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A grande abóbora.

      É muito estranho. Não importa se o dia for quente ou gelado, uma multidão se dirige firme e inquestionável ao encontro da grande abóbora. No início achava intrigante, mas depois fui entendendo o motivo de tal fascínio.

 Comicamente, essas pessoas, agem como se fossem formigas perdidas em meio a odores e perfumes, subindo e descendo o seu interior. Nesse momento, na grande abóbora, dá-se inicio a magia: olhos esbugalhados, respiração ofegante, falta de direção e a perda da capacidade de discernimento. O motivo para esse conjunto de distúrbios é único: são as sementes.

Há! Quantas sementes! Algumas pequenas outras grandes, claras e escuras, coloridas, cintilantes, enfim, uma infinidade. Todas expostas da maneira mais atraente possível. Mas existe um problema. Por que quando colhidas desvalorizam? Por que em nossas mãos depreciam? Sementes, sementes, sementes, por que tal veneração? 

Na verdade o maior desejo desse povo é ter uma ou mais sementes, levá-las para casa e rezar, orar, suplicar, mentalizar para que um dia se transformem em uma grande abóbora, de preferência particular. Desejo esse, impossível. Uma pena, pois são tantas lindas sementes, quase ocas, quase foscas, quase inúteis fora dessa grande abóbora.

 Não adianta, ninguém vê, ninguém diz a esses pobres catadores de sementes, que nesse lugar existe um povo que não é povo, cheio de gente que acha que é mais gente, com a boca cheia de farelo, falando coisas engraçadas para o espelho ouvir.   

 Mas não se preocupem. Faça chuva, faça sol, sempre haverá sementes em busca de uma janela inexistente ou uma mão para apodrecer. 

 
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Última modificação: 12 dezembro, 2003
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