Os
Fantasmas
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Extrato
do livro Traditions occultes des gitans,
de Pierre Derlon. Trata do mito dos vampiros entre os ciganos. -- Shirlei
Massapust. |
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A “gente da viagem” é geralmente
corajosa e altiva mas a palavra “mulo” basta para incutir-lhes um medo
próximo do pânico. O “mulo” habita os cemitérios. É um morto-vivo mais
ou menos como o vampiro ou o nosferatu das lendas medievais.
Durante o dia dorme sob a terra, ao meio-dia volta ao túmulo. Mas quando
a noite chega, ele visita os cemitérios e seus arredores em busca de
uma vítima. Em torno do fogo, os nômades aterrorizados contam às vezes
as sinistras façanhas de um dos seus antepassados. “Desgraça para o
homem que vir o ‘mulo’ retornar ao túmulo quando o galo canta”, dizem
eles. “Morrerá de morte violenta como o ‘mulo’ e será maldito se tornará
‘mulo’ também” O “mulo” é pequeno, feio e, se faz amor com tua mulher,
teu filho será o filho do "mulo". Sua carne será fria, seus
olhos cinzentos. Mas ninguém saberá pois “o mulo" só tomará tua
mulher enquanto ela dormir e a criança te chamará “meu pai”. Uma noite fui chamado ao campo
do chefe de tribo, Potro; Hartiss também estava lá. Após longo silêncio,
Potro começou a me fazer perguntas. — Irias a um cemitério numa
noite de lua-cheia, esperar o canto do galo? — Por que me perguntas isso? — Devido ao medo. Terias medo? — Não. — Mentiroso! — Por que querias que eu tivesse
medo? Já fui muitas vezes passear à noite num cemitério e conheço gente
no interior que no verão se serve do lugar para encontro de namorados. — Os gadjés não respeitam
nada, são todos uns porcos! Uma filha de nossa tribo jamais tocaria
no muro de um cemitério, mesmo em pleno meio-dia. Ao clarão do fogo seus rostos
dançavam com o reflexo das chamas. No meu ombro, a mão de Hartiss
tornou-se mais pesada. Eu sentia nitidamente seu polegar apoiar-se a
fundo no omoplata. E sua voz elevou-se doce, interrompendo as frases
atiradas em tumulto. — Mas no fim de contas, Potro,
esse rapaz veio para trazer a paz à tua filha e tu o insultas tratando-o
de mentiroso. Pensa que nenhum homem de tua tribo quer passar a noite
no cemitério e que por ti ele vem de longe, ignorando o que esperas
dele. — Tratar alguém de mentiroso
não é um insulto, Hartiss — falou Potro, levantando-se do caixote que
lhe servia de assento. Atrás dele os rostos lustrosos
de olhos de carbúnculo fixavam-me estranhamente, quase com medo. Para
eles, eu era o estrangeiro que fizera trezentos quilômetros para dormir
no cemitério em que Mário, o noivo de Rupiche, dormia também, havia
dois anos, o seu último sono. Para eles, Mário tinha-se tornado um “mulo”.
Ora, a única maneira de libertar um morto-vivo, segundo a crença nômade,
seria impedi-lo de sair, depois do cair do sol. Bastava passar uma noite
sobre seu túmulo. Até o momento não se tinham apresentado voluntários,
e o “mulo” continuava a assustar os espíritos da tribo. Uma velha, à minha esquerda,
encheu um cachimbo curto, acendeu-o no braseiro e ofereceu-me. Uma pressão
do polegar de Hartiss me fez estender a mão. Tirei algumas baforadas
de fumaça acre de um fumo atroz e devolvi o objeto. Diante de mim, Potro se refez
e falou: — Onde aprendeste os costumes
de minha tribo? A velha interveio: — É o primeiro gadjo que
se utiliza do meu cachimbo. — Ele sabe, é tudo — replicou
Hartiss. — Eu penso que o phral sabe
poucas coisas -falou Potro, movendo a cabeça -senão não estaria aqui
no centro do fogo, e talvez zombe de nós, talvez queira brincar com
o que somos e ridicularizar-nos mais tarde. A pressão do polegar de meu
companheiro nas minhas costas tornou-se quase dolorosa. Ao meu lado, a velha do cachimbo
fumava a pequenos intervalos irregulares, uma nuvem acre e enjoativa
evolava-se como uma neblina flutuante. Diante de mim, a largura dos
ombros atléticos de Potro desenhava-se sobre o fundo da tenda remendada.
