações de cumplicidade específica) não exclui o amor pelos outros (em situações nada específicas...). Algo tão natural, tão humano, tão bom como uma relação sexual, não tem por que estar distante duma história pra crianças. O importante é que seja colocado, e bem colocado, sem moralismos, gaguejamentos, escusas ou mentiras... Afinal, um dia o menino vai crescer e vai ter também as suas... E que sejam tão boas, tão carinhosas e tão sem pecado quanto. Claro, há inúmeros autores que, em infindáveis histórias, falam de famílias idealizadas, onde tudo trans 103 a Werner ZOTZ corre sem nenhum vendaval nas relações, onde tudo é sempre calmo, sem hesitações, sem impasses ... Onde a autoridade é indiscutível, onde a aproximação é obediente-pacífico-servil, onde o que ocorre no mundo não afeta a sólida estrutura familiar... e nem mesmo o que acontece dentro das paredes do lar as afeta ou modifica em algo... Nem em maquete de arquitetura é assim... quanto mais na vida de uma família. Pessoas - de qualquer idade - se mexem, são cutucadas, se abrem ou se fecham, duvidam, brigam, sentem ciúme, perguntam e por isso crescem, se modificam e modificam suas relações com os outros (sobretudo os mais próximos)... E mudar a intensidade do amor não significa perdê-lo (embora isso também possa acontecer, o que também faz parte da vida ... ). Como há famílias inteiras fazendo figuração de luxo em histórias inteiras ... Ou seja, os conflitos mal aparecem, ficam ao fundo. E a história se limita a aspectos desimportantes, como a permissão que a criança solicita ao pai, uma comida que pede à mãe e coisas que tais ... Uma ode à omissão, à presença inatuante... E ainda estereotipada e mui mal dividida; como se mãe só cozinhasse ou como se o pai detivesse o monopólio do poder da casa... LENDO SOBRE A SEPARAÇÃO Se famílias se formam através do casamento (ou equivalente), também se desfazem quando os pais se separam ... E isso já não é exatamente uma raridade, algo de espantoso ou invulgar... Ao contrário, cada dia mais - sobretudo nas grandes cidades - pai e mãe já não moram mais juntos, constituem novas famílias, e a criança começa a viver o fim-de-semana com um deles. E essa semana quebrada, essa nova forma de se relacionar (com dia e horas marcados) com o pai ou a mãe, pede dela um novo jeito de conversar, de se aproximar, de se assegurar ... E é importante que se contem a ela histórias onde as personagens também vivam essa situação, para que 104 ela se identifique ou não com a forma como reagem/sonham/choram ou o que seja... Fazer de conta que isso não existe é fazer de conta que vivemos no século XIX, e não às portas de um novo milênio ... Assim, Mário Prata, em Sexta-feira de noite, através ,i Mário PRATA dum diálogo solto, vivo, espontâneo, gostoso, entre duas crianças, uma menina de 5 anos e seu irmão de 7, vai mostrando como se sentem em relação à separação dos pais, jovens, modernos, urbanos... Não que não haja dor ou sofrimento, mas há o sonho e o plano de fazer com que a namorada do pai passeie e viaje com o namorado da mãe... Trocam informações sobre o cotidiano, sobre suas descobertas recentes, sobre sexo, dor de dentes e mil outras acontecências que as crianças vivem diariamente ... Uma história curta, simples, atual, sem mistificação, narrada através do olhar e da percepção de crianças paulistanas - como tantas outras - que nas sextas à noite se preparam para um fim-de-semana com o pai (com quem não moram durante a semana toda ...). Ilustração de Walter Ono para o livro Sexta-feira de noite, de Mário Prata. Sao Paulo, Quinteto, p. 24-5. - O quê? - Não é se eu não ir. É se eu não for. - Cê não entendeu? Então não enche. - A mããe vai te mandar ir. - Então, né, se eu não ir, ela fica aqui ccomigo, né? Aí, né, ocê pega o pai com a namorada dele e vem Pra cá também. - Pra quê? Ocê não viu a mãe dizer que nãoo quer ver a cara dela nem pintada? - Não menina. É jeito de falar. Quer dizerr que ela não quer ver ela de jeito nenhum. Jeito de falar. Igual falar assim: moço, você me caiu do céu. Não é que ele caiu do céu. Jeito de falar. - Ah, sei. Igual quando o pai diz que não quer ver o namorado da mãe nem morto? 25 - É. 105 Vivina de Assis Viana, em O dia de ver meu pai, foi a primeira autora a tocar no assunto ... Conta de um domingo, dia de o menino encontrar e sair com o pai, que já não mora mais com eles... Sabe, escuta, vê a tristeza, a dor, o choro sentido e escondido da mãe ... sua explicação lúcida e doída sobre a separação, sobre a nova mulher do pai, sobre escolhas que um dia devem ser feitas e não podem mais ser adiadas ... (até porque a convivência forçada pode implicar mais dor...). Com o pai, conversa sobre várias coisas. Pergunta se ele já tinha chorado, e o pai devagarinho vai lembrando e contando: na vitória do seu time no campeonato de futebol; no dia em que ele - seu filho - nascera e como fora bonito ter assistido a todo o parto... ; quando alguns amigos e parentes tinham morrido; por conta da esposa... Homem chora, claro. E também admite que não sabe muitas coisas, que desconhece muitas respostas sobre algumas emoções e sentimentos seus. E o filho, nos contatos em contrapontos, vai percebendo a impossibilidade de os dois - pai e mãe - cantarem a antiga cantiga de ninar com a qual o embalaram quando bebê, porque ela - especialmente - desencadeia um sofrimento grande nos dois ... E a constatação do menino que nunca conseguirá saber essa cantiga por inteiro (e tanta coisa mais que marcou momentos especiais da vida do casal ... ). Separação dói, e dói muito. Pro pai, pra mãe, pros filhos ... As marcas ficam e não há como mentir ou diminuir isso, já que as saudades podem ser desencadeadas por qualquer motivo ... Mas, se há um tempo de sofrência, há um de escolha e outro de tentativa de recompor a vida, que acaba por se refazer, se equilibrar e encontrar uma nova forma de seguir em frente ... ZIRALDO > Ziraldo, em O menino maluquinho, não usa o divórcio como tema central... Mas lá pelas tantas do crescimento do menino, o pai toma um rumo, a mãe outro, e ele inventa a teoria dos lados e descobre que pode viver ao lado, do lado - de cada um deles -, naquele lado que era o seu ... Sente a barra, convive com a saudade e compreende que a ausência também faz parte da vida. Lygia Bojunga Nunes, no primeiro conto de Tchau, fala da tristeza sofrida, impotente, decisiva, da menina 106 i a - Rebeca - quando sua mãe vive um novo amor e com o- ele acaba partindo, após muitas indecisões suas e muitas ue tentativas da filha para que ela ficasse, ficasse ... Dói a, partir, seguir, procurar outros caminhos, tomar consli. ciência de que um ciclo havia se encerrado (com o pai da u_ filha) sem abandonar toda a afetividade e o amor que e ele englobou e gerou (a própria Rebeca)... Mas a mãe, como qualquer ser humano, tem direito a um novo amor, a uma nova tentativa de vida com o homem por se quem está apaixonada. Ela tem direito ao amor (o que a An faz decidir e escolher) e também tem direito a continuar sentindo o imenso amor pela filha, que procurará assim que voltar de viagem ... É preciso coragem para romper o rotineiro, o tedioso na vida, sobretudo quando isso - aparentemente - representa a felicidade dos filhos ... Mas é se permitindo como mulher, crescendo como pes soa, que ela poderá amar ainda mais - e possivelmente melhor - a filha... É um risco adulto dar essa espécie de tchau, que não é adeus. Tem volta, e de outro tipo, com outra intensidade e novo calor. E esse tipo de mu lher existe e é bom que surja nos livros, não-idealizada, não-santificada, não-dependente ou incapaz de tomar uma decisão (e das mais mexentes! e sendo muito pres sionada!!). Bom haver personagens assim, tratados por uma autora assim ... LENDO SOBRE O CRESCIMENTO PESSOAL Há as questões todas do crescimento que envolvem o enfrentamento de problemas pessoais. Eliane Ganem, em 0 coração de Corali, discute um a Eliane GANEM espaço sobrante no coração dessa menina, que pode ser a solidão, a tristeza, a aflição... A família reunida encontra várias explicações e propõe mil soluções, sem que ela seja consultada, sem que fale, desabafe, aponte a provável resposta... Impõe - com a maior das boas vontades e a melhor das intenções - soluções várias, que estão longe de aplacar a angústia de Corali ... 107 Ilustrapo de Elvira Digna para o livro O coração de Corali, de Eliane Ganem. Rio deJaneiro, J. Olympio, p. 19-20. Mas é num papo, com sua tia gorda, que deso que todo mundo tem um buraco no coração, embor guns nem se dêem conta disso; outros comem, furo trabalham loucamente, só pra esquecer esse oco opr, vo dentro do peito, disfarçando para os outros e sobe do para si próprios ... Pois, claro, é muito difícil prc cher o coração com coisas que valham a pena ... Um ma bonito, delicado, sensível, verdadeiro, onde a cr, ça é quem encara o que lhe falta, enquanto a mai, dos adultos finge não se dar conta. Ter um coração ti tomado exige percepção e escolha, como exige saber c xar de lado aquilo que não é mais importante ou mc cedor de carinho e confiança. .n:rariciti cr m,. nas:, c te xniurrt.r cor 11 . !,. c . cuuun au - c r('ixar;t 1, ci: . cnt i . tiru:u7 ;ï ,Ih C, t, abriu ., ir i a e Wr'u f, ,ri,, ah,nr um e cicu o io Ru th Rocha, em Faca sem ponta, galinha sem pé, sua forma humorada e divertida de abordar um fato, f com que um menino e uma menina atravessem o an -íris para que cada um sinta e tome consciência do qua to pode ser difícil, problemático, cansativo, exigente, do outro sexo: a menina se inteira do que significa 108 menino e vice-versa... E fácil choramingar quando não se tem idéia do que o outro vive ... E é fundamental saber e conhecer o próprio sexo para poder crescer como pessoa inteira, que se sabe e se conhece. Ziraldo, em 0 menino maluquinho, narra a vida dum moleque sabido, irrequieto, sempre em movimento e em ebulição ... Poetando, aparentemente descuidado com objetos e roupas, explosivo em seus comentários, inventados constante da alegria, da brincadeira (pra família, pros amigos ... ), beijoqueiro e encantador com as s1 O menino maluquinho, de Ziraldo. São Paulo, Melkoramentos, P. 44. namoradas mil, ótimo jogador de futebol, aluno inteligente, mas não exatamente dos mais disciplinados, ávido de tudo o que a vida oferece ... Mas, claro, que tam 109 O menino maluquinho, de Ziraldo. São Paulo, Melhoramentos, p. 23, bém chorava, também se entristecia, também precisava de seus momentos de solidão, de se trancar no quarto por muito tempo até ter clareza da situação ou das aflições ... Um livro que se refere a uma criança muito amada, contente, que sabe crescer, que se interessa por muita gente, por muitas coisas, por muitas atividades ... Que sabe estar consigo e com os outros e que sobretudo sabe viver (sem achar que isso significa um campo florido, em eterna primavera, onde só acontecem coisas boas, calmas, e onde nada se altera...). Não, tudo se altera, e, como ela sabe encarar as diferentes situações da vida, consegue crescer e perceber o quanto tinha sido feliz, em sua meninice estouvada, vibrante e cheia de vida. 110 LENDO SOBRE A MORTE E a morte, como é explicada, colocada, na nossa literatura infantil? O tema é ainda pouco explorado, como se as pessoas temessem tocar nele, como se a morte não fizesse parte da vida, como se a criança não se defrontasse com ela... Ao nível do que acontece no mundo, ela é informada o tempo todo: de que há guerras, bombardeios, epidemias disto ou daquilo, acidentes, atentados terroristas neste avião ou naquela cidade, tiroteios com a polícia, falecimento desta ou daquela celebridade, deste ou daquele vizinho ... Sem contar que as pessoas de qualquer idade podem falecer por doença ou acidente a qualquer instante. Ou seja, dum jeito ou de outro, a morte faz parte dos noticiários, faz parte dos comentários, faz parte das lamentações, faz parte