Os Fantasmas

Extrato do livro Traditions occultes des gitans, de Pierre Derlon. Trata do mito dos vampiros entre os ciganos. -- Shirlei Massapust.




A “gente da viagem” é geralmente corajosa e altiva mas a palavra “mulo” basta para incutir-lhes um medo próximo do pânico. O “mulo” habita os cemitérios. É um morto-vivo mais ou menos como o vampiro ou o nosferatu das lendas medievais. Durante o dia dorme sob a terra, ao meio-dia volta ao túmulo. Mas quando a noite chega, ele visita os cemitérios e seus arredores em busca de uma vítima. Em torno do fogo, os nômades aterrorizados contam às vezes as sinistras façanhas de um dos seus antepassados. “Desgraça para o homem que vir o ‘mulo’ retornar ao túmulo quando o galo canta”, dizem eles. “Morrerá de morte violenta como o ‘mulo’ e será maldito se tornará ‘mulo’ também” O “mulo” é pequeno, feio e, se faz amor com tua mulher, teu filho será o filho do "mulo". Sua carne será fria, seus olhos cinzentos. Mas ninguém saberá pois “o mulo" só tomará tua mulher enquanto ela dormir e a criança te chamará “meu pai”.
Esta crença, ou melhor esta superstição é partilhada por todos os ciganos. As duas histórias que se seguem ilustram bem o caso.

Uma noite fui chamado ao campo do chefe de tribo, Potro; Hartiss também estava lá. Após longo silêncio, Potro começou a me fazer perguntas.

— Irias a um cemitério numa noite de lua-cheia, esperar o canto do galo?

— Por que me perguntas isso?

— Devido ao medo. Terias medo?

— Não.

— Mentiroso!

— Por que querias que eu tivesse medo? Já fui muitas vezes passear à noite num cemitério e conheço gente no interior que no verão se serve do lugar para encontro de namorados.

— Os gadjés não respeitam nada, são todos uns porcos! Uma filha de nossa tribo jamais tocaria no muro de um cemitério, mesmo em pleno meio-dia.

Ao clarão do fogo seus rostos dançavam com o reflexo das chamas.

No meu ombro, a mão de Hartiss tornou-se mais pesada. Eu sentia nitidamente seu polegar apoiar-se a fundo no omoplata. E sua voz elevou-se doce, interrompendo as frases atiradas em tumulto.

— Mas no fim de contas, Potro, esse rapaz veio para trazer a paz à tua filha e tu o insultas tratando-o de mentiroso. Pensa que nenhum homem de tua tribo quer passar a noite no cemitério e que por ti ele vem de longe, ignorando o que esperas dele.

— Tratar alguém de mentiroso não é um insulto, Hartiss — falou Potro, levantando-se do caixote que lhe servia de assento.

Atrás dele os rostos lustrosos de olhos de carbúnculo fixavam-me estranhamente, quase com medo. Para eles, eu era o estrangeiro que fizera trezentos quilômetros para dormir no cemitério em que Mário, o noivo de Rupiche, dormia também, havia dois anos, o seu último sono. Para eles, Mário tinha-se tornado um “mulo”. Ora, a única maneira de libertar um morto-vivo, segundo a crença nômade, seria impedi-lo de sair, depois do cair do sol. Bastava passar uma noite sobre seu túmulo. Até o momento não se tinham apresentado voluntários, e o “mulo” continuava a assustar os espíritos da tribo.

Uma velha, à minha esquerda, encheu um cachimbo curto, acendeu-o no braseiro e ofereceu-me. Uma pressão do polegar de Hartiss me fez estender a mão. Tirei algumas baforadas de fumaça acre de um fumo atroz e devolvi o objeto.

Diante de mim, Potro se refez e falou:

— Onde aprendeste os costumes de minha tribo? A velha interveio:

— É o primeiro gadjo que se utiliza do meu cachimbo.

— Ele sabe, é tudo — replicou Hartiss.

— Eu penso que o phral sabe poucas coisas -falou Potro, movendo a cabeça -senão não estaria aqui no centro do fogo, e talvez zombe de nós, talvez queira brincar com o que somos e ridicularizar-nos mais tarde.

