A Tradição Alquímica


Apesar haver escrito muitas obras sobre a sociedade Rosacruz, Serge Hutin (? – 1997) não pertenceu a nenhuma das ramificações desta ordem. Por outro lado, ele foi uma figura importante do esoterismo francês (um dos poucos franceses a defender publicamente Aleister Crowley durante certa época). Escreveu mais de 40 obras, entre elas “L’alchimie”, “Les Gnostiques”, “Les Sociétés Secrètes” (“Que sais-je?”), “Histoire des Rose-Croix” (Le Courrier du Livre, 1959), “Histoire mondiale des sociétés secrètes” (Club des Amis du Livre, 1959), “Paracelse: l’homme, le médecin, l’alchimiste” (La Table Ronde, 1966), “Robert Fludd” (Omnium Littéraire, 1972), “L’amour magique” (Albin Michel, 1971), “Histoire de l’alchimie” (Marabout, 1971), “Aleister Crowley, le plus grand des mages modernes” (Marabout, 1973), “Nostradamus et l’alchimie” (Editions du Rocher, 1988), etc. O seguintes extratos provém do livro “A Tradição Alquímica”. -- Shirlei Massapust.



O vampirismo:

            Vampiros? Um tema mágico ancestral que, paradoxalmente, voltou à tona pelo uso sistemático que dele faz a imaginação, primeiramente a literária; o cinema e a televisão virão depois, por graça dos mestres anglo-saxões do terror.

            Releiamos essa obra-prima que é Drácula, do autor irlandês Bram Stoker, que viveu durante a Belle Époque. Qual é o seu tema central, absolutamente de acordo com as superstições populares da Europa central e oriental? O conde Drácula é um homem que, recusando a obscura sorte comum dos indivíduos de nossa espécie, fez uso da antiqüíssima magia, a mais negra e a mais ancestral, de efeitos sobrenaturais: a do sangue (do sangue fonte da vida) para dotar post mortem seu cadáver de uma possibilidade indefinida de perdurar, sem jamais conhecer a decomposição nem a putrefação. Privilégio que não pode prosseguir, fazer bola de neve (modo de falar) a não ser que o vampirismo se espalhe, cada vez mais, entre os homens para prolongar essa sobrevida: cadáver vivo, o vampiro via-se obrigado a sugar o sangue de numerosas vítimas, escolhidas entre as pessoas mais jovens e transbordantes de vida. E estas, por sua vez, só poderão perpetuar e transbordantes de vida. E estas, por sua vez, só poderão perpetuar sua lamentável sobrevida física sugando o sangue de outras jovens vítimas inocentes. Essa sobrevida cadavérica só poderia situar-se num estágio muito irrisório da esperança mítica de uma sobrevida física além da morte: é por isso que nos contos clássicos de vampiros (a começar pelo Drácula de Bram Stoker), vemos os “mortos-vivos” acolherem com serenidade (e, o que é ainda mais, com uma alegria passiva mas real) o momento final de aceitação em que, com o coração transpassado por um chuço, seu corpo físico se converterá enfim (e de uma forma quase instantânea) em pó.

            No lado oposto dos casos alegados de vampirismo, existe toda uma série de tradições hagiográficas relacionadas com corpos de pessoas que alcançaram a santidade e cujo cadáver não conheceu a putrefação; eles continuam, portanto, na terra com a aparência de invólucro físico que, simplesmente “adormecido”, parece esperar com serenidade a hora da gloriosa ressurreição final. De onde esses casos de santos ou de santas cujo sangue, tão venerado há séculos, continuaria — se, ao menos, acreditássemos nos milagres em questão — a ter todas as aparências do sangue de uma pessoa viva (o caso do milagre periódico do sangue de São Januário em Nápoles, é significativo e exemplar), do sangue coagulado de um mártir que, em datas sempre fixas, voltaria à sua forma líquida, com todas as características do sangue de uma pessoa sadia.

Baseando-se no estudo metódico de fenômenos desse tipo, que a hagiografia da Igreja gosta de lembrar, e fazendo significativos paralelos com a tradição alquímica, o doutor Hubert Larcher publicou, em 1955, uma obra intitulada: Le sang peut-il vaincre la mort? [“Pode o sangue vencer a morte?”]. É pelo menos estranho que esse livro — cuja possível difusão foi bloqueada desde o princípio por misteriosas instruções anônimas (cujos responsáveis nunca foram descobertos) — não tenha tido praticamente nenhuma divulgação.




