Histórias de Vampiros
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O texto a seguir é um
extrato do livro Deuses e Vampiros, do antropólogo francês
Natan Watchel. Eu recomendo a todos que comprem o livro que é
barato e nos ensina muito não apenas sobre a cultura e formação
das lendas de um povo, mas também sobre as dificuldades que um
profissional deve passar para fazer seu trabalho -- Shirlei Massapust.
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A personagem do khaririri apresenta, no espaço e no tempo,
características ao mesmo tempo constantes e múltiplas, dando provas
de sua capacidade de adaptação a contextos muito diversos. A série
dos termos que o designam, variáveis de região para região, forma
um núcleo semântico coerente entre si mesmo. Com efeito, nakaq
deriva do verbo nakay: "estripar",
pishtako, de pishtay: "cortar em pedaços, estripar",
kharisiri, de kharina: "cortar uma coisa com um
instrumento afiado (faca ou navalha)", ao passo que lik'i significa "sebo" ou "gordura animal"[1].
Etimológicamente, trata-se, portanto, de um "estripador",
cuja especialidade consiste em "extrair a gordura" do corpo
humano, estabelecendo assim, desde o princípio, uma relação, ou mesmo
uma espécie de equivalência, entre a gordura e o sangue. Esta relação parece ainda implicada,
na tradição andina, pelo próprio nome do deus Viracocha, ao qual o
mito de origem atribui a criação e a ordem do mundo. Com efeito, a
associação dos termos wira
e qocha (em quíchua), ou wila e qota (em aiamará), pode ser traduzida, literalmente, por "mar
de gordura" ou "lago de sangue". As conotações relacionadas
com esses termos levam, segundo uma leitura derivada, a conceitos
como "reserva de substância vital" ou "princípio criador"[2].
De fato, o sangue e a gordura figuram, no mundo andino, entre as oferendas
essenciais destinadas às forças sagradas. O sacrifício de animais
degolados e as libações do sangue recolhido constituem as seqüências
iniciais de toda cerimônia religiosa. Quanto à gordura animal (geralmente
da lhama), é um dos ingredientes básicos na composição das mesas
rituais[3].
Essas oferendas, voluntárias por definição, postulam uma reciprocidade
e fazem parte de um sistema de relações em que tudo repercute tudo:
Os homens gozam da proteção propiciada pelos santos ou pelos mallkus
em troca daquilo que lhes oferecem. Ao contrário, o kharisiri é excluído evidentemente das relações de reciprocidade,
pois sua vítima é humana e ele lhe rouba a sua substância vital. Na literatura etnográfica,
o kharisiri é descrito sob
o aspecto de um homem branco ou mestiço, de cara patibular: Tez rabicunda,
olhar penetrante, cabelos desgrenhados e barba eriçada. Ora se apresenta
com roupas comuns, ora veste uma túnica de burel, amarrada na cintura
por um cinturão do qual pende um longo facão de lâmina afiada. A tiracolo,
carrega outra arma aterrorizante, um laço feito de couro humano. No
entanto, o kharisiri é uma
personagem deste mundo, um ser humano também, mesmo que seja dotado
de poderes mágicos e aja à maneira dos "condenados" do outro
mundo, que perambulam entre nós em busca de alguma alma inocente para
devora-la. Com efeito, o estripador percorre as altitudes selvagens,
espreitando os viajantes isolados a quem ataca, no crepúsculo ou durante
a noite, na cabeceira das pontes ou nos caminhos desertos. Com uma
zarabatana, lança em sua vítima um pó feito de ossos humanos triturados,
que a mergulha em sono profundo. O kharisiri então extrai a sua gordura, que
em seguida é utilizada na fundição dos sinos ou na fabricação de remédios.
Quanto às vítimas, ora desaparecem (enterradas debaixo da ponte ou
totalmente devoradas), ora despertam, prosseguem sua viagem e morrem
de anemia ao cabo de alguns dias[4].
É compreensível que, devido
à natureza das fontes escritas, a personagem do nakaq ou kharisiri raramente seja mencionada na documentação histórica.
Isto é tanto mais notável quando o tema aparece, claramente identificável
já no final do século XVI: com efeito, o cronista Cristóbal de Molina
evoca o grande medo que se espalhou - em 1571, ele precisa - entre os índios dos Andes centrais. Corria
o boato de que os espanhóis haviam vindo ao Peru em busca de gordura
humana, que utilizavam como remédio contra certas doenças. Os índios,
aterrorizados, fugiam a qualquer contato com os brancos, recusavam-se
a servi-los e se escondiam: Não ousavam entrar na casa dos espanhóis,
temendo que esses os matassem, no interior da casa, para extrair a
sua gordura[5].
