Introdução à magia dos Grimórios


Hoje eu tenho o prazer de intruduzir o mesmo capítulo do Livro de São Cipriano citado no clássico da literatura nacional "O Coronel e o Lobisomem"; e se o imortal José Cândido de Carvalho deu tamanho destaque a este livro eu espero que você, leitor, também possa reconhecer a grande contribuição que essas obras tem dado ao folclore nacional.
A base do preconceito contra aquilo que até a década de 1980 costumava ser chamado de magia-negra e bruxaria (mas que depois da popularização da religião wicca sobreviveu como parte da quimbanda e goécia), é o desprezo que grande parte dos adeptos dos mais diversos grupos que lidam com ocultismo tem contra os grimórios tradicionais. De acordo com N. A. Molina, o
Grimório vem a ser "o breviário dos bruxos e bruxas" no qual "se reúnem as ladainhas satânicas e as orações diabólicas para invocar as forças infernais e a adoração de Satan". É ali onde se encontra "a famosa Missa Negra" e "o Culto a Lúcifer e seus subordinados", sendo que "grande parte disto tudo é usado no Candomblé e na Umbanda", pois "os nomes podem ser mudados com o decorrer dos tempos, mas os Deuses, as Entidades, os Orixás, e o Demônio são sempre os mesmos" (MOLINA, N. A. Nostradamus, A Magia Branca e a Magia Negra. Rio de Janeiro, Editora Espiritualista. p 7-8). Nas palavras do réu confesso,


"isso proporcionou a certos editores ignorantes e pouco escrupulosos o ensejo de plagia-los e acrescentar-lhes toda espécie de tolices para dar mais valor, pensam eles, a esses livros tão mal copiados e, o que só conseguem é escarnecer as ciências mágicas pois vem distorcendo a verdade dos acontecimentos de modo a prejudicar quem venha a interessar-se pelo assunto".
(MOLINA, N. A. Nostradamus, Op cit, p 62-63)



As críticas começam quando se põe em questão a verdadeira data de publicação dos referidos livros, bem como sua autoria. Todos sabem que não foi nenhum dos diversos santos católicos chamados pelo nome "Cipriano" quem escreveu tal coisa, mas descobrir quem realmente o fez é um exercício de paciência. Um capítulo vem de um livro de Papus, o outro do GRANDE ALBERTO. Aquilo que é apresentado como uma autêntica "Litânia a Satã" para ser recitada durante uma missa negra na verdade é um poema de Charles Baudelaire... Enfim, todo o mundo é chamado a colaborar de forma que podemos ler desde um pequeno bocado de material anterior ao século XVIII até a última mandinga ditada pela mãe-de-santo preferida do compilador. A técnica de arrumar as compilações sem data ou autoría (ou com dados falsos) é cópia fiel do processo de produção da bibliografica medieval, do qual nos fala Umberto Eco:


"A Idade Média foi uma época de autores que se copiavam em cadeia sem citar-se - mesmo porque em uma época de cultura manuscrita, com os manuscritos dificilmente acessíveis, copiar era o único meio de fazer circular as idéias. Ninguém considerava isso um delito; de cópia em cópia, era freqüente que não se soubesse mais qual a verdadeira paternidade de uma fórmula; no fim das contas, pensava-se que, se uma idéia era verdadeira, pertencia a todos".
(ECO, Umberto. Arte e Beleza na Estética Medieval. Editora Globo, p 13).



Tanto no passado quanto no presente A necessidade de esquivar-se das autoridades - - justifica a adoção de uma data remota, bem como de um nome falso usurpado preferencialmente de algum personagem bíblico (como Salomão) ou um religioso de reputação idônea (como Alberto Magno, Santo Agostinho ou um inverificável Cipriano da Antioquia). Os medievais pensavam que a originalidade fosse um pecado de orgulho "e, naquela época, ao se por em questão a tradição oficial, corriam-se alguns riscos, não só acadêmicos". Já os primeiros compiladores brasileiros do século XX (e mais raramente do XIX) dirigiram suas obras a um público alvo que vivia com medo da polícia. Pessoas que corriam - e ainda correm - risco de prisão por maus tratos de animais (sacrifícios, despachos) e prática de medicina ilegal por receitarem "remédios" extraídos em parte das receitas destes livros. Além disso, há sempre os imitadores curiosos que tentarão seguir os casos extremos. Eu conheci pessoalmente um rapaz que diz ter fervido um gato vivo para testar a receita de invisibilidade do Livro de São Cipriano. Também não é muito difícil encontrar jornais anunciando casos de sacrifícios humanos. Enfim, não sei de onde N. A. Molina extraíu o capítulo sobre vampirismo de sua compilação e, se ainda estiver vivo, talvez nem ele próprio se lembre. Mas valeu por incluir o vampiro no roll das entidades passíveis de invocação na "magia-negra" nacional. -- Shirlei Massapust