A pressão do polegar de meu companheiro nas minhas costas tornou-se quase dolorosa.

Ao meu lado, a velha do cachimbo fumava a pequenos intervalos irregulares, uma nuvem acre e enjoativa evolava-se como uma neblina flutuante. Diante de mim, a largura dos ombros atléticos de Potro desenhava-se sobre o fundo da tenda remendada. Seu rosto moreno, coberto de uma barba hisurta, examinava-me com uma expressão de desconfiança dissimulada.

Nas minhas costas a pressão do polegar se tornava insistente, e eu falei: “Com efeito, eu sei poucas coisas”.

— Então por que vieste?

— Teu amigo me disse: um de meus irmãos precisa de ti, só tu poderás fazer alguma coisa por ele, pois há coisas proibidas aos de sua tribo.

— E então?

— Então eu vim.

— Ele te explicou de que se tratava?

Sim, velar um túmulo desde o cair do sol até o canto do galo.

— E tu vieste?

— Vim, estás vendo.

A velha ao meu lado sibilou:

— Ele veio porque não sabe, Potro, do contrário não teria andado tanto.

— Ele sabe — disse Hartiss com voz surda; somente que as crenças de vossa tribo não são as dele.

— Como queres que um homem que não venera “o grande Del nem Simpetri”[1] nem a “Santa das Duas Maries”[2] possa fazer alguma coisa pelo bengha?[3]

— Há homens que ignoram a nossa medicina mas nos vêm ver quando estão doentes, como tu envias teus filhos ao doutor deles, quando tua medicina não pode fazer nada por eles.

— Tua boca é sábia — replicou o colosso — e o gadjo será o irmão de meus filhos se ele salvar o sono de Rupiche.

— Ele o fará, Potro, eu te digo, ele o fará.

Alguém, atrás de mim, entreabriu a tenda e pediu a palavra. Era um velho seco e de surpreendente mobilidade. Usava, em lugar de chapéu, um lenço preto com bolas brancas, amarrado à maneira dos piratas. Não tinha mais de um metro e meio de altura. Seu aspecto era o de um jovem, entretanto, o patriarca tinha oitenta e quatro anos.

Vestido com umas calças apertadas nos tornozelos, usava com garbo uma jaqueta militar, gasta, feita para outra medida. Sua pele estava como que defumada, o olho negro, sob a testa meio oculta por uma luxuriante cabeleira cinzenta filtrava-se um olhar penetrante de rato à espreita.

Minito, o ancião, por segunda vez pediu a palavra, tocou com as pontas dos dedos o ombro da velha do cachimbo e encaminhou-se para Potro que, levantando-se, cedeu-lhe o assento. Seus olhos penetrantes me encaravam. Voltando-se para o chefe ele falou:

— O medo só existe a partir do conhecimento, Potro, e esse jovem é ignorante. Os ignorantes não têm medo de nada, pois só quem conhece o perigo arma-se de coragem para vencer o medo que o paralisa. A criança ignora o fogo e a água, é por isso que brinca com os dois. Alguns morrem, com outros não sucede nada. Deixe esse ignorante ir para o bengha.

— Eu não ignoro as coisas que conheces, ancião, mas não tenho medo delas.

— Então vai, meu filho.

Eu fui.

Uma hora mais tarde, no pequeno cemitério, o grande medo me caiu sobre os ombros, mas eu resisti até o canto do galo. A madrugada cristalizou sua presença nas pontas das ervas doidas.

Para a tribo, eu vencera o mulo. Para mim eu triunfara sobre o medo, pois só soube mais tarde: o ‘môle aux herbes” que eu bebera na véspera, tinha sido fabricada para que o medo habitasse o meu espírito.

— Só o sábio ou o idiota — me disse Potro antes que Hartiss e eu deixássemos a tribo —, somente esses dois podem vencer o frio que sai do ventre e fazer dele um sol.