Seu rosto moreno, coberto de uma barba hisurta, examinava-me com uma
expressão de desconfiança dissimulada. Nas minhas costas a pressão
do polegar se tornava insistente, e eu falei: “Com efeito, eu sei poucas
coisas”. — Então por que vieste? — Teu amigo me disse: um de
meus irmãos precisa de ti, só tu poderás fazer alguma coisa por ele,
pois há coisas proibidas aos de sua tribo. — E então? — Então eu vim. — Ele te explicou de que se
tratava? — Sim, velar um túmulo desde o
cair do sol até o canto do galo. — E tu vieste? — Vim, estás vendo. A velha ao meu lado sibilou: — Ele veio porque não sabe,
Potro, do contrário não teria andado tanto. — Ele sabe — disse Hartiss
com voz surda; somente que as crenças de vossa tribo não são as dele. — Como queres que um homem
que não venera “o grande Del nem Simpetri”[1]
nem a “Santa das Duas Maries”[2]
possa fazer alguma coisa pelo bengha?[3] — Há homens que ignoram a nossa
medicina mas nos vêm ver quando estão doentes, como tu envias teus filhos
ao doutor deles, quando tua medicina não pode fazer nada por eles. — Tua boca é sábia — replicou
o colosso — e o gadjo será o irmão de meus filhos se ele salvar
o sono de Rupiche. — Ele o fará, Potro, eu te
digo, ele o fará. Alguém, atrás de mim, entreabriu
a tenda e pediu a palavra. Era um velho seco e de surpreendente mobilidade.
Usava, em lugar de chapéu, um lenço preto com bolas brancas, amarrado
à maneira dos piratas. Não tinha mais de um metro e meio de altura.
Seu aspecto era o de um jovem, entretanto, o patriarca tinha oitenta
e quatro anos. Vestido com umas calças apertadas
nos tornozelos, usava com garbo uma jaqueta militar, gasta, feita para
outra medida. Sua pele estava como que defumada, o olho negro, sob a
testa meio oculta por uma luxuriante cabeleira cinzenta filtrava-se
um olhar penetrante de rato à espreita. Minito, o ancião, por segunda
vez pediu a palavra, tocou com as pontas dos dedos o ombro da velha
do cachimbo e encaminhou-se para Potro que, levantando-se, cedeu-lhe
o assento. Seus olhos penetrantes me encaravam. Voltando-se para o chefe
ele falou: — O medo só existe a partir
do conhecimento, Potro, e esse jovem é ignorante. Os ignorantes não
têm medo de nada, pois só quem conhece o perigo arma-se de coragem para
vencer o medo que o paralisa. A criança ignora o fogo e a água, é por
isso que brinca com os dois. Alguns morrem, com outros não sucede nada.