das indignações. No entanto, poucos autores em poucas histórias abordam o assunto ... Lygia Bojunga Nunes tece uma novela sensibilíssima, sofrida, triste, chamada Na corda bamba... onde a calada menina Maria, trazida à casa da avó rica e dominadora pelos amigos do circo - a Barbuda e o Foguinho -, vive um processo de amnésia, pois apagou da memória a morte dos pais, acontecida numa apresentação no trapézio. Acompanham-se os passos de adaptação da menina a uma vida não mais nômade, não mais mágica e iluminada como fora a vivida no circo, mas às voltas com a escola, com a professora particular horrorosa, com problemas de Matemática, com sua solidão... E como ela vai recobrando a memória do triste acontecimento, na medida em que abre seus espaços internos, suas portas, aprende a se gostar, exercita o escolher... Triste, bela, comovente, a história causa um arrepio constante no leitor, uma tristeza doída, daquelas bem quietas ... Bem escritíssima, como uma corda bamba esticada no seu limite máximo, sem que a autora tropece, sequer por um momento, num tema tão difícil e tão delicado... Luís Fernando Emediato, em Eu vi minha mãe nascer, conta dum menino que sabe que sua mãe vai morrer, pois ela, ao saber da gravidade de sua doença, o prepara para esse dia, explicando que renascerá da terra, co 111 a a morte dum ser querido a morte de culturas D mo uma planta branca e especial... E quando ela falece, como o garoto compreende o sofrimento, a necessidade de silêncio, o desamparo do pai... e o ajuda a atravessar o momento doloroso. Nesse relato curto, pode-se discutir a explicação dada ao que acontece depois da morte: o se transformar e renascer como flor... Mas há um enfrentamento do tema que pode ser debatido em classe ... A relação terna entre pai e filho, viúvo e órfão, por mais preparados que estivessem para o desaparecimento definitivo de alguém que muito amavam, eles sofrem ... E quanto! Em O meu amigo pintor, Lygia Bojunga Nunes, com criatividade, poesia e sem temer a dor, fala das dificuldades que temos para entender alguma coisa num determinado momento e como percebemos depois - quase de estalo - aquilo que nos agoniou por tanto tempo. De como é difícil explicar a morte dum amigo, como é complicado compreender por que alguém se suicida - mesmo que esse alguém estivesse se sentindo velho e desvitalizado ... E a compreensão, depois da morte desse amigo, do quanto gostou dele, cada dia dum jeito diferente, por uma razão diferente ... que é como se gosta e se desgosta de alguém. a morte ecológica > Outros autores alertam para outro tipo de morte ... Wander Pirolli, em Os rios morrem de sede, relata a morte dum rio, onde um homem passou momentos marcantes e significativos de sua infância, que foi assassinado pela poluição... E, com ele, morrem junto as referências, as imagens de sua meninice, das pescarias com o pai ... e a impossibilidade de passar para o filho - Bumba - este rio que era também um mundo limpo, límpido, claro, com peixes, silencioso e atraente... Perdas imensas que interferem na forma e no local em que se desejaria que uma criança crescesse, e nas experiências vitais que ela não poderá ter, pois se matou a natureza e, com isso, também um pouco da natureza do homem ... Werner Zotz, em Apenas um curumim, fala, de modo poético e inventivo, da morte de toda uma cultura - a indígena. E, ao mesmo tempo, da morte da terra, da água, dos bichos e do próprio índio, do desaparecimento de um povo, duma fé, de uma forma de estar no mundo e de acreditar nele... Conta de uma tribo, chamada "povo do riso", que foi morrendo de tristeza pu 112 ra ... Relata a história de um povo em que o respeito pelo outro, a não-exploração do trabalho alheio, o produzir por puro gosto, foi tendo que ser abandonado por conta da contaminação branca... Mostra que tudo falece quando perde a identidade, quando as pessoas esquecem quem foram... E que cada um, como o velho pajé da história, pode morrer feliz e satisfeito quando fez o que devia ter feito nesta terra. A questão não é morrer naturalmente quando chega a hora. É ser exterminada, não uma única pessoa, mas uma civilização inteira, em nome de tirar a terra de seus verdadeiros e legítimos donos, para apossar-se dela. Tantas espécies de vida, tantas possibilidades de morte ... É fundamental discutir com a criança, de modo 113 verdadeiro, honesto, aberto, como isso acontece e como poderia não acontecer ... Compreender a morte como um fechamento natural dum ciclo, que não exclui dor, sofrimento, saudade, sentimento de perda... E também discutir a morte provocada de modo irresponsável, leviano, segundo a lei do mais forte, profundamente injusta, de civilizações, de culturas, de crenças, de bichos, plantas, pessoas... De tudo e todos que fazem parte do mundo e que deixam de fazer por razões não-humanas, não-solidárias, nem progressistas. Já dizia o sempre sábio Guimarães Rosa: "Saudade é ser, depois de ter". LENDO SOBRE AS DIFERENTES FORMAS DE PODER E há todas as questões do poder, do domínio político, Ruth ROCHA t, da autoridade despótica, temas que Ruth Rocha aborda como ninguém em suas quatro histórias de reis. Em Reizinho mandão, trata do poder sem limites, disparatado, temido, que acaba sendo enfrentado e des montado por uma menina, muito da sem medo e sem papas na língua... Em O que os olhos não vêem, se conhece um outro rei, que só enxergava quem era grande, forte, nutrido... e, portanto, jamais via o povo, que não se caracteriza exatamente por essas qualidades ... E o que não via, não sentia... (muito confortável!!!). O povo cada dia mais triste, mais acabrunhado, acaba encontrando uma solução: põe imensas pernas de pau, visíveis ao longe, e assim chega ao real palácio pruma conversa... Mas todos, ministros e assessores - o rei à frente - saem correndo, tremendo de medo, pois é muito difícil governar quem se vê... (muito familiar, muito conhecido de todos nós, não???). Já em O rei que não sabia de nada, é desmascarada com graça e humor uma supermáquina que tudo podia fazer e controlar, o que deixa os ministros felicíssimos ... 114 Ilustração de José Carlos Brito para o livro O que os olhos não vêem, de Ruth Rocha. Rio de Janeiro, Salamandra, p. 16. o, da E quando ela começa a falhar, claro, não avisam o rei so bre o que está acontecendo... E o caos se instala no país; S- mas, para que sua alteza não se inteire disso ao sair em raríssima visita, os dignos ministros rapidamente constroem cenários na frente das moradias populares, maquilam as pessoas pra parecerem saudáveis, enfim, transformam tudo num imenso circo... Mas, de repente, toda essa fachada começa a ruir, e o que estava escondido por detrás surge na sua feiúra e miséria... O rei, apavorado, foge, tenta passar por visitante estrangeiro, se aproxima do povo (sua grande descoberta!!!) e dele escuta que o rei mora muito longe, por isso não pode ver nem ouvir nada... E o povo aposenta a máquina, colocando-a num parque de diversões... Ruth consegue desmascarar os problemas mascarados, a enganação geral que é montada, mas que um dia desmonta.- e mostrar que não se pode governar quando se está muito distante a do povo, das cidades, do que acontece em cada casa, em ia cada lugarejo... Pois, se assim for, nem precisa tentar passar por estrangeiro: já é um, de fato! IIS Sapo vira rei vira sapo, de Ruth Rocha. Ilustrações de W'alter Ono. Rio de janeiro, Salamandra, p. 28-9. E em Sapo vira rei vira sapo, Ruth Rocha conta de como uma menina é atormentada por um sapo para que lhe dê um beijo... E, quando consegue, vira rei. Daí que, tomando o poder, ele começa a fazer leis disparatadas e enlouquecidas, pondo a mandonice à solta... Histérico, manda prender todas as verdades circulantes, exige que fiquem embrulhadíssimas e assim, empacotadas, as manda pro sótão palacial ... Mas as verdades escapolern, fogem, começam a aparecer em todos os cantos, e soldados são postos a correr atrás delas, feito baratas tontas ... Mas as verdades se espalham, chegam até as pessoas. Por isso, o augusto rei manda prender todo mundo, e as pessoas vão se amontoando, se amontoando ... E enquanto isso, no aperto geral, as verdades espremidas vão saindo, rachando o palácio, explodindo tudo... Mas, atenção, sempre pode reaparecer numa estrada um novo sapo, pedindo um novo beijo pra alguma menina, e daí pode tudo recomeçar... (um texto divertido, rimado, solto, fluente, que questiona todos os passos, temores, prisões, afunilamentos, descontroles, que acontecem com os reais poderes quando eles não têm limite para nada... e em Que linhan, f omcc:,run :, ron~nr 1',¡iu ln,n ia iuntú ~ 1~,e nüu'emlam in: i~ n;uia. Poh Já r,tnc:+m n.. pri,:m 1 t j s '010 108 T-1o mundo foi entrando 1'sre u imlâdo rt;ul. Foram subindo um 0~ 5 Paru u s~O Imperial: H lp foram se ~semeado Se gjeitanew mal e a tal. WS - pli ililw Du eunçao que eiea ~Wva,n Pulavam mulwn venladea. Que se expremium no %~0 Com Kraude dificuldade. Que cMUra tudo ala cheio Que era uma japrparldnde.: 116 pacotam tudo e todos os que incomodam e, por isso, se tornam ameaçadores ... ). O povo - do qual as crianças fazem parte - pode encontrar soluções: usar pernas de pau para se agigantar e ser visto, demolir cenários de faz-de-conta, cochichar e espalhar verdades, ter coragem individual pra dizer o que precisa ser ouvido e mil outras soluções... Não, não é preciso fazer nenhuma catequese politicóide com as crianças. Mas discutir com elas, sem medo, esse poder circundante, que pode ir do palácio real até a sala da diretora da escola, passando pela porta do síndico do prédio ou por qualquer outra que se arvore em autoridade de plantão, com poderes ilimitados para tudo e sobre todos. Quem manda, quem é mandado, em nome de quê? Por quanto tempo? Quem escolhe os assessores (secretárias / zeladores) e com que extensão de poderio, de mando? Como se perpetua um poder (rei / pai / professora / polícia ... ) quando mente, ludibria, não olha na cara seus comandados, se recusa a ouvir, a ver, a saber? Quais são os compromissos com a verdade que essa autoridade tem - e como fica quando embaralha, empacota, embrulha as verdades, com medo de saber, de ser informado e de informar? O poder está muito, muito próximo da vida de cada um ... Como participante duma família, como cidadão dum país, como aluno duma escola, como jogador dum time de futebol, como membro da turma ou do grupo de escoteiros. Em cada uma dessas situações e em dezenas de outras se vive a autoridade, o autoritarismo, a liberdade de opinião, o direito de participação., a recusa ou negativa a se envolver, dependendo de como cada um percebe, se aproxima, questiona, aplaude esse poder e se submete a ele... O limite não é dado apenas por quem manda: também o é pelo que refuta ou recusa, o que faz com que as regras do jogo se perpetuem ou se modifiquem... Depende de como se analisa e se comporta cada um em relação a ele. Há tantas e tantas verdades para a criança se inteirar de modo bonito, poético, crítico, irônico, envolvente ... A questão, parece, é não sonegá-las, não encobri-Ias, não disfarçá-Ias ou diminuir sua importância... Ou refletir junto com Dom Hélder Câmara, quando diz: 117 Mil razões para viver, de Dom Hélder Câmara. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira. As verdades vivem e sofrem Importante e urgente como libertar criaturas humanas de prisões inumanas é ir em socorro de verdades prisioneiras de sistemas de idéias que as retêm e asfixiam. Ou quando ele mesmo reivindica condições para que haja uma ampliação da visão que a criança tem do mundo, pelas quais deveriam se responsabilizar todos aqueles que se preocupam com a formação do ser humano: Se eu pudesse dava um globo terrestre a cada criança... Se possível até um globo luminoso, na esperança de alargar ao máximo a visão infantil e de ir despertando interesse e amor por todos os Povos, todas as Raças, todas as Línguas, todas as Religiões!... 