 

O mulo, para meu irmão Pedro Zanco, com a idade de sete anos, que às onze horas da noite deixa as Saintes-Maries-de-la-Mer para ir ao encontro do carro de seus pais parado como um despojo num distante terreno baldio, é o grande medo. Entretanto, Pedro é um homem.

Com sete anos, sua guitarra sob o braço, ele vai e canta. Hoje ganhou para se alimentar e arrecadou bastante dinheiro para seus outros irmãos e irmãs. Sua mamãe lê a sorte nas mãos, enquanto seu pai concerta o carro enguiçado. Eles são nove a viverem em oito metros quadrados. Enquanto o sol brilha, Pedro está feliz. Quando a noite cai e as luzes dos cafés onde ele ganha a vida se apagam, então o grande medo dos fantasmas cai sobre seus ombros e esse homem de sete anos, que ganha sua vida, assegurando em parte o alimento dos irmãos, torna-se de novo uma criança.

Com a guitarra aos ombros, ele chegou agora há pouco.

Tenho medo!

De quê?

Só o silêncio responde à minha pergunta.

Compreendo esse silêncio. Só se fala de fantasmas durante o dia. A noite pensa neles, espera-se, fica-se de espreita, treme-se.

Afundado no assento de trás do veículo, o pequeno Zanco não tem mais medo. Os faróis varrem com seus pincéis luminosos um universo desolado.

 

 

Como é triste o campo dos ciganos nas Saintes à noite!

Passei pela abertura das grades onde estacionam. Evito os obstáculos do asfalto. Os reboques estão dispersos, colocados ao acaso num chão caótico. A medida que o carro avança, as luzes se apagam e os pequenos retângulos das janelas tornam-se cegos.

Por trás das janelas também se tem medo, pois to- .dos os carros já estão no acampamento. Este é estrangeiro; que procura? Serão os schmitts?[4]

— Ainda estão longe, Zanco?

— Não, ali adiante.

Passamos o caminho trilhado. Os cachorros deitados sob os carros ladram à nossa passagem.

— É ali!

As cordas da guitarra, arranhadas por acaso por sua mãozinha, compõem um acorde insólito.

O farol inteiro parece pregado num céu de gordura. O reboque dos Zanco. As mulheres estão na porta. Michel, um dos Bouglione, que conduz o carro, faz sinal.

— Dê meia-volta — digo —, já vou lá.

Pedro já está do outro lado da porteira, ele me espera. Não tem mais medo dos fantasmas, tem medo das palmadas, e nos poucos metros que faltam para andar a pé, ele me dá a mão. Sua guitarra ressoa, quando ele toca numa pedra.

— Tu achas que eles vão me marave?[5]

— Não, porque estou aqui.

Não é preciso falar muito. A mãe me espera em companhia de outras mulheres.

— Teu filhinho estava com medo, minha irmã, então eu o trouxe.

— Obrigada, meu irmão.

— Atcho lives, minha irmã.

— Atcho lives.

Foi tudo, nada de frases, somente algumas palavras. Eu sei que com eles as frases são inúteis, só conta o gesto. Nesse dia o pequeno Zanco não tremeu andando de noite, descalço, com a guitarra sob o braço, pensando em todos os fantasmas que por trás do muro do cemitério, calçados de sapatos novos esperam tocar a meia-noite para irem atormentar os ciganos.

Não existem crianças que não acreditem nos “mulos”. No tempo dos cavalos, eu me lembro de certos itinerários em que só se viajava de noite. Se a estrada passasse diante de um cemitério, parava-se antes. Vi grandes acrobatas, que diariamente arriscavam a vida sob o toldo do circo, esperarem que o dia surgisse para sair em do reboque.

As religiões, que servem de suporte ao fetichismo deles não destruíram essas crenças. Mesmo a peregrinação a Lurdes, organizada pelos católicos, arrasta em sua longa cauda as velhas crenças ancestrais.

Mesmo a morte tem para eles dois aspectos. Não se apresenta com a mesma importância, segundo o grau de conhecimento, e vai do desespero à serenidade. Um simples indivíduo não reage da mesma maneira que um chefe de tribo, mas um chefe de tribo deve dar uma impressão de maior desespero.

