INTRODUÇÃO AO NT
SEPTUAGINTA
PROF.PR LECIO BATISTA
STB – SEMINARIO TEOLOGICO BATISTA
ALUNO: TERCIO BESSA DO LAGO – 1. ANO
A SEPTUAGINTA (LXX)
Os lideres do judaísmo em Alexandria produziram urna
versão modelar do Antigo Testamento em língua grega conhecida pelo nome de
Septuaginta (Lxx), palavra grega que significa setenta. Embora esse termo se
aplique estritamente ao Pentateuco, que foi o único trecho da Bíblia
hebraica que se traduziu totalmente durante o tempo de Ptolomeu II Filadelfo,
essa palavra viria a denotar a tradução para o grego de todo o Antigo
Testamento, A própria comunidade judaica mais tarde perdeu o interesse de
preservar a sua versão grega, quando os cristãos começaram a usá-la
extensivamente como seu Antigo Testamento- Exclusão feita ao Pentateuco, o
resto do Antigo Testamento provavelmente foi traduzido durante os séculos II
ou III a.C. É certo que se tenha concluído antes de 150 a.C., porque a obra é
discutida numa carta de Aristéias a Filócrates (c. 130-100 a.C.).
Essa carta de Aristéias relata como o bibliotecário de
Alexandria persuadiu Ptolomeu a traduzir a Tora para o grego, para uso
dos judeus dessa cidade. E prossegue dizendo que seis tradutores de cada uma
das doze tribos foram seleccionados, terminando o trabalho em apenas 72 dias.
Embora as minúcias desse acontecimento sejam pura ficção, pelo menos mostram
que a tradução da Septuaginta para uso dos judeus alexandrinos é
confiável.
A qualidade da tradução dos Setenta não é a mesma,
uniformemente, em toda a obra, o que nos leva a várias observações básicas.
Primeira: a LXX abrange desde transliterações literais, servis, da Tora, a
traduções livres do texto hebraico- Segunda: deve ter havido um propósito em
vista, para a produção da LXX, diferente dos propósitos da Bíblia hebraica;
esta, por exemplo, servia para leituras públicas nas sinagogas, enquanto a LXX
apenas representaria urna obra especializada dos escribas. Terceira: a LXX foi um esforço pioneiro na tradução do
texto do Antigo Testamento, e um excelente exemplo de tal empreendimento.
Finalmente, a LXX de modo geral é fiel ao texto do Antigo Testamento hebraico.
No entanto, há uma questão grave no que concerne à
Septuaginta : há passagens em que ela difere do Texto Massorético, e
outras em que os rolos do mar Morto concordam com a Septuaginta, em oposição ao
texto hebraico. Podem-se indicar “várias passagens que sublinham essa
constatação, como Deutronômio 32.8, Êxodo 1.5, Isaías 7.14; Hebreus 1.6 (KJV),
que cita Deuteronomio 32.43. Além disso, os rolos do mar Morto também contêm
alguns dos livros e textos apócrifos do Antigo Testamento, como o salmo 151, só
conhecidos mediante a LXX. A partir das evidências dessas variantes de vários
textos podemos observar três tradições básicas do Antigo Testamento: a
Massorética, a samaritana e a Grega (LXX). Em geral o Texto
Massorético é o melhor, mas em várias passagens a LXX o supera. O
Pentateuco Samaritano reflete diferenças sectárias e culturais
em relação ao texto hebraico, e a LXX e urna tradução, não um texto original.
No entanto, quando ambos concordam entre si, contra o Texto Massorético, é
provável que reflitam o texto original.
E preciso lembrar, todavia, que a LXX em geral é fiel ao Texto
Massorético, como também são fiéis os rolos do mar Morto. Uma comparação
das variantes num dado capitulo da Bíblia pode ilustrar isso. Em Isaías 53,
e.g., temos 166 palavras, e entram em questão somente 17 letras. Dez dessas
letras são simples questões de grafia, não influindo de modo algum no sentido
da passagem. Outras quatro letras são o resultado de mudanças estilísticas de
pouca monta, corno conjunções acrescentadas pêlos escribas. As três letras
remanescentes compreendem uma única palavra, “luz”, que se acrescenta ao
versículo 11 sem influir muito no sentido. Essa palavra tem o apoio da LXX e do
rolo do mar Morto .Esse exemplo é típico do manuscrito integral de Isaías . Ele
força o leitor a observar a confiabilidade do texto do Antigo Testamento de tal
modo que reconheça que nem mesmo todas as variantes conseguem mudar nossa
compreensão do ensino religioso da Bíblia.
Graças a essa qualidade, a importância da Lxx é facilmente observável,
Ela serviu de ponte religiosa sobre o abismo existente entre os judeus (de
língua hebraica) e os demais povos (de língua grega), uma vez que atendia as
necessidades dos judeus de Alexandria, A Lxx serviu também para cobrir o lapso
histórico que separava os judeus do Antigo Testamento dos judeus e dos cristãos
de íngua grega que adotaram a Lxx como Seu Antigo Testamento, usando-a ao lado
do Novo Testamento. Além disso, a Lxx representou um precedente importante para
os missionários e para os estudiosos cristãos, para que produzissem traduções
de toda a Bíblia em várias línguas e dialetos. Sob o aspecto textual, a LXX
elimina o vazio que separava o Antigo Testamento hebraico dos grandes códices
da igreja (Âlefe, A, B, C e outros). Ainda que a LXX não reflita a excelência
do texto hebraico, pelo menos demonstra sua pureza.