Deixe esse ignorante ir para o bengha. — Eu não ignoro as coisas que
conheces, ancião, mas não tenho medo delas. — Então vai, meu filho. Eu fui. Uma hora mais tarde, no pequeno
cemitério, o grande medo me caiu sobre os ombros, mas eu resisti até
o canto do galo. A madrugada cristalizou sua presença nas pontas das
ervas doidas. Para a tribo, eu vencera o
mulo. Para mim eu triunfara sobre o medo, pois só soube mais tarde:
o ‘môle aux herbes” que eu bebera na véspera, tinha sido fabricada para
que o medo habitasse o meu espírito. — Só o sábio ou o idiota —
me disse Potro antes que Hartiss e eu deixássemos a tribo —, somente
esses dois podem vencer o frio que sai do ventre e fazer dele um sol. O mulo, para meu irmão Pedro
Zanco, com a idade de sete anos, que às onze horas da noite deixa as
Saintes-Maries-de-la-Mer para ir ao encontro do carro de seus pais parado
como um despojo num distante terreno baldio, é o grande medo. Entretanto,
Pedro é um homem. Com sete anos, sua guitarra
sob o braço, ele vai e canta. Hoje ganhou para se alimentar e arrecadou
bastante dinheiro para seus outros irmãos e irmãs. Sua mamãe lê a sorte
nas mãos, enquanto seu pai concerta o carro enguiçado. Eles são nove
a viverem em oito metros quadrados. Enquanto o sol brilha, Pedro está
feliz. Quando a noite cai e as luzes dos cafés onde ele ganha a vida
se apagam, então o grande medo dos fantasmas cai sobre seus ombros e
esse homem de sete anos, que ganha sua vida, assegurando em parte o
alimento dos irmãos, torna-se de novo uma criança. Com a guitarra aos ombros,
ele chegou agora há pouco. — Tenho medo! — De quê? Só o silêncio responde à minha
pergunta. Compreendo esse silêncio. Só
se fala de fantasmas durante o dia. A noite pensa neles, espera-se,
fica-se de espreita, treme-se. Afundado no assento de trás
do veículo, o pequeno Zanco não tem mais medo. Os faróis varrem com
seus pincéis luminosos um universo desolado. Como é triste o campo dos ciganos
nas Saintes à noite! Passei pela abertura das grades
onde estacionam. Evito os obstáculos do asfalto. Os reboques estão dispersos,
colocados ao acaso num chão caótico. A medida que o carro avança, as
luzes se apagam e os pequenos retângulos das janelas tornam-se cegos. Por trás das janelas também
se tem medo, pois to- .dos os carros já estão no acampamento. Este é
estrangeiro; que procura? Serão os schmitts?[4]
— Ainda estão longe, Zanco? — Não, ali adiante. Passamos o caminho trilhado.
Os cachorros deitados sob os carros ladram à nossa passagem. — É ali! As cordas da guitarra, arranhadas
por acaso por sua mãozinha, compõem um acorde insólito. O farol inteiro parece pregado
num céu de gordura. O reboque dos Zanco. As mulheres estão na porta.
Michel, um dos Bouglione, que conduz o carro, faz sinal. — Dê meia-volta — digo —, já
vou lá. Pedro já está do outro lado
da porteira, ele me espera. Não tem mais medo dos fantasmas, tem medo
das palmadas, e nos poucos metros que faltam para andar a pé, ele me
dá a mão. Sua guitarra ressoa, quando ele toca numa pedra. — Tu achas que eles vão me
marave?[5] — Não, porque estou aqui. Não é preciso falar muito.
A mãe me espera em companhia de outras mulheres. — Teu filhinho estava com medo,
minha irmã, então eu o trouxe. — Obrigada, meu irmão. — Atcho lives, minha irmã. — Atcho lives. Foi tudo, nada de frases, somente
algumas palavras. Eu sei que com eles as frases são inúteis, só conta
o gesto. Nesse dia o pequeno Zanco não tremeu andando de noite, descalço,
com a guitarra sob o braço, pensando em todos os fantasmas que por trás
do muro do cemitério, calçados de sapatos novos esperam tocar a meia-noite
para irem atormentar os ciganos. Não existem crianças que não