Hartiss me dizia:

Embora a emoção seja simulada, se queres que teus irmãos acreditem na fonte de tua emoção, às vezes, é preciso fingir certas coisas. Possuirás assim melhor a serenidade, porque um chefe deve ser sereno para ser justo.

Para um simples indivíduo, a morte é o medo. Para kaku é a vida. O primeiro apega-se às velhas lendas dos “mulos”, dos vampiros que retornam ao túmulo na hora em que o galo canta, depois de terem aterrorizado os vivos. Essas perseguições são às vezes de ordem sexual: é a mãe de família que no dia do aniversário da morte de um pretendente, antes recusado, sente-se violada durante o sono.

A auto-sugestão é, às vezes, de tal ordem que toma até o aspecto de um enfeitiçamento, com toda a série de sucessos que daí decorrem. Em 1895, a tribo de Hartiss, de passagem por Verona, ganhou a estrada junto com uma outra tribo, que subia para a Espanha e se propunha seguir o clássico itinerário pela costa, tomando a antiga estrada “de la Plata”. Nessa época, Pietro contava treze anos e fazia parte das equipes de guarda que, postadas à noite como sentinelas, vigiavam ao mesmo tempo os cavalos e preveniam-se dos ataques dos camponeses que avançavam em grupos. Durante uma dessas noites, um alarido atroz revolucionou o acampamento. Uma jovem saiu de uma carroça, correndo em linha reta como uma louca. Logo agarrada e levada para o acampamento, só conseguiu balbuciar algumas palavras sem nexo. Foi preciso esperar dois dias para que uma das mulheres da tribo descobrisse o motivo de tal pânico.

Rosélia afirmava que seu noivo, morto há dois anos, tinha vindo deflorá-la e que, agora, desonrada, não poderia mais casar-se com o primo a quem sua família a tinha prometido. A partir desse dia, o medo instalou-se no acampamento e as guardas noturnas foram asseguradas pelos homens.

Ora, nesse tempo, a educação de Hartiss estava em mãos de seu tio materno Pietro Sintilla, “feiticeiro e kaku”, e, apesar de sua pouca idade, teve o direito de fazer parte da guarda dos homens, com a condição de ficar entre as quatro rodas de uma carroça, o que ele fez. Agachado sob o soalho, percebia a vida secreta daqueles que moravam na carroça; indo de uma para outra, tornou-se uma testemunha da vida de cada um deles. Um dia seu tio percebeu o que se passava e, em lugar de censurá-lo, explicou-lhe que, tendo conhecimento de certos segredos, ele só deveria empregar esse conhecimento para o bem e que de maneira alguma, em caso nenhum, deveria demonstrar pela expressão de seu rosto o “segredo” descoberto.

Ora, uma noite em que montava guarda deitado sobre uns sacos velhos, embaixo do carro de seu tio, percebeu que este se levantava. Sobre sua cabeça, sendo-lhe os ruídos, já familiares, compreendeu que seu tio Sintilla calçava os sapatos. A porta rangeu, embora o tio se esforçasse por abri-Ia em silêncio. Depois ouviu o ruído de seus passos na escada de madeira.

Passando diante da carroça, ele se curvou sobre mim contou Hartiss. Fingi que dormia e o vi andar para o lado oposto onde estavam os cavalos, para a carroça da mulher, que tinha curado o medo de Rosélia.

Alguns instantes depois, agachado sob o soalho da carroça, ouvi um estranho diálogo.

Se me deres um dos fios de teus cabelos, Rinna, eu o pregarei por uma das pontas na argola de ouro da minha orelha dizia o tio.

E se eu te der um cabelo, tomarás meu corpo?

Sim, tomá-lo-ei.

Toma-o então e terás o fio de cabelo. Nessa noite compreendi que acabava de penetrar num universo proibido, que me dava medo. Meu tio era uma colosso e devia ter-se lançado ao trabalho com todo o coração, tanto a carroça se pôs a balançar. Esgueirando-me voltei ao meu primitivo lugar. E de novo, quando meu tio, antes que a noite morresse, voltou à sua carroça, eu o chamei. Curvou-se então sobre mim, eu pressentia seus olhos e disse-lhe:

Tens a argola na orelha?