Outras versões gregas
A crítica judaica durante os primeiros séculos do cristianismo resultou
numa reação dos judeus contra a Septuaginta. Tal reação judaica produziu
nova onda de traduções do Antigo Testamento, como a tradução grega conhecida
como versão de Áquila e mais uma, conhecida como versão de Simaco; e chegou até
a provocar o surgimento de uma grande obra de crítica textual em meados do
século III, os Héxapla, de Origines. Todas essas obras desempenham papel
importante no estudo da crítica textual visto estarem mais próximas dos
autógrafos do que muitas cópias de manuscritos hebraicos ainda existentes.
F.F Bruce acredita que há duas grandes razões pelas quais os
judeus rejeitaram a Lxx nos primeiros séculos da igreja, Primeiramente, a LXX
havia sido adotada pêlos cristãos como seu Antigo Testamento, e usaram-na
livremente na propagação e na defesa da fé cristã. Em segundo lugar, foi criada
ao redor do ano 100 d.C. uma edição revista do texto modelar hebraico. De
inicio continha o Pentateuco e mais tarde passou a incorporar o resto do
Antigo Testamento. O resultado dessa revisão foi o estabelecimento do Texto
Massorético. Por não existir um texto básico aceitável tanto por cristãos
como por judeus os estudiosos judeus decidiram corrigir a situação fazendo
novas traduções gregas de suas Escrituras hebraicas,
Aversão de Aquila (c. 130-150
d.C.). Fez-se uma nova tradução do Antigo Testamento para os judeus de língua
grega, durante a primeira metade do segundo II. Quem a empreendeu foi Aquila,
que, segundo se diz, teria sido parente do imperador Adriano, tendo mudado de
Sinope para Jerusalém como funcionário público. Estando em Jerusalém, Áquila
converteu-se ao cristianismo, mas viu-se incapaz de libertar-se de suas ideias
e hábitos pré-cristãos. Foi repreendido em público pêlos presbíteros da igreja,
ficou ofendido e abandonou o cristianismo, tornando-se adepto do Judaísmo.
Como prosélito judeu, teve como mestre o famoso rabi Aquiba, e traduziu o
Antigo Testamento para o grego.
Grande parte dessa história sem dúvida foi inventada, mas Aquila
provavelmente foi um prosélito judeu da região do mar Negro, homem de grande
prestígio durante a primeira metade do século II,. Ele produziu uma nova
tradução para o grego, do Antigo Testamento, a partir do texto hebraico. Esse é
o Áquila erroneamente associado ao Targum de Onquelos, como mencionamos
no capitulo 16. A versão do Antigo Testamento feita por Áquila é obra servil,
rigidamente acorrentada ao texto hebraico. Ainda que usasse palavras gregas, o
padrão de pensamento e as estruturas de linguagem prendem-se às regras
hebraicas de composição. No entanto, o texto de Áquila veio a tomar-se a
versão grega oficial do Antigo Testamento usado pêlos judeus não-cristãos. A
obra sobreviveu apenas em fragmentos e citações.
A revisão de Teodócio (c. 1.50-185). O próximo trabalho importante de tradução
do Antigo Testamento para o grego é atribuído a Teodócio. Há controvérsia
quanto ao exato lugar e data em que ele executou seu trabalho; parece que foi
uma revisão de uma versão grega anterior: ou a LXX, talvez a de Áquila, ou
possivelmente outra versão grega qualquer A opinião mais factível é que
Teodócio, natural de Efeso é quem teria realizado a obra; esse autor teria
sido prosélito judeu ou cristão ebionita, Sua revisão é mais livre do que a
versão de Áquila e, em algumas passagens, substitui algumas das expressões
antigas da Lxx. A tradução que Teodócio fez de Daniel logo substituiu a versão
da LXX entre os cristãos, e alguns dos primitivos catálogos das Escrituras. Sua
tradução de Esdras ,Neemias teria substituído a que se encontra na LXX.
A revisão de Simaco (c. 185-200). Simaco
aparentemente seguiu a Teodócio tanto no tempo como no engajamento teológico,
embora alguns datem seu trabalho antes do de Teodócio. Jerônimo acreditava que
Simaco era um cristão ebionita, mas Epifânio afirma que ele era um Samaritano
convertido ao judaísmo. Para nossos propósitos, esse desacordo não faz grande
diferença, visto que o objetivo do trabalho de Simaco era produzir uma tradução
idiomática do texto para o grego. O resultado é que Simaco ocupa o lugar
oposto ao de Áquila como tradutor Ele estava preocupado como sentido de sua
tradução, e não com a exatidão do texto. Tendo isso em mira, no entanto,
devemos notar que Simaco mostrou elevados padrões de exatidão que exerceram
profunda influência sobre os tradutores da Bíblia que viriam mais tarde. Ele
foi capaz de transformar expressões hebraicas em expressões gregas excelentes,
perfeitamente idiomáticas, o que coloca Simaco muito perto de qualquer tradutor
de hoje, segundo o conceito moderno dos deveres de um tradutor, Curiosamente,
Simaco exerceu maior influência sobre a Bíblia latina do que sobre as traduções
gregas posteriores, visto que Jerônimo fez uso considerável desse autor
enquanto esteve compondo sua Vulgata.
Os Héxapla de Orígenes (c.
240-250). As traduções da Bíblia hebraica para o grego resultaram nas quatro
traduções textuais diferentes, por volta do inicio do século III d.C.: a
Lxx, a versão de Áquila e as revisões de Teodócio e de Simaco. Essa situação
tumultuada abriu espaço para a primeira tentativa realmente válida e de realce
para a critica textual. Esse trabalho foi empreendido por Oxigenes de
Alexandria (185-254). Por causa das muitas divergências existentes entre os
vários manuscritos da Lxx, das discrepância existentes entre o texto hebraico e
o da Lxx e das várias tentativas de revisar as traduções gregas Orígenes
aparentemente decidiu apresentar um texto grego satisfatório do Antigo
Testamento para o mundo cristão Por conseguinte, seu trabalho foi
essencialmente urna revisão, em vez de versão, pois corrigiu as corrupções
textuais e tentou unificar os textos hebraicos e gregos. Ele tinha um objetivo
duplo: mostrar a superioridade das várias revisões do Antigo Testamento sobre
o texto corrompido da Lxx e prover uma visão comparativa dos textos hebraicos
coretos, contra os textos divergentes da Lxx. Ele seguia a ideia de que o
Antigo Testamento hebraico era na verdade uma ‘transcrição inerrante” da
verdade revelada ao homem.