acreditem nos “mulos”. No tempo dos cavalos, eu me lembro de certos
itinerários em que só se viajava de noite. Se a estrada passasse diante
de um cemitério, parava-se antes. Vi grandes acrobatas, que diariamente
arriscavam a vida sob o toldo do circo, esperarem que o dia surgisse
para sair em do reboque. As religiões, que servem de
suporte ao fetichismo deles não destruíram essas crenças. Mesmo a peregrinação
a Lurdes, organizada pelos católicos, arrasta em sua longa cauda as
velhas crenças ancestrais. Mesmo a morte tem para eles
dois aspectos. Não se apresenta com a mesma importância, segundo o grau
de conhecimento, e vai do desespero à serenidade. Um simples indivíduo
não reage da mesma maneira que um chefe de tribo, mas um chefe de tribo
deve dar uma impressão de maior desespero. Hartiss me dizia: — Embora a emoção seja simulada,
se queres que teus irmãos acreditem na fonte de tua emoção, às vezes,
é preciso fingir certas coisas. Possuirás assim melhor a serenidade,
porque um chefe deve ser sereno para ser justo. Para um simples indivíduo,
a morte é o medo. Para kaku é a vida. O primeiro apega-se às
velhas lendas dos “mulos”, dos vampiros que retornam ao túmulo na hora
em que o galo canta, depois de terem aterrorizado os vivos. Essas perseguições
são às vezes de ordem sexual: é a mãe de família que no dia do aniversário
da morte de um pretendente, antes recusado, sente-se violada durante
o sono. A auto-sugestão é, às vezes,
de tal ordem que toma até o aspecto de um enfeitiçamento, com toda a
série de sucessos que daí decorrem. Em 1895, a tribo de Hartiss, de
passagem por Verona, ganhou a estrada junto com uma outra tribo, que
subia para a Espanha e se propunha seguir o clássico itinerário pela
costa, tomando a antiga estrada “de la Plata”. Nessa época, Pietro contava treze anos e fazia parte das equipes de guarda
que, postadas à noite como sentinelas, vigiavam ao mesmo tempo os cavalos
e preveniam-se dos ataques dos camponeses que avançavam em grupos. Durante
uma dessas noites, um alarido atroz revolucionou o acampamento. Uma
jovem saiu de uma carroça, correndo em linha reta como uma louca. Logo
agarrada e levada para o acampamento, só conseguiu balbuciar algumas
palavras sem nexo. Foi preciso esperar dois dias para que uma das mulheres
da tribo descobrisse o motivo de tal pânico. Rosélia afirmava que seu noivo,
morto há dois anos, tinha vindo deflorá-la e que, agora, desonrada,
não poderia mais casar-se com o primo a quem sua família a tinha prometido.
A partir desse dia, o medo instalou-se no acampamento e as guardas noturnas
foram asseguradas pelos homens. Ora, nesse tempo, a educação
de Hartiss estava em mãos de seu tio materno Pietro Sintilla, “feiticeiro
e kaku”, e, apesar de sua pouca idade, teve o direito de fazer
parte da guarda dos homens, com a condição de ficar entre as quatro
rodas de uma carroça, o que ele fez. Agachado sob o soalho, percebia
a vida secreta daqueles que moravam na carroça; indo de uma para outra,
tornou-se uma testemunha da vida de cada um deles. Um dia seu tio percebeu
o que se passava e, em lugar de censurá-lo, explicou-lhe que, tendo
conhecimento de certos segredos, ele só deveria empregar esse conhecimento
para o bem e que de maneira alguma, em caso nenhum, deveria demonstrar
pela expressão de seu rosto o “segredo” descoberto. Ora, uma noite em que montava
guarda deitado sobre uns sacos velhos, embaixo do carro de seu tio,
percebeu que este se levantava. Sobre sua cabeça, sendo-lhe os ruídos,
já familiares, compreendeu que seu tio Sintilla calçava os sapatos.
A porta rangeu, embora o tio se esforçasse por abri-Ia em silêncio.