Antigo Livro de São Cipriano
O Gigante e Verdadeiro Capa de Aço
(Extrato da versão de N. A. Molina)



Na Europa, é muito divulgada a noção de que existem vampiros. Os vampiros são entidades que segundo a crença popular de algumas regiões, saem dos seus túmulos de noite para sugar o sangue dos vivos. E quando uma pessoa é atacada por um vampiro, acaba morrendo, porque ele volta a sugar-lhe o sangue nas noites subseqüentes, até que a vítima se esgota e morre, e por sua vez se transforma em vampiro. Há, dessa forma, permanente aumento do número de vampiros, uma vez que eles precisam sempre do sangue dos vivos, e estes, quando atacados vão ser também vampiros.

Noutras regiões do mundo se fala muito a respeito de lobisomens os quais, segundo a crença popular, são homens que à meia noite das sextas-feiras se transformam em lobos e saem à procura de gente para sugar-lhe o sangue.

Mas há lugares onde se fala tão-só da existência de bichos, como se a menção da palavra lobisomem fosse bastante para delimitar o aparecimento de um. Alias, é crença muito espalhada entre camponeses: que não se deve chamar as doenças nem o demônio pelo nome certo, pois aquele que pronunciar o nome de uma doença poderá contraí-la e aquele que pronunciar o nome do diabo está convidando-o a aparecer para fazer das suas. Daí o recorrem os campônios a várias palavras para indicar o diabo e as doenças, contanto que não digam o nome correto. Aplica-se o mesmo raciocínio para o lobisomem, e talvez para outras entidades.

Mas é preciso não confundir o lobisomem autêntico, isto é: aquele que está cumprindo um fadário, com aqueles que se fazem passar por lobisomens porque desejam criar ambiente de terror na aldeia onde moram. E tem havido casos de pessoas que fazem promessas a muitos sacrifícios, de acordo com o que prometeram. Pode acontecer que a pessoa prometa engatinhar quinze noites seguidas, de um lugar para outro da região em que vive, e assim, quem passar por ali naquelas ocasiões verá alguma coisa que não pode ser confundida com um animal, porque é gente, mas não parece gente, porque está a caminhar à maneira dos animais.

Nos fins do século XIX, quando ainda o chamado progresso não tinha invadido tudo com os seus rádios e os seus cinemas, falava-se muito de aparições, de lobisomens, e até mesmo de vampiros. Reuniam-se pessoas nos salões mal iluminados das casas enormes da época, descreviam cenas, contavam casos, emitiam opiniões.

Uma sala onde se costumava discutir esses assuntos era a da viúva Norina, mulher de seus quarenta anos, muito sadia, e que se recusava a casar de novo, embora não lhe faltassem pretendentes. Podia-se dizer que era rica, pois além da Quinta onde morava com a criadagem tinha negócios na capital do país, os quais eram administrados por procuradores.

Costumava ela dizer que não acreditava nessas histórias de lobisomens, e que tais coisas eram sempre motivadas por pessoas que tinham interesse em criar clima de terror na região em que viviam. E os seus convivas lhe respondiam:

— Queira Deus que Vossa Mercê nunca se encontre com um destes desgraçados que roubam o sangue das pessoas. É um fadário que eles cumprem, e triste de quem lhes cai nas garras.

A viúva ria e dizia que, se encontrasse um deles, e ela estivesse armada de faca, sempre saberia se defender das unhas e dentes do miserável.