Os Héxapla (compostos de seis partes) dividiam-se em seis colunas
paralelas. Cada coluna continha uma versão particular do Antigo Testamento, o
que fazia que a obra fosse sumamente volumosa. Na primeira coluna, Orígenes
colocou o texto hebraico, Na segunda coluna vinha uma transliteração grega do
texto hebraico. A tradução literal de Áquila aparecia na terceira coluna, com
a revisão idiomática de Simaco na quarta coluna. Orígenes colocou sua própria
revisão da Lxx na quinta coluna, e acrescentou a revisão de Teodócio na sexta
coluna.
Em seus Héxapla dos Salmos, Oxigenes acrescentou outras três colunas,
mas em só duas delas inscreveu traduções diferentes. Ele também produziu um
trabalho separado chamado Tétrapla, que eram os próprios Héxapla em
que ele omitiu as colunas número um e dois. A tremenda obra de Orígenes não
sobreviveu às agruras do passar do tempo, embora Eusébio e Panfilio publicassem
a quinta coluna (a tradução feita pelo próprio Oxigenes da Lxx) com adições.
Essa obra sobreviveu no Códice sarraviano (c) do século IV ou V, que
contém trechos de Génesis a Juizes. Trata-se da única edição grega de alguma
importância, a qual se preservou, embora haja uma versão siriaca dos Héxapla
que data do século VII, e alguns manuscritos individuais que também
sobreviveram.
A realização grandiosa de Orígenes pode ser avaliada pelo que tem sido
descoberto e revelado a respeito de suas técnicas voltadas para a crítica
textual. Ele descobriu muitas corrupções, omissões, adições e transposições
nas cópias da LXX de sua época. Muitas dessas descobertas foram feitas quando
se compararam as várias revisões do Antigo Testamento grego, mas Orígenes
estava preocupado primordialmente em fazer que os textos da LXX ficassem em
maior harmonia com o texto hebraico da primeira coluna de seus Héxapla. Ele
desenvolveu um sistema bem elaborado de marcações críticas a fim de revelar os
problemas encontrados, ao chegar até sua própria tradução na quinta coluna,
Isso possibilitava ao leitor ver as corruptelas que Orígenes havia corrigido,
as omissões e as adições que ele havia feito e os lugares em que certas
palavras haviam sido transpostas entre os vários textos gregos.
Orígenes usava um óbelo (—), ou traço horizontal, a fim de indicar
que certa palavra ou expressão aparecia na Lxx, mas não existia no texto
hebraico original. Quando certa expressão constava do texto hebraico, mas havia
sido omitida na Lxx, Orígenes a acrescentava, conforme a revisão de Teodócio,
e marcava seu inicio com um asterisco (X ou +). Ele indicava o final
dessas correcções com o metóbelo (y). Quando transcrevia passagens curtas,
Orígenes as colocava no mesmo lugar em que apareciam na LXX e indicava-as com
uma combinação asterisco-óbelo (X ou—) no início e um metóbelo no final.
Nas transposições de passagens longas a ordem hebraica era restaurada, numa
tentativa de fazer que a Lxx ficasse em maior conformidade com o texto
hebraico.
É verdade que a obra de Orígenes teve importância monumental, mas cumpre
observarmos que seu objetivo principal era diferente dos objetivos do crítico
textual de nossos dias. O propósito de Orígenes era prover uma versão grega que
correspondesse intimamente, tanto quanto possível, ao texto hebraico. O
crítico textual de hoje esforça-se por recuperar o texto original da própria
Lxx, como evidência de como era o texto hebraico antes do desenvolvimento do Texto
Massorético. A transmissão da Lxx de Orígenes, desacompanhada das
marcações diacríticas que ele próprio produziu, levou à disseminação de um
texto grego do Antigo Testamento corrompido, em vez de contribuir para a
produção e para a preservação de uma versão da Septuaginta que se
conformasse ao texto hebraico daqueles dias. Se os Héxapla de Orígenes
houvessem sobrevivido até nossos dias, seriam um tesouro de valor
incalculável, pois seriam a cópia do texto hebraico modelar do século III d.C.
e nos ajudariam a resolver a disputa a respeito da pronúncia das palavras
hebraicas, fornecendo informações a respeito das versões e dos textos gregos
dos dias de Orígenes. Só uma tradução da quinta coluna sobreviveu, em grande
parte pelo trabalho do bispo Paulo de Tela, no texto siro-hexaplárico, numa
cópia do século VIII, que neste momento está guardada no museu de Milão.
Outras recensões
da Septuaginta. No inicio do século IV,
Eusébio de Cesaréia e seu amigo Panfilio publicaram suas próprias edições da
quinta coluna de Orígenes. O resultado foi que deram Projeção à LXX, que se
tornou a edição padrão em muitos lugares. Dois outros estudiosos também
tentaram fazer uma revisão do texto grego do Antigo Testamento. Hesiquio, bispo
egípcio, martirizado em 311, fez uma recensão que só se preservou em citações
do texto feitas por autores da igreja no Egito. A recuperação de seu trabalho
dependeu de citações de autores como Cirilo de Alexandria (m. 444). As obras de
Crisóstomo (m. 407) e de Teodoreto (m. 444) podem ser usadas a fim de recuperar
outra recensão do Antigo Testamento grego conhecida como Recensão de
Luciano. Luciano era morador de Samosata e de Antioquia, também
martirizado em 311.
