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As passagens a seguir
foram extraídas do livro "O Altar Supremo", do
antropólogo Patrick Tieney. A tradução é
de Dílson Bento, um verdadeiro profissional brasileiro que
trabalha mais pelo amor do que pela remuneração. Recomendo
este livro para todos aqueles que tiverem interesse no tema dos
sacrifícios humanos realizados na Amériaca pré
colombiana. -- Shirlei Massapust
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Segundo uma lenda grega, Licáon,
primeiro rei de Arcádia, matou seu neto Arcas, retalhou o corpo,
cozinhou-o num caldeirão de três pés, empregado para sacrifícios
de animais, e serviu a Zeus o canibalesco prato. Esta lenda tem
seu complemento ritual que era reencenado a cada ano no topo do
monte Licáon durante o festival pan-arcádico, embora fosse celebrado
em segredo e à noite. Acreditava-se que aqueles que comessem da
carne humana eram transformados em “lobos” e tinham de entrar para
um clã especial, indo viver juntos, em exílio, por nove anos. Se
durante estes nove anos não voltassem a comer mais carne humana,
então, permitia-se aos “lobos” que retornassem à sociedade normal. |
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O significado mais óbvio das
transformações em lobisomem é o tabu que cerca o sacrifício humano.
Quem quer que comesse a carne da criança sacrificada na cerimônia
secreta no topo do monte Licáon, tinha de viver banido por nove
anos, afastado da sociedade da Arcádia como um lobo na floresta.
Esta é uma maneira típica de definir a impureza ritual e o temporário
banimento da sociedade a que se submete uma pessoa que realiza um
sacrifício humano. |
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J. de Arriaga, jesuíta extirpador
de heresias, no início do século XVII, encontrou na costa peruana
um culto desse gênero. Arriaga puniu setenta e três xamãs pelo sacrifício
macabro tanto de crianças quanto de adultos. Estes xamãs, por ele
denominados brujos, estavam organizados numa sociedade clandestina
dotada de uma bem definida hierarquia de “capitães” e de “soldados”.
Eles entravam nas casas à noite, quando as pessoas estavam dormindo,
e furtivamente cortavam-nas com suas unhas para extrair-lhes o sangue,
que era sugado, provocando a morte, em poucos dias, daquele cujo
sangue havia sido roubado. Por causa de seu método de sugar o sangue
das vítimas, estes sacrificadores eram denominados “sugadores”.
Ao que se acreditava, eles também cozinhavam o sangue humano e o
transformavam em carne, que era ingerida em reuniões secretas. Arriaga
afirma que “nestes encontros, o demônio aparecia, às vezes, na forma
de um leão, outras vezes como um tigre e (...) era por eles adorado
com delírio”.[1] Os “sugadores” de sangue de
Arriaga parecem-se de perto com os liquichiris dos aimarás,
que definem seres capazes de assumir a forma de animal para penetrar
nas casas à noite e chupar a gordura das pessoas adormecidas. E
a pessoa, que de nada suspeitava, sempre morre alguns dias depois. |
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Num paralelo curioso, os sacerdotes
incas usavam suas unhas para cortar a garganta de porquinhos-da-índia
para ritos. Outro ritual, conhecido como Huacarpaña, “consistia
na oferenda de sangue, de crianças ou de animais, extraído com o
cravar das unhas”[2]. Seria difícil
cortar a garganta de um porquinho-da-índia, ou sangrar bastante
uma criança com unhadas, a menos que as unhas dos sacerdotes fossem
extremamente longas e especialmente afiadas para este propósito. |
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Acredito que a obsessão popular
com a gordura humana, presente nos mitos aiamarás, deriva de seu emprego
e de sua troca regulares num passado relativamente recente. A gordura
de lhama ainda é comprada e vendida para inúmeros propósitos mágicos
e curativos. A gordura humana deve ter tido semelhante uso, embora
bem mais preciosa. O uso básico para carne animal e humana é indiscutível:
alimentar os “tios” viciados em sangue, os quais tem poderes e apetites
de vampiros. A finalidade arcaica do rito
sacrificial era banir estes monstros sedentos de sangue da sociedade
humana. O medo dos grandes predadores e das serpentes ainda se oculta
na memória da raça. Entretanto, o maior de todos os temores é o medo
do pior dos predadores – o homem nas vestes de lobo, o próprio Homo
necans. A recorrência de vampiros e de lobisomens indica a perpétua
necessidade de exorcizar o assassino dentro de nós. Quando os enlouquecidos
cristãos evangélicos de Vista Hermosa cravaram uma estaca no coração
de Hernán Edgardo Cofre, um menino de sete anos de idade, estavam
tentando, desesperadamente, exorcizar aquele vampiro ancestral, mas
ignoravam estarem eles próprios possuídos pelo monstro, e não o menino. Assim, num sentido evolucionista,
há uma base para aquele lugar-comum dos filmes de terror: sempre que
o herói ergue o crucifixo, o vampiro se encolhe de medo e foge voando
pela janela. O rito sacrifical, na visão de Burket, constitui o primeiro
obstáculo ao animal dentro do homem. |
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Trechos extraídos de: TIERNEY, Patrick. O Altar Supremo: Uma História
do Sacrifício Humano. Trd. Dílson Bento de Faria
Ferreira Lima. |