118 Se maravilhando com os contos de fadas OS CONTOS DE FADAS VIVEM ATÉ HOJE... Vera Teixeira de Aguiar, em posfácio da coleção Era uma Vez (contos de Grimm), edição para crianças com bibliografia de apoio para professores. Porto Alegre, Kuarup. Quem lê "Cinderela" não imagina que há registros de que essa história já era contada na China, durante o século 1X d.C. E, assim como tantas outras, tem se perpetuado há milênios, atravessando todas as geografias, mostrando toda a força e a perenidade do folclore dos povos. Por quê? Porque os contos de fadas estão envolvidos no maravilhoso, um universo que detona a fantasia, partindo sempre duma situação real, concreta, lidando com emoções que qualquer criança já viveu ... Porque se passam num lugar que é apenas esboçado, fora dos limites do tempo e do espaço, mas onde qualquer um pode caminhar... Porque as personagens são simples e colocadas em inúmeras situações diferentes, onde têm que buscar e encontrar uma resposta de importância fundamental, chamando a criança a percorrer e a achar junto uma resposta sua para o conflito ... Porque todo esse processo é vivido através da fantasia, do imaginário, com intervenção de entidades fantásticas (bruxas, fadas, duendes, animais falantes, plantas sábias ... ). Ou, como bem explica Vera Teixeira de Aguiar: "Os contos de fadas mantêm uma estrutura fixa. Partem de um problema vinculado à realidade (como estado de penúria, carência afetiva, conflito entre mãe e filho), que desequilibra a tranqüilidade inicial. O desenvolvimento é uma busca de soluções, no plano da fantasia, com a introdução de elementos mágicos (fadas, bruxas, anões, duendes, gigantes etc. ). A restauração da ordem acontece no desfecho da narrativa, quando há uma volta ao real. Valendo-se desta estrutura, os autores, de um lado, demonstram que aceitam o potencial imaginativo infantil e, de outro, transmitem à criança a idéia de que ela não pode viver indefinidamente no mundo da fantasia, sendo necessário assumir o real, no momento certo". POR LIDAR COM CONTEÚDOS DA SABEDORIA POPULAR, COM CONTEÚDOS ESSENCIAIS DA CONDIÇÃO HUMANA, É QUE ESSES CONTOS DE FADAS SÃO IMPORTANTES, PERPETUANDO-SE ATÉ HOJE... 120 Daí que haver numa história fadinhas atrapalhadas, bruxinhas que são boas ou gigantes comilões não significa - nem remotamente - que ela seja um conto de fadas... Muito pelo contrário. Tomar emprestado o nome das personagens-chaves desses contos não faz com que tos essas histórias adquiram sua dimensão simbólica ... A e 0 MAGIA NÃO ESTA NO FATO DE HAVER UMA FADA JA ANUNCIADA se NO TÍTULO, MAS NA SUA FORMA DE AÇÃO, DE APARIÇÃO, DE a COMPORTAMENTO, DE ABERTURA DE PORTAS... ore Acontece igualzinho quando se lêem adaptações, Gados nalizações, suavizações, alterações etc ... Cada elemento ar- dos contos de fadas tem um papel significativo, imporM tant-íssimo e, se for retirado, suprimido ou atenuado, vai s_ impedir que a criança compreenda integralmente o con- to ... Por isso se condena tanto o que Walt Disney fez ca- com os contos de fadas ... Ao adocicá-los, pasteurizá-los, as ao,retirar-lhes os conflitos essenciais, tirou também toda ar a sua densidade, significado e revelação ... O mesmo va le para tantas edições brasileiras - nada confiáveis -, pois se trata muito mais de uma adaptação ao gosto do encarregado da tarefa (que não é o autor), do que de uma n- leitura rica e bela do original... (não basta conservar o título, se não se mantém a integridade da história). Se o adulto não tiver condições emocionais para con tar a história inteira, com todos os seus elementos, suas de facetas de crueldade, de angústia (que fazem parte da vida, senão não fariam parte do repertório popular-), então é melhor dar outro livro para a criança ler ... Ou esperar o momento em que ela queira ou necessite dele e que o adulto esteja preparado para conta-lo ... De qualquer modo, ou se respeita a integridade, a inteireza, a totalidade da narrativa, ou se muda de história... (e isso vale, aliás, como conduta para qualquer obra literária, produzida em qualquer época, por qualquer autor ... Mutilar a obra alheia, acho que é um dos poucos pecados indesculpáveis ... ). Os contos de fadas são tão ricos que têm sido fonte de estudo para psicanalistas, sociólogos, antropólogos, psicólogos, cada qual dando sua interpretação e se aprofundando no seu eixo de interesse ... Bruno Bettelheim, um de seus estudiosos mais importantes e fecundos, é quem alerta: 121 Os psicanalistas encontraram nos contos de fadas uma fonte muito rica para estudos e interpretações do comportamento e anseios humanos. A psicanálise dos contos de fa das, de Bruno Bettelheim. Rio de Janeiro, Paz e Terra. "Explicar para uma criança por que um conto de fadas é tão cativante para ela, destrói, acima de tudo, o encantamento da história, que depende, em grau considerável, de a criança não saber absolutamente por que está maravilhada. E ao lado do confisco deste poder de encantar vai também uma perda do potencial da história em ajudar a criança a lutar por si só e dominar exclusivamente por si só o problema que fez a história estimulante para ela. As interpretações adultas, por mais corretas que sejam, roubam da criança a oportunidade de sentir que ela, por sua própria conta, através de repetidas audições e de ruminar acerca da história, enfrentou com êxito uma situação difícil. Nós crescemos, encontramos sentido na vida e segurança em nós mesmos, por termos entendido ou resolvido problemas pessoais por nossa conta, e não por eles nos terem sido explicados por outros. '' PERRAVL-r - :FRANçA - 0628 - 1X03) ,0 I.,,ay"1 1 ro 7ACCM3 (1 85 -1863) s. WILitELM (1486 485q) GRIMM - ALEMANHA 4t, R- - 4812 2°- cre~.t~nnM- - 4 $ 4 5 +4AN,5 C*R1STiaN ANDF-RSCN - DINA MARGA - 4805 - 48 fi`5 ~~t _1° - 1835 Charles PERRA ULT (1628-1703) Escritor e arquiteto francês célebre pela coletânea para crianças Contos da Mãe Gansa que publicou em 1697, com o nome de seu filho Perrault d'Armancour. Os autores mais famosos desses contos são citados a seguir: Perrault, um erudito e acadêmico francês, é autor de vários livros para adultos, tornando-se célebre e imortal 122 por seu único volume de contos para crianças. São histórias recolhidas junto ao povo, respeitando o que tivessem de cruel, de moral própria e de poético. Muitos de seus contos foram também recontados pelos irmãos Grimm, mais de um século depois, mas com menos qualidade literária. Jesualdo assim fala deles: -Os contos de Perrault são apenas fragmentos e documentos dessa história poética que todos os povos possuem, mas que não foi escrita... Mistura a criação popular à sua imaginação de escritor, dando detalhes e minúcias reais nos contos encontráveis e característicos de sua época. São obras-primas". Os irmãos Grimm, Jacob e Wilhelm, foram estudiosos, pesquisadores, que em 1800 viajaram por toda a Alemanha conversando com o povo, levantando suas lendas e sua linguagem e recolhendo um farto material oral que transcreviam à noite ... Não pretendiam escrever para crianças, tanto que seu primeiro livro não se destinava a elas... Só em 1815 Wilhelm mostrou alguma preocupação de estilo, usando seu material fantástico de forma sensível e conservando a ingenuidade popular; a fantasia e o poético ao escrevê-lo. Andersen é filho do povo, e seus contos brotam de sua própria infância. Dele diz Jesualdo: -Nele o maravilhoso é a sua própria alma e seu mundo inteiro, seu mundo vivo, produto de sua própria vida. É o poeta da infância". OS CONTOS DE FADAS FALAM DE MEDOS... Como num dos contos de Grimm, deliciosamente traduzido por Ana Maria Machado, "O homem que saiu em busca do medo" (está no volume Chapeuzinho Vermelho e outros contos de Grimm). É a saborosa história de um rapaz que quer aprender a se arrepiar e para isso enfrenta monstros, fantasmas, mortos, mas que continua não sentindo o ambicionado calafrio ... Depois de mil tentativas das mais tenebrosas e desafiantes, descobre que só sente arrepios quando lhe fazem cócegas ... (mostrando que o que pode provocar o medo é diferente 123 a JESUALDO, educador uruguaio. Irmãos GRIMM Os alemães jacob Grimm (17851863) e Wilhelm Grimm (17861859) foram os iniciadores da filologia germânica e são famosos por seus Contos, recolhidos da tradição e lendas populares. O Romantismo alemão, do qual são representantes, evoluiu no sentido de um maior interesse pela criação imaginativa e pelo domínio da cultura popular nacional. Eles se voltaram para o fantástico, e a simples narração é envolvida por uma atmosfera poética. Manna COLASAN77 Jorge Luís BORGES (1899-1986) Escritor argentino, autor de poemas, contos, novelas e ensaios, para adultos. É autor, entre outras, das obras Fervor de Buenos Aires (poesia) e Ficções (contos). para cada um, conforme o que percebe, o que enfrenta, o que o assusta de verdade ou não ... ). Diferente do medo que sente a mãe de Chapeuzinho Vermelho, que não quer que ela atravesse uma parte da floresta ou ande por caminhos onde poderia encontrar o lobo (que pode leva-la a outras experiências, à descoberta dos desejos sexuais, que a mãe teme que a filha viva ... ). D Ou dos medos que Marina Colasanti, uma autora brasileira dos dias de hoje, aponta, em seus dois lindos livros de fadas, Uma idéia toda azul e Doze reis e a moça do labirinto de vento ... Medo dos silêncios imensos que acabam abafando o grito, ou então aquele medo que a procura do rosto do amado escondido atrás duma máscara, mesmo tendo sido solicitado que ela nunca fosse retirada, acaba revelando e provocando, ao não ser o pedido respeitado - um momento de horror... Pois a personagem, tal como o poeta Jorge Luís Borges, deve ter pensado: "A curiosidade pôde mais do que o medo e não fechei os olhos". Ou, como nos conta Andersen, em -Os sapatos vermelhos", que é a história da menina Karen, bonita, delicada, pobre, descalça no verão e com imensos e pesados sapatos de madeira no inverno que a incomodam muito ... Quando fica órfã, é recolhida por uma velha senhora e tanto faz que consegue engana-la para que lhe compre sapatos vermelhos - tão lindos, tão cobiçados, tão desejados... Sapatos que parecem de baile e que fazem com que ela dance, dance e dance sem poder parar, sem conseguir retira-los dos pés... E recebe ordens categóricas, dum anjo, para não parar, e por isso segue bailando, coberta de sangue, pois se movimenta sobre árvores, espinhos, tocos de madeira, cada vez mais exausta, mais dolorida ... E quando o anjo ressurge, pede a ele que não a degole, apesar de ser culpada, mas que lhe corte os pés e assim, com pernas de pau e muletas, ela caminha ... Inválida, doente, descobre ter sido perdoada e abençoada pelo anjo, pelas pessoas da aldeia, e nunca mais pergunta pelos sapatos vermelhos ... (medo da pr~c'pria cobiça, medo_ do, desejo, medo da culpa que o anseio seja atendido e a escravize para sempre... medo de que a posse do desejado - para quem nunca teve nada -- seja objeto de dor, de desconforto, de autodestruição 124 e de obediência cega, sem poder nunca parar, relaxar ... e só abandonando seu sonho, só abrindo mão dele é que ficará em paz, amparada... Há muito o que trabalhar com a criança ao lhe contar essa história e discutir as culpas envolvidas.) Pois medos - os mais variados - estão presentes no cotidiano de todos... Medo de escuro, de injeção, de cachorro, de lobisomem, de ladrão ... Medo de dentista, de ser reprovado na escola, de levar cascudo, de encontrar um vampiro ou ter que enfrentar a polícia ... Temores reais ou imaginários relacionados à escola, temor dos mais fortes, dos que agem nas sombras ou a descoberto, das punições da Igreja, do grupo, do próprio ridículo... Medos com os quais todos convivem, dum jeito ou de outro, numa intensidade ou noutra, que se aprende a enfrentar, a desviar, a superar, a substituir, com os quais se aprende