Essas duas revisões, acopladas às obras de Áquila, de Teodócio, de Simaco
e de Orígenes, deram aos cristãos o Novo Testamento grego, no norte da Síria,
na Ásia Menor, na Grécia, no Egito e em áreas de Jerusalém e da Cesaréia. Tudo
isso se realizou antes da época de Jerônimo. No que concerne ao estudioso
textual moderno, as várias traduções do Antigo Testamento são testemunho
valioso do texto hebraico,
As traduções do texto grego
Entre a multidão que se juntou no Dia de Pentecostes, em Jerusalém,
estavam “partos, medos e elamitas e os que habitam na Mesopotania, Judéia e
Capadócia, Ponto e Ásia, Frigia e Panfilia, Egito e parte da Líbia perto de
Cirene, forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes”
(At 2.9-11). Essas pessoas sem dúvida precisavam das Escrituras em suas
línguas, para que pudessem estudá-las e usá-las a fim de propagar sua fé. Já
discutimos a tradução dos textos do Antigo e do Novo Testamento para o siríaco
(Aramaico) 16, por causa do ínfimo relacionamento que essas traduções tinham
com a tradução do Antigo Testamento por judeus que falavam o Aramaico. Por essa
razão, nossa atenção se dirigirá aqui a outras traduções do texto grego.
Copta
O Copta é a última forma de escrita egípcia antiga. Seguiu-se aos
desenvolvimentos anteriores como os hieróglifos, as escritas hierática e
demótica . A língua grega, com sete caracteres demóticos que lhe foram
acrescentados, tornou-se a forma escrita do Copta, por volta do início da era
cristã. Esse sistema de escrita tinha vários dialetos para os quais a Bíblia
foi traduzida,
Saidico (de Tebas). O dialeto Copta
do sul do Egito (Alto Egito) era o Saidico (de Tebas). Era falado na região da
Tebas antiga, onde o Novo Testamento foi traduzido no começo do século IV. Os
manuscritos desse dialeto representam as versões coptas mais antigas do Novo
Testamento, que Pacomio (c. 292-346), o grande organizador do monasticismo egípcio,
exigia que seus seguidores estudassem com toda a diligência. A data remota da Versão
saídica transforma-a em testemunho importante do texto do Novo Testamento.
Essa versão relaciona-se basicamente com o texto alexandrino, ainda que os
evangelhos e Atos sigam o modelo ocidental.
Boaírico (de Menfis). No Baixo Egito
(ao norte), perto de Menfis, na região do Delta, usava-se outra língua Copta ao
lado do grego. Era região próxima a Alexandria; sua localização central e sua
importância na história da igreja primitiva refletem-se no fato de o Copta
Boaírico ter-se tomado o dialeto básico da igreja no Egito. O fato de essa
região estar próxima de Alexandria e o continuo uso do grego nesse centro provavelmente
explicam o porquê de as versões boaíricas do Novo Testamento terem aparecido
depois das versões saidicas. O único documento Boaírico primitivo que
sobreviveu é o Papiro Bodmer, que contém o evangelho de João (Papiro
Bodmer III). O manuscrito está seriamente mutilado na parte inicial,
estando em melhores condições onde se registra João 4 em diante. É um
manuscrito que lança muita luz sobre dois problemas textuais: João 5.3b,4 e
João 7.53—8.11. A Versão boairica aparentemente se relaciona com o texto
de modelo alexandrino.
Dialetos do centro do Egito. A terceira área dos dialetos coptas é aquela que fica nos cenhos de Tebas
e de Alexandria. Os dialetos centrais do Egito classificam-se em faiúmico,
acmímico e subacmimico, segundo J. Harold Greenlee. Não existe mais nenhum
exemplar do Novo Testamento nesses dialetos, embora João esteja quase
completo. Um papiro do século IV contém um códice no dialeto faiúmico com João
6.11—15.11. A linguagem é mais próxima do Saidico que do Boaírico, o que o
classifica como texto do modelo alexandrino. Todos os manuscritos do Antigo Testamento
nos dialetos coptas seguem a Septuaginta.
À medida que o cristianismo se espalhou pelo Egito e penetrou a Etiópia,
surgiu a necessidade de outra tradução da Bíblia. Embora não se possa fazer
nenhuma declaração autorizada a esse respeito, a tradução etíope do Antigo
Testamento grego parece ter sido revista à luz do texto hebraico, com inicio no
século IV. Ao redor do século VII essa tradução estava terminada, e a do Novo
Testamento foi feita a seguir A tradução completa para a língua etíope
provavelmente foi realizada por monges sírios que se mudaram para a Etiópia
durante a controvérsia monofisista (séculos V e VI) e o surgimento do islamismo
(séculos VII e VIII). A influencia deles foi profunda, como mostra o fato de a
igreja etíope ter-se mantido monofisista.
Nos séculos V e XII, fizeram-se recensões no Novo Testamento etíope.
Posteriormente esse texto foi influenciado por traduções coptas e árabes; e é
possível que na verdade se tenha baseado em texto de manuscritos siriacos, e
não nos originais gregos. Os manuscritos etíopes provavelmente datam do século
IV e V, o que reduz mais ainda a importância da Bíblia etíope tendo em vista a
crítica textual. Os manuscritos sobreviventes revelam mistura textual, sendo
porém de origem basicamente bizantina, O Antigo Testamento inclui o livro
não-canônico de 1 Enoque (citado
em Jd 14,15) e o Livro do Jubileu. Isso mostra que a igreja etíope
aceitava um cânon mais amplo que o aceito pelas demais igrejas. Sobreviveram
mais de cem cópias manuscritas da Bíblia etíope, nenhuma porém anterior ao
século XIII, É verdade que esses manuscritos merecem talvez maiores estudos,
mas é provável] que serão negligenciados em vista de serem relativamente
recentes.