Cristóbal de Molina atribuiu tal boato, destinado a "semear a
inimizade entre índios e espanhóis", aos pregadores enviados
por Titu Cusi, o inca rebelde de Vilcabamba (que, até 1572, resiste
às expedições enviadas contra ele). E o cronista estabelece uma ligação
também entre Titu Cusi e o movimento milenarista do Taqui
Ongo que, a partir de 1565, leva à sublevação
uma parte das massas indígenas do Peru central. Que a relação entre
o inca de Vilcabamba e o Taqui
Ongo, apesar da afirmação de Cristóbal
de Molina, ainda seja objeto de controvérsias pouco importa: O que
é oportuno assinalar é que o tema do kharisiri,
assimilado ao espanhol, aparece pela primeira vez, historicamente,
no contexto de uma crise profunda da sociedade indígena e de um movimento
da rejeição da dominação colonial. Os pregadores do Taqui Ongo Vão realmente de aldeia em aldeia, exortando os índios a restaurar
as huacas (as divindades
autóctones) destruídas pelos cristãos. A partir da conquista espanhola,
essas divindades não recebem mais os sacrifícios rituais, perambulam
abandonadas, "mirradas e mortas de fome"[6].
Para se vingarem enviarão a doença e a morte a todos a todos os índios
que aceitaram o batismo[7]. Em contrapartida
serão salvos aqueles que recusarem a dominação espanhola, fizerem
penitência e retornarem ao culto das huacas.
Os pregadores dão nova vida às antigas divindades por meios de rotos
de "ressurreição", fazem libações de chicha
e oferendas de milho nas ruínas dos lugares sagrados. Ora, as huacas manifestam de forma espetacular
o seu retorno ao se encarnarem em seus fiéis: Aqueles que são assim
"possuídos" entram em êxtase, perdem a consciência, cantam,
dançam girando e se tornam eles próprios objeto de veneração[8].
Mais ainda: As huacas agora
ressuscitadas preparam-se para travar uma nova batalha contra o deus
cristão, que no final será vencido. "Os espanhóis serão mortos,
suas cidades sumirão, o mar subirá para afoga-los e abolir sua memória"[9].
O deus cristão termina sua mita,
"sua vez de comandar" e as huacas
recriarão um outro mundo e outros homens"[10]. É, portanto, um dilúvio, um acontecimento cósmico
que os profetas do Taqui
Ongo anunciam: O fim do mundo e a promessa
de uma nova era. Trata-se realmente de um movimento de tipo milenarista,
que se desenvolve em reação à crise de desestruturação que atinge
a sociedade indígena, logo depois da invasão européia. O que se deve entender por
Taqui Ongo, denominação desse movimento? A expressão significa literalmente
"doença do canto", ou "doença da dança": O termo
taki aplica-se a todo tipo
de "canto", profano ou religioso, acompanhado ou não de
dança, ao paço que o vocábulo onqoy,
que designa a "doença", está associado igualmente à constelação
das Plêiades, cuja observação permite prever, segundo a tradição andina,
os fenômenos meteorológicos, as calamidades, as epidemias[11].
Cabe notar que Guamán Poma de Ayala, num trecho de sua crônica, enumera
uma série de doenças, entre as quais figura o Taqui
Onqoy, que os feiticeiros
curam extraindo do corpo, por sucção, a causa do mal[12].
Trata-se de uma espécie da dança de possessão, que se manifesta por
transes, e é provocada, no caso do movimento milenarista, pelas huacas que se encarnam em seus fiéis? Observa-se ainda que o ritual
de penitência do Taqui Ongo lembra aquele que era praticado em
Cuzco, na época inca, por ocasião da festa de Situa, celebrada com
a finalidade de expulsar as doenças. Assim, é legítimo indagar se
o Taqui Ongo não teria alguma
relação com as ondas de epidemia (de varíola, peste, etc.) que se
espalharam pelo mundo andino após a invasão européia, e determinam
a catástrofe demográfica que afeta a população indígena. Com efeito,
como explicar, do ponto de vista nativo, essas novas doenças e tamanha
mortalidade? Duas causas são possíveis, e opostas, e uma não exclui
a outra: De um lado são as huacas abandonadas que, como se viu, castigam
os índios (e é bom restaurar o seu culto); de outro lado, os espanhóis,
decerto involuntariamente, estão na origem das epidemias: Por conseguinte,
será por acaso que o tema do nakaq
identificado ao branco surge nesse contexto? Figura inversa do feiticeiro
curador, já que extrai o princípio vital dos índios, ele apenas transpõe,
sob uma forma quase metafórica, a trágica realidade. É verdade que o tema do feiticeiro
que cura por sucção pode inverter-se também, para transformar-se naquele
que mata por aspiração do sangue da vítima: É o caso dos cauchus ou runapmicuc, que Arriaga descreve em seu tratado sobre a "extirpação
da idolatria no Peru" (redigido em 1621), e que "se introduzem
nas casas, espalhando pó feito com ossos humanos", a fim de mergulhar
seus moradores em sono profundo[13].