Ele não respondeu, mas ajoelhou-se e, ajoelhado, veio até onde eu me achava e deitou-se ao meu lado.

Meu pequeno disse-me nesse dia , quando fores um homem, eu te explicarei.

Mas eu sou um homem.

Não.

Entretanto, tu me dizes que eu me porto como um homem.

Claro, tu te portas como, mas não ages como um homem.

Que é preciso fazer para ser como um homem?

O amor com uma mulher e, guarda bem isso, falei mulher, não uma jovem.

Nessa noite o tio dormiu ao meu lado e, quando o dia se ergueu, eu vi sua orelha sem a argola de ouro que possuía. Entrei com ele na carroça; cerrou a abertura, o que não fazia nunca, depois dirigiu-se para o ícone, abriu o quadro e apanhou um bastonete de ouro colocado num esconderijo, enrolou-o à volta de um cravo de ferradura, eu o ajudei a passá-lo depois no buraco da orelha. Seu rosto tinha retomado o aspecto costumeiro. Tirando então seu estojo de papéis da polícia, deslizou aí uma argola de ouro, suspensa na ponta por um fio de cabelo de um comprimento surpreendente e arrumou tudo no esconderijo secreto que se achava no icone. Aos dias sucederam-se os dias. Nossa marcha ia ao encontro da Espanha. Desde ai o medo instalou-se no coração da tribo, porque o ventre de Rosélia começou a inchar como sucedia com os ventres fecundados das outras mulheres da tribo.

Alguns homens pararam de beber vinho e outros à noite diante do fogo do campo, queixavam-se que suas mulheres, diziam eles, não eram mais mulheres.

Uma noite o conselho se reuniu.

Meu tio nessa noite foi dormir na carroça do pai de Rosélia.

No dia seguinte, a tribo inteira assistia ao progressivo desinchar do ventre de Rosélia que em menos de quatro dias voltou ao seu corpo de moça. Que se havia passado?

Nesse dia, meu rapaz, compreendi que meu tio, tinha posto fim, por meio de feitiçarias, ao pretenso enfeitiçamento do “mulo” que era uma gravidez nervosa, e eu lhe disse:

E então?

Então o tio pôs a sua mão sobre a minha cabeça e respondeu-me:

Os mulos não existem, mas os Roms têm necessidade deles, como os gadjés têm necessidade dos santos de pedra, que põem em quantidade nas igrejas. Os mulos e as estátuas não são a mesma coisa, mas a força que têm é a mesma. Por que há imagens que são forças. Antes de conhecer Lurdes e Roma, eu as vi na Índia. Mas esses fantasmas são pesados para transportar, é por isso que não viajam e são encerrados em casas feitas do mesmo material. Nossas estátuas estão nas nossas cabeças, pois os fantasmas são as imagens dos homens que existiram.

Conheci nas Índias homens que faziam falar as estátuas. Entre os gadjés daqui são eles que falam diante delas. Quando te tornares um verdadeiro homem, compreenderás o que o mulo representa verdadeiramente. Não importa que uma tribo inteira acredite no sonho, se o chefe se apega à realidade. Somente isso é importante”.

— Como vês, Pierre, meu tio não acreditava nos mulos da mesma maneira que eu não acredito.

Para ti, Pietro, quando me dizes que, uma vez morto, “mulotarás” que significa “mulotar”?

Quando estiver morto, Pierre, voltarei como “presença” através da lembrança que terei deixado em ti. Só os imbecis tratam de materializar o que existiu. Porque o que foi, não existindo mais, as manifestações palpáveis não são mais do que as condensações de resíduos psíquicos que nada têm em comum com os mortos. Há entre os gadjés homens capazes de criarem os fenômenos espíritas dessa maneira. Mas os mulos, que eles criam em sessões privadas, são puros enganos. Quando um acrobata cai na pista, Pierre, um outro o substitui. O exercício é o mesmo, mas se o nome não for modificado no programa é uma falsidade. A carne morta não pode materializar-se na vida. Só o espírito permanece e, se ele se manifesta pela presença, é que seu laço ficou agarrado a ele.