Não está bem esclarecido em que época o cristianismo penetrou a área das
tribos germânicas entre o Reno e o Danúbio, Essa região foi evangelizada antes
do Concilio de Nicéia (325), visto que Teófilo, o bispo dos godos, já estava em
atividade. Os godos situavam-se entre as principais tribos germânicas e
desempenharam papel importante nos acontecimentos da história da Europa
durante o século V. A primeira tribo a ser evangelizada foi a dos ostrogodos,
na região do baixo Danúbio. O segundo bispo deles, Úlfilas (311-381),”o
apóstolo dos godos”, liderou seus convertidos até a área hoje conhecida como
Bulgária. Ali ele traduziu a Bíblia grega para o gótico.
Esse empreendimento teve grande importância sobretudo se Úlfilas realizou
de verdade a tarefa a ele atribuída. Consta que Úlfilas criou um alfabeto
gótico e a forma escrita dessa língua. Quer ele tenha de fato feito tal
façanha, quer não, esse bispo empreendeu fidelíssima tradução para o gótico, no
século IV (c. 350) a partir da recensão que Luciano fez do Antigo Testamento.
Poucos fragmentos restaram desse Antigo Testamento, que Úlfilas não traduziu
totalmente. Ele achava que os livros de Samuel e de Reis tratavam demais de
guerras, para serem entregues às tribos góticas que amavam tanto as atividades
bélicas.
São maiores os fragmentos que sobraram do Novo Testamento gótico
traduzido por Úlfilas. Trata-se do monumento literário mais antigo que se
conhece num dialeto alemão, não tendo sido encontrado, todavia, um
único exemplar completo de
uma copia manuscrita. Sua tradução prende-se quase literalmente ao texto grego
do tipo bizantino, pelo que diz pouca coisa ao critico textual moderno. O
principal valor da Versão gótica está em que se trata do mais antigo
documento literário em língua do grupo germânico, a que pertence o próprio
inglês. Sobreviveram seis fragmentos, dos quais o Códice argênteo, “o
códice de prata”, escrito em velino purpura em letras prateadas e algumas
douradas. Todos os demais manuscritos góticos são palimpsestos, exceto uma
folha de velino de um códice bilingue gótico-latino. O gótico, à semelhança do
Copta, é urna língua para a qual se criou a forma escrita com o único propósito
de escrever as Escrituras Sagradas na língua do povo. Todos os seus manuscritos
abrangem os séculos V e VI.
A medida que as igrejas sírias desenvolviam seu ministério evangelistico,
iam contribuindo para várias traduções secundárias da Bíblia. Tais traduções
são chamadas secundárias porque derivam de outras traduções, e não dos
manuscritos das línguas originais. Uma das mais importantes dessas traduções
secundárias é a arménia, ainda que nem todos os estudiosos concordem que se
trate de tradução da tradução.
Afirma-se em geral ter havido duas tradições básicas acerca da origem da
tradução arménia. Diz a primeira que Mesrobe (m. 439), soldado que se tornou
missionário, criou um novo alfabeto a fim de ajudar Saaque (Isaque, o Grande,
390-439) a traduzir a Bíblia a partir do texto grego. A segunda tradição afirma
que sua tradução baseou-se num texto siríaco, Embora ambas as afirmativas
tenham seus méritos, a segunda parece enquadrar-se melhor à realidade, derivada
do sobrinho e discípulo do próprio Mesrobe.
As traduções arménias mais antigas foram revistas antes do século VIII,
de acordo com alguns “códices gregos dignos de confiança”, levados de
Constantinopla depois do Concílio de Éfeso (431). Essa revisão obteve o máximo
prestigio ao redor do século VIII e continua a ser hoje o texto arménio mais
comumente usado, O manuscrito mais antigo que chegou até nós desse texto
revisto data do século IX. O fato de ser tão antigo e sua estreita afinidade
com os textos cesareenses ou bizantinos fazem que seja importante no que diz
respeito à critica textual. Embora a questão ainda não tenha sido resolvida o
texto dos evangelhos tende para o padrão cesareenses.
A primeira tradução arménia do Antigo Testamento foi executada no Século
V e revela a marcante influência exercida pela siriaca peshita. A
tradução baseada na revisão hexaplárica foi revista de acordo com a Peshita.
Geórgica ( Ibérica)
A Geórgia, região montanhosa entre o mar Negro e o mar Cáspio, ao norte
da Arménia, recebeu a mensagem cristã no século IV. Aproximadamente em meados
do século V, a Geórgia tinta sua própria tradução da Bíblia. Visto que o
cristianismo se espalhou pela Geórgia a partir da Arménia, não é de surpreender
que essa mesma rota tenha sido seguida na tradução da Bíblia. Então, se o
Antigo Testamento arménio fosse tradução da Lxx ou da Siriaca
peshita, e o Novo Testamento fosse tradução da Antiga siriaca, teriam
sido traduções secundárias. A tradução geórgica constituiu um passo para o
lado, por ser baseada em tradução arménia. Ainda que a tradução arménia fosse
feita a partir do original grego, a tradução geórgica seria secundária.
O alfabeto georgiano, à semelhança do arménio e do gótico, foi criado
expressamente para o registro da Bíblia. Acompanhando o passo dessa dependência
cultural, todos os manuscritos sobreviventes da Bíblia geórgica indicam que ela
segue a tradição textual armena.