Mas essa personagem propriamente indígena parece pertencer a um ciclo
diferente: É talvez um dos componentes do complexo formado pelo nakaq, sem explicar, no entanto, o que
constitui a originalidade deste último, isto é, a sua assimilação
ao espanhol. Ora, é esta identificação que vamos encontrar, mais de
um século depois do Taqui Ongo, na acusação feita à ordem dos belemitas, que se estabelecem
em Cuzco em 1690 e fundam aí um hospital em 1700. O padre Joseph García
de la Concepción, autor de uma história da ordem publicada em 1723,
relata "certos maus tratos infligidos aos religiosos, donde resultaram
castigos exemplares": «A questão consistiu em fazer
esses rústicos acreditarem que os belemitas eram homens enviados a
este país pelo Rei a fim de estripar os Índios e extrair a sua gordura,
com o intuito de enviar tal remédio às oficinas de Sua Majestade...
Cheios de medo, os Índios garantiam sua segurança evitando os religiosos,
que eles consideravam inimigos cruéis que ameaçavam suas vidas; e
já não lhes davam outro nome senão o de
ministério sanguinolento e temido; isto porque, quando não
podiam evitar encontra-los, diziam uns aos outros: Lá vão os nacas,
o que significa, em nossa língua, estripadores ou carrascos.» Diversos traços relativos aos
belemitas podem Ter favorecido a sua identificação com o nakaq, ou, inversamente, conferir a este
certas particularidades próprias daqueles religiosos: Vestiam-se com
um comprido hábito de3 burel, percorriam realmente as ruas da cidade
depois do por-do-sol e mesmo de noite, agitando um sininho e orando
pelas almas do Purgatório; Andavam pelos caminhos para pedir esmola
aos viajantes; e sua vocação, enfim, de servir nos hospitais pode
ter despertado alguma suspeita nos índios. (Fora que os médicos da
época utilizavam muito a sangria para tratar de enfermidades diversas.
Se algum índio viu isso deve ter ficado muito impressionado...) Estes
acolhiam os frades belemitas com pedras, e o historiados da ordem
assinala que um eremita, confundido com um desses religiosos, foi
morto dessa forma. Uns vinte anos depois, em 1747, um frade belemita
foi por sua vez assassinado, no caminho de Cuzco a Lima, por dois
índios que o tomaram ou um nakaq. A figura do "estripador",
no início do século XVIII, assume, assim, características mais específicas,
algumas das quais correspondem às de alguns religiosos, eles mesmos
intermediários (como os feiticeiros indígenas) entre este mundo e
as forças sagradas. Sem dúvida, nem todos os espanhóis são nakaq, ainda que, virtualmente, todos possam sê-lo: As suspeitas recaem
mais comumente sobre uma parte deles, que de algum modo recebem delegação
da tarefa de apropriar-se da gordura dos índios.
