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Os Vampiros Mais Solicitados do Mundo possuem
as cabeças assassinas e os dentes apaixonados. O mais precoce entre
todos namora a silhueta do Domador de Almas que, em pânico, sabendo-se
desejado por um Vampiro, sacrifica-se a um Deus conhecido para salvar-se. Domador
de Almas, eu, o mais precoce dos Vampiros, digo-te, morde as pedras,
morde as folhas, que o sangue que brotar delas só afogará o teu sonho. ...Agora,
deixa-me aproximar o meu hálito da tua jugular e, então, sonharemos
juntos os sonhos impossíveis e o sol será mais doce, para nós, num céu
que não amanhece. O
Domador de Almas treme e teme ter sido mordido e já ser um Vampiro.
Enlouquecido, grita: —
Tragam-me o perdão, a penitência e a absolvição! Aceito-os na carroça
das frutas, na saliva do verdureiro, na manhã morna de Outono. É nestas
manhãs que eu, o Domador de Almas, enterrado na minha cadeira de verga
frente à porta aberta, os aguardo. Espero também ser perdoado por ter
medo. ...Sou
uma presa fácil para os Vampiros, tenho medo de tudo! Os
olhos dos Vampiros Mais Solicitados do Mundo são olhos foragidos. E
estes olhos de maldade e sede usam óculos escuros, que são um bom disfarce
para as olheiras das noites não dormidas. Noites em que matar é a miopia
destes olhos vampirescos. E é bem verdade que estas noites já duram
há tantos séculos. Séculos de abandono! Os
boatos engordam nos ouvidos da cidade e procriam na hora inesperada.
O Boato Mais Insensato apregoa: —
O Domador de Almas é um Deus descalço, e tem frieiras nos pés, e mesmo
com as frieiras ressuscitou dos mortos! E
o Assassino de Si Mesmo, agora, é um arcanjo malfadado que tem por obrigação
lavar das calçadas de pedra o sangue do Domador de Almas, que nelas
atirou o corpo para a morte. Ansioso
de ter água em abundância, para retirar os coágulos, o Assassino de
Si Mesmo vai até aos céus e estrangula as nuvens e, não contente, rouba
as fraldas dos anjos menores e espera que a água amarelada dos seus
sexos angelicais acabe com a poeira sanguinolenta. E,
como se não bastasse, este mesmo Assassino de Si Mesmo, ridículo, impunemente,
obriga os olhos foragidos dos Vampiros Mais Solicitados do Mundo a conhecer
o medo. Ele, o Assassino, amarra os Vampiros junto à porta principal
da sua casa; a porta está fechada, mas tem frestas, ou melhor, rombos
tão grandes que por elas o Sol, por qualquer descuido, poderá entrar.
Vampiro não gosta de Sol, e o Sol sabe disso. Enquanto a morte clara
não chega, Os Vampiros
Mais Solicitados do Mundo escutam o barulho das crianças, que em infância
desocupada jogam as suas idades no meio da rua, e por tantas brincadeiras
ficam velhas e adultas, com sorrisos nas pernas e saltos nos olhos. Coitados
dos olhos dos Vampiros Mais Solicitados do Mundo, ficam a espiar, na
imaginação, estas crianças. E eu vos garanto que estes mesmos olhos
salivam, de gula e impotência. Se, ao menos, pudessem morder uma delas,
provar deste sangue infantil! E
não lhes conto o pior... mas já que insistem, como sabem sou um Boato
Insensato, escutem-me: Quando
o cãozinho da vizinha, que mora no andar debaixo do Assassino de Si
Mesmo, namora obscenamente o desconhecido em noite de lua cheia e cio,
a uivar, o Domador de Almas e os Vampiros Mais Solicitados do Mundo
acasalam-se. Acreditem-me,
há uma não'aceitação dos sexos, de ambas as partes, e eles não se penetram.
Ficam ali, entre o quarto de dormir e a sala, masturbando-se, e, como
têm os dedos fecundos, procriam feitos. Eis
os seus feitos, deixa estar, eu enumero-os por ordem de importância... O
primeiro dos feitos, é terem criado lábios, não simples lábios mas de
verdadeira carne apaixonada, para estarem nas bocas de todo e qualquer
cidadão que tenha renegado ou esquecido o corpo e o prazer. E estes
lábios estão a ser vendidos em todas as Farmácias, ao lado dos preservativos.