A continuação das traduções da Bíblia pelo povo de Deus, à medida que Ia
seguindo o precedente estabelecido pêlos judeus, que haviam produzido
traduções em Aramaico e em siríaco do Antigo Testamento, motivou as primeiras
tentativas reais para colocar todo o Antigo Testamento em outra língua, o
grego. A LXX foi produzida nos séculos III e II Ac, Ainda que a qualidade dessa tradução varie, ela dá
informações valiosas ao critico textual no que diz respeito ao texto hebraico
do Antigo Testamento. Além disso, foi um exemplo a ser seguido pêlos demais
tradutores, à medida que iam procurando meios de comunicar a Palavra de Deus,
Com a ascensão do cristianismo, os judeus deixaram de lado a LXX e outras
traduções e revisões foram aparecendo. Tudo isso culminou na grandiosa obra de
Orígenes, os Héxapla. A medida que o cristianismo continuava a
espalhar-se, outras traduções foram empreendidas. A fim de executar a tarefa de
traduzir, os missionários desenvolveram a língua escrita de muitos povos. Esse
fato por si só faz da Bíblia a maior força a dirigir a história; e oferece
também a razão por que alguns estudiosos das Escrituras produziram traduções
secundárias, enquanto muitos a traduziram diretamente das línguas originais do
Antigo e do Novo Testamento,
Introdução
Bíblica – Traduções Gregas e Afins
AS VERSÕES GREGAS
SEPTUAGINTA
1. A Septuaginta (traduzida em
Alexandria, 250-150 a.C.)
A narrativa tradicional quanto à origem desta versão se registra na
Carta de Aristeu a Filócrates, cuja origem remonta a um período entre 130 e 100
a .c. Apesar dos traços de cunha fabulosa. a carta reflete um acontecimento
histórico real, quando a Torá pelo menos, senão outras partes do Antigo
Testamento também, foi traduzida para o grego visando a conveniência dos judeus
de fala grega que não conheciam o hebraico. Paul Kahle tirou desta carta a
inferência que já existiam traduções anteriores da Torá. que foram
revistas pelo comité do reinado do Ptolomeu II (e que não era uma tradução
completamente nova feita naquela época).
Mas Kahle duvida que tenha havido, além
da Torá, qualquer versão antiga do grego que fosse padrão único, e se inclina
à opinião que foi a Igreja primitiva que coligiu um texto padrão das várias
versões gregas antigas que já existiam. P. de Lagarde, de outro lado (nisto foi
seguido por A. Hahlfs), crê que existia um texto padrão da LXX original para o
Antigo Testamento inteiro, mesmo nos tempos pré-cristãos, e empregou uma
metodologia cuidadosissima no preparo de um texto critico para publicação. (A
edição de Rahlfs é aquela que mais facilmente se pode obter para finalidades
de estudo, hoje em dia). Segue-se uma lista dos manuscritos ou fragmentos de
manuscritos dos mais importantes da Septuaginta.
a ) Papiro Rylands 458, contendo porções de Deuteronomio 23-28 (150 a C.)
(Veio a nós na forma de um embrulho de uma múmia). Kenyon (BAM 63) declara que
tende a favorecer A e Theta (Codex Washingtoniensis I, um manuscrito do sexto
século d.C.) contra B.
b) Fragmentos da Caverna 4 de
Cunrã:
Fragmento de Levítico em papiro; concorda bem com o texto LXX padrão, mas
emprega Iaõ no lugar de kyrios para representar “Jeová”.
Fragmento de Levítico em couro, contendo 26:1-16. Há dez variações da LXX
posterior, e cinco outras variações onde os próprios manuscritos. da LXX não
concordam entre si,
Fragmento de Números em couro, contendo 3:30-4:14. Em várias instâncias
emprega uma palavra grega diferente da LXX mas parece que está traduzindo a
mesma palavra hebraica do original. (Estes fragmentos são discutidos por
Burrows, MLDSS 136, 137, e aparentemente os atribui ao primeiro século a .C.)
c) Papiros Chester Beatty,
achados em Oxirinco, no Egito.
N. VI, c, de 150 d. C., um códice de papiro contendo porções de Números e
Deuteronomio com tendências de concordar com A e Theta contra B.
N.0 VII, c. de 230 d.C., contendo porções de Isaías com glosas
em cóptico faiúmico.
N. V, c. de 270 d.C., contendo porções de Génesis (caps., 8. 24, 25,
30-46).
N. IV, c. de 350 d.C., contendo Génesis 9:1-44:22.
d) Papiro 911, do Egito, cerca
do fim do terceiro século d.C., escrito numa letra cursiva uncial, que
contém fragmentos de Génesis caps. 1 — 35, um texto pré-hexaplárico
demonstrando afinidades com os manuscritos E
e D (i,e, O Génesis bodleano do décimo século, em Oxford, e o Génesis de
Cotton, do quinto século, no Museu Britânico).
e). Manuscrito Grego V Freer, dos
Profetas Menores, (W), em Washington, perfazendo 33 folhas de papiro, datando
da segunda metade do terceiro século d.C., escrito numa letra egípcia,
contendo um texto quase completo de todos os profetas, menos Oséias. O texto é
do tipo pré-hexaplárico, e entre os manuscritos unciais está um pouco mais
perto de Q e de Ale do que dos demais. Tem, porém, afinidades marcantes
com manuscritos minúsculos como 407, 198, 534 e 410 — que também demonstram um
tipo de texto pré-hexaplárico.
f) A Héxapla de Origines, cerca de 240 d.C. Origines viveu entre 185-245
d.C. Por causa das muitas divergências nos manuscritos da LXX que então havia,
e porque notam que certas porções do texto hebraico faltavam na LXX, Orígenes
resolveu fazer uma recensão do Antigo Testamento Greg9 da seguinte maneira:
Copiou seis colunas paralelas (Héxapla significa sêxtuplo), consistindo em:
1. O original hebraico, 2.O hebraico transliterado
em letras gregas, 3.A Tradução Grega literal de Aquila, 4. A tradução
Grega Idiomática de Simaco, 5. A Septuaginta propriamente dita, 6. A tradução
Grega de Teodócio. Nos casos de haver seções da LXX que não existiam no
hebraico, colocava um óbelo (traço diacrítico horizontal) no começo, e um
metóbelo (traço com um ponto ou traço menor) no fim. Nos casos de haver porções
do hebraico que não constavam na Septuaginta, completava-a com urna tradução
grega duma outra coluna, distinguindo-a por meio dum asterisco (uma cruz com
pontos entre os braços) e um metóbelo.