Curiosamente, a personagem
do estripador que extrai gordura humana é encontrada, ainda bastante
difundida em nossos dias, em diversas regiões da Espanha, onde, entre
bichos-papões e lobisomens, é um dos protagonistas de um mundo de
contos e lendas que assustam as crianças. O sacamantecas
figura, assim, numa literatura popular amplamente difundida no início
do século XX, que relata uma série de crimes horríveis, evocados igualmente
nos espetáculos de feira. Em seu estudo sobre esta tradição folclórica,
Julio Caro Baroja menciona, por exemplo, "o esquartejamento de
uma menina de doze anos nas Urdes de Placencia (Cáceres)", cometido
por um certo José de la Iglesia, que retira a gordura de sua vítima
para tratar de sua irmã tuberculosa. A este tema se liga ainda o "Relato
do duplo assassinato e esquartejamento de duas crianças de sete e
nove anos, em Béjar; Província de Salamanca", praticado por Juan
e Luisa Carricado, irmão e irmã "incestuosos", os quais
forneciam "sangue de criança" que um curandeiro havia recomendado
a um rico senhor que padecia de tísica. Assim, não é surpreendente
que se observe o mesmo tipo de remédio, assinalado num tratado sobre
A Medicina Popular na Galícia, no artigo "tuberculose":
«Conta-se
que uma feiticeira chegou a desenterrar uma criança morta, arrancou-lhe
o coração e extraiu a gordura, para ministra-los a um doente que padecia
desse mal.» Existirá alguma relação entre
o sacamantecas espanhol
e o pishtako andino, ou estaremos diante de
um paralelismo cultural? Além das explicações difusionistas apresentarem
um interesse apenas limitado, parece que não se encontram indícios
do tema do estripador na literatura popular hispânica antes do início
do século XIX. Seria o sacamentecas
importado da América? Não é impossível que, em contrapartida, tenha
inspirado certas transformações recentes do pishtako
andino.
As pesquisas realizadas nos
anos 80 registram um emprego muito moderno da gordura humana: Exportada
para os Estados Unidos, serve como lubrificante para máquinas industriais,
carros, aviões, até mesmo para computadores, proporcionando lucros
enormes a seus traficantes. Propaga-se ao mesmo tempo um outro tema,
o das práticas canibais: O pishtako
não se contenta em extrair a gordura da vítima, comercia também sua
carne, consumida nos luxuosos restaurantes de Lima. Segundo uma das
versões recolhidas, são as crianças de Ayacucho que, esquartejadas,
alimentam desse modo a capital. O sentimento de medo se desloca correlativamente
para o meio urbano, onde o estripador assume formas múltiplas, aparentemente
contraditórias: As de ladrões, estupradores, terroristas, ou de policiais
e militares. Registram-se, nos subúrbios de Lima, linchamentos que
infligem aos delinqüentes o castigo antes reservado ao pishtako das altitudes selvagens; Mas temem-se
igualmente as maldades praticadas por indivíduos uniformizados, calçados
com botas e, às vezes, mascarados. O clima de violência mantido no
Peru, ao longo destes últimos anos, pelas guerrilhas e pela repressão
dá origem aos boatos mais enlouquecidos: Os estripadores tem "carteiras
de identidade", se reúnem, executam seus crimes em grupo, formam
uma "organização" e são mesmo "enviados pelo governo". Será por acaso que, na região
de Ayacucho, lugar de origem do Sendero Luminoso, se assistia a um
retorno espetacular do pishtako?
Foi assim que, em setembro de 1987, se propagaram, do campo à cidade,
notícias assustadoras: Cinco mil estripadores apareceram de repente,
munidos de uma autorização especial do presidente da República, em
busca de gordura humana, que serviria para "pagar a dívida externa"
do Peru. Esses nakaq são brancos, barbudos, vestem compridos
sobretudos verdes ou pretos, andam armados de facas, revolveres e
até metralhadoras. Alguns deles, detidos pelos camponeses e entregues
à polícia, teriam sido soltos pelas autoridades que os protegem. Outros
foram mortos pelos senderistas. É por isso que os bandos de estripadores
refluem agora para a cidade, a fim de se refugiarem nela e continuarem
a extrair a quantidade de gordura que o governo exige. Uma mulher
teria sido estripada no banheiro público do mercado central, de forma
que ninguém, sobretudo depois que escureceu, ousa aproximar-se daquele
lugar. Os habitantes de vários bairros de Ayacucho, mais particularmente
das favelas, se organizam para formar grupos de autodefesa: Fazem
rondas noturnas, munidos de apitos, de tochas, e acendem fogueiras
que iluminam a cidade. As agressões se multiplicam, das quais são
vítimas aqueles que cometem a imprudência de se aventurar à noite
a alguma distância de sua residência. Esta tensão pânica atinge o
seu paroxismo, no dia 11 de setembro, com o linchamento de um jovem