Depois ouviu o ruído de seus passos na escada de madeira. — Passando diante da carroça,
ele se curvou sobre mim — contou
Hartiss. — Fingi que dormia e o vi andar
para o lado oposto onde estavam os cavalos, para a carroça da mulher,
que tinha curado o medo de Rosélia. Alguns instantes depois, agachado
sob o soalho da carroça, ouvi um estranho diálogo. — Se me deres um dos fios de
teus cabelos, Rinna, eu o pregarei por uma das pontas na argola de ouro
da minha orelha —
dizia o tio. — E se eu te der um cabelo, tomarás
meu corpo? — Sim, tomá-lo-ei. — Toma-o então e terás o fio
de cabelo. Nessa noite compreendi que acabava de penetrar num universo
proibido, que me dava medo. Meu tio era uma colosso e devia ter-se lançado
ao trabalho com todo o coração, tanto a carroça se pôs a balançar. Esgueirando-me
voltei ao meu primitivo lugar. E de novo, quando meu tio, antes que
a noite morresse, voltou à sua carroça, eu o chamei. Curvou-se então
sobre mim, eu pressentia seus olhos e disse-lhe: — Tens a argola na orelha? Ele não respondeu, mas ajoelhou-se
e, ajoelhado, veio até onde eu me achava e deitou-se ao meu lado. — Meu pequeno — disse-me nesse dia —, quando fores um homem, eu
te explicarei. — Mas eu sou um homem. — Não. — Entretanto, tu me dizes que
eu me porto como um homem. — Claro, tu te portas como, mas
não ages como um homem. — Que é preciso fazer para ser
como um homem? — O amor com uma mulher e, guarda
bem isso, falei mulher, não uma jovem. Nessa noite o tio dormiu ao
meu lado e, quando o dia se ergueu, eu vi sua orelha sem a argola de
ouro que possuía. Entrei com ele na carroça; cerrou a abertura, o que
não fazia nunca, depois dirigiu-se para o ícone, abriu o quadro e apanhou
um bastonete de ouro colocado num esconderijo, enrolou-o à volta de
um cravo de ferradura, eu o ajudei a passá-lo depois no buraco da orelha.
Seu rosto tinha retomado o aspecto costumeiro. Tirando então seu estojo
de papéis da polícia, deslizou aí uma argola de ouro, suspensa na ponta
por um fio de cabelo de um comprimento surpreendente e arrumou tudo
no esconderijo secreto que se achava no icone. Aos dias sucederam-se
os dias. Nossa marcha ia ao encontro da Espanha. Desde ai o medo instalou-se
no coração da tribo, porque o ventre de Rosélia começou a inchar como
sucedia com os ventres fecundados das outras mulheres da tribo. Alguns homens pararam de beber
vinho e outros à noite diante do fogo do campo, queixavam-se que suas
mulheres, diziam eles, não eram mais mulheres. Uma noite o conselho se reuniu. Meu tio nessa noite foi dormir
na carroça do pai de Rosélia. No dia seguinte, a tribo inteira
assistia ao progressivo desinchar do ventre de Rosélia que em menos
de quatro dias voltou ao seu corpo de moça. Que se havia passado? — Nesse dia, meu rapaz, compreendi
que meu tio, tinha posto fim, por meio de feitiçarias, ao pretenso enfeitiçamento
do “mulo” que era uma gravidez nervosa, e eu lhe disse: — E então? Então o tio pôs a sua mão sobre
a minha cabeça e respondeu-me: — Os mulos não existem, mas os
Roms têm necessidade deles, como os gadjés têm necessidade dos
santos de pedra, que põem em quantidade nas igrejas. Os mulos e as estátuas
não são a mesma coisa, mas a força que têm é a mesma. Por que há imagens
que são forças. Antes de conhecer Lurdes e Roma, eu as vi na Índia.
Mas esses fantasmas são pesados para transportar, é por isso que não
viajam e são encerrados em casas feitas do mesmo material. Nossas estátuas
estão nas nossas cabeças, pois os fantasmas são as imagens dos homens
que existiram. Conheci nas Índias homens que
faziam falar as estátuas. Entre os gadjés daqui são eles que
falam diante delas. Quando te tornares um verdadeiro homem, compreenderás
o que o mulo representa verdadeiramente. Não importa que uma tribo inteira
acredite no sonho, se o chefe se apega à realidade. Somente isso é importante”. — Como vês, Pierre, meu tio
não acreditava nos mulos da mesma maneira que eu não acredito. — Para ti, Pietro, quando me
dizes que, uma vez morto, “mulotarás” que significa “mulotar”? — Quando estiver morto, Pierre,
voltarei como “presença” através da lembrança que terei deixado em ti.
Só os imbecis tratam de materializar o que existiu. Porque o que foi,
não existindo mais, as manifestações palpáveis não são mais do que as
condensações de resíduos psíquicos que nada têm em comum com os mortos.
Há entre os gadjés homens capazes de criarem os fenômenos espíritas
dessa maneira. Mas os mulos, que eles criam em sessões privadas, são
puros enganos. Quando um acrobata cai na pista, Pierre, um outro o substitui.