Aparentemente, esta Héxapla original de Orígenes nunca foi copiada para
publicação; era por demais volumosa para haver um mercado para ela. Mas o
conteúdo da quinta coluna (LXX mais acréscimos), foi posteriormente publicado
por Eusébio e Panfilio, incluindo-se cuidadosamente os símbolos diacríticos.
Uma cópia desta obra foi conservada para nós no Códice Sarraviano (G), datando
do quarto ou quinto século, e contendo porções de Génesis até Juizes. Desta
edição grega não sobreviveu nenhuma outra Seção considerável, mas felizmente
foi traduzida para o siríaco por ordem do Bispo Paulo de Tela em 616 d.C. (cf.
as “Versões Siriacas’ mencionadas adiante) e alguns manuscritos da tradução
foram conservados, com as tão importantes marcas diacríticas aparecendo no
texto siríaco.
g.) A Recensão Hesiquiana
(urna revisão do texto da Septuaginta feita no Egito pelo Bispo Hesiquio,
martirizado em 311 d.C.), não sobrevive em nenhum manuscrito
antigo, a não ser possivelmente o Códice Marcaliano (Q) dos Profetas (do
sexto século d.C.); mas pensa-se que foi conservada numa forma
posterior, nos Minúsculos 49 e 68, e alguns outros, como também nas versões
copiticas e etíopes em, geral, e nas Ítala ou ‘Latim Antigo”.
h). A Recensão Luciànica (feita por
Luciano de Samosata e Antioquia, também martirizado em 311 d.C.) sobreviveu
somente em manuscritos posteriores, notavelmente o Códice Veneto (N), um
manuscrito do oitavo século, contendo porções de Êxodo e de Levítico. Kahle
acha que o aparecimento de certas leituras caracteristicamente “Luciànicas” em ,manuscritos.
anteriores à vida de Luciano — especialmente em certos manuscritos
do Latim Antigo — indica a existência anterior do texto “proto-Luciano”
(Handschriften aus der Hoble, Manuscritos da Caverna”, p. 34).
i). Códice Vaticano (E) (325-350
d.C.) — um manuscrito magnifico que contém a maior parte do Novo
Testamento além do Antigo Testamento, Representa um texto anterior ao de Orígenes
(embora que tenha sido copiado numa data posterior à da Héxapla) da LXX. Um
livro (Daniel) porém, não é da LXX mas de Teodócio,
j) Códice Sinaitico (.Alef) (ca.. de 375-400 d.C.) — outro
manuscrito esplêndido, que também contêm o Novo Testamento completo, embora
faltem porções do Antigo Testamento. Parcialmente assemelha-se ao Códice
Vaticano, e parcialmente ao Códice Alexandrino.
k). Códice Alexandrino (A) (ca..
450), que também e um texto importante do Novo Testamento. Mostra algumas
afinidades com a LXX da Héxapla, apesar de ser basicamente um tipo egípcio de
texto.
A LXX tem grandes diferenças de qualidade e de valor, de um livro para
outro. O Pentateuco foi traduzido com maior exatidão, de modo geral, do que os
demais livros do Antigo Testamento, indubitavelmente porque tinha que servir
como um tipo de Targum Grego nos cultos nas sinagogas das congregações judaicas
no Egito. Os Profetas Anteriores (i.é., Josué até 2 Reis) e os Salmos
São traduzidos com considerável fidelidade ao original hebraico, de medo geral.
No caso dos Profetas Posteriores (Isaías até Malaquias) a tendência
à paráfrase é mais definida, e as passagens hebraicas
mais difíceis muitas vezes recebem um tratamento inexperiente. Os demais
livros, os Poéticos (não os Salmos neste caso) demonstram urna tendência
semelhante à liberdade na interpretação.
Ao aquilatar o valor da LXX para as emendas textuais de qualquer livro
especifico, precisamos em primeiro lugar estudar como o livro foi
traduzido como um todo, para saber o valor da tradução no caso especifico
daquele livro. Se aparentemente a técnica da tradução do livro é parafrastica,
sua utilidade para emendas textuais seria muito menos do que quando a tendência
geral é uma tradução literal. Se porém, o livro inteiro demonstra um sentido
consistentemente compreensível, e evidencia que surgiu de uma boa compreensão
do hebraico, merece respeito. Mesmo assim, deve ser lembrado que o texto da LXX
veio até nós através de várias formas divergentes (ao ponte de levantar
suspeitas de ter havido origens heterogéneas) e que dá sinais de baixos
padrões de fidelidade de cópia na sua própria transmissão. Os escribas gregos
não aderiram às mesmas regras estritas de exatidão literal e meticulosa que
foram adotadas pêlos escribas judeus do período dos Soferim.
