Os Vampiros Mais solicitados do Mundo

Por Ione França


Os Vampiros Mais Solicitados do Mundo possuem as cabeças assassinas e os dentes apaixonados. O mais precoce entre todos namora a silhueta do Domador de Almas que, em pânico, sabendo-se desejado por um Vampiro, sacrifica-se a um Deus conhecido para salvar-se.

Domador de Almas, eu, o mais precoce dos Vampiros, digo-te, morde as pedras, morde as folhas, que o sangue que brotar delas só afogará o teu sonho.

...Agora, deixa-me aproximar o meu hálito da tua jugular e, então, sonharemos juntos os sonhos impossíveis e o sol será mais doce, para nós, num céu que não amanhece.

O Domador de Almas treme e teme ter sido mordido e já ser um Vampiro. Enlouquecido, grita:

— Tragam-me o perdão, a penitência e a absolvição! Aceito-os na carroça das frutas, na saliva do verdureiro, na manhã morna de Outono. É nestas manhãs que eu, o Domador de Almas, enterrado na minha cadeira de verga frente à porta aberta, os aguardo. Espero também ser perdoado por ter medo.

...Sou uma presa fácil para os Vampiros, tenho medo de tudo!

Os olhos dos Vampiros Mais Solicitados do Mundo são olhos foragidos. E estes olhos de maldade e sede usam óculos escuros, que são um bom disfarce para as olheiras das noites não dormidas. Noites em que matar é a miopia destes olhos vampirescos. E é bem verdade que estas noites já duram há tantos séculos. Séculos de abandono!

Os boatos engordam nos ouvidos da cidade e procriam na hora inesperada. O Boato Mais Insensato apregoa:

— O Domador de Almas é um Deus descalço, e tem frieiras nos pés, e mesmo com as frieiras ressuscitou dos mortos!

E o Assassino de Si Mesmo, agora, é um arcanjo malfadado que tem por obrigação lavar das calçadas de pedra o sangue do Domador de Almas, que nelas atirou o corpo para a morte.

Ansioso de ter água em abundância, para retirar os coágulos, o Assassino de Si Mesmo vai até aos céus e estrangula as nuvens e, não contente, rouba as fraldas dos anjos menores e espera que a água amarelada dos seus sexos angelicais acabe com a poeira sanguinolenta.

E, como se não bastasse, este mesmo Assassino de Si Mesmo, ridículo, impunemente, obriga os olhos foragidos dos Vampiros Mais Solicitados do Mundo a conhecer o medo. Ele, o Assassino, amarra os Vampiros junto à porta principal da sua casa; a porta está fechada, mas tem frestas, ou melhor, rombos tão grandes que por elas o Sol, por qualquer descuido, poderá entrar. Vampiro não gosta de Sol, e o Sol sabe disso. Enquanto a morte clara não chega, Os Vampiros Mais Solicitados do Mundo escutam o barulho das crianças, que em infância desocupada jogam as suas idades no meio da rua, e por tantas brincadeiras ficam velhas e adultas, com sorrisos nas pernas e saltos nos olhos.

Coitados dos olhos dos Vampiros Mais Solicitados do Mundo, ficam a espiar, na imaginação, estas crianças. E eu vos garanto que estes mesmos olhos salivam, de gula e impotência. Se, ao menos, pudessem morder uma delas, provar deste sangue infantil!

E não lhes conto o pior... mas já que insistem, como sabem sou um Boato Insensato, escutem-me:

Quando o cãozinho da vizinha, que mora no andar debaixo do Assassino de Si Mesmo, namora obscenamente o desconhecido em noite de lua cheia e cio, a uivar, o Domador de Almas e os Vampiros Mais Solicitados do Mundo acasalam-se.

Acreditem-me, há uma não'aceitação dos sexos, de ambas as partes, e eles não se penetram. Ficam ali, entre o quarto de dormir e a sala, masturbando-se, e, como têm os dedos fecundos, procriam feitos.

Eis os seus feitos, deixa estar, eu enumero-os por ordem de importância...

O primeiro dos feitos, é terem criado lábios, não simples lábios mas de verdadeira carne apaixonada, para estarem nas bocas de todo e qualquer cidadão que tenha renegado ou esquecido o corpo e o prazer. E estes lábios estão a ser vendidos em todas as Farmácias, ao lado dos preservativos. Estupendo, qualquer dia compro um preservativo e um desses lábios para o meu uso, caso venha a ter boca e sexo.