O exercício é o mesmo, mas se o nome não for modificado no programa
é uma falsidade. A carne morta não pode materializar-se na vida. Só
o espírito permanece e, se ele se manifesta pela presença, é que seu
laço ficou agarrado a ele. — Por que há tão poucos entre
os teus que sabem o que me explicas? — Porque entre nós, como entre
os vossos, o homem tem as suas fraquezas. Muitas vezes só o temor pode
corrigir o seu comportamento. O medo dos mulos entre nós é um pouco
parecido ao do inferno entre vós. Acredita, Pierre, o homem raramente
é bom sem razão. O padre não dirá missa se não tens dinheiro. A ledora
da sorte, também. O espírito do homem está sempre ligado a coisas monstruosas.
É por isso sem dúvida que o
Inferno e os fantasmas existem no seu espírito. As crenças são necessárias
ao equilíbrio dos grupos humanos. Seria falso afastá-las, seria destruir
o equilíbrio entre alguns. De todos os animais, o homem é o único que
domina seus maus instintos pelo medo. Esse medo, inventado pelos pastores,
é a salvaguarda do rebanho. O homem sabe que vive na sabedoria e deve
silenciar. Acredita em mim, Pierre, o medo conduz ao caminho da virtude. Uma única vez na vida assisti
a um de meus irmãos ciganos na grande viagem. Eu sabia que esse homem,
depois de morto, seria colocado nu sobre as areias movediças. Era um feiticeiro. Soube servir-se
da fragilidade de nossas leis para desaparecer sem deixar traços. — Eu sou um S.D.F. — disse-me certo dia —, isto é um “sem domicílio
fixo”, teus irmãos não conseguiram nunca fechar-me numa casa de pedra,
eles não me fecharão por trás dos muros de um cemitério. Os homens, que nesse dia o
cercavam, olhavam-me em silêncio. Na rua perto das areias, a velha camioneta
esperava. Colocado no chão o kaku agonizante ainda falava conosco.
E ali, naquele quarto pequeno, entre aqueles homens, alguns não me conheciam,
e eu assistia a essa luta contra a morte. Sabia que o kaku queria
desaparecer deitado no chão. Tinha-me dito muitas vezes. E eu sabia que a noite caída
o levaria pela estrada de sua última viagem, calmo, consciente, lúcido.
“Porque —
me dizia ele também em outros
tempos —
a morte
é idêntica ao nascimento, ambas são ressurreição”. Já vi morrerem homens, mas
não vi jamais ninguém desaparecer de maneira tão lúcida. Pois esse homem,
que escondia sua agonia no coração de Arles, esperava que a noite caísse
para que sobre ele caísse a noite. Ainda hoje penso que possuía poderes
singulares. Creio que jamais farei o que ele fez: morrer no lugar exato
que escolheu, sobre uma camada de juncos que os cavalos e os touros
da Camargue tinham pisado. Quando ele morreu, os kakus
começaram a litania fúnebre: Conservo uma crina de teu cavalo,
meu irmão Farei três nós em o fio Queimarei as pontasE só ficarão os três nós Três sóis Como minhas duas mãos quentes Na tua Fria. Antigamente, quando a morte
colhia um dos membros da tribo, eles também diziam: Teu ventre não é frio Sara Ele explodiu em pequenos sóis Tua vida continua Sara No calor dos sóis Que teu ventre depositou sobre a terra A terra abre teu ventre Para receber Sara Tu foste um desses pequenos
sóis Que a terra pariu Cada qual deve retornar à sua
mãe Sara. Acontece muitas vezes, na solidão
de meu ateliê, pensar nesse homem. Seu rosto me foi de tal maneira familiar
que a terra que o absorveu me deixou sua presença. “Eu ‘mulotarei’ para que meu
coração viva ao lado do teu’ — disse-me
ele no dia em que, para mim, desapareceu para sempre. Com efeito ele
“mulota” cada vez que minha pena macula o papel em que escrevo. Ele “mulota” como se seu sorriso
e o brilho de seu olhar, surgindo das areias movediças da Camargue reconstituíssem
uma presença saída do nada. É através dessa presença que o mulo retorna. Para os ciganos iniciados,
a palavra “retornar” ou “mulotar” não têm exatamente a mesma significação. Segundo o que sabe, o cigano
submete-se ao “mulo”. Mas se os sábios se contentam com o espírito da
recordação, da emoção que provoca sem procurar materializá-los, eles
agüentam também a “presença” do defunto. Esta presença, não a procuram
materializar. “Pierre le Petit” quando vivo
me dizia: “eu mulotarei”. E com efeito ele “mulota”. Para mim, é sempre um alimento.