A imortalidade física conquistada pelo vampiro representaria uma forma invertida, negra e satânica da imortalidade alquímica; seria a perpetuação de um cadáver — que se diferenciaria pela conservação da flexibilidade da carne — a expensas da vida de jovens vitimas. Se o uso do tema, primeiro pela literatura[1], depois pelo cinema de terror, é, sem dúvida, contemporâneo, esse uso está apoiado em tradições, em superstições — populares ou não — espalhadas por diversas regiões do globo, entre as quais a Europa central e a oriental ocupavam um lugar privilegiado. Foi depois de uma longa estada na Transilvânia[2] [1] que o autor irlandês Bram Stoker escreveu esse clássico das histórias de vampiros: Drácula. A perenidade da imaginação no que se refere ao fascínio pelas histórias de vampiros é muito fácil de ser explicada pelo fato de o mito tocar nas potências obscuras da morte, do sangue (fonte e sede da vida) e também — estreitamente ligado aos dois primeiros componentes imaginativos — do erotismo negro[3].



Outros vampirismos:

 

            Existem outros métodos “mágicos” de rejuvenescimento, métodos particularmente sinistros e cujo princípio básico é o vampirismo.

            Claude Farrère, em seu romance “A Casa dos Homens Vivos[4], faz residir no seguinte o segredo da imortalidade descoberto pelo conde de Saint-Germain: captando, com a ajuda do magnetismo, o “fluido vital” de pessoas jovens, o “Imortal” pode renovar continuamente sua própria essência[5].

            Outro tipo de vampirismo: o vampirismo de ordem sexual. Sabe-se que a sexualidade é considerada, por todas as magias, uma extraordinária possível fonte de energia “fluídica” e metafísica: essa crença encontra-se, por exemplo, nos ritos tântricos da Índia e no “Sabbat” dos feiticeiros europeus. Nessa perspectiva, a união dos sexos pode ser concebida como o meio por excelência que permite “captar” essa energia: de onde a crença segundo a qual certas mulheres seriam capazes de apropriar-se, por esse meio, da “força vital” de um parceiro jovem. Antinéia, a heroína da “Atlântida” de Pierre Benoit, é um “vampiro” desse gênero: ela conserva sua juventude a expensas da própria vida de seus sucessivos amantes.

            Alguns homens não hesitaram diante dos crimes mais monstruosos: na esperança de obter o maravilhoso “elixir da longa vida”, Gilles de Rays não hesitou diante do assassinato de várias centenas de crianças[6].

            Lembremos, para terminar, que Alexandra David-Neel revela a existência, entre os feiticeiros Bons, do Tibete, de uma técnica particularmente macabra para a obtenção do “elixir da longevidade”[7].


[1] Nota do autor: Durante o romantismo e, depois, na época vitoriana.

[2] Nota do Purgatorium: Isso foi um engano de Serge Hutin. Na verdade Bram Stoker nunca esteve na Transilvânia.

[3] Nota do autor: Não é absolutamente fortuito se, nas diversas versões e adaptações de Drácula, o vampiro prefere atacar, como vítimas privilegiadas, jovens mulheres indefesas.

[4] Nota do autor: Editora Flammarion.

[5] Nota do autor: Essa idéia está longe de ser absurda; contrariamente ao que afirmam de uma maneira peremptória tantos autores atuais, pensamos que o magnetismo não se reduz à simples “sugestão”; e apenas uma parte de suas aplicações foram entrevistas...

[6] Nota do autor: Não há dúvida alguma de que Gilles quis conquistar a qualquer preço a juventude eterna; mas, depois, ele se afastou bastante desse objetivo a ponto de não pensar mais, dominado inteiramente por seus instintos sádicos, senão em gozar com o sofrimento de suas vítimas...

[7] Nota do autor: Magie d’amour et magie noire, Paris (Plon), 1932, caps. V e VI.


Textos extraídos da obra:

 

HUTIN, Serge. A Tradição Alquímica: A Pedra Filosofal e o Elixir da Longa Vida. São Paulo, Editora Pensamento, p. 86-88; 91-92; 107-108.

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