DICIONÁRIO DO DIABO


Se não me engano o verbete vampiro só foi incluído na segunda ou terceira edição do Dicionário do Diabo de Ambrose Bierce. Leia aqui o texto na tradução de Marina Guaspari. — Shirlei Massapust.




Vampiro — s. — Demônio dado ao hábito censurável de sugar o sangue alheio. A existência dos vampiros tem sido comtestada pela classe dos controversistas mais interessados em privar o mundo de crenças confortadoras do que em dar-lhe alguma cousa boa em lugar delas. Em 1640, padre Secchi viu um vampiro num cemitério perto de Florença e fugiu, horrorizado, fazendo o sinal da cruz. Descreve o vampiro como criatura dotada de várias cabeças, dum número extraordinário de membros e capaz de aparecer, ao mesmo tempo, em diferentes lugares. O bom eclesiástico mal acabara de jantar; explica, pois, que se não tivesse “o estômago cheio”, apanharia o vampiro, fosse como fosse. Atholston refere que um vampiro foi surpreendido por vários campônios robustos, num cemitério em Suddury; o demônio mergulhou num bebedouro. Tem-se a impressão de que o narrador era de parecer que um criminoso tão distinto mereceria mergulhar num banho de água de rosas. A água do bebedouro logo se converteu em sangue “e assim continua em nossos dias”, conclui o relator. Depois dessa época, o tanque passou a ter um sangradouro. Em tempo relativamente próximo de nós, como é o princípio do século XIV, um vampiro foi acuado na cripta da catedral de Amiens e toda a população cercou o sítio. Vinte homens armados, tendo à frente um sacerdote de Crucifixo em punho, entraram na cripta e capturaram o vampiro. Este, esperando salvar-se com um estratagema, transformara-se, assumindo o aspecto dum conhecido cidadão. Apesar disso, foi enforcado e esquartejado, em meio de hedionda orgia popular. O cidadão, sob cuja aparência esperava escapulir-se o demônio, sofreu tal impressão da sinistra ocorrência, que não tomou a ser visto em Amiens: ainda hoje, a sua sorte continua a ser um mistério.

 

Extraído de:

 

BIERCE, Ambrose. O Dicionário do Diabo. Trd. Marina Guaspari. São Paulo, Prometeu, 1959, p 209-210.

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