Eu pensava extrair essa força sem a lembrança das coisas vividas. Mas
quando penso em minha mãe, nesses instantes em que ela me deu a alegria
de viver, a emoção é diferente. Parece faltar uma alegria suplementar.
Um pouco assim, como se minha mãe não fosse, às vezes, para mim mais
do que uma recordação feliz e o velho, “o pequeno”, uma “presença”. A recordação é somente um jogo
da memória. A presença é quase táctil. Se a rigor podemos distanciar-nos
da lembrança, não se pode fazer nada senão sujeitar-se à sua presença. — Tudo pode ser demonstrado — me dizia Hartiss. Foi então
que eu pensei em certas experiências que ele me tinha feito realizar,
como “sentir uma presença através de uma parede”. Há quatro anos um de meus amigos
a quem eu explicara a lei dos ciganos zangou-se comigo. A coisa não
era grave, eu já me tinha habituado. Cada vez que eu aplicava a
lei dos Roms com os gadjés de minha família, suas reações eram
tais que eu quase sempre lamentava, pois a lei dos Roms é mais dura
que a dos gadjés. Entre os Roms, o sentido da honra é a única
via e não há circunstâncias atenuantes. Ora, pois este amigo veio uma
noite à minha casa e me pediu para não mais o rever; ele não compreendia
destas coisas do meu comportamento. Isso ocorreu sem violência e terminou
com um aperto de mão. Minha mulher, entretanto, continuava a freqüentar-lhe
a casa pois sua mulher era-lhe querida. Uma noite, voltando para casa
e não encontrando a minha companheira, fui à casa dele, guiado por essa
forma de hábito distanciada dos constrangimentos acidentais. Hartiss
me acompanhava. Deixando-o sozinho ao pé da escada, subi. A mulher de meu amigo e seu
filhinho receberam-me. — Não, não vi ninguém — disse-me ela com um ar estranho.
Percebi que me ocultava alguma coisa. Por trás do tabique que separava
a sala de jantar do quarto, senti subitamente uma presença. Uma presença
masculina. Sentado numa poltrona baixa, num terno azul-marinho, de camisa
branca e gravata. Logo ao descer desse segundo
andar da Rua Volta, descrevi a Hartiss a sensação estranha que acabava
de viver. Ele me deixou sozinho na Rua de Gravilliers. Pouco depois da minha saída,
apareceu na rua um homem perfeitamente idêntico ao da descrição que
eu tinha feito: era meu antigo amigo. Eu não podia crer. Um homem
que proíbe outro homem de entrar em sua casa não se esconde quando este
penetra em sua residência, expulsa-o. Hartiss explicou-me que eu
pensava como um gadjo e que, tendo aplicado a meu amigo a lei
dos Roms, se admirava de que eu me admirasse de tal comportamento. Para
Hartiss tudo era lógico. A presença sentida através de uma parede não
era nada em relação à que eu sentiria no dia em que ele desaparecesse
de nosso mundo terrestre. Há aí uma forma de enfeitiçamento, mas pode
ser que certos antagonismos possam realmente engendrar fenômenos singulares. De fato, esse amigo fez nesse dia uma “mulotagem”, nascida de seu ressentimento. Assim, pois, “mulotar”, entre os kakus, não é somente voltar em lembrança, mas sobretudo retornar em presença; uma presença imaterial mas bem real e sensível. |
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Texto
extraído de: DERLON, Pierre. Tradições Ocultas dos Ciganos. São Paulo/Rio de Janeiro. Difel, 1975, p 203-217. |