Um exemplo significante dos perigos de se reconstruir um original
hebraico na base da tradução da LXX veio a lume com a descoberta de urna porção
considerável do original hebraico de Eclesiástico (ou a Sabedoria de Jesus
ben Sira), livro apócrifo. Antes desta descoberta (em 1897) os criticas
textuais tinham conjeturado várias emendas do texto grego para harmonizá-lo com
o que se supunha ser o original hebraico. Mas quando esta porção do original
hebraico que foi descoberta foi publicada (por Cowley e Neubauer), revelou-se
que o tradutor tinha tomado poucos cuidados com seu original, e, para produzir
um ponto de vista mais helenístico, se permitiu consideráveis liberdades
(apesar de o original hebraico ter sido composto por seu próprio avó). Kenyon,
(BAM 95) observa.: ‘A moral que se deve tirar desta descoberta é consequentemente
que deve-se adotar cautela ao pressupor que variações (mesmo que sejam
consideráveis) na LXX indiquem necessariamente que a tradução foi feita dum
texto Massorético hebraico diferente. Sem dúvida, isto pode ser o caso, mas
precisamos nos dispor a deixar ampla margem pelas liberdades de paráfrase e de
erro mesmo, especialmente no caso de livros que provavelmente foram os últimos
a serem traduzidos”.
2. As Versões Gregas posteriores
a. A Versão de Aquila Aquila,
nativo do Ponto, veio a ser um prosélito ao judaísmo, segundo se informa, e um
aluno do Rabino Aqibá. Sua obra foi publicada cerca de 130 d.C., aparentemente,
e seu carater estritamente literal foi demonstrado. Procurou aderir a um único
padrão grego equivalente para cada palavra hebraica, sem levar em consideração
se isto fazia bom sentido no grego em cada contexto. (Por exemplo, a partícula
do acusativo, ‘eth foi traduzida por ela pela preposição grega syn “com”). A
tradução de Áquila só sobreviveu em citações e fragmentos, especialmente de
Reis e Salmos 90-103.
b) A Versão de Simaco (ta1vez 170 d.C.) traduziu o Antigo Testamento para
grego bom e idiomático, sem porém deixar de aderir a altos padrões de exatidão.
Simaco era um ebionita, segundo Jerônimo, mas Epifânio relata que era um
Samaritano convertido ao judaísmo. Infelizmente, sobreviveram poucos fragmentos;
são coleccionados na edição de Field.
c) . A Versão de’Teod6cio’(cerca
de 180 ou 190 d.C.) não era realmente uma tradução totalmente nova, mas a
revisão duma versão grega anterior seja da LXX ou de alguma outra — ponto
ainda disputado. O fato consta que há leituras do tipo “Teodócio” em
manuscritos anteriores ao tempo de Teodócio, (e.g., nalgumas citações no Novo
Testamento e do Antigo Testamento, na Epístola de Barnabé, as Epistolas de
Clemente, Hermas, etc.). Kenyon e Kahle inclinasse ao ponto de vista de que o
que Teodócio revisou era um texto que não era da LXX. No caso de Daniel,
a tradução de Teodócio tomou o lugar da versão LXX original daquele livro, pelo
motivo muito justo que Teodócio seguiu fielmente a forma do texto hebraico
corrente nos primeiros séculos da era cristã. (A versão original LXX de Daniel
só tem sido conservada num único minúsculo, manuscrito 88, e nos Papiros
Chester Beatty, recentemente descobertos. n.0s IX e X.
OS TARGUNS ARAMAICOS
Durante o Exílio Babilónico o povo judeu começou a abandonar mais e mais
o hebraico dos seus ancestrais, optando pela língua Aramaico, que se tornara a
língua intencional para diplomacia e o comércio, e o veículo principal de
comunicações entre o governo persa e seus súditos depois de ter sido
estabelecido o Império Persa. Enquanto as congregações judaicas ficavam sendo
mais inseguras do seu hebraico (apesar de que a classe culta da Palestina nunca
deixou de estudar e de falar o hebraico até o segundo século depois de
Cristo), surgiu a necessidade de haver um intérprete para repetir perante elas
em Aramaico a mensagem que tinha sido lida no culto da sinagoga, da Bíblia
hebraica. Mas este intérprete (Aramaico methurgemãn) não se restringia sempre a
uma mera tradução, mas frequentemente, especialmente no caso dos Profetas,
explicava a mensagem por meio duma paráfrase para demonstrar qual o modo certo
de se entender a leitura do original. Depois de séculos de tradição oral,
especialmente depois do banimento dos judeus da Palestina em 138 d.C., achou-se
aconselhável registrar esta paráfrase aramaica por escrito como Targum
(‘interpretação”).
Havia urna tradição que o Targum oral começou na época de Esdras (Ne
8:7,3), mas não há evidência de ter existido um Targum escrito antes de 200
d.C. mais ou menos. O valor dos Targuns para a critica textual é limitado pelo
fato de que seu original hebraico era quase idêntico ao nosso texto aceito
(i.e., a Segunda Edição Bomberg). Só ocasionalmente revelam quaisquer
divergências que se explicam somente na base de alguma palavra diferente no
original hebraico. Sendo esse o caso, seu valor é maior para a interpretação do
que para a crítica textual como tal.
1. O Targum de Onquelos da Torá
(do terceiro século d.C., possivelmente como uma recensão duma paráfrase
anterior) produzido pêlos círculos judaicos estudiosos da Babilónia. (Escritos
palestinianos que ainda existem, de antes de 1.000 d.C., não o citam).
Tradicionalmente, se atribuía a um certo Onquelos Que segundo se supunha, era o
mesmo nativo do Ponto que compôs a tradução Aquila para o grego (em outras
palavras, Onquelos é Aquila). Mas a origem oriental e a data posterior da
composição deste Targum militam contra esta tradição. De qualquer maneira,
Onquelos, seja quem tenha sido, adere estreitamente ao original hebraico em
quase todas as passagens menos os capítulos poéticos do Pentateuco.
2. O Targum de Jonatã ben Uzziel
dos Profetas (i.é., Josué até Reis, e Isaías até Malaquias) foi composto no
quarto século d.C., também em círculos babilónicos. É muito mais perifrástico e
livre na sua interpretação do texto hebraico do que Onquelos.
Merece
confiança o Antigo Testamento, Manuscritos Hebraicos e Versões Antigas