Um dia começou a correr o boato de que ali na sua Quinta aparecia, às sextas-feiras, um bicho horrendo que se arrastava pelo chão, e parece que roncava e ia de uma ponta a outra do terreno. Os criados estavam amedrontados e às noites das sextas-feiras não queriam ir a lugar nenhum. Naquele tempo recolhiam-se todos muito cedo, devido à falta de iluminação, que era precária nas grandes cidades, e ausente nas povoações menores. Assim, naquela escuridão, quem se aventurasse a por os pés fora da casa arriscava-se a muitos dissabores. Quando, porém, havia boatos de gênero desse que acabamos de citar, aumentava o medo em toda a gente.

Tanto falaram daquilo à viúva, que ela, decidiu ir ver o que era. Aconselharam-lhe que não fosse, pois se se tratasse mesmo de um lobisomem, e portanto de coisa sobrenatural, ela não poderia defender-se dos ataques dele, por mais coragem que demonstrasse, por mais armada que estivesse. Ela, porém, não era mulher de temores, e esperou a noite da sexta-feira para sair em busca de tal avaniesma. Perguntou qual das criadas concordava em ir com ela, pois não queria levar homem consigo, e sim desejava resolver tudo à maneira feminina. Uma das criadas, que também não era medrosa, prontificou-se a ir, e na noite aprazada lá estava junto com a patroa, disposta a defendê-la se as coisas se complicassem. Como armas, a viúva conduzia um chuço ao paço que a flâmuia preferiu a longa e aguçada faca de cozinha.

Saíram de casa às onze e meia, e foram avançando para os lugares mais sombrios da Quinta. Andavam devagar, procuravam não fazer barulho que indicasse a presença de seres humanos; e a escuridão que reinava por ali as ajudava a manter-se quase invisíveis.

A meia-noite — já haviam percorrido boa parte do terreno —, eis que pressentem, mais do que avistam uma figura esbranquiçada, como se fosse um porco de tamanho médio, que realmente soltava um ronco muito baixo, quase imperceptível, e aos poucos se foi tornando visível: em conseqüência da sua cor alvacenta, oferecia bastante luminosidade, apesar da escuridão reinante, para que se pudesse ver precariamente os seus contornos.

Recuaram as duas para trás de uns arbustos, e deixaram que a entidade se aproximasse. Ela não parecia vir com intuitos agressivos, e, ao que tudo indicava, não tomara conhecimento da presença das duas mulheres, pois não se desviou do caminho que seguia. Se era animal, não se revelava muito corpulento nem musculoso, e sim um tanto bambo; e se era ente sobrenatural, não demonstrava ter muitos poderes, porque não dera ainda pela presença de duas pessoas que bem podiam ser suas inimigas.

Quando o ente chegou perto da viúva, esta saiu de trás do arbusto e golpeou com força, uma vez só, a coisa que se movia. Ouviu-se um grito, e o vulto se levantou em forma de mulher — pois não era outra coisa.

— Sou eu, Sr.ª  Norina (disse ela). Por favor não me espanque.

— Foi uma promessa que fiz. Hoje é a última noite. Prometi que faria esta caminhada todas as sextas-feiras, durante dois meses, se alcançasse uma graça. Alcancei-a, e agora cumpri a promessa.

— Olha que assustaste muita gente com esta invenção tua (disse a viúva). E bem poderias ter morrido agora, se em vez de um chuço eu tivesse trazido um machado ou coisa assim.

— Ainda não sei se morrerei da pancada que acabo de receber (queixou-se a mulher). Dói muito porque foi muito forte.

— Quem te mandou bancares o lobisomem? (ralhou Norina). Agora sofre. E o que era isso que dizias enquanto engatinhavas?

— Eram orações! Foi assim a promessa e assim espero cumpri-la até o fim. Se me dá licença, retornarei à minha posição.

— Vai — disse a viúva. E que sejas feliz.

Voltou a pobre mulher à sua penitência, enquanto a viúva e a criada regressavam à casa da Quinta para dormir. Tinha sido bem movimentada aquela noite, mas ali ficara explicado mais um caso de lobisomem.


Extraído de:

MOLINA, N. A. Antigo Livro de São Cipriano, O Gigante e Verdadeiro Capa de Aço. Editora Espiritualista.

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