Por que há tão poucos entre os teus que sabem o que me explicas?

Porque entre nós, como entre os vossos, o homem tem as suas fraquezas. Muitas vezes só o temor pode corrigir o seu comportamento. O medo dos mulos entre nós é um pouco parecido ao do inferno entre vós. Acredita, Pierre, o homem raramente é bom sem razão. O padre não dirá missa se não tens dinheiro. A ledora da sorte, também. O espírito do homem está sempre ligado a coisas monstruosas.

É por isso sem dúvida que o Inferno e os fantasmas existem no seu espírito. As crenças são necessárias ao equilíbrio dos grupos humanos. Seria falso afastá-las, seria destruir o equilíbrio entre alguns. De todos os animais, o homem é o único que domina seus maus instintos pelo medo. Esse medo, inventado pelos pastores, é a salvaguarda do rebanho. O homem sabe que vive na sabedoria e deve silenciar. Acredita em mim, Pierre, o medo conduz ao caminho da virtude.

 

Uma única vez na vida assisti a um de meus irmãos ciganos na grande viagem. Eu sabia que esse homem, depois de morto, seria colocado nu sobre as areias movediças.

Era um feiticeiro. Soube servir-se da fragilidade de nossas leis para desaparecer sem deixar traços.

Eu sou um S.D.F. disse-me certo dia , isto é um “sem domicílio fixo”, teus irmãos não conseguiram nunca fechar-me numa casa de pedra, eles não me fecharão por trás dos muros de um cemitério.

Os homens, que nesse dia o cercavam, olhavam-me em silêncio. Na rua perto das areias, a velha camioneta esperava. Colocado no chão o kaku agonizante ainda falava conosco. E ali, naquele quarto pequeno, entre aqueles homens, alguns não me conheciam, e eu assistia a essa luta contra a morte. Sabia que o kaku queria desaparecer deitado no chão. Tinha-me dito muitas vezes.

E eu sabia que a noite caída o levaria pela estrada de sua última viagem, calmo, consciente, lúcido. “Porque me dizia ele também em outros tempos a morte é idêntica ao nascimento, ambas são ressurreição”.

Já vi morrerem homens, mas não vi jamais ninguém desaparecer de maneira tão lúcida. Pois esse homem, que escondia sua agonia no coração de Arles, esperava que a noite caísse para que sobre ele caísse a noite. Ainda hoje penso que possuía poderes singulares. Creio que jamais farei o que ele fez: morrer no lugar exato que escolheu, sobre uma camada de juncos que os cavalos e os touros da Camargue tinham pisado.

Quando ele morreu, os kakus começaram a litania fúnebre:

 

Conservo uma crina de teu cavalo, meu irmão

Farei três nós em o fio

Queimarei as pontas

E só ficarão os três nós

Três sóis

Como minhas duas mãos quentes

Na tua Fria.

 

Antigamente, quando a morte colhia um dos membros da tribo, eles também diziam:

 

Teu ventre não é frio

Sara

Ele explodiu em pequenos sóis

Tua vida continua Sara

No calor dos sóis

Que teu ventre depositou sobre a terra

A terra abre teu ventre

Para receber Sara

Tu foste um desses pequenos sóis

Que a terra pariu

Cada qual deve retornar à sua mãe

Sara.

 

Acontece muitas vezes, na solidão de meu ateliê, pensar nesse homem. Seu rosto me foi de tal maneira familiar que a terra que o absorveu me deixou sua presença.

“Eu ‘mulotarei’ para que meu coração viva ao lado do teu’ disse-me ele no dia em que, para mim, desapareceu para sempre. Com efeito ele “mulota” cada vez que minha pena macula o papel em que escrevo.

Ele “mulota” como se seu sorriso e o brilho de seu olhar, surgindo das areias movediças da Camargue reconstituíssem uma presença saída do nada. É através dessa presença que o mulo retorna.

Para os ciganos iniciados, a palavra “retornar” ou “mulotar” não têm exatamente a mesma significação.