a conviver ou a lidar... OS CONTOS DE FADAS FALAM DE AMOR... E sobre o amor então, em todas as suas dimensões, sofrimentos, descobertas, encantos, possibilidades, entregas e plenitudes, início e término ... quanto esses contos de fadas não nos revelam? ... Andersen alerta, com humor, em "O menino mau - que é como chama Cupido (deus do amor, nna mitologia grega) - para a malvadeza desse garoto, que flecha o coração das pessoas, fazendo com que se apaixonem, se amem... Em "O soldadinho de chumbo", conta poeticamente a história de um soldadinho de brinquedo, com seu fuzil ao ombro, apaixonado por uma pequena, linda e delicada bailarina que mora num belo castelo de papel (os dois, junto com outros brinquedos, vivem num cômodo da casa ... ). Depois de ter sido posto num barco de papel pelos meninos, ter navegado, quase se afogado, ter sido comido por um peixe, volta para casa; é quando um dos garotos, num único gesto, o joga na lareira, onde o soldadinho se derrete olhando a suave 125 Hans Christian ANDERSEN (1805-1875) De nacionalidade dinamarquesa, seu pai era sapateiro e rua mãe lavadeira. Sua vida foi como seus contos de fadas, onde meninos e meninas pobres passam por terríveis humilhações e, como por magia, chegam a experimentar situações maravilhosas. Obteve fama pelo seu trabalho ainda em vida. O Romantismo da época, com seu entusiasmo pelas tradições e lendas populares, provocou a aparição de amplo repertório de contos, onde o lirumo se alterna com o grotesco, e o encanto oferece faces dramáticas. Pela emoção, fantasia e lirismo de seus Contos, Andersen tem encantado várias gerações de crianças e adultos. bailarina que, num único passo, voa também para dentro da fogueira... `'O soldadinho se derreteu, transformando-se numa bolinha de chumbo, e quando, no dia seguinte, a criada tirou as cinzas, viu que a bolinha tinha a forma de um coraçãozinho de chumbo. Da bailarina só restava a lantejoula queimada, preta como carvão. " Meio que faz queimar também o coração do leitor sentir que a morte do amado pode levar ao suicídio a amada e que, dessa relação de encantamento mútuo, feita através de olhares, fica um símbolo forte e indestrutível: a marca do sentimento... i Ilustração de Vilb. Pedersen e Lorenz Frolich para o conto "O soldadinho de chumbo ", extraída do livro Contos de Andersen. Rio de janeiro, Paz e Terra, p. Isz. É o mesmo poético, delicado e sensível Andersen quem nos conta a triste e bela história ` `A pequena sereia" (ou "Sereiazinha"), passada em lugares encantados e mágicos do fundo do mar, na suntuosidade e opulência de alguns castelos da terra, e em mares, ilhas, grutas... E, entre esses cenários, a sereiazinha vive, cresce, descobre as dores, o sofrimento, as renúncias, o peso das resoluções e das escolhas, a morte que um grande amor causa, tudo tão intensamente vivido por ela, em seu imenso e totalizante amor pelo príncipe... Uma das histórias mais lindas e mais tristes escritas para crianças em todos os tempos... O pensar que se pode cortar uma cauda imensa, transformá-la em delicados e martirizados pés humanos, por amor... E por amor conseguir estar ao lado do amado, mesmo que - por isso - perca a imortalidade (que a sereia possui), tornando a morte próxima... (como o Chê Guevara, com ataques de asma vio 126 lentos e dolorosos, embrenhado em selvas que não eram as da sua pátria, mas as da sua verdade, de valer o sacrifício, a entrega, a morte...). E Marina Colasanti que, no conto "Um espinho de marfim", mostra um amor absoluto entre uma princesa e um unicórnio ... a partir da querência, das aproximações e da incorporação dum todo sensoriál (ele tinha cheiro de flor porque comia lírios), a escritora descreve situações de maravilhamento, de entendimento silencioso e desliza pelo espaço almejado até chegar à plenitude, finalmente alcançada, do amor integralmente vivido, seguido da morte, no cumprimento da promessa feita ao pai (que pode não significar exatamente a morte, mas o final dum ciclo, duma relação, duma cumplicidade não mais compartilhada, ou um afastamento por pressões de outros ... ). 127 Ilustração de Marina Colasanti para o seu livro Uma idéia toda azul. Rio de janeiro, Nórdica, p. 24-5. OS CONTOS DE FADAS FALAM - E COMO! - DA DIFICULDADE DE SER CRIANÇA... James BARRIS (1860-1937) Romancista e autor dramático escocês que criou Peter Pan. Escreveu, em 1904, a peça para adultos Peter Pan, the boy that wouldn't grow up e, em 1906, o conto "Pelei- Pan in Kensington Gardens ". E de 1911 a versão infantil, que tem o título de Pe ter Pan and Wendy. Os irmãos Grimm recolheram histórias e histórias sobre esse assunto. Umas mostrando o quanto há de sabedoria inata, rápida, perspicaz na criança, como em ' `O menino pastor" ... Outras, o quanto a criança é pequena, única e, por isso, tão especial, como em "O pequeno polegar", que quer sair pelo mundo para viver suas próprias experiências e depois voltar, celebrando, numa espécie de renascimento ... Uma criança que é inteligente, viva, e que - como todas as outras - num primeiro momento é ativa, incansável, infatigável, canalizando toda a sua energia para o mundo exterior, para fora; e numa segunda etapa - como acontece com todas - se volta para si mesma, querendo se conhecer, se saber... E Peter Pan, a linda narrativa de James Barrie, escrita por este escocês em 1904, que continua - até hoje - encantando os corações de gentes de todo o mundo ... Que conta desse menino simpático, corajoso, que luta espada como se fosse o demônio, que sabe voar, brigar, tomar conta de si e de todos os outros meninos perdidos da Terra do Nunca... Que fugiu de casa no dia em que nasceu, ao escutar uma conversa de seus pais sobre como seria quando crescesse ... (Ah, ele não queria crescer, ser adulto. Queria ser para sempre um menino!) Que vive em companhia das fadas, até que a fada Sininho fica - para sempre - com ele. E se ele perde sua sombra na casa de Wendy, se com ela e seus irmãos - a quem ensina a voar - vai para a Terra do Nunca, se lá constrói uma casa, se se deleita no Lago das Sereias, se vê o ataque dos piratas aos índios, se luta valentemente contra o pior de todos - o capitão Gancho -, se nota a fada Sininho tomando o veneno que era a ele destinado e a vê também com ciúme, disputando suas atenções com Wendy, se com ele tudo acontece, num sem-fim de peripécias emocionantes, ele também diz: "Há muitas crianças que não acreditam em fadas. Quando um garoto ou uma garota diz: Eu não acredito em fada' - morre uma fada. "... E por isso, quando Sininho está morrendo, ele pede a ajuda de 128 `.'~ ~a i¡J¡i ral fl!itrli'Ìf'i¡~! !` .' é.. j(~y. 40ly o Ilustração de Ricardo Leite para o conto "O menino pastor", ex traída do livro Branca de Neve e outros contos de Grimm. Rio de janeiro, Nova Fronteira, p. 90. todas as crianças do mundo para salvá-la... E consegue! Ele que quer ser para sempre um menino, permanece amigo de Wendy enquanto ela é criança, visitando-a sempre, mesmo quando ela já voltara a Londres ... Quando ela se torna adulta, ele nunca mais aparece ... (para continuar sendo menino, ele sabe que é necessário acreditar na existência das fadas e não permitir que elas morram... E a fé, a crença, dum período da vida!). Como é necessário acreditar na vinda do Papai Noel e nos presentes trazidos por ele, nos três desejos que podem ser concretizados pela lâmpada de Aladim ou nos superpoderes do Super-Homem, que podem brecar qualquer catástrofe que esteja ameaçando a Terra... A 129 criança sabe que é pequena, fraca, frágil, e que, para enfrentar os desígnios adultos, só imaginando que outras forças estarão a seu lado, protegendo-a e facilitando o confronto (em geral, com cartas marcadas ... ). Aliás, pelo sim, pelo não, adultos bem crescidos andam com seus amuletos, com suas fitas de pedidos e desejos, invocam proteção daqueles nos quais crêem, realizam seus pequenos ritos para que nada de mal aconteça à sua casa etc ... Pois, como alerta compadecidamente Dom Hélder Câmara: Tem pena Senhor Tem carinho especial com as pessoas muito lógicas muito práticas muito realistas que se irritam com quem crê no cavalinho azul. Em termos das afirmações feitas, das provas enfrentadas para confirmar tantas desconfianças manifestadas tantas vezes pelos mais adultos e/ou mais poderosos, é que se lêem tantas e tantas narrativas ... Assim, no volume intitulado Branca de Neve e outros contos de Grí~ (seleção e tradução de Ana Maria Machado) há várias histórias que envolvem três filhos - sendo o menor o João Bobo, tido por todos como um idiota completo - e o pai, que coloca os filhos em disputa, preparando sempre provas difíceis ou até impossíveis para que eles as vençam ou tragam a resposta pedida e, assim, ele possa concretizar sua promessa de herança (ou, no caso de um rei, dar a filha em casamento)... E é invariavelmente o João Bobo (em todas as diversas narrações) quem acaba vencendo, por ser mais generoso, mais bondoso, menos preconceituoso, mais atento às pessoas ou animais, menos arrogante, enfim, mais aberto e disponível, como é a criança menor... É aquele que sempre - apesar de lesado e não levado a sério - aceita o terceiro desafio, a terceira condição, a terceira pena... E acaba por triunfar, conseguir o que fora prometido e se sair muito bem no exercício de suas novas funções ... 130 S Ilustraçdo de Ricardo Leite para o conto ' `0 ganso de ouro-, extraída do livro Branca de Neve e outros contos de Grimm. Rio de janeiro, Nova Fronteira, p. 26. Perrault, ao recontar com todo o seu talento a história da Cinderela (às vezes conhecida como Borralheira ou Sapatinho de Vidro ou Gata Borralheira), nos faz viver as desventuras e os infortúnios dessa enteada menosprezada, sem direitos e só com trabalhos pesados a cumprir... E, quando chega o momento do baile no castelo, ao qual ela tanto desejava ir (como as irmãs e todas as moças da região), é impedida. Só com a vinda da fada Madrinha é que a possibilidade surge. Ela lhe dá instruções sobre onde encontrar o necessário: a abóbora, que se transformará numa carruagem dourada, os seis camundongos vivos, que virarão formosos cavalos - um deles, o mais bigodudo, será o cocheiro... - e os lagar 131 tos, que Cinderela apanha no jardim, que se transformarão em elegantes lacaios. A roupa, duma beleza indescritível, é conseguida com um simples toque da fada... No baile (quem pode se esquecer de tanto maravilhamento e encanto juntos???), com ela radiante e bela e ele - o príncipe - fulminantemente seduzido, ao dar meia-noite (horário-limite imposto pela fada ... ) ela sai correndo, pois tudo voltará à antiga forma... Só fica o sapatinho de cristal, prova de sua existência e identidade, que será experimentado em todas as moças do reino, até que seja encontrada a verdadeira dona, a única em cujo pé cabe o delicado sapato... (há que se provar quem se é, mesmo que seja através de algo que se conseguiu magicamente ... ). Ainda é Perrault quem nos relata as vicissitudes da Pele de Burro (ou Pele de Asno), história em que um pai viúvo acaba se apaixonando pela própria filha. Cada vez mais desesperada e constrangida, ela tenta frear seus ímpetos, pedindo-lhe coisas aparentemente impossíveis, mas que ele consegue rapidamente pela força e ameaças que faz a seus comandados... Desesperada, ouve os conselhos da sua fada protetora e foge escondida dentro duma pele de burro, suja, encárdida, feia... causando pena e horror em quem a vê... Acaba indo trabalhar como serviçal numa granja, onde é ridicularizada por todos o tempo inteiro ... Um dia, trancada em seu quartinho, se desfaz do pesado disfarce e é vista por um príncipe, que se apaixona por ela instantaneamente. Um anel que ela possuía vai parar num bolo que o príncipe come, e ele, tomando o anel nas mãos, faz com que todas o experimentem... Em nenhum dedo, de nenhuma moça - da corte ou do povo -, ele entra... Afinal, a chamam e, para espanto geral, o anel desliza em seu dedo com a maior facilidade... Ela se afasta, troca de roupa e surge majestosa e lindíssima. Se casam... O pai reaparece, arrependido, e a abençoa... (tanto o que afirmar como pessoa, tanto o que viver de aflição e angústia, tanto o que provar através de disfarces deformadores e horríveis, tanto o que comprovar com sua mão de princesa, tanto o que sofrer para impedir o incesto e tanto o ter que lutar para demonstrar aos outros e voltar a ser quem sempre foi, continuando a viver sua verdadeira vida). 