comerciante originário de Huancayo, acusado de ser um pishtako. Outro grande medo manifesta
a presença do estripador, sob formas inéditas, até mesmo nos bairros
populares de Lima. Na manhã de 30 de novembro de 1988, espalha-se
o boato de que gringos armados com metralhadoras invadiram
uma escola, onde raptaram crianças para arrancar seus olhos, que depois
são vendidos no exterior. Centenas de mães de família, desesperadas,
acorrem imediatamente aos estabelecimentos escolares para retirar
seus filhos, aos prantos. Os rumores mais horríveis se amplificaram
nos dias seguintes: Gringos com aventais brancos, armados com metralhadoras,
percorreriam de carro as ruas da cidade, à procura de crianças; no
interior do veículo havia instalações médicas, que permitiram extrair
os olhos (assim como, em outras versões, o coração ou os rins), cuja
exportação deve satisfazer as necessidades dos transplantes de órgãos
e desse modo pagar (de novo!) a "divida externa". Ter-se-iam
encontrado na esquina dessa ou daquela rua crianças com o rosto coberto
de gaze, abandonadas por aqueles médicos "arrancadores de olhos":
Chegaram até a enfiar no bolso das crianças um envelope com uma certa
soma de dólares, em pagamento dos olhos extraídos. O furor coletivo
suscita, conseqüentemente, várias tentativas de linchamento, com que
são ameaçados, entre outros, três jovens turistas franceses. Os artigos
céticos ou irônicos publicados na impresa, o desmentido solene do
ministro da Saúde na televisão, longe de acalmar a população, apenas
exacerbaram o sentimento de terror: Que credibilidade sepode dar às
palavras traqüilizadoras de um ministro diante do testemunho de uma
vizinha apavorada? Aventais
brancos, tecnologia médica, estrangeiros, dólares: O estripador urbano
abandonou seu facão, sua túnica de burel, seu sininho, sua zarabatana
e seus pós mágicos, mas, nos habitantes das favelas miseráveis, não
encontramos a mesma rejeição fascinada do pode dos dominadores e de
uma certa modernidade? É verdade que o boato de um tráfico criminoso
de órgãos, tema mítico contemporâneo, se repete em muitos outros lugares:
Por que no caso as crianças é que são visadas, e por que os olhos?
Evidentemente seriam necessárias análises mais profundas dos recentes
fenômenos ocorridos em Lima. Sem dúvida, é significativo que a suposta
ameaça se inicie por uma agressão numa escola: A cegueira que ela
provoca não transpõe, marcada na carne, a obscuridade em que vivem
os pobres e os analfabetos? O olhar da criança representaria aqui
a possibilidade de um progresso através da educação, a abertura para
o futuro e a frágil esperança de um mundo melhor. É esta esperança
que o estripador assassina. As manifestações
do kharisiri na Bolívia,
durante estes últimos anos, não atingem a amplitude daquelas que se
desenvolveram no Peru, mas certos paralelismos parecem particularmente
notáveis. Assim, grandes temores foram assinalados, em 1982-1983,
no departamento do Norte de Potosí. Fazem parte do contexto da crise
econômica por que passa o país, agravada por secas sucessivas, fome
e epidemias. Surge então o kharisiri, entre outras localidades, em
Ocuri, aldeia situada na estrada de Oruro a Sucre, onde havia sido
fundado um Instituto de Desenvolvimento Agrícola e Sanitário, com
a participação de técnicos europeus. Não é surpreendente reencontrar
um tema conhecido: O presidente, por solicitação do Banco Mundial,
teria enviado alguns gringos com a tarefa de extrair a gordura
dos camponeses, com o propósito de pagar a dívida externa. Quando
o jipe vermelho do Instituto percorre os campos, espalha o terror,
os camponeses fogem, as crianças não vão mais à escola com medo de
serem raptadas. Os técnicos estrangeiros, ameaçados, se vêem obrigados
a ir embora. Cabe
observar, no entanto, que o kharisiri executado em 1983, em Orinoca,
e cujo corpo foi queimado, não era um estrangeiro: Pertencia à comunidade
indígena. Mas se havia colocado à margem dos laços de solidariedade
entre os moradores da aldeia: Convertido para uma seita evangélica,
recusava-se a participar do sistema de cargos políticos e religiosos.
Assim, suspeitavam que houvesse feito um pacto com o diabo, que lhe
permitia enriquecer e comprar uma caminhonete, que usava para seus
negócios pessoais. Parecia ser, assim, um prolongamento do mundo exterior
no interior da aldeia e, o que era pior, um traidor que se pusera
a serviço do estrangeiro. A descoberta de dólares em sua casa apenas
confirmava suas atividades criminosas de kharisiri,
daí ser lançado na alteridade. Uma alteridade absoluta: Pois o castigo
que lhe foi infligido (recusa de sepultura) o excluía definitivamente
da humanidade.