Segundo o que sabe, o cigano submete-se ao “mulo”. Mas se os sábios se contentam com o espírito da recordação, da emoção que provoca sem procurar materializá-los, eles agüentam também a “presença” do defunto. Esta presença, não a procuram materializar.

“Pierre le Petit” quando vivo me dizia: “eu mulotarei”. E com efeito ele “mulota”.

Para mim, é sempre um alimento. Eu pensava extrair essa força sem a lembrança das coisas vividas. Mas quando penso em minha mãe, nesses instantes em que ela me deu a alegria de viver, a emoção é diferente. Parece faltar uma alegria suplementar. Um pouco assim, como se minha mãe não fosse, às vezes, para mim mais do que uma recordação feliz e o velho, “o pequeno”, uma “presença”.

A recordação é somente um jogo da memória. A presença é quase táctil. Se a rigor podemos distanciar-nos da lembrança, não se pode fazer nada senão sujeitar-se à sua presença.

Tudo pode ser demonstrado me dizia Hartiss. Foi então que eu pensei em certas experiências que ele me tinha feito realizar, como “sentir uma presença através de uma parede”.

Há quatro anos um de meus amigos a quem eu explicara a lei dos ciganos zangou-se comigo. A coisa não era grave, eu já me tinha habituado.

Cada vez que eu aplicava a lei dos Roms com os gadjés de minha família, suas reações eram tais que eu quase sempre lamentava, pois a lei dos Roms é mais dura que a dos gadjés. Entre os Roms, o sentido da honra é a única via e não há circunstâncias atenuantes.

Ora, pois este amigo veio uma noite à minha casa e me pediu para não mais o rever; ele não compreendia destas coisas do meu comportamento. Isso ocorreu sem violência e terminou com um aperto de mão. Minha mulher, entretanto, continuava a freqüentar-lhe a casa pois sua mulher era-lhe querida.

Uma noite, voltando para casa e não encontrando a minha companheira, fui à casa dele, guiado por essa forma de hábito distanciada dos constrangimentos acidentais. Hartiss me acompanhava. Deixando-o sozinho ao pé da escada, subi.

A mulher de meu amigo e seu filhinho receberam-me.

Não, não vi ninguém disse-me ela com um ar estranho. Percebi que me ocultava alguma coisa. Por trás do tabique que separava a sala de jantar do quarto, senti subitamente uma presença. Uma presença masculina. Sentado numa poltrona baixa, num terno azul-marinho, de camisa branca e gravata.

Logo ao descer desse segundo andar da Rua Volta, descrevi a Hartiss a sensação estranha que acabava de viver. Ele me deixou sozinho na Rua de Gravilliers.

Pouco depois da minha saída, apareceu na rua um homem perfeitamente idêntico ao da descrição que eu tinha feito: era meu antigo amigo. Eu não podia crer. Um homem que proíbe outro homem de entrar em sua casa não se esconde quando este penetra em sua residência, expulsa-o.

Hartiss explicou-me que eu pensava como um gadjo e que, tendo aplicado a meu amigo a lei dos Roms, se admirava de que eu me admirasse de tal comportamento. Para Hartiss tudo era lógico. A presença sentida através de uma parede não era nada em relação à que eu sentiria no dia em que ele desaparecesse de nosso mundo terrestre. Há aí uma forma de enfeitiçamento, mas pode ser que certos antagonismos possam realmente engendrar fenômenos singulares.

De fato, esse amigo fez nesse dia uma “mulotagem”, nascida de seu ressentimento. Assim, pois, “mulotar”, entre os kakus, não é somente voltar em lembrança, mas sobretudo retornar em presença; uma presença imaterial mas bem real e sensível.


[1] O grande Deus e São Pedro.

[2] Sara, das Saintes-Maries-de-la-Mer.

[3] O mulo – fantasma, alma do outro mundo.

[4] Os gendarmes.

[5] Me bater.


Texto extraído de:

 

DERLON, Pierre. Tradições Ocultas dos Ciganos. São Paulo/Rio de Janeiro. Difel, 1975, p 203-217.

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