132 OS CONTOS DE FADAS FALAM DE CARÊNCIAS... Como em " Joãozinho e Mariazinha", contada pelos irmãos Grimm, onde dois irmãos vivem problemas de carência: de comida (pela pobreza) e de afetividade (a mãe tinha morrido). Além disso, a madrasta quer que eles sejam abandonados (separando a família) numa imensa floresta, onde terão que enfrentar sozinhos um mundo desconhecido, para o qual ainda não estão maduros. E, só chegando à casa de chocolate da bruxa (que simboliza fartura) é que encontram a solução para seus conflitos, suas dúvidas, pensando e agindo em conjunto (a experiência vivida e dividida faz surgirem outras soluções e novos encaminhamentos). Ou na tão triste ' `A menina dos fósforos", narrada por Andersen. Tremendo de frio, de fome, numa terrível e gélida noite de Ano Novo europeu, vendo as luzes, a comida, as árvores alegres de Natal em todas as casas por onde vai passando, a menina só tem nas mãos uma caixinha de fósforos para vender... E, querendo ver melhor todo aquele mundo, querendo se aquecer mais, vai acendendo um a um seus fósforos, e cada pequena chama a faz imaginar coisas bonitas, boas, iluminadas, maravilhosas, até que recebe o abraço de uma avó - já morta - que a leva para as alturas, para junto de Deus, onde não há fome, frio nem medo. Tão parecido com nossos pivetes, com nossas crianças esfomeadas, vendendo seus objetos em esquinas e praças, de dia ou de madrugada, querendo também - como qualquer criança - comida, agasalho, proteção, teto ... querendo estar dentro duma casa e não apenas enxergando seu interior pela janela e sendo protagonistas de uma situação social injusta, cruel, desumana... Querendo ser recebidas com carinho, com amor, por sua família - como acontece com aquelas mais ricas - e desejando apenas que isso suceda enquanto ainda estão vivas, e não depois de sua morte ... 133 /lustração de iVilh. Pedersen e Lorenz Frolich para o conto "A menina dos fósforos ", extraída de Contos de Andersen. 3. ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, p. 355, ia OS CONTOS DE FADAS FALAM DE AUTODESCOBERTAS.. . Ilustração de iVilh. Pedersen e Lorenz Frolich para o conto "O patinho feio ", extraída do livro Contos de Andersen. Rio de Janeiro, Paz e Terra, p. 240. E da descoberta da própria identidade, o que é fundamental para o crescimento ... Quantas histórias a ler e a compreender em vários desses contos de fadas ... Andersen, em "O patinho feio" (que tem muito de autobiográfico), conta dum patinho que desde o nascimento foi maltratado, ridicularizado, bicado (por outros patos e galinhas) por ser feio... Rejeitado pela mãe, pelos irmãos, foge e continua sendo martirizado e desprezado, por sua feiúra, por todos os que encontra em sua triste e melancólica caminhada... E foge novamente, cada vez mais assustadiço, nunca compreendido (inclusive pela velha com quem mora por um tempo). Fugindo de novo, atravessa um frio gélido e finalmente se aproxima duma lagoa plácida, onde deslizam belos cisnes, que não só o reconhecem - de imediato - como um dos seus, mas ainda o elegem o mais belo e formoso dentre eles! A mesma história vem sendo contada e recontadapor Ziraldo, em Flias, por André Carvalho, em Dourado, e por tantos mais que falam da difícil, da árdua, da angustiante caminhada de quem se sente feio ou diferente, e é tratado assim pelos demais - por não saber quem é, por se desconhecer... 134 E que se encontra em alguns contos da Marina Colasanti, como aquele que enfoca uma personagem que busca seu próprio reflexo perdido ou outro a respeito de -alguém que precisa cortar as árvores e arbustos que compõem e fecham todo um labirinto para poder sair dele livremente, com todo o espaço pela frente... O poder se encontrar, se conhecer, depois de ter sido patinho feio, que só se percebe cisne após descobrir sua identidade (o qur significa percorrer uma trajetória longa, difícil e muito sofrida... ). Aí a belezura é total!!! É então que nos sentimos capazes de enfrentar o dragão, o gigante, o ogro, o monstro, ou o nome que tenha no nosso dia-a-dia, enfim, aquele que pensamos ser maior ou desconhecido, ou inatingível, ou cercado de forças inabaláveis e poderosas... e descobrir que podemos enfrentá-lo, como o Joãozinho Pé de Feijão, e vencê-lo (como todos os heróis dos contos populares). A questão é descobrir quem somos, perceber o quanto podemos, saber com quem contamos e o quanto desejamos (seja o que for) nos colocar em campo e lutar contra o adversário (e sempre por uma justa causa... conforme nossos valores, nossa percepção, noção de justiça ou injustiça etc. ). OS CONTOS DE FADAS FALAM DE PERDAS E BUSCAS... Falam também de abandonos, de esquecimentos, de quem um dia foi significativo, marcante, mas que, por várias razões (até mesmo a morte) já não toca ou comove ... Andersen conta isso linda. triste e poeticamente em "O pinheirinho", uma bela árvore abandonada, relegada, após ter vivido uma experiência inesquecível numa noite de Natal, e que a cada novo dia espera um novo momento belo e cálido, um novo aconchego, uma nova audição de histórias emocionantes à sua volta, que nunca acontecem... Ao ser levado para fora da casa, imagina um recomeço de vida. Mas é cortado, transformado em lenha e gemendo, gemendo ... vai sendo 135 queimado... (como permitimos que aconteça com nossos avós, nossos sábios, nossos antigos ídolos - seja o Garrincha ou a cantora Dalva de Oliveira - deixando que nossas lembranças, gemendo, sejam picadas, queimadas e sepultadas ... ). E falam também de crescimento, de buscas... Perrault nos relata a tão bela e tão cheia de significados história da Bela Adormecida, que dorme por 100 anos por conta duma maldição atenuada (deveria morrer) e que será despertada pelo filho dum rei... Seu sono se iniciaria no momento em que espetasse a mão num fuso, e, apesar das providências tomadas pelo pai para que nunca os encontrasse, aos 15 anos isso acaba sucedendo ... Assim que o sangue respinga, a princesa fica respirando levinho e é posta num belo aposento do castelo, adormecida em toda a sua beleza. A fada boa toca em todos com sua varinha de condão e os adormece, para que acordem juntos. O mato cresce instantaneamente, afugentando os intrusos. E por décadas correm lendas sobre esse castelo. Um príncipe, ouvindo dum velho camponês a verdadeira história, vai até lá; sentindo-se predestinado, arma-se de coragem e atravessa todos os obstáculos ... Chegando ao quarto da princesa, se ajoelha, cheio de admiração, a beija, e o encantamento se desfaz. Eles vivem juntos por dois anos, tendo tido dois filhos, embora o casamento só se torne público com a morte do rei, pai do príncipe ... E o novo rei vive feliz com sua mulher e filhos ... Toda a puberdade, a consciência dos desejos, da sexualidade, o pai querendo impedi-Ia e preferindo um sono secular para afilha... o ser despertada pelo príncipe, acordada para uma nova vida, onde rapidamente se faz mulher (pois procria). E ele, também, ao buscar uma mulher com quem tem filhos, mas não admitindo que o mundo saiba dessa relação... Uma história que mexe com conteúdos emocionais, sexuais, sociais ... Que fala de apetites e de impedimentos vitais, que podem apenas ser retardados, adiados ... Mas que um dia são acordados, despertados... e querem ser satisfeitos. E o querer ter um Gato de Botas, que percorra sete léguas - como o Marquês de Carnavas -, que nos leve para longe, para outras terras, outras paragens, para fora, pruma nova vida (seja onde for...). E talvez desco 136 brir, como o poeta Antonio Machado, que: -Carrminhante,/não há caminho/Se faz o caminho ao andar". (Não é também o que buscavam os hippies há não muito tempo, durante os anos 60??) E imaginar que se pode romper, transgredir, modificar algo no cotidiano massacrante, ou então nas ciências, nas artes, na política, na moda... Não importa se para dar uma mexida em si próprio, se para mobilizar os outros, ou tentar outras formas de ser, agir, estar no mundo ou construir uma vida mais vivível, mais bonita, melhor... Seremos então a Bela que descobre amar mesmo a Fera (reconhecendo nossos instintos primeiros e nossos preconceitos estreitadores e vitalmente impedidores de sermos, nos dar, receber, e nossos estereótipos ao rotular pessoas, que nos afastam delas e de tudo o que teriam a oferecer... ), ou propondo todo um novo enfoque para o corpo, através de alimentação, atividades físicas... Esses contos de fadas nos falam de traições, de temores, de juramentos, de sentimentos de perda, de infidelidades, de carências, de abandonos, de esquecimentos ... De que, às vezes, os irmãos, os familiares próximos, são maus, perversos, injustos, vingativos e que a ajuda pode chegar através de desconhecidos (raposas, rãs, velhos, fadas, duendes), de desafios terríveis que têm que ser enfrentados (remover montanhas, encarar ogros, trabalhar como escravos), de prisões, de amor... Falam de tristezas, de desconfortos, de revelações, de sexualidade... Nos falam da vida e da morte, de ciclos que se iniciam e que se fecham ... Nos falam da dificuldade de ser criança ou jovem, de como é preciso provar nossa capacidade a cada instante, de como temos que nos afirmar como pessoa - o que só acontecerá quando nossa própria identidade tiver sido alcançada, após um longo período de buscas, de sofrimentos, de rejeições... E de como todas essas turbulências internas - que fazem parte da condição humana - também podem ser compreendidas ou resolvidas através do encantamento, da magia, da presença do maravilhoso ... Falam de pessoas e de suas buscas de felicidade. Falam da fantasia, do poder sonhar, desejar, do querer próximo o almejado (gente, bicho, forma de civilização ou o que seja ... ), segundo a importância real, efeti 137 va e afetiva que tenha para cada um ... Do querer acordar dum sono centenário de Bela Adormecida sendo beijada pelo príncipe... ou perceber que alguns sonhos podem ser coletivos (estão aí todas as propostas de vida alternativa ou de dissidência política)... ou mesmo que, num dado momento, em função duma proposta específica, eles podem acabar (pois se realizaram ou se mostraram inviáveis ... ) e ser substituídos por outros, que se colocam densos e fortes, pois é outro o tempo e outra a idade ... Pois IMAGINAR É TAMBÉM RECRIAR REALIDADES. Pois é só estarmos atentos ao nosso processo pessoal, às nossas relações com os outros e com o mundo, à nossa memória e aos nossos projetos, para compreender que a fantasia é uma das formas de ler, de perceber, de detalhar, de raciocinar, de sentir ... o quanto a realidade é um impulsionador (e dos bons!!!) para desencadear nossas fantasias ... 