Estupendo, qualquer dia compro um preservativo e um desses lábios para
o meu uso, caso venha a ter boca e sexo. O
segundo dos feitos, construíram uma vassoura de tamanho inimaginável.
Vassoura que, nas primeiras horas de existência e utilidade, já ultrapassa
os cinquenta e cinco metros de altura. Está a ser vendida em qualquer
“Loja dos Trezentos”, e é muito procurada para varrer dos cantos da
boca de toda a gente as sobras das palavras dos dias e, por vezes, algumas
migalhas mais visíveis de silêncios. Magnífico, creiam-me!!! E,
depois, fizeram um Fantasma Negro com os restos mortais dos trabalhadores
da construção civil, os pretos de tantas Áfricas. Deveras, foi trabalhoso
assaltar os cemitérios, violar as valas comuns, roubar em vómitos todos
aqueles corpos putrefeitos. Mas eis, acabado, o Fantasma Negro Vigilante
para defender a casa das nossas memórias. Das minhas memórias de Boato,
e das tuas, que és um tolo. Pois, desconfio que já percebestes que as
traças andam a crescer muito nos últimos dias e, famintas, devoram o
nosso cérebro, e nem eu e tu recordamos mais dos nossos circos do passado,
dos nossos elefantes de papel, também comidos pelas traças muito antes
do início do espetáculo do pague e imagine. Nesses circos que frequentávamos
nada acontecia, a não ser que inventássemos! Mas agora, o Fantasma Negro
Vigilante matará todas as traças e protegerá os elefantes de papel e
eles terão, para sempre, a vida. Leva-me
ao circo, esta noite? Outros
feitos, eu não os conto, sou apenas um Boato e respeito o sigilo dos
segredos. E estes outros feitos são o começo do segredo. Segredo estendido
na entrada das casas, que nem tapete para limpar os pés, pregado nas
portas, embaciando as vidraças. Esperem,
aonde pensam que vão? Calma, não dispersem, se ficarem posso revelar-lhes
mais um segredo, mas só mais um! Obrigado
por não partirem, por não me abandonarem, e o prometido é cumprido! Eis
o segredo... O cidadão que renegou e esqueceu o prazer de ter um corpo
e que nunca quis comprar os lábios de verdadeira carne apaixonada e,
muito menos, os preservativos nas Farmácias, noite após noite procura
descobrir nas ruas, no alcatrão, e até nas poças d’água, as pegadas
de uma deusa, e assim espera encontrar a simples mulher a ser amada.
E... amá-la!!! Não
aguento! Perdoem-me, é que eu sou um Boato muito indiscreto, e além
do mais é Vosso direito disto saberem! Enquanto
as gatinhas das putas, putas que moram em todas as nossas ruas, namoram
o desconhecido, felinas satisfeitas de estarem no cio sem exigirem ou
pretenderem o orgasmo, os Vampiros Mais Solicitados do Mundo e o Assassino
de Si Mesmo acasalam num dos quartos sujos de pensão! Na
loucura erótica deles até a terra sente prazer. E a terra encolhe-se
em gemido. Gemidos e berros. A terra berra! Berra! E depois do acto
consumado, como mulher satisfeita, a terra, que com eles não fez amor,
acarinha o Assassino de Si Mesmo, segura de que ele nunca se matará
por afogamento ou por solidão. E aos Vampiros, a terra dirige olhares
lascivos! Sou
um Boato maldoso, mas não minto, acusem-me de tudo menos de ser um mentiroso!
Creiam-me, os Vampiros Mais Solicitados do Mundo, mesmo belos, não são
borboletas, e disto não se esqueçam. No caso de os encontrarem, não
se dêem à volúpia do beijo nem do desejo. Afastem-se da morte que vive,
previno-vos... Estou
triste. Fiz todo o meu trabalho... Falei o que devia e o que não devia. E
nesta desgraçada vida de Boato, confesso que eu, um Boato, também preciso
dos préstimos do Domador de Almas. É que eu tenho uma alma, e ela está
cheia de dor. Certamente vocês não me imaginaram tão sensível, a ponto
de ter uma alma. E eu tenho-a... Só
que O Domador de Almas não presta atenção aos Boatos... E nunca fará
nada por mim. Extraído de: FRANÇA, Ione. O Domador
de Almas. Lisboa, 1997. Pergaminho, p 37-43. |