O segundo dos feitos, construíram uma vassoura de tamanho inimaginável. Vassoura que, nas primeiras horas de existência e utilidade, já ultrapassa os cinquenta e cinco metros de altura. Está a ser vendida em qualquer “Loja dos Trezentos”, e é muito procurada para varrer dos cantos da boca de toda a gente as sobras das palavras dos dias e, por vezes, algumas migalhas mais visíveis de silêncios. Magnífico, creiam-me!!!

E, depois, fizeram um Fantasma Negro com os restos mortais dos trabalhadores da construção civil, os pretos de tantas Áfricas. Deveras, foi trabalhoso assaltar os cemitérios, violar as valas comuns, roubar em vómitos todos aqueles corpos putrefeitos. Mas eis, acabado, o Fantasma Negro Vigilante para defender a casa das nossas memórias. Das minhas memórias de Boato, e das tuas, que és um tolo. Pois, desconfio que já percebestes que as traças andam a crescer muito nos últimos dias e, famintas, devoram o nosso cérebro, e nem eu e tu recordamos mais dos nossos circos do passado, dos nossos elefantes de papel, também comidos pelas traças muito antes do início do espetáculo do pague e imagine. Nesses circos que frequentávamos nada acontecia, a não ser que inventássemos! Mas agora, o Fantasma Negro Vigilante matará todas as traças e protegerá os elefantes de papel e eles terão, para sempre, a vida.

Leva-me ao circo, esta noite?

Outros feitos, eu não os conto, sou apenas um Boato e respeito o sigilo dos segredos. E estes outros feitos são o começo do segredo. Segredo estendido na entrada das casas, que nem tapete para limpar os pés, pregado nas portas, embaciando as vidraças.

Esperem, aonde pensam que vão? Calma, não dispersem, se ficarem posso revelar-lhes mais um segredo, mas só mais um!

Obrigado por não partirem, por não me abandonarem, e o prometido é cumprido!

Eis o segredo... O cidadão que renegou e esqueceu o prazer de ter um corpo e que nunca quis comprar os lábios de verdadeira carne apaixonada e, muito menos, os preservativos nas Farmácias, noite após noite procura descobrir nas ruas, no alcatrão, e até nas poças d’água, as pegadas de uma deusa, e assim espera encontrar a simples mulher a ser amada. E... amá-la!!!

Não aguento! Perdoem-me, é que eu sou um Boato muito indiscreto, e além do mais é Vosso direito disto saberem!

Enquanto as gatinhas das putas, putas que moram em todas as nossas ruas, namoram o desconhecido, felinas satisfeitas de estarem no cio sem exigirem ou pretenderem o orgasmo, os Vampiros Mais Solicitados do Mundo e o Assassino de Si Mesmo acasalam num dos quartos sujos de pensão!

Na loucura erótica deles até a terra sente prazer. E a terra encolhe-se em gemido. Gemidos e berros. A terra berra! Berra! E depois do acto consumado, como mulher satisfeita, a terra, que com eles não fez amor, acarinha o Assassino de Si Mesmo, segura de que ele nunca se matará por afogamento ou por solidão. E aos Vampiros, a terra dirige olhares lascivos!

Sou um Boato maldoso, mas não minto, acusem-me de tudo menos de ser um mentiroso! Creiam-me, os Vampiros Mais Solicitados do Mundo, mesmo belos, não são borboletas, e disto não se esqueçam. No caso de os encontrarem, não se dêem à volúpia do beijo nem do desejo. Afastem-se da morte que vive, previno-vos...

Estou triste. Fiz todo o meu trabalho... Falei o que devia e o que não devia.

E nesta desgraçada vida de Boato, confesso que eu, um Boato, também preciso dos préstimos do Domador de Almas. É que eu tenho uma alma, e ela está cheia de dor. Certamente vocês não me imaginaram tão sensível, a ponto de ter uma alma. E eu tenho-a...

Só que O Domador de Almas não presta atenção aos Boatos... E nunca fará nada por mim.
 

Extraído de:

 

FRANÇA, Ione. O Domador de Almas. Lisboa, 1997. Pergaminho, p 37-43.

Hosted by www.Geocities.ws

1