138 Trabalhando com a apreciação crítica. A LEITURA EM SALA DE AULA O livro não é escolhido pelo aluno. Infelizmente, o critério para a escolha do livro não é sua qualidade... Tudo bem... A literatura infanto-juvenil foi incorporada à escola e, assim, imagina-se que - por decreto - todas as crianças passarão a ler... Até poderia ser verdade, se essa leitura não viesse acompanhada da noção de dever, de tarefa a ser cumprida, mas sim de prazer, de deleite, de descoberta, de encantamento ... Começa que há uma obrigatoriedade de prazo, uma espécie de maratona, onde um livro tem que ser lido num determinado período, com data marcada para término da leitura e entrega de uma análise, e não conforme a necessidade, a vontade, o ritmo, a querência de cada criança-leitora... Depois, o livro é indicado, não escolhido pelo leitor... Como uma única e mesma história pode interessar a toda uma classe? Como imaginar que haja uma identificação geral - de meninos e meninas - todinhos preocupados com o mesmo problema? E todos interessados num determinado gênero literário, previsto como fonte única de prazer para aquele mês do ano?? Mesmo nas escolas mais democráticas, onde se dá o direito de escolher entre dois ou três títulos, quais os referenciais reais para essa prévia seleção?? Por que não ampliar os horizontes, indo às livrarias ou bibliotecas e deixando cada aluno manusear, folhear, buscar, achar, separar, repensar, rever, reescolher, até se decidir por aquele volume, aquele autor, aquele gênero, que, naquele determinado dia, lhe desperta a curiosidade, a vontade, a inquietação??? Claro que, para isso, a professora teria que ler muito mais livros, e a questão que fica é esta: ela está disposta a fazer isso? Porque, de verdade, a professora trabalha com um leque muito estreito de alternativas ... Conhece pouco de literatura infantil, em geral aqueles livros que as editoras enviam para sua casa/escola ou aqueles cujos autores estão mais dispostos a divulgar seu trabalho ... (e fica difícil achar que, por um desses dois métodos, realmente se chegue a acompanhar o que é publicado de relevante, de significativo, de bom...). O critério reinante, na maioria dos casos, não é o da qualidade do livro, mas o da pronta entrega. 140 Muitas vezes, dá é nisso: adoção de autores medíocres, menores, desimportantes, muitas vezes contando histórias pra lá de desinteressantes, chatas, monótonas, antigas, tantas vezes falando duma criança que não existe mais, de problemas que não as tocam ou sensibilizam ... E como se pode estabelecer uma relação boa e gostosa com a literatura quando se trabalha em cima de textos assim (ou apenas desse tipo)? Por que não adotar e propor a leitura de tantos livros no mês ou no bimestre - conforme a escolha de cada aluno -, em função de seus parâmetros, vontades, buscas, aflições, desse período? le- Certa vez, parada numa livraria de São Paulo, escutei de esta conversa entre duas garotas: to- " Ei lirbr res -u quera umvro paa sae ... Pte%ro um livro de querer! ! " di- - Eu não. te E este diálogo, simples e incrível, mostra de maneira te, clara como os critérios de escolha são diversos, e as necesna sidades, outras ... o Mas parece que não satisfaz ao professor apenas a adoção de um livro para toda a classe, segundo a sua es141 O texto é utilizado apenas para o estudo da gramática normativa. colha (dele, professor, claro ... ). Muitas e muitas vezes, esse texto selecionado se torna apenas um pretexto para se estudar gramática, sublinhar substantivos concretos, indicar tempos de verbos, encontrar advérbios de modo e mil outras relevâncias do tipo ... Estilhaça-se uma história, não se aprofunda uma idéia, uma interpretação, não se analisa a forma de escrever dum autor (tarefa tão absorvente e que exige tanto trabalho...). Aliás, usar sempre um caderno para fazer exercícios, ao invés de mutilar um conto ou poema. E há ainda um tempo prefixado, uma data marcada para o término da leitura ... Como estabelecer um prazo determinado para a fruição?? Isso não é exatamente o que se chamaria de respirar, andar, caminhar no compasso, no ritmo, no tempo, que cada história leva e pede de cada leitor ... A ficha de leitura dirige a inter- E essa bendita ficha, que é solicitada ao final de cada pretação do texto. leitura? O que ela significa, o que acrescenta à criança? Ao invés de trabalhar sempre com seu espírito crítico, de fazê-la pensar sobre o lido, se espantar com o maravilho so ou se irritar com a bobice, enfim, estar permanente mente ligada no que cada livro despertou ... por que pe dir que todos os alunos respondam às mesmas questões, em geral elaboradas pela editora, onde se solicita um re sumo (seguindo os passos estritos e estreitos propostos) e compreensão do texto (segundo os parâmetros da edito ra)? O que isso amplia, soma, acrescenta, faz a criança crescer como leitora crítica??? t É determinado um prazo para que todos os alunos entreguem seus resumos. 142 Essa ficha - às vezes chamada de encarte de trabalho (! ?) - anexada à maioria dos livros ou proposta pela professora pouco pede além da compreensão literal e linear da narrativa. Essa ficha tão bitolada e tão bitoladora, tão padronizada, tão igual para todos os alunos (às vezes do Oiapoque ao Chuí...), como poderá ajudá-los a perceber o que significa cada leitura individual, personalizada, a emitir seu parecer único e pessoal?? Ao invés de constatar se decorou o nome ou como se veste uma ou outra personagem, nesta ou naquela situação específica, nesta ou naquela página (como se isso tivesse qualquer importância efetiva), por que não trabalhar com tudo o que uma história (seja boa ou má, como qualidade, como idéia, como proposta etc.) possibilita? Com as emoções que ela provocou, com as sensações que mobilizou, com o alívio sentido, com a tristeza ou a alegria que desencadeou, com os horizontes que abriu ou com as portas que fechou? Por que tornar a leitura asséptica e impessoal??? A LEITURA, E O ESPÍRITO CRÍTICO Ao ler uma história a criança também desenvolve todo um potencial crítico. A partir daí ela pode pensar, duvidar, se perguntar, questionar... Pode se sentir inquietada, cutucada, querendo saber mais e melhor ou percebendo que se pode mudar de opinião ... E isso não sendo feito uma vez ao ano... Mas fazendo parte da rotina escolar, sendo sistematizado, sempre presente - o que não significa trabalhar em cima dum esquema rígido e apenas repetitivo. POIS É PRECISO SABER SE SE GOSTOU OU NÃO DO QUE FOI CONTADO, SE SE CONCORDOU OU NÃO COM O QUE FOI CONTA DO... É perceber que ficou super-envolvido, querendo ler Conversar com as crianças sobre de novo mil vezes (apenas algumas partes, um capítulo o lido é fundamental, especial, o livro todinho ... ) ou saber que detestou e não querer mais nenhuma aproximação com aquela história tão chata, tão boba ou tão sem graça... É formar opinião própria, é ir formulando os próprios critérios, é começar a amar um autor, um gênero, uma idéia, um assunto e, 143 daí, ir seguindo por essa trilha e ir encontrando outros e novos volumes... (que talvez façam o amor pelo autor redobrar, ou provoquem uma decepção ... isso tudo faz parte da vida!). Discutira história. > E há tanto o que analisar, o que discutir, o que fazer a criança perceber, opinar criticamente. Em relação à história: se boa, se interessante, se palpitante, se boba etc. ... E a idéia do autor? Nova, batida, já lida outras vezes em outros livros? Esse autor repete suas idéias, seus temas, ou inventa novos, se atreve a caminhar por outros assuntos, por outras questões??? Discutir o ritmo. > E o ritmo? Muito longo, rapidinho demais da conta, não dando tempo de saborear, de ir mais longe, de querer saber mais e melhor sobre um assunto, conversa ou qualquer outra coisa que ficou solta, sem maiores explicações??... Ou se arrastando, se esticando, se esticando e dando voltas e mais voltas em torno do mesmo tema, como se não achasse o momento de terminar?? E falando nisso, como foi sentido /percebido/ aplaudido / vaia Discutir ofim e o começo da Ais- > do etc. o final da história?? Tinha a ver com tudo o que tória. aconteceu, ou de repente acabou dum jeito confuso, abrupto, perdido??? E o começo, foi gostoso, chamou a atenção, deu vontade de continuar lendo, ou já deu pra sacar que ia ser uma chatura só?? Ou começou mal e, de repente, pra surpresa total, foi esquentando, esquentando e até que ficou muito do simpático e do bom??? E tanta coisa mais, que foi percebida pelo leitor e que merece ser discutida... E a história, é bem escrita? Claro, nem todas são... (aliás, a maioria não é ... ). Como é que deu para sentir que o autor escreve bem ou mal, ou até médio?? E isso aconteceu o tempo todo ou houve momentos em que o autor decepcionou, escorregou, deu uma grande mancada, pôs qualquer coisa no papel, do primeiro modo que lhe passou pela cabeça?? E aqueles trechos bonitos, que deram um arrepio gostoso, uma respiração mais forte, um sorrisão daqueles, uma tristeza boa de ser sentida... onde é que surgiram? Na boca, no olhar ou no gesto de quem? E tanta coisa mais, que foi percebida pelo leitor e que merece ser discutida... Discutir as personagens. > E há tanto, tanto para descobrir, para polemizar so bre as personagens ... As que tinham vida, que convenciam, que agiam dum modo verdadeiro (não importa se 144 gente, se bicho, se fada, se vampiro...) e aquelas que reagiram de repente, sem mais nem por quê - dum modo que não tinha nada a ver com elas, como vinham atuando desde o comecinho da história ... E aquelas que foram esquecidas pelo autor (o que acontece muito ... ), que aparecem no começo e nunca mais ... ou aquelas que não tinham a menor importância pro desenrolar do conto e que ficaram só enchendo as páginas, sem função, sem razão, sem opinião ... E tanta coisa mais que foi percebida pelo leitor e que merece ser discutida... O OBJETO-LIVRO: O QUE PERCEBER, O QUE DISCUTIR... E o objeto-livro... há tanto o que perceber, o que co mentar, o que olhar, o que opinar a respeito! ... A co meçar da capa (se bonita, feia, atraente, boba, sem nada a Discutir a capa e a encaderna ver com a narrativa ... ), do título - que, afinal, são o cão. primeiro, contato que se tem com o volume: o impacto visual e a curiosidade despertada ou adormecida... E por que não discutir a encadernação, do desprazer que é ver um livro amado desfolhando, descolando, não dando mais nem para virar página? ... E o jeito como o volume foi paginado, olhando muito do bem olhado se a Discutir a paginação. a ilustração corresponde ao que está escrito na página ao lado, se está tudo muito compactado, muito apertado, sem espaço para respirar... ou, ao contrário, se ficou muito pouca coisa escrita ou desenhada em cada folha, sobrando partes em branco demais da conta, só para engrossar o livro?? E se as letras eram grandonas, gostosas de ler, ou pe- a Discutir o tipo e tamanho das lequenas, apertadinhas, sendo necessário um binóculo pa- Iras. ra poder seguir aquelas letras tão mínimas?? E quanto havia de espaço na passagem dum capítulo para outro, mostrando que já era outro momento, outro dia, outra situação ou o que fosse, e estava tudo apertado, estreito e até difícil perceber que já era outro capítulo?? Estava metade cuidado, metade não?.... A editora estava fazendo economia? Ou estava sendo generosa, tratando com 145 capricho a edição? ... E tanta coisa mais que é percebida ,pelo leitor e merece ser discutida... Dmurtr o Jornialo do livro. D E também analisar, comentar o formato do livro: quadrado, retangular, comprido, miudinho ... e se era o melhor para aquela história ou aquele tipo de desenho ... E, ao fechar o volume, se deter na quarta capa, ver se ela traz alguma informação (e se ela é importante, boa, chata, difícil ... ), alguma chamada sobre a coleção (e se parece anúncio ou se ajuda a perceber o todo da série ... ), se a ilustração é uma continuação do desenho da capa ou se não tem nada a ver... Aprender a ler a orelha (se tiver...), enfim, a deglutir e a enxergar o livro como um todo e o todo do livro. 