Se o kharisiri encarna, por definição, o outro assimilado ao mal radical
(mas sempre humano), é compreensível que ele possa combinar uma continuidade
plurissecular com formas múltiplas, que mudam ao sabor das circunstâncias
locais e das conjecturas históricas. Percebe-se, entretanto, ao término
deste rápido sobrevôo, uma certa evolução nos processos andinos de
constituição do estrangeiro. Na época do Taqui
Ongo, logo depois da invasão européia, o outro é identificado,
globalmente, com o conjunto dos espanhóis que, surgidos de uma extrerioridade
até então insuspeitada, vieram impor sua dominação, provocando rupturas
brutais no interior do mundo indígena. Ao longo do tempo, essa representação
do outro abrange um campo mais limitado, dando lugar ao mesmo tempo
a uma figura arquetípica, cujas feições são muitas vezes inspiradas
nas de certos religiosos do período colonial, sobretudo os frades
belemitas. O kharisiri age individualmente, como que por delegação do poder exercido
pelo setor dominante. Em suas manifestações mais recentes, reveste
traços renovados, que exibem a marca da mais avançada modernidade:
Médicos, engenheiros ou terroristas. Nota-se, particularmente em Ayacucho,
o retorno de uma figuração coletiva do kharisiri,
com a irrupção de bandos de estripadores que agem segundo um plano
supostamente governamental. O exemplo de Orinoca (e de Chipaya) ilustra
mais uma evolução, não menos notável, que corresponde a uma interiorização
de certo modo da alteridade, pois o kharisiri,
certamente ligado às extensas redes do mundo exterior, provém, nesse
caso, do meio indígena. Sintoma, certamente, de uma crise profunda:
A intrusão da modernidade no coração das comunidades andinas ameaça
até mesmo os fundamentos de sua identidade.
[1] Para uma análise mais detalhada destes termos, cf. Gilles Rivière, "Lik'ichiri y kharisiri: A propósito de las Representaciones del 'Otro' en la Sociedad Aymara", em Bulletin de l'Institut français d'études andines, XX (1), 1991; no mesmo número dessa revista se encontra uma apresentação geral sobre o tema do pishtako, de autoria de Antoinette Molinié-Fioravanti, bem como seu artigo "Sebo Bueno, Indio Muerto: La Estructura de una Creencia Andina". [2] Cf. Jan Szeminski, "Un Kuraka,
un Dios, y una História (Relación de Antiguedades de este Reyno
del Pirú por don Juan Santa Cruz Pachacuti Yamqui Salca Maygua)",
Antropología Social e Historica, 2:12-27,
Jujuy, 1987. [3] Em relação a essa questão, reporta-se
particularmente a Antoinette Molinié-Fioravanti, "Sebo Bueno,
Indio Muerto: La Estructura de una Creencia Andina", art.
cit. [4] A descrição apresentada neste
parágrafo inspira-se em dados recolhidos por Efraín Morote Best,
"El Degollador (Nakaq)", Tradición, II (4): 67-91, 1952,
artigo retomado em Aldeas Submergidas: Cultura Popular y Sociedad
en los Andes, Cuzco, 1988, pp. 153-177. [5] Cristóbal de Molina ("del
Cuzco"), Relación de
las Fábulas y Ritos de los Incas [1572], Colleción de libros
y documentos referentes a la Historia del Perú, série 1, vol.
1, p. 97, Lima, 1916. [6] Cristóbal de Molina, op. cit.
p. 98. [7] Cristóbal de Molina, op. cit.,
pp. 98-99. [8] Cristóbal de Molina, op. cit.,
p. 99. [9] Cristóbal de Molina, op. cit.,
pp. 97-98. [10] Arquivos Gerais das Índias (Sevilha), Audiencia Lima 316, "Informaciones de Servicios" de Cristóbal de Albornoz, caderno de 1571, fls. 16r.-16v. e fl. 33r. [11] Cf. Rafael Varón Gabai, "El
Taki Onqoy: Las Raíces Andinas de un Fenómeno Colonial",
em Luis Millones (org.), El
Retorno de las Huacas, Lima, IEP, 1990, pp. 375-377. [12] Felipe Guamán Poma de Ayala, El Primer Nueva Corónica y Buen Gobierno
[1615], org. por John V. Murra & Rolena Adorno, México,m 1980,
p. 282. [13] Pablo José de Arriaga, La Extirpación de la Idolatría en el Perú
[1621], Madrid, BAE, 1968, l. 209, p. 208. |
|
Extraído da obra: WATCHEL, Natan. Deuses e Vampiros. Trd. Carlos
Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo, Edusp, 1996.,
p 89-110. |