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O prazer do "o"

Lembro muito bem, era uma tarde de quinta-feira, fazia um calor insuportável. O suor escoria ao menor movimento, havia pouco trabalho a fazer e comecei a escrever para passa o tempo. Foi aí que tudo começou, uma mosca, uma simples mosca, passou a infernizar minha paciência. Era uma daquelas pequenas, rápida como só ela. Realizava vôos rasantes e pousos cíclicos em minha cabeça. Por um momento questionei se meu banho semanal estava em dia, no entanto, lembrei que o havia tomado no último sábado. Assim, não era por falta dele que eu era atacado por aquela mosca kamikaze. 

Indignado com sua persistência, comecei a usar todos os métodos imagináveis para mata-la. Mas,  à medida que o tempo ia passando um sentimento de respeito começou a surgir em mim, a ponto de transformar completamente minha estratégia. Agora, só aceitava sua captura-la com vida. Porem, esperta, deve ter notado o que estava para acontecer e passou a atacar de surpresa, aparecia e desaparecia como num passe de mágica. Ficava escondida em trincheiras deixando o vento sempre a sua frente. Percebi então que estava diante de um espécime raro, uma verdadeira guerreira. 

Exausto de várias tentativas sem o mínimo de sucesso, desisti. Não porque eu realmente queria, mas para ser visto como um derrotado. Mudei até as feições do rosto. Murchei na cadeira. Dei a nítida impressão que não faria mal nem há uma mosca. A partir deste momento passei a ser humilhado, não fui tratado como gente, todos os direitos humanos foram quebrados. Ela mostrava que suas atitudes eram más, perversas e abomináveis. 

Todavia, o destino transformou aquela situação. Como se fosse a última e derradeira tentativa, enchi o peito de ar e quando por descuido ela passou em frente do computador, soprei como nunca havia soprado antes a desgovernando e levando-a a uma colisão com a tela. Num golpe muito rápido a derrubei sobre o teclado. Sedento por vingança atrapalhei-me ao tentar pegá-la, pressionei algumas teclas dando a oportunidade de uma nova fuga. Só que agora ela estava presa sob o alfabeto, sem nenhuma possibilidade de fugir. 

Parei e pesei: “O meu momento chegou”. Necessitava ser preciso. À via através das frestas se movimentar ligeiramente. Resolvi então pressionar simultaneamente todas as teclas para mata-la, mas prudentemente parei, interrompi o processo. Tinha que ter certeza de sua morte, não podia dar a mínima chance a infeliz. A solução veio como num estalo, comecei a escrever novamente. E em meio a palavras desconexas cheguei ao êxtase. Pressionei a letra “o”  e tive o imenso prazer de ouvir o som de seu corpo esmagando demoradamente. O barulho mais bonito que alguém na minha situação poderia ouvir. Gritei sem pestanejar: “ Te matei, porca suja”. Desde lá tudo voltou ao normal.

Fábioooooo Luís Accooooorsi.

 
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Última modificação: 12 dezembro, 2003
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