146 ATIVIDADES QUE PODEM SER DESENVOLVIDAS APÓS AS DISCUSSOES E cada aluno poderá escrever sobre tudo isso - ou sobre outros itens não citados que pareçam importantes - de modo pessoal, sem roteiros definidos e muito menos definitivos ... Se cada livro chama a atenção por algo de especial, por que não deixar a criança - sozinha - descobrir essa especificidade que ela sentiu, percebeu ... e escolher sobre o que quer falar? E também pode haver ocasiões em que se troquem opiniões... E constatar que cada um pode ter amado ou detestado o mesmo livro, por razões mui diferentes ... Ou, através dos olhos do colega, se deter em aspectos que não havia notado, se dado conta... E talvez - por isso - mudar de opinião (em relação a uma parte, a uma personagem, parágrafo /capítulo, ou até em relação ao todo ... ). Mas, de qualquer modo, a classe ou o grupo 147 que estiver trocando apreciações perceber que não há necessidade de haver unanimidade de opinião... Mais importante é aprender a respeitar os pontos de vista dos outros - diferentes dos seus - ou os diversos jeitos de ler, de perceber, de valorizar ou de não ligar... E por que se precisa tanto, sempre, estar indicando Reler uri livro também é impor- um novo livro? Por que não propor, também, que se re lente. leia algo que algum dia tenha sido importante? ... Reler pode ser tão bom, tão forte, tão esclarecedor... Não é apenas na novidade que está o novo, mas na nova forma de nos aproximarmos de algo já conhecido e perceber mudanças ... Enfim, simplesmente colocar a leitura do livro infantil brasileiro no currículo escolar não quer dizer nada... Pode-se até estar formando pessoas com ojeriza permanente pela leitura, tal a quantidade de livros ruins que lhes pedem que leiam, aliada a nenhuma crítica que é solicitada... Apenas fazendo-de-conta que se leu, como se se assinasse um visto, uma rubrica de "feito" ... Dar uma opinião pode não significar nada, não exigir nada, além dum comentário superficial, epidérmico, ou ser um jeito de agradar e corresponder à expectativa do adulto (que já tem uma opinião formada sobre aquele livro ou aquele autor ... ). Me parece que a preocupação básica seria formar leitores porosos, inquietos, críticos, perspicazes, capazes de receber tudo o que uma boa história traz, ou que saibam por que não usufruíram aquele conto... Literatura é arte, literatura é prazer... Que a escola encampe esse lado. É apreciar - e isso inclui criticar... Se ler for mais uma lição de casa, a gente bem sabe no que é que dá... Cobrança nunca foi passaporte ou aval pra vontade, descoberta ou pro crescimento de ninguém... 148 Freqüentando e formando bibliotecas ATIVIDADE DE HOJE: IR A UMA LIVRARIA Para se montar uma biblioteca, qualquer que seja seu tamanho, começa-se indo às livrarias, onde se forma uma idéia do que existe, do que acabou de ser lançado, do que está circulando há tempo. (Um livro pode ter reedições sucessivas pelo fato de ser bom /interessante/ bem escrito/ atraente/ badalado/ bem promovido/clássico ou por muitas outras razões.) E ir a livrarias com as crianças-alunas, como se fosse um passeio (como se vai ao zoológico, ao parque ou a outra atração da cidade), é possibilitar a descoberta de maravilhas insuspeitas ... Há várias livrarias especializadas em literatura infanto-juvenil espalhadas por todo o país... Sem falar na grande quantidade daquelas que possuem um departamento específico para crianças, ocupando às vezes todo um segundo andar, com estantes feitas na escala da criança, para que ela possa manusear à vontade, sem precisar da intermediação adulta... Onde há mesas em que ela pode folhear os apetitosos ou desinteressantes volumes, ou sentar no chão, virar páginas coloridas ou em preto e branco e fazer sua escolha, independente, daquilo que lhe agrada, lhe atrai, lhe desperta a curiosidade naquele momento... Há ainda livrarias do tipo mais comum, onde apenas um dos balcões, em geral o último, o que fica lá no fundo, é que tem livros para crianças. Muitas vezes amontoados em pilhas, onde tudo coabita, com os volumes muitas vezes empoeirados, meio que maltratados... É preciso paciência para fuçar, separar, olhar onde a luz não atrapalhe e se possa fazer uma escolha... Em geral, essas livrarias tratam os livros adultos com igual falta de carinho ... E sempre se pode levar um papo com a criança sobre conservação, cuidados e atenções... Importante, mesmo que seja uma papelaria ou um bazar de interior onde também se vendam livros, é as crianças irem até lá, vasculhar, procurar, mexer, conhecer o que existe, ter sua curiosidade satisfeita, a vontade de ler aquele livro, de ficar mais tempo relendo aquele poema, de olhar bem olhado uma ou outra ilustração, 150 ou de fechar rapidamente a capa dum que pareceu desagradável ou boboca, ou dar uma olhadela em alguns parágrafos e verificar que não despertam mesmo nenhuma vontade de conhecer o livro por inteiro (às vezes, se equivocam com a primeira impressão ... o que não deixa de ser um critério de escolha). Ainda querendo ampliar os referenciais literários, algo muito saboroso é dar uma caminhada com toda a classe até um sebo, e lá ficar por um tempo enorme, vendo pilhas e pilhas de livros antigos, usados ... Descobrir, no meio duma estante, um livro raro, com capa dura e desenhos daqueles bem antigos, feitos com caneta de pena... Ou encontrar - de repente - justo a única história que desconhecia daquele autor, exatamente o preferido de todos ... Ou avistar aquele livro de que a mãe vive falando - o mais lindo que ela leu quando pequena - e que nunca pensou poder tocar, ver em mãos, ao vivo, de novo ... E sentir aquele cheiro especial de livro velho, que tem toda uma marca de tempo passado, todo um aroma de casa de avó, algo de muito peculiar... Tantos e tantos tesouros encontrados, tantas e tantas revelações que acontecem num sebo, que podem ser com 151 partilhados com um amigo, suspiros trocados com outros, risadinhas por causa do jeito como se escrevia antigamente, audácias que nunca se imaginou ver, letras góticas e outras formas de embelezar uma página... Ir em livrarias é ser informado, também, de dias especiais em que um determinado autor vai lá estar, autografando seu último trabalho publicado. E daí que se pode ir nesse dia e conseguir a dedicatória especial e a assinatura cobiçada... Sem falar que se pode pedir um livro como presente de aniversário ou duma ocasião especial. Talvez arriscar e receber uma surpresa desconhecida... Talvez, já tendo idéia do que tem sido editado, pedir especialmente tal história, de tal autor... Ou aprender a guardar o dinheiro da mesada - como tanta gente já fez e faz - para comprar - ao invés de sorvete - um conto que está sendo comentado, um livro elogiado. Além de tudo, livro é até mais barato que uma passadinha na lanchonete da moda, e garante diversão por mais tempo... Afinal, ler é um lazer que pode ser saboreado a qualquer hora e que até dispensa companhia... É um dos poucos brinquedos com que se pode brincar sozinho (ou junto com as personagens ... ). A BIBLIOTECA PARTICULAR Levar as crianças a livrarias é estimulá-las a formar uma biblioteca particular, própria. O nome parece imponente, mas não se está propondo a organização dum espaço com mil volumes ... Apenas um canto onde cada criança guarde seus livros: pode ser numa parte mais baixa da estante de livros da casa, onde possa mexer sempre que tiver vontade, num caixote desses de supermercado, ou até numa prateleira do guarda-roupa ... Mas que a esse local só ela e aqueles a quem convidar tenham acesso. O lugar e a extensão não têm importância. Importante é que a criança escolha os livros que quer ter e guardar. E que os coloque na seqüência que inventar, que achar melhor pro seu jeito de encontrar: separar por au 152 ror, por assunto, por gênero ou por tamanho... E, no momento que der vontade de reler ou de emprestar pra alguém, que saiba onde e por que está lá ... assim como saiba modificar essa organização quando tiver novos volumes que exijam outra forma de distribuição. COMO É IMPORTANTE, TAMBÉM, PERCEBER A HORA, O MOMENTO EM QUE SE ENCHEU DAQUELE LIVRO; porque era multo infantil, porque, quando foi reler, percebeu que era chato, porque encontrou um outro muito melhor do mesmo escritor ou alguém que escreve muito melhor sobre aquele assunto... Por essa ou aquela razão, no momento que um livro não satisfaz mais (como acontece com roupa, disco ou brinquedo), é hora de passar adiante para outro: irmão, amigo ou vizinho... Ou dar de presente. Ou trocar com alguém que esteja querendo este livro e que tenha um outro, que justamente nos desperta muita curiosidade... Afinal, um livro não precisa acompanhar uma pessoa pela vida toda (como praticamente tudo, afinal ... ). Importante é perceber o momento de saturação, ou a hora em que aquela história saiu de nossa vida, e tentar encontrar outra para substituí-la na estante... Ou conviver um tempo com um espaço vazio até descobrir com o que queremos ocupá-lo. 153 Claro que na biblioteca particular de cada um pode haver livros de poesia, revistas em quadrinhos, histórias de aventuras, seleção de contos de fadas, narrativas de terror, livros curtinhos ou enormes, conforme a preferência e os critérios do dono... Sem nenhum preconceito quanto ao gênero... Mas exigente quanto à qualidade! ATIVIDADE DA SEMANA: ORGANIZAR A BIBLIOTECA ESCOLAR Há muito as escolas têm direito a doações, mas elas não são informadas a respeito ... Vale a pena procurar as delegacias de ensino e as secretarias de educação ou cultura. Além da biblioteca particular, existe - ou deveria existir - a biblioteca escolar: da classe em especial ou do colégio como um todo. Há escolas pelo país com essa preocupação que as mantém muitíssimo fartas e atualizadas (e isso não é exatamente um fenômeno novo... onde estudei, em criança, há décadas atrás, as bibliotecas tinham de tudo!!!). A maioria, no entanto, não dispõe de nada vagamente próximo ... NÃO É TÃO COMPLICADO ASSIM ORGANIZAR A BIBLIOTECA DA ESCOLA. É preciso estar convencido de sua importância, de sua necessidade, para empenhar e mobilizar os alunos na sua concretização ... Como? O passo inicial é conseguir livros. Interessar a classe, de maneira que cada aluno traga um volume, do que quiser ou puder... Ou irem passando pelo bairro, pela comunidade e recolhendo o que - em casa - não se quer mais, ou pedindo pros tios/madrinhas/vizinhos/irmãos mais velhos, que estão mesmo querendo se desfazer de alguns (sempre há um período de arrumação na casa, onde se pretende dar fim a algumas ou muitas coisas ... ). Localizar as entidades públicas que fazem doações de livros e solicitá-los. Quando se fala em montar uma biblioteca, não está se pensando em recolher apenas livros, muito menos em excelentes condições e de impressionante edição ... Fazem parte da estante revistas semanais de informação (tão importantes para consultas e pesquisas), gibis, enciclopédias, fascículos e livros de consulta especializados neste ou naquele tema, folhetos e almanaques (deliciosos!!), dicionários (fundamentais para encontrar o signi 1S4 ficado das palavras desconhecidas e retirar as dúvidas sobre a grafia correta...), atlas... E, claro, a Bíblia, livros sobre mitos indígenas e africanos, sobre as lendas todas e sobre tantas outras formas de explicar o surgimento e o início do mundo e das coisas, de abordar as diferenças de ótica e de ética no comportamento das pessoas... para a criança ver quantos enfoques existem e poder escolher o mais apropriado, o mais convincente. E também publicações ilustradas, livros de arte, livros que contenham imagens de animais ou plantas, histórias em quadrinhos, álbuns, revistas de geografia etc. etc., que fornecem à criança um panorama do imaginário ou da realidade visual e ampliam seus horizontes, abrangendo outras culturas e outras formas de representação ou de valorização dum mesmo acontecimento ou fato. BEM, RECOLHIDO O MATERIAL DISPONÍVEL, TRATA-SE DE OR GANIZÁ-LO... Fazer um trabalho com a classe toda ou eleger uma comissão responsável (por critérios determinados pelas próprias crianças)... Separar tudo o que se conseguiu, dividir por assuntos: livros e material de consulta dum lado; livros com histórias, poesias, ficção, de outro ... Aí, subdividir conforme a idade e as necessidades dos alunos: por temas, por autores, por gênero literário etc. 155 Há escolas com verba para tanta coisa... porque não para a aquisição de livros??? E ampurtautérzmo saberjogar o lrx-o no lixo errz vez de guardá-lo ou derx-í-lo por aí... Ah, saber separar também o joio do trigo ... O que está em muito más condições, se der para consertar com cola e durex e valer a pena, tudo bem... Restaura-se. Mas se não valer a pena e estiver em péssimo estado, também aprender a jogar fora, saber o que deve ir pro lixo ... Se se puder trabalhar com a professora de Educação Artística ou outra que saiba rudimentos de encadernação, por que não aproveitar? Encapar, ou encontrar outra forma de conservar um volume que será manuseado por muita gente, durante todo um ano letivo... Depois de separar, triar, limpar e espanar os livros, e providenciar todos os carinhos necessários, é preciso encontrar um local para acomodá-los (uma estante de tábuas separadas por tijolos... caixotes de madeira ou papelão, dispostos na vertical ou na horizontal, conforme a altura do volume ... ou aproveitando qualquer outro móvel adequado, existente na escola...). Se for uma biblioteca só da classe e que só será usada pelos alunos em sala, não precisa muito mais... Se se for emprestar os livros para serem lidos em casa, ter fichas para controlar entradas e saídas ou um caderno onde se anote quem e quando levou, a data de devolução, quem está na fila aguardando ... Pode-se até fazer um clube do livro, com carteirinha e distintivo... Imprescindível é batizar a biblioteca, com nome escolhido por toda a classe! ATIVIDADE DO MÊS: FORMAR UMA BOA GIBOTECA Numa parte da estante, num caixote especial, num canto, onde se possam encontrar histórias em quadrinhos de todo tipo e qualidade ... Das atuais, que se vendem na banca da esquina, e das antigas, aquelas maravilhosas, todinhas desenhadas em preto e branco pelos maiores desenhistas do mundo... Aquelas impressas como revistas e as que foram editadas com capa dura, papel encorpado, tendo a forma dum livro, como o Asterix, o Tin-Tin ... Ou o Príncipe Valente, o Flash Gor ISG don, e alguns outros que até já saíram em edições de arte, de luxo pela qualidade dos seus desenhos! Há ainda aquelas que, reproduzindo as tiras originais publicadas em jornais, foram editadas em forma de livro, reunindo várias histórias ou todo um período de publicação, com capa do tipo brochura... Tem séries do preguiçoso e comilão gato Garfield, do caipira ingênuo Ferdinando e sua Família Buscapé, do pré-histórico e diretíssimo Brucutu, e um montão de outras mais E, também, procurando bem procurado em sebos, lojas de quinquilharias, bazares de troca, com gente que vende revistas antigas na rua, se podem achar ainda as edições - não tão antigas assim... - do incrível Popeye, às voltas com seu espinafre para enfrentar o terrível Brutus, e sua impagável namorada Olívia Palito ... Ou as aventuras emocionantes do Fantasma na selva africana, sempre ajudado por seus amigos pigmeus e sua eterna noiva Diana... Ou as soluções fantásticas do elegantíssimo mágico Mandrake, seu fiel companheiro Lothar e sua noiva, a princesa Narda... Ou as dúvidas e culpas do Capitão América, o sentimento de rejeição do Homem Aranha, o grito transformador do Capitão Marvel ao invocar Shazam ... 157 Ou os quadrinhos nacionais com as peripéciass da turma da Mônica, feitos pelo Maurício de Souza, ou aqueles um pouquinho mais antigos, como o Saci Pererê, do Ziraldo, os Fradinhos do Henfil, e tantos outros... Afinal, as histórias em quadrinhos envolvem toda uma concepção de desenho, de humor, de ritmo acelerado, de intervenção rápida das personagens nas situações com as quais se defrontam... Contêm algo de conciso, vertiginoso, quase cinematográfico... E, como em qualquer outro tipo de história, há as ótimas, as medíocres, as muito bem feitas, as de carregação, as extremamente inventivas, as que se repetem... Como em qualquer outra forma literária, se escolhem, se procuram as que dizem mais, desistindo das que satisfazem menos e suscitam menos emoção, menos envolvimento, menos inesperados ... Elas fazem parte integrante da cultura deste século e é tolo e preconceituoso esnobá-las, ridicularizá-las ou não levá-las a sério ... A BIBLIOTECA ESTÁ PRONTA! AGUARDEM... Bem, biblioteca pronta sugere um montão de coisas a serem feitas... Montar uma exposição com os livros lidos e recomendados por cada aluno, ou com as capas mais simpáticas e atraentes, ou uma lista dos livros mais retirados ou procurados durante a semana ou quinzena... Montagem dum painel com críticas escritas pelos alunos sobre- tal livro, tal autor ou tal tema... E- ler' baixinho, sentado, ou confortavelmente instalada num canto da classe ou do pátio, ler em pequenos grupos, ilustrar uma história, escrever novas a partir dum título provocativo ou duma personagem interessarimou duma situação mal resolvida... Debater sobre autorm fazer mesas-redondas para discutir temas lidos, tantas outras atividades que - só pelo fato de existir -- uma biblioteca provoca e mobiliza... 158 Sobretudo, a biblioteca trabalha com a qualidade dos Em outras páginas deste livro, livros... E o fato de incluir obras diversas (boas, médias, há um montão de indicações de autores fantásticos, de assuntos péssimas) permite que se desenvolva a fundo o senso crí- interessantes , ti boa escrevtnha tico do aluno... que se façam leituras comentadas, per- ião É sconferir. cebendo o que é de má qualidade literária, o que é mal escrito, o que é bobo, o que não soube levar adiante sua proposta. Pois há inúmeros livros publicados para crianças anualmente no Brasil que não têm nada para contar ou transmitir: uma lástima literária, um equívoco total, um desperdício de toneladas de papel e um profundo desgosto para o leitor associar tantas banalidades com a idéia de literatura... Mas há alguns incríveis e nos quais vale a pena mergulhar e viver momentos deleitosos. Se a biblioteca for para uso de toda a escola, terá se ções ou divisões, conforme a série escolar do aluno, ou agrupando as mais próximas. Se se estiver pensando nu ma pequena biblioteca por classe - e se esta for de pré- a a biblioteca numa classe de -escola - ais passos serão parecidos... Apenas os livros, pré-escola claro, teco um texto menor, para que a criança possa se conceütrat- riais nos desenhos ou independer dos adultos pata wleitura... Que folheie, que reinvente o que a professora já contou, que selecione aquela que quer ouvir de novo e de novo e de novo ... Que se divirta, tentando reconstruir a narrativa conforme sua lembrança guardou... -Se a biblioteca for da escola toda, a mellhor providên- a a biblioteca para uso da escola cia é contratar um bibliotecário que saiba organizar o toda, material de modo correto e segundo as normas, reno 159 var e atualizar sempre o que existe nas estantes, consertar os estragos e danos, que ajude a criança a procurar um capítulo específico ou um tipo de história que ela quer ler, mas da qual tem apenas uma noção vaga, não sabendo dar maiores indicações ou informações ... Em todo caso, bibliotecário ou professor, seria bom estar atento também a isto: certa vez, fazendo um levantamento com crianças sobre literatura infantil, me Po que é rrnporaanre saber o no > assustei com o fato de que a maioria não conhecia o no me do autor? me dos autores, mesmo daqueles que haviam escrito a história que mais amavam ... E quanto é importante dizer o nome do autor, mesmo quando a criança ainda é pequenina, não sabe ler, e só escuta a narrativa... Tornar constante a apresentação do nome verdadeiro e completo da história e do escritor, pois compreender o que é uma obra e o que significa autoria só pode acrescentar... Mesmo se o que estiver escutando ou lendo for material de cultura popular, for de autor desconhecido, que se diga e se informe também quem compilou, quem recolheu e de onde provém aquela lenda, aquele conto popular, aquele causo... E também, quando a criança for maior, ensinar a buscar as referências completas do que procura e do que acha (inclusive o nome da editora, da coleção ou da série), para poder seguir a trilha, acompanhar o autor ou ilustrador, conferir o gênero... Faz parte da formação saber quem nos disse coisas bonitas, encantadas, sábias ou chatas, para que a referência fique e o caminho esteja aberto e continuemos mergulhando nos textos de quem admiramos, dando uma colher de chá a quem nos envolveu num primeiro contato, ou para desistir (ou adiar prum outro momento da: vida) da proximidade com um escrevinhador que nos desagradou- ou decepcionou ou com um tipo de história que não nos tocou... E procurar alinnentat, á biblioteca a partir dessas constatações .. . E- quando um livro é bem lido, bem sentida, bem vivida... ai até se pode dispensar esse nova mania de ficar querendo trazer o escritor e o ilustrador para a escMwa .. Para quê??? Não é preciso conhecer a pessoa=.para se ter um imenso prazer (ou chateação ou aborrecimento,) com aquilo que criou. Se assim fosse, como fazer com aantos 160 escritores que já morreram, que escreveram obras-primas em outros séculos?? Qual a necessidade de ver o autor em carne e osso? (Aliás, a maioria dos livros traz impressa foto e biografia do autor.) Se se quiser um contato, pode-se mandar uma carta aos cuidados da editora (o endereço vem escrito obrigatoriamente na segunda página do livro) e dar opiniões, fazer elogios ou contar de decepções ... Nem sempre um bom escrevinhador é um bom contador de histórias... e pode perder o tempo que usaria para produzir novas e belas obras indo de colégio em colégio conversar com centenas de crianças (ele não é animador de auditório ... ), que muitas vezes não apenas não leram nada do que escreveu (um vexame só) como não têm nada de verdadeiro, de espontâneo e de genuíno para lhe perguntar... (Raramente parte da classe a idéia de convidar o autor; em geral, é idéia dos adultos ... ) O que se lê é o livro/a revista/o gibi/o poema, enfim, o que está impresso. Não se lê um escritor ao vivo ... E saber onde mora, quantos filhos tem, se gosta de macarronada ou de coalhada, não ajuda em nada a compreender melhor os mistérios ou o deboche de suas histórias. A BIBLIOTECA PÚBLICA Fora a biblioteca escolar, existem também as bibliotecas públicas. Na cidade de São Paulo, há 35 bibliotecas infantis aparelhadas com móveis apropriados ao público inf l' e com um acervo enorme de livros antigos, novos, nov'lssimos... E com salas para fazer consultas, para brincar, para ver exposições ... Se a criança quiser, elas tambémm dão um tempo razoável para o volume ser lido em.=casa... No Estado de São Paulo há 450 bibliotecas públicas, embora ninguém saiba informar - em 1987 - quantas delas são infantis ou têm um setor para crianças, pois não há uma classificação por incrível que pareça - que esclareça esse ponto... Mas, mesmo que as bibliote- Visita d Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, São Paulo, num dia de Carnaval. cas públicas de todo o país não disponham dum departamento especializado em literatura infantil, pelo menos possuem um material de consulta que pode ser mexido,_ manipulado... E lá se fornece orientação de como localizá-lo ou que outras fontes se poderiam checar para abordar melhor e mais profundamente tal ou qual as sunto de pesquisa. `,N1,1 ., Como nosso livro é sobretfiteratura, portanto ficção, não vamos enveredar pelos rumos da informação, da não-ficção... -1974. São Paulo, Melhora 6. PUNDAÇÃO Nacional de Livros Infamo-juvenis. Bi blre galra analítica ia lrteratura rnfantll e Iuvenrl pu N1,,re/a no Bra.ul. 19,) Sìto Paulo. NIcmid,) Aherto' P_ A. /F N 1..1.1 . 1,)81 LAIOLO, Marina ALBISMAN_ Regina. lIt-711111111 tTl.lIJ11l' /IÍSPÍ 17.5 (' hls1Urla Sá,) P,1U10, AtICa, 1 )8 i Sobre linhas de interpretação da literatura intãntil 01:.1.11 LI II IM. N-wm I:C:O 1 rnbenu n B~ ~NAI%i lari a -11 }rh,u, i1< 1li'i t'n! t't